Tudo Foi Manchado Por Um Vermelho
3 2. Um sorriso de insanidade
Notas iniciais
Quando finalmente me acostumei, consegui observar claramente a loucura que aquele local se encontrava. Havia gente pra todos os lados da rua, era realmente muito estranho.
Todos eles pareciam tão perdidos quanto eu, provavelmente até mais. Assim que comecei a andar pela rua estreita, as pessoas me encararam de imediato. Então notei que minha roupa estava manchada de sangue. Deve ter sido na hora em que atirei certeiramente na cabeça daquele sujeito.
Esse pensamento me fez ficar enjoada. Havia resquícios do sangue daquele homem nas minhas roupas e isso fez minha mente girar. Naquele momento eu só queria correr pra minha casa, ver minha família, mas eu não podia mais fazer isso.
Quando andei mais um pouco, encontrei um beco escuro onde havia mais duas ou três pessoas deitadas. Sentei na beirada do lugar, que era muito sujo e cheirava mal, mas eu não estava me importando muito pra aquilo naquele momento. Eu só queria algum lugar para sentar e pensar um pouco.
Não... Pensar era doloroso. Foi apenas naquela hora que eu percebi que eu havia perdido absolutamente tudo. Eu não tinha mais um lugar pra voltar. Um nó se formou em minha garganta e se desfez em lágrimas. Coloquei minha cabeça sobre meus joelhos e fiquei por algum tempo daquele jeito.
– Ei, você quer ir para um lugar melhor? – uma garota me perguntou. Suas roupas estavam totalmente desgastadas, rasgadas e sujas. Mesmo daquele jeito, ela tinha um rosto incrivelmente bonito.
Não sabia direito o que responder, apenas levantei um pouco minha cabeça. Pude observar melhor a menina. Ela tinha cabelos castanhos com alguns fios brancos e seus olhos eram um castanho um pouco alaranjado. Seu olhar era um pouco maníaco e mantinha um sorriso estranho em sua face.
– Eu posso te levar para o mundo onde eu vivo. Lá é tão maravilhoso. O que acha? É um lugar lindo. Parece que você não teve um dia muito bom. – ela encarou a mancha de sangue no meu vestido. – Então me deixe melhorar as coisas pra você.
– Do que está falando? – finalmente a respondi.
– As coisas deram errado pra mim, e eu fui pra um lugar melhor. Esse mundo é tão cruel e injusto, então criei o meu próprio. Eu posso te levar pra lá também.
– Isso parece idiotice. – voltei a encostar minha cabeça no meu joelho.
– Não é idiotice. – ela deu uma risada insana que pareceu corroer minha mente. – Quer que eu conte uma história? Isso pode melhorar seu ânimo. Era uma vez... – ela começou sem eu mesmo responder. – Uma garotinha rica, que tinha tudo que ela queria, menos o que ela achava importante. E um dia essa menina resolveu se matar, mas ela não teve coragem, então ela resolveu matar sua alma e veio para um lugar tão ridículo como esse.
– Esse não é o tipo de história que me alegra. E eu também nunca estivesse curiosa para saber a sua história.
– Mas o final é feliz, a menina conseguiu matar a sua alma. – ela sorriu, aquele sorriso me lembrou ao sorriso do gato de Cheshire, do livro “O país das maravilhas”.
Meus pais gostavam bastante dessa história, e foi exatamente por isso que me deram o nome de Alice, mas parece que eu estou bem longe do país das maravilhas nesse momento... Embora criaturas bizarras estejam a espreita da mesma maneira.
– Como é seu nome? – Mesmo que a conversa não tenha começado de uma maneira normal, tentei prossegui-la de uma forma natural, embora nada daquilo parecesse natural.
– Eu não tenho um. Quando fui embora, deixei tudo. Quer saber? Foi bom. Tirei o peso de tudo, embora tenha me entregado a insanidade e provavelmente irei morrer em uns quatro dias.
– Posso te chamar de Cheshire então? – perguntei. Se fosse uma ocasião normal, essa seria uma pergunta estranha.
– Cheshire? Não parece nome de garota.
– Se você vai morrer daqui a quatro dias, isso não faz diferença, faz?
– Acho que não. Mas e você, por que está aqui hein?
– Eu sei lá. Eu... Eu só queria fugir e fingir que nada aconteceu. Mas eu não acho que está dando certo.
– Você deveria se afundar no mundo de insanidade também. Ele é lindo. Um mundo maravilhoso.
– Isso também é só fugir.
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