Tudo Começou em Letras
34 Capítulo 34 — O Recital
O tempo foi passando sem grandes rupturas, como se, depois de tudo, a vida tivesse finalmente encontrado um ritmo mais estável.
Adam dividia seus dias entre a universidade e o sebo, sempre com aquele ar tranquilo, e as noites muitas vezes terminavam no dormitório de Vincent, entre conversas baixas e silêncios confortáveis.
O relacionamento de Min-su e Tyler virou algo sólido e natural. Continuavam sendo exatamente quem eram, sem forçar, e isso não bagunçou o grupo em nada. Pelo contrário… parecia até ter deixado tudo mais leve.
Finn, por sua vez, estava mergulhado em seu novo estágio numa editora que ele não se cansava de mencionar com um certo orgulho disfarçado, enquanto Isabelle seguia orbitando todos eles, garantindo que ninguém se perdesse muito de si mesmo.
Estava tudo… normal.
Até deixar de estar.
Naquela tarde, Adam estava sentado na cama, completamente imerso em um livro, quando a porta do dormitório se abriu com mais força do que o normal. O som fez ele levantar o olhar imediatamente.
Finn entrou, e bastou um segundo para Adam perceber os olhos vermelhos, o rosto tenso, a respiração meio irregular, como se estivesse segurando alguma coisa grande demais pra caber ali.
Adam fechou o livro na hora.
— Ei… — ele disse, já se levantando. — O que aconteceu?
Finn largou a mochila no chão sem cuidado nenhum, passando a mão pelo rosto como se tentasse se recompor, mas não funcionou.
— Eu… — a voz falhou. — Eu descobri uma coisa.
Adam se aproximou devagar, sem pressionar.
— Que coisa?
Finn ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o chão, como se falar aquilo tornasse tudo mais real.
— O Ian.
Adam franziu levemente a testa.
— O que tem ele?
Finn soltou o ar de uma vez, como se não aguentasse mais segurar.
— Ele tava me traindo.
O silêncio caiu pesado no quarto. Finn deu uma risada amarga, continuando:
— Com um colega de trabalho. — Ele passou a mão pelos cabelos, nervoso. — Eu vi mensagens, conversas… não teve nem muito o que interpretar.
Adam sentiu o peito apertar.
— E o que você fez?
— Terminei. — Finn respondeu rápido, mas a voz quebrou no final. — Na hora.
Ele respirou fundo, mas os olhos já estavam enchendo de novo.
— Ele veio com aquele papo… pediu desculpa, disse que foi um erro, que não significou nada…
Adam deu um passo à frente e o puxou para um abraço sem hesitar. Finn não resistiu. Enterrou o rosto no ombro dele, soltando o ar tremido.
— Eu não consigo entender — ele murmurou. — Tipo… por quê?
Adam apertou um pouco mais.
— Porque ele foi um idiota — respondeu baixo, firme. — Não tem explicação boa pra isso.
Finn ficou em silêncio por alguns segundos, só respirando. Adam continuou, mais calmo:
— E você fez o certo.
Finn se afastou um pouco, ainda com os olhos marejados.
— Fiz?
— Fez. — Adam assentiu. — Porque depois disso… a confiança não volta fácil. E viver com essa insegurança na cabeça deve ser um inferno.
Finn engoliu seco, concordando sem dizer em voz alta.
Eles ficaram ali por um tempo, o clima ainda pesado, mas mais sustentado agora.
Foi quando a porta se abriu de novo.
— E aí pessoal. Eu trouxe bolo — Tyler anunciou, entrando sem cerimônia, segurando uma caixa de padaria como se fosse uma grande conquista.
Ele parou no meio do quarto ao perceber o clima.
Olhou para Finn e depois para Adam e o sorriso sumiu na hora.
— …o que aconteceu?
Finn desviou o olhar, limpando rapidamente o rosto com a manga.
— Nada.
Adam lançou um olhar rápido pra Tyler, daqueles que dizem tudo sem precisar falar. Tyler fechou a porta atrás de si, largando o bolo na mesa e se aproximando mais devagar.
— Finn.
Só o jeito que ele falou já desmontava qualquer tentativa de disfarce. Finn ficou em silêncio por alguns segundos, como se decidir se falava ou não fosse mais difícil do que tudo o resto. Mas então respirou fundo e soltou:
— O Ian me traiu.
Direto.
Sem rodeio.
Tyler ficou parado por meio segundo… e então a reação veio rápida.
— Ah, não. — Ele passou a mão no cabelo, já irritado. — Eu sabia.
Finn olhou pra ele, meio surpreso.
— Sabia?
— Não literalmente, mas… — Tyler deu de ombros, irritado — eu nunca fui muito com a cara dele.
Adam soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Você não vai muito com a cara de ninguém.
— Não é verdade — Tyler rebateu na hora. — Eu gosto do Finn.
Aquilo fez Finn soltar um riso fraco, mesmo com os olhos ainda vermelhos.
Tyler voltou a encarar ele, mais sério agora.
— Mas olha… quem saiu perdendo aqui foi ele, não você.
Finn respirou fundo.
— Eu sei… mas ainda assim dói…
— Claro que dói — Tyler cortou, mais calmo. — Mas isso não muda o fato de que você merece alguém que não faça esse tipo de merda.
Finn assentiu devagar.
Então Tyler abriu os braços, meio sem jeito.
— Vem cá.
Finn revirou os olhos, mas foi. O abraço veio apertado, verdadeiro.
— Obrigado — Finn murmurou.
— Sempre — Tyler respondeu. Ele se afastou e apontou pra mesa. — E eu trouxe bolo, então… pelo menos você pode sofrer com dignidade.
Adam riu de verdade dessa vez.
— Isso foi estranhamente reconfortante.
Finn soltou um suspiro, mais leve.
— Eu definitivamente vou afogar minhas mágoas no açúcar.
— É pra isso que ele existe — Tyler disse, abrindo a caixa.
Adam pegou a faca, já cortando os pedaços.
— Terapia alternativa.
— Funciona melhor que muita coisa — Tyler completou.
Eles se sentaram ali, dividindo o bolo, ainda com um peso no ar… mas agora sustentado por algo mais forte.
Presença.
***
Dois anos se passaram quase sem que eles percebessem.
A vida foi acontecendo no meio das aulas, trabalhos, noites longas e manhãs preguiçosas. Adam continuava no sebo, agora mais seguro de si, mais presente, enquanto escrevia, em silêncio, um livro que ninguém sabia sobre o que era, nem mesmo Vincent. Era algo que ele guardava quase como um segredo precioso, esperando o momento certo.
O grupo, por outro lado, nunca esteve tão firme. Tyler e Min-su seguiam juntos, leves e estáveis, Isabelle continuava sendo o ponto de equilíbrio entre todos, e Finn… Finn tinha amadurecido de um jeito mais silencioso depois de tudo que passou, mas ainda era ele: sarcástico, presente e leal.
E Vincent.
Vincent estava no seu último ano na Trinity.
O recital final não era só uma apresentação, era A apresentação. Meses de preparo, de repetição, de frustração, de pequenos avanços. Adam tinha acompanhado de perto. Já tinha ouvido os mesmos trechos incontáveis vezes, sentado na cama, no chão, encostado na parede, assistindo Vincent repetir movimentos até o braço doer, até o som finalmente sair do jeito que ele queria.
E mesmo assim… parecia que nada era suficiente.
Nos corredores da universidade, o assunto era um só. Alunos de música comentando entre si, comparando programas, ensaios, nervosismo. Pessoas de outros cursos também comentavam, curiosas, falando sobre quem ia se apresentar, sobre quem já tinha se destacado.
Adam ouvia tudo e sentia o coração apertar cada vez mais.
Ele queria falar sobre aquilo com os amigos, dividir a ansiedade em relação ao recital, mas alguma coisa travava. Talvez o histórico com a turma de música, as pequenas tensões do passado… ou talvez fosse só o medo de expor o quanto aquilo importava pra ele.
Porque importava muito.
Na noite anterior ao recital de Vincent, Adam estava no dormitório, sentado na cama, cercado por roupas espalhadas.
— Isso tá bom? — ele perguntou, segurando uma camisa contra o próprio corpo. — Tipo… eu quero estar apresentável.
Finn, que estava encostado na própria cama mexendo no celular, levantou os olhos.
— Adam.
— Hm?
— Você tá surtando.
Adam soltou o ar, jogando a camisa na cama.
— Eu sei.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu só… — hesitou — eu sei o quanto ele trabalhou nisso. Tipo… eu vi. Todos os dias. E agora tá chegando e eu sinto que eu tô mais nervoso do que ele.
Finn observou ele por alguns segundos.
— Provavelmente você tá mesmo.
Adam deu um riso fraco.
— Ótimo.
O silêncio caiu por um momento. Adam voltou a olhar para as roupas, claramente sem conseguir decidir nada.
— E se eu chegar lá e ele… sei lá… travar? Ou errar? Ou—
— Adam.
Ele parou.
Finn suspirou, se levantando da cama.
— Ele não vai travar.
— Você não sabe disso.
— Eu sei que ele não deve ser idiota — Finn respondeu, simples. — E sei que ele treinou pra caralho, você já me falou várias vezes.
Adam ficou em silêncio, absorvendo.
— E outra coisa — Finn continuou, cruzando os braços. — você não pode ir lá já esperando o pior.
Adam mordeu o lábio, olhando pro chão.
— Eu não queria ir sozinho.
A frase saiu mais baixa do que ele pretendia.
Finn arqueou uma sobrancelha.
— Quem disse que você vai?
Adam levantou o olhar.
— Ué… eu achei que—
— Eu vou com você.
Simples assim.
Adam piscou, surpreso.
— Sério?
Finn deu de ombros, como se não fosse nada demais.
— Alguém precisa garantir que você não surte no meio da plateia.
Adam soltou uma risada, aliviado.
— Eu não ia surtar.
— Ia sim.
— Eu não ia.
— Adam, você tá quase surtando agora por causa de uma camisa.
Adam riu de novo, mais leve dessa vez.
— Tá… talvez.
Finn deu um pequeno sorriso.
— Relaxa. A gente vai, assiste e você finge que é uma pessoa normal…
Adam ficou olhando pra ele por um segundo, genuinamente grato.
— Obrigado.
Finn fez um gesto com a mão, descartando.
— Para com isso.
Mas mesmo assim, havia um traço de cuidado ali.
Adam respirou fundo, olhando de novo para as roupas, mas agora parecia um pouco menos desesperador.
***
No dia do recital, Adam acordou antes mesmo do despertador.
Nem precisou de café, o nervosismo já fazia o trabalho. Finn percebeu isso assim que abriu os olhos e viu Adam andando de um lado para o outro no quarto.
De tarde, Adam já estava vestido muito antes do horário.
— A gente ainda tem tempo — Finn murmurou.
— Eu sei — Adam respondeu rápido demais. — Eu só… prefiro chegar cedo.
Finn soltou um suspiro, mas acabou se arrumando.
Eles saíram antes do horário, o céu ainda com aquela luz pálida de fim de tarde que começava a escurecer. No caminho, Adam mandou uma mensagem.
Adam: Você vai arrasar hoje, sério. Eu confio muito em você
Ele ficou olhando a tela por alguns segundos, como se aquilo não fosse suficiente… mas enviou assim mesmo.
A resposta veio pouco depois.
Phantom: Obrigado, mon chéri
Adam não conseguiu evitar o sorriso.
Quando chegaram ao auditório, ainda estava relativamente vazio. Algumas pessoas espalhadas, outras chegando aos poucos, conversas baixas, programas sendo distribuídos. O espaço tinha aquele ar solene de ocasião importante: palco iluminado, cadeiras alinhadas, expectativa no ar.
Adam se sentou ao lado de Finn, ajeitando a roupa pela milésima vez.
A perna já balançava.
— Você vai abrir um buraco no chão — Finn comentou, olhando de lado.
— Eu não consigo evitar.
Finn apenas deu um leve empurrão no joelho dele.
Adam respirou fundo e tentou focar em outra coisa. Foi quando avistou alguém algumas fileiras à frente.
Victor.
Ele estava sentado ereto, postura séria, olhando o programa em mãos. Como se sentisse o olhar, levantou os olhos e encontrou Adam. Por um segundo, ficaram assim… até Victor fazer um pequeno aceno com a cabeça.
Adam retribuiu, um pouco sem jeito.
Logo depois, seu olhar percorreu o resto do auditório e encontrou Laurent, Marcel e Miles sentados juntos em outro canto, conversando baixo. Aquilo, de alguma forma, deixou tudo ainda mais real.
Cada recital era individual. Cada noite tinha alguns alunos sendo avaliados pela banca, um por vez, com seus próprios programas, suas próprias histórias ali no palco.
E naquela noite… era a vez de Vincent.
As luzes diminuíram um pouco, e o murmúrio do auditório foi se dissolvendo até virar silêncio.
A primeira apresentação começou.
Uma garota subiu ao palco com o violino nas mãos, postura impecável. O programa era clássico, técnico, preciso. O som preencheu o auditório com clareza, e Adam tentou prestar atenção, tentou se deixar levar… mas era difícil.
A perna continuava balançando.
— Adam — Finn murmurou, sem olhar pra ele. — Respira.
Adam assentiu, mesmo sabendo que não estava realmente conseguindo.
A apresentação terminou sob aplausos consistentes. A garota fez uma reverência, visivelmente aliviada. A banca anotava algo, impassível.
Adam engoliu seco.
E então veio o intervalo breve entre um aluno e outro.
O nome de Vincent finalmente foi anunciado.
O coração de Adam disparou de um jeito quase físico.
— Finn… — ele murmurou, sem nem saber o que queria dizer.
— Eu sei — Finn respondeu baixo.
E então Vincent entrou.
Adam sentiu como se o ar tivesse mudado.
Ele estava… impecável.
Roupa escura, alinhada, o violino nas mãos como se fosse uma extensão natural do corpo. O rosto sério, concentrado, mas sem tensão, com uma calma que Adam conhecia bem, aquela que vinha depois de muito preparo.
Mas ainda assim…
Ele estava lindo de um jeito que fez o peito de Adam apertar.
Por um segundo, Vincent olhou para a plateia e encontrou ele. Não sorriu, mas o olhar suavizou quase imperceptivelmente.
O silêncio no auditório ficou absoluto.
Vincent se posicionou no centro do palco, ajustando o violino com calma. O pianista já estava pronto ao lado, mãos pairando sobre as teclas. Mas antes de qualquer nota soar, Vincent respirou fundo… e deu um pequeno passo à frente.
— Antes de começar… — a voz dele ecoou pelo auditório, firme, mas carregando algo mais pessoal — eu queria dizer algumas coisas.
Adam sentiu o corpo inteiro ficar em alerta.
Vincent olhou rapidamente para a plateia, como se buscasse coragem, e continuou:
— Esse momento… não é só meu. Nunca foi.
Ele fez uma pausa breve.
— Eu tive professores incríveis ao longo do caminho… pessoas que acreditaram em mim quando eu mesmo não tinha certeza se conseguia. — Um leve aceno de cabeça, respeitoso. — E amigos… que me acompanharam, que ouviram as mesmas partes dezenas de vezes sem reclamar. Ou… reclamando, mas ficando mesmo assim.
Um pequeno riso discreto se espalhou pelo auditório.
Vincent respirou fundo novamente.
— Eu também queria dedicar essa apresentação aos meus pais, Philippe e Margot… — a voz suavizou — que não tiveram o privilégio de estar aqui hoje, mas… eu sei que estariam orgulhosos. Onde quer que estejam.
O silêncio ficou mais denso.
Victor, na plateia, abaixou levemente o olhar.
— Ao meu irmão, Victor… — Vincent continuou — porque, se não fosse por ele, eu não estaria aqui hoje. Literalmente.
Dessa vez, Victor não desviou. Apenas assentiu, discreto, mas visivelmente tocado.
E então Vincent hesitou por um segundo.
Foi sutil.
Mas Adam percebeu.
— E… — ele continuou, a voz agora mais baixa, mais íntima — a alguém que entrou na minha vida há algum tempo… e mudou muita coisa... eu amo você.
Adam sentiu o coração acelerar. O mundo pareceu parar por um segundo.
— E essa pessoa se chama… Adam.
Um sorriso apareceu no rosto de Vincent. Pequeno, mas real.
Adam nem percebeu quando começou a chorar.
As lágrimas vieram rápidas, silenciosas, enquanto ele levava a mão ao rosto, completamente desarmado. Ao lado, Finn soltou um sorriso de canto, olhando de relance para ele.
— Ele mandou bem — murmurou, baixo.
Adam só conseguiu assentir, ainda sem conseguir falar.
Vincent voltou à posição e então começou.
A primeira peça veio densa, intensa, a Sonata para Violino e Piano nº 3 em Ré Menor, de Johannes Brahms. O som preencheu o auditório com uma força quase palpável, cada movimento carregado de tensão e controle. Era técnico, mas não só isso, havia emoção em cada arco, em cada pausa.
Adam mal piscava.
Depois veio a mudança.
A leveza melancólica da Méditation, de Jules Massenet, fluiu pelo espaço com uma delicadeza quase dolorosa. O som parecia respirar, crescer e diminuir como se tivesse vida própria. Adam sentiu o peito apertar de novo, as lágrimas voltando sem que ele tentasse impedir.
Finn, ao lado, estava quieto agora.
Atento.
E então, o brilho.
A Introduction and Rondo Capriccioso, de Camille Saint-Saëns trouxe velocidade, precisão e energia. Os dedos de Vincent se moviam com uma segurança impressionante, o arco deslizando rápido, quase desafiando o instrumento.
— Ok… — Finn murmurou, impressionado, sem tirar os olhos do palco. — Ele é realmente muito bom.
Adam soltou uma risada baixa, ainda emocionado.
E, por fim, o encerramento.
Uma peça mais viva, com ritmo quase dançante, algo inspirado em Dvořák, leve, mas cheio de personalidade. Era como se Vincent estivesse contando uma história até o último acorde, conduzindo todos ali junto com ele.
Quando a última nota ecoou e desapareceu no silêncio do auditório…
Por um segundo, ninguém se mexeu.
E então os aplausos vieram.
Fortes.
Longos.
De pé, em alguns lugares.
Adam levantou junto, batendo palmas sem conseguir parar, o rosto ainda molhado, o coração completamente cheio.
No palco, Vincent fez uma reverência.
Mas, antes de sair… ele olhou mais uma vez para a plateia.
Direto para Adam.
***
O hall do auditório estava cheio, um burburinho constante de vozes animadas, comentários sobre as apresentações, professores conversando entre si, alunos ainda com a adrenalina pulsando no corpo. Mas, para Adam, tudo parecia meio abafado, distante, como se o som estivesse vindo debaixo d’água.
Ele só conseguia procurar por uma pessoa.
Vincent.
E quando o viu, ainda com o violino na mão, conversando rapidamente com alguém da banca, Adam não pensou duas vezes. Foi quase automático. Ele atravessou o espaço entre eles, desviando de gente, sem nem perceber direito quem estava ao redor.
— Vincent—
Vincent virou o rosto no exato momento em que Adam chegou até ele.
E então Adam o abraçou com força, sem se importar com quem estava olhando, com o ambiente formal, com absolutamente nada.
— Eu também te amo — ele disse, a voz embargada contra o ombro dele.
Vincent ficou imóvel por um segundo, como se aquilo tivesse atravessado todas as camadas dele de uma vez só. Então fechou os olhos e retribuiu o abraço, apertando Adam de volta.
— Você foi maravilhoso — Adam continuou, ainda meio sem fôlego. — Sério… eu não tenho nem palavras.
Vincent soltou uma risada baixa, emocionada, ainda segurando ele.
— Eu tava tremendo antes de entrar.
— Não parecia.
— Ainda bem.
Eles se afastaram só o suficiente para se olharem. O brilho nos olhos de Vincent não era só pelo recital. Era por tudo.
Finn se aproximou logo depois, com um sorriso largo.
— Ok, eu preciso admitir — ele disse, cruzando os braços. — Isso foi absurdo.
Vincent sorriu.
— Obrigado.
Victor apareceu logo em seguida. Ele não disse muita coisa, nunca dizia, mas colocou a mão no ombro de Vincent e assentiu.
Um gesto simples, mas carregado de tudo.
— Merci — ele disse baixo.
Mais atrás, Laurent, Marcel e Miles também se aproximaram, cumprimentando, fazendo comentários, alguns mais brincalhões, outros sinceros. Vincent estava feliz.
***
Alguns dias depois, o resultado oficial saiu.
Vincent estava no dormitório quando viu. Ficou encarando a tela por alguns segundos, como se não estivesse entendendo direito. Então levantou de uma vez, quase derrubando a cadeira.
— Adam!
Adam, que estava sentado na cama com um caderno no colo, levou um susto.
— O quê? O que foi?
Vincent atravessou o quarto em dois passos, mostrando o celular pra ele.
— First Class Honours.
Na Trinity, aquela era a classificação mais alta possível, a nota máxima, reservada para alunos que não só dominavam a técnica, mas demonstravam excelência consistente, maturidade artística e um nível de desempenho que realmente se destacava. Não era comum. Muito menos em um recital tão exigente quanto aquele.
E então o significado caiu.
O rosto de Adam se abriu num sorriso enorme.
— Vincent—
Ele nem terminou a frase. Só levantou e abraçou ele.
— Eu sabia — disse, rindo. — Eu sabia.
Vincent soltou o ar, ainda meio incrédulo.
— Isso… isso muda tudo.
— Eu sei.
— Eu posso tentar as grandes orquestras agora. Tipo… de verdade. Não é mais só… um sonho distante.
Adam se afastou um pouco, segurando o rosto dele com as duas mãos.
— Você sempre pôde. Mas agora… eles vão ver o que eu já sei faz tempo.
Vincent sorriu.
— E o que você sabe?
Adam inclinou a cabeça, olhando direto pra ele.
— Que você tem um talento absurdo. E que ainda vai muito longe.
Vincent soltou uma risada baixa, mas havia algo mais ali, um alívio, uma esperança concreta.
— Tipo a National Symphony Orchestra?
Adam sorriu de volta.
— Tipo isso.
Eles ficaram ali por um momento, próximos, em silêncio.
***
O dia da formatura chegou com aquele clima agridoce que parecia pairar no ar desde cedo. Gente sorrindo demais, abraçando demais, prometendo se ver sempre, como se todos soubessem, no fundo, que nada continuaria exatamente igual.
Adam estava no meio da plateia, de pé entre tantas outras pessoas, mas completamente focado em uma só.
Vincent.
Quando chamaram o nome dele, Adam sentiu o peito apertar de um jeito estranho. Assistiu Vincent subir, sério, composto, recebendo o diploma com aquela postura firme de sempre, mas Adam o conhecia o suficiente para enxergar o que tinha por trás daquilo. O caminho. O peso. Tudo.
Quando acabou, demorou um pouco até conseguirem se encontrar no meio da multidão. Mas quando finalmente ficaram frente a frente, Vincent percebeu na hora.
Os olhos de Adam estavam marejados.
Ele franziu levemente a testa, aproximando-se.
— Ei… — a voz saiu mais suave. — O que foi?
Adam soltou uma risadinha fraca, passando a mão rápido pelo rosto, como se quisesse disfarçar.
— Nada… quer dizer… — ele respirou fundo. — Eu tô muito feliz por você. Sério.
Vincent sorriu, já entendendo que não era só isso. Adam continuou, mais honesto:
— Mas… — ele deu de ombros, meio sem jeito — vai ser estranho não te ter mais aqui no campus o tempo todo. Eu tenho um ano ainda pela frente…
Aquilo ficou no ar por um segundo. Vincent soltou uma risada leve, quase carinhosa, e deu um passo mais perto.
— Ei… não fala como se eu estivesse indo pra outro país.
Adam tentou sorrir.
— Eu sei. Mas não é a mesma coisa.
— Não é — Vincent concordou, com calma. — Mas também não é um adeus.
Ele inclinou um pouco a cabeça, olhando direto para Adam.
— Eu vou continuar em Dublin. Você sabe disso.
Adam assentiu de leve.
— Eu sei…
— Eu consegui a vaga na orquestra daqui. Eu não vou desaparecer.
Adam soltou um ar pelo nariz, meio rindo de si mesmo.
— Eu sei disso tudo. Só… já tô com saudade de tudo isso.
Vincent sorriu de verdade agora. Aquele sorriso mais aberto, raro.
— Você é impossível.
Ele levou a mão até o rosto de Adam, encaixando com cuidado.
— Eu vou estar aqui. Vou te ver sempre. Vou nos seus ensaios, nas suas apresentações… até nas que você vai achar que eu não vou querer ir.
Adam soltou um riso baixo.
— Eu sou estudante de letras, Vincent. Não tem exatamente um espetáculo.
— Não importa.
Vincent deu de ombros.
— Se for importante pra você, eu vou estar lá.
O olhar dele suavizou.
— E eu vou estar na sua formatura ano que vem. Na primeira fila, provavelmente sendo insuportável de orgulhoso.
Adam riu de verdade agora, balançando a cabeça.
— Eu consigo imaginar isso.
— Então pronto.
Vincent encostou a testa na dele por um segundo.
— A gente não tá indo pra caminhos diferentes. A gente só tá… andando em ritmos diferentes por um tempo.
Adam ficou em silêncio, absorvendo aquilo.
Depois assentiu.
— Tá bom.
Mas não se afastou.
E nem Vincent.
Porque, no fundo, nenhum dos dois queria soltar aquele momento ainda.
Fale com o autor