Tudo Começou em Letras

24 Capítulo 24 — Reencontros


Adam entrou no dormitório praticamente correndo, os pés arrastando-se como se o chão estivesse tentando prendê-lo. Pegou uma camiseta limpa, calça e tênis, e trocou-se o mais rápido que pôde. Cada movimento era automático, sem pensar, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto. Ele mal conseguia respirar direito, tremendo de um jeito que fazia suas mãos tremerem junto.

Ao sair, estava quase cambaleando. O celular na mão, dedos trêmulos, ele abriu o aplicativo da Uber e começou a digitar o endereço do hospital, sem conseguir evitar soluços baixos. Cada toque na tela parecia um esforço titânico.

Foi então que sentiu um toque no ombro. Olhou para o lado e encontrou Isabelle. Seus olhos estavam arregalados, cheios de preocupação. Tyler estava logo atrás.

— Adam, eu fiquei sabendo… nós vamos com você — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Não… não dá pra deixar você ir sozinho assim.

Adam tentou responder, mas não conseguiu. Só abriu a boca como se fosse falar, mas nenhum som saiu. Ele mal podia respirar, fungando, a respiração entrecortada pelos soluços.

Isabelle apertou levemente o ombro dele, e por um instante, Adam sentiu uma fagulha de apoio, embora mínima. Ela se sentia terrivelmente mal ao vê-lo naquele estado, sabendo que as últimas semanas haviam destruído a segurança que ele tinha no grupo. Até Tyler, que geralmente mantinha a postura firme e contida, parecia vulnerável por um instante.

Eles chegaram ao carro em silêncio. Os três subiram e se acomodaram no banco de trás. Adam se encolheu, os ombros curvados, mãos entrelaçadas sobre o colo, fungando baixinho. Isabelle sentou ao lado dele, e Tyler ao outro, mas ninguém disse uma palavra. O silêncio pesado se espalhou pelo espaço apertado, quase como se cada um estivesse absorvendo a dor do outro de forma muda.

O carro partiu, e Dublin passou rapidamente pelas janelas. As luzes da rua refletiam nos olhos vermelhos de Adam. O coração dele batia acelerado, o estômago embrulhado, mas pelo menos, por um instante, ele não estava completamente sozinho.


***


O carro parou em frente ao hospital, com sua fachada fria e cinzenta. Adam desceu primeiro, cambaleando, as mãos trêmulas segurando o celular como se fosse um salva-vidas. Isabelle e Tyler desceram logo atrás, cada passo ecoando no estacionamento silencioso.

Eles entraram pelas portas automáticas, e o cheiro característico de hospital, uma mistura de desinfetante e papel, atingiu Adam como um soco. Ele caminhou direto até o balcão de recepção, a respiração descompassada.

— Por favor… — começou, a voz falhando. — Eu… eu preciso ver Vincent Rivière.

A recepcionista levantou os olhos, atenta ao desespero evidente no rosto de Adam.

— O senhor é familiar? — perguntou, a voz cuidadosa, quase suave.

Adam balançou a cabeça, tentando falar, mas só conseguiu um sussurro:

— Não… sou um amigo.

Seus ombros tremiam, a testa suada, e o olhar desesperado percorria cada corredor, cada porta. Isabelle deu um passo à frente, colocando a mão nas costas dele. Tyler, percebendo o estado crítico do amigo, falou com firmeza:

— Moça, você poderia trazer um chá pra ele? Qualquer coisa pra acalmar um pouco, por favor.

A recepcionista assentiu rapidamente e se afastou. Adam sentou-se no banco de espera, as mãos trêmulas, os olhos fixos no chão, o peito subindo e descendo de maneira irregular. O choro silencioso ainda vinha de vez em quando, e ele fungava baixinho.

Quando a recepcionista voltou com uma xícara fumegante de chá, Tyler entregou a Adam, que aceitou sem conseguir murmurar um “obrigado”. Ele começou a tomar o líquido quente, trêmulo, como se cada gole fosse arrancar um pouco da angústia que parecia esmagá-lo por dentro.

Isabelle sentou-se ao lado dele, mantendo o braço encostado levemente nas costas dele, sem pressionar, apenas oferecendo presença. Tyler permaneceu do outro lado, os punhos levemente cerrados, respirando fundo, sem saber exatamente como agir.

Adam não conseguia falar. Só segurava a xícara, os olhos marejados, o corpo ainda tenso, sentindo que cada segundo era vital, cada instante mais próximo de encontrar Vincent ou de se perder completamente na angústia que consumia seu peito.

A recepcionista voltou alguns minutos depois, folheando uma prancheta.

— Vocês podem entrar — disse, num tom calmo. — Mas ele ainda está sedado. Tentem não fazer barulho.

Adam levantou-se num impulso, quase derrubando a xícara de chá. As pernas estavam fracas, mas ele seguiu mesmo assim, atravessando o corredor como se o corpo estivesse no automático. Tyler e Isabelle foram atrás, em silêncio.

O quarto era pequeno, iluminado por uma luz branca demais. O som constante do monitor cardíaco preenchia o espaço com um bip regular, quase cruel na sua constância.

E então Adam o viu.

Vincent estava deitado na cama, imóvel. Havia faixas envolvendo parte da cabeça, um curativo no braço, alguns roxos visíveis no rosto.

Adam parou na porta por um segundo, como se o corpo tivesse esquecido como avançar.

O peito apertou violentamente. Ele se aproximou mais.

— Meu Deus… — as palavras escaparam num sussurro quebrado, antes que ele pudesse se conter.

Os olhos se encheram de lágrimas imediatamente. Ele se aproximou da cama, cada passo trêmulo, e quando chegou perto demais, o choro veio forte, descontrolado. Não havia mais como segurar.

— Olha o que você fez… — murmurou, a voz falhando. — Olha pra você, Vincent.

Adam levou a mão até a cama e segurou a de Vincent com cuidado, como se ele pudesse se desfazer ao toque. Os dedos estavam frios. Ele entrelaçou os seus nos dele sem pensar, sem medir, sem se importar com quem estava ali ou com o que aquilo revelava.

— Você não podia… — soluçou. — Não podia ter feito isso.

As lágrimas escorriam livres agora, caindo sobre o lençol. Adam inclinou levemente a cabeça, apoiando a testa perto da mão de Vincent, respirando de forma irregular, como se o corpo estivesse finalmente admitindo tudo o que vinha reprimindo há dias.

— Me desculpa… por favor.

Isabelle observava a cena alguns passos atrás, sentindo um nó apertar no estômago. Não era só preocupação. Era culpa. Era medo. Era a percepção tardia de que, enquanto todos se afastavam, Adam estava se despedaçando sozinho.

Ela desviou o olhar por um instante, engolindo em seco.

Tyler, por sua vez, não conseguia desviar.

Ele assistia a tudo em silêncio, o maxilar tenso, o peito pesado. Aquilo não era drama, nem exagero. Era real. Cru. Doloroso demais para ser fingimento.

E foi ali, vendo Adam chorar daquele jeito, segurando a mão de Vincent como se fosse a única âncora possível, que Tyler entendeu.

Adam não tinha apenas “se envolvido”.

Ele estava profundamente ferrado.

Tyler observava em silêncio. Pela primeira vez, a raiva que ele vinha carregando perdeu força. O que estava diante dele não era alguém que “escolheu errado” por teimosia ou egoísmo. Era alguém apaixonado, machucado até o osso.

Adam não estava apenas sofrendo consequências.

Ele estava devastado.

Tyler respirou fundo, sentindo o peso daquela constatação se acomodar no peito. Ele nunca tinha visto Adam assim. Nunca tinha imaginado que fosse tão sério. Tão real.

Naquele quarto silencioso, interrompido apenas pelo bip constante das máquinas, Adam continuava ali, exposto, vulnerável, sem se importar com mais nada, exceto com o homem desacordado à sua frente.


***


A porta se abriu com um rangido suave, quebrando o silêncio pesado do quarto. A enfermeira entrou com passos contidos, o olhar atento primeiro para os monitores, depois para Vincent, e por fim para os três.

— Eu sinto muito — disse, em voz baixa, profissional, porém gentil. — O horário de visita acabou. Vocês vão precisar sair agora.

Adam ergueu a cabeça devagar. Os olhos estavam vermelhos, inchados, perdidos. Por um segundo, pareceu que ele ia protestar, dizer qualquer coisa, mas não disse. Apenas soltou a mão de Vincent com relutância.

— Fica bem… — murmurou, quase inaudível, antes de dar um passo para trás.

Ele passou por Isabelle e Tyler sem olhar para nenhum dos dois, os ombros caídos, o corpo inteiro parecendo pesado demais.

Do lado de fora, o corredor do hospital estava frio, impessoal. O silêncio entre eles era desconfortável. Caminharam até a saída sem trocar uma palavra.

Já do lado de fora, Tyler respirou fundo, como se finalmente tivesse criado coragem.

— Adam…

Ele virou o rosto de leve, mas não parou de andar.

— Eu já sei — disse Adam, a voz baixa, cansada, sem raiva alguma. — Eu sei o que eu fiz. Eu sei que errei. — Fez uma pausa curta. — E agora eu não tenho mais energia pra ouvir nada. De verdade.

Tyler parou. As palavras morreram na boca antes mesmo de nascerem. Isabelle mordeu o lábio, sem saber o que dizer.

Eles seguiram mais alguns passos em silêncio, pegaram o uber de volta ao campus. Seguiram o trajeto em silêncio.

Quando chegaram e saíram do carro, Tyler finalmente falou, a voz mais baixa do que Adam já tinha ouvido.

— Me desculpa, Adam.

Adam parou por um instante. Não virou o rosto. Apenas assentiu uma vez, um gesto pequeno, quase automático, e então seguiu sozinho.

O caminho de volta ao dormitório pareceu interminável. Quando finalmente chegou, empurrou a porta do quarto vazio e deixou a mochila cair no chão. Sentou-se na cama e ficou ali, encarando o nada, sentindo um cansaço profundo se espalhar pelo corpo.

Naquela noite, Adam não chorou.

Ele apenas se deitou e fechou os olhos com a sensação de que tudo o que podia doer já tinha doído.


***


Os dias que se seguiram se tornaram uma sucessão silenciosa de rotinas quebradas.

Adam continuou afastado dos amigos. Evitava os olhares, mudava de caminho no campus, sentava sempre no fundo da sala. Quando Isabelle tentava um “oi” hesitante, ele respondia com um aceno rápido e desviava o rosto. Tyler tentou algumas vezes, mas não insistiu.

Tudo o que preenchia os dias de Adam tinha nome e sobrenome.

Vincent Rivière.

Sempre que podia, Adam estava no hospital. Saía das aulas mais cedo, inventava desculpas no sebo, caminhava rápido pelas ruas frias de Dublin como se o tempo fosse sempre insuficiente. O quarto de hospital passou a lhe parecer estranhamente familiar: o cheiro de antisséptico, o som constante das máquinas, a luz branca demais.

Sentava-se ao lado da cama com um livro nas mãos, às vezes o mesmo que Vincent tinha comentado gostar, às vezes qualquer um, só para ter algo para ler em voz alta. Lia capítulos inteiros mesmo sem resposta, a voz baixa, pausada, como se aquilo pudesse atravessar o silêncio e alcançá-lo em algum lugar entre o sono e a inconsciência.

— Acho que você ia odiar esse personagem — murmurava em certos momentos, um sorriso fraco surgindo antes de desaparecer. — Teimoso demais. Um idiota.

À noite, quando o cansaço pesava e o mundo parecia grande demais lá fora, Adam implorava para ficar.

— Eu prometo que não atrapalho — dizia às enfermeiras, os olhos fundos, honestos demais para serem ignorados. — Eu só… eu só quero ficar aqui.

Às vezes conseguia.

Dormia encolhido numa cadeira ao lado da cama, a cabeça apoiada nos próprios braços, despertando a cada bip mais alto. Outras vezes, estendia-se com cuidado na maca auxiliar, sempre perto o bastante para tocar a mão de Vincent se precisasse. Era um sono leve, inquieto, mas era ali que Adam conseguia respirar melhor.

Em alguns dias, Laurent aparecia. Entrava no quarto em silêncio, observava Adam por um segundo a mais do que o necessário, depois se aproximava da cama.

— Ele ainda não acordou? — perguntava, baixo.

Adam apenas balançava a cabeça.

Miles vinha às vezes também, trazendo o café ruim da máquina do corredor, deixando um copo ao lado de Adam sem dizer muita coisa. Marcel surgia menos, sempre desconfortável, mas presente o bastante para mostrar que Vincent não tinha sido esquecido.

Nenhum deles perguntava exatamente o que Adam era.

Amigo, amante, tudo isso parecia pequeno demais diante da forma como ele permanecia ali, dia após dia, firme apesar do cansaço, como se sair fosse impensável.

O mundo de Adam tinha encolhido.

Cabia naquele quarto, naquela cama, naquela mão que ele segurava mesmo sem resposta. E, enquanto tudo ao redor seguia em frente, aulas, amizades, silêncios, ele permanecia ali, suspenso, vivendo de esperança, culpa e uma espera que não sabia quanto tempo duraria.


***


O sino da porta do sebo tocou baixo, quase tímido, anunciando mais um cliente que Adam mal percebeu. Ele estava atrás do balcão, passando os códigos de barras dos livros como quem cumpre uma tarefa mecânica, os olhos seguindo as linhas sem realmente enxergá-las. O corpo estava ali; a mente, em outro lugar.

Laura observava de longe havia alguns minutos.

— Adam — chamou, com cuidado, apoiando os cotovelos no balcão quando ele finalmente ergueu o olhar. — Você sabe que… se precisar de qualquer coisa, é só falar, né?

Ele assentiu devagar. Já tinha contado a ela o que tinha acontecido, numa dessas tardes em que o silêncio ficou pesado demais para ser sustentado. Laura não fez perguntas invasivas. Apenas ouviu. Aquilo, por si só, já tinha sido um alívio.

— Obrigado — murmurou, sincero, antes de voltar ao trabalho.

O relógio marcou o fim do expediente, e Adam começou a guardar o dinheiro do caixa, os movimentos precisos, automáticos. Foi então que a porta do sebo se abriu de novo.

Tyler entrou.

Adam sentiu o estômago apertar na hora. Por um instante, pensou em fingir que não o tinha visto, em se esconder atrás de alguma tarefa urgente. Mas Tyler já estava ali, parado a poucos passos do balcão.

— Posso… falar com você um minuto? — perguntou, a voz baixa, quase insegura.

Adam hesitou. O desconforto foi imediato, quase físico. Ainda assim, assentiu.

— Sim.

Laura, percebendo o clima, pegou a bolsa e sorriu de leve para os dois.

— Vou fechar lá fora. Vocês fiquem à vontade.

Quando ficaram sozinhos, o silêncio se espalhou entre as estantes altas.

Tyler foi o primeiro a falar, e travou no meio do caminho.

Ele olhou para Adam de verdade, talvez pela primeira vez em dias. Os ombros mais estreitos, o rosto fundo, as olheiras marcadas. Adam parecia menor, como se tivesse encolhido dentro de si mesmo.

Os olhos de Tyler marejaram.

— Cara… — a voz falhou. Ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto. — Você tá… bem mais magro.

Adam desviou o olhar, desconfortável.

— Eu tô bem.

A mentira soou fraca até para ele.

Tyler balançou a cabeça devagar. Os olhos brilhavam agora, e ele não tentou esconder quando uma lágrima escapou.

— Não, você não tá — disse, a voz baixa, quebrada. — E isso… isso é culpa minha também.

Adam o encarou, surpreso.

— Tyler—

— Não — ele interrompeu, levantando uma mão, como se pedisse espaço. — Me deixa falar. Por favor.

Adam assentiu, em silêncio.

Tyler respirou fundo mais uma vez.

— Eu sinto muito. Pelo que eu fiz. Pelo jeito que eu te tratei. — A voz embargou. — Mesmo que você tenha errado, mesmo que tenha escondido coisas… você não merecia aquilo. Não merecia ser tratado daquele jeito. Nem por mim, nem pelo Finn, nem por ninguém.

Ele limpou o rosto com a manga do casaco, claramente constrangido por estar chorando ali, mas incapaz de parar.

— Eu fui cruel. Arrogante. Achei que tava sendo justo, quando na verdade só tava sendo um péssimo amigo. — Um riso curto, sem humor. — Talvez uma péssima pessoa também.

Adam sentiu algo apertar no peito, diferente da dor constante dos últimos dias. Algo quente. Inesperado.

— Eu devia ter te protegido — Tyler continuou, agora olhando direto para ele. — Ou pelo menos tentado entender. Em vez disso, eu te deixei sozinho pra lidar com tudo isso.

O silêncio caiu de novo, mas dessa vez não era hostil. Era frágil.

Adam respirava devagar, como se qualquer inspiração mais funda pudesse quebrá-lo.

— Tyler… — tentou dizer, mas a voz saiu fraca demais.

— Quando eu vi você daquele jeito no hospital... o jeito que você tava com ele. — A voz de Tyler falhou de novo. — Aquilo me fez entender tudo que eu não quis ver antes.

O silêncio se estendeu entre eles. Adam sentia os olhos arderem, mas não chorou. Estava cansado demais.

Tyler deu um passo à frente, hesitando antes de abrir os braços, claramente inseguro se Adam aceitaria.

— Eu não espero que você me perdoe agora — disse, baixo. — Ou nunca. Eu só precisava dizer que… eu sinto muito. De verdade.

Adam ficou parado por alguns segundos. Então, lentamente, aproximou-se e apoiou a testa no ombro de Tyler, num gesto silencioso, cansado, mas cheio de significado.

Tyler o abraçou com cuidado, como se Adam fosse algo frágil demais para ser apertado.

Ali, entre estantes de livros e palavras já escritas por outras pessoas, algo pequeno começou a se recompor. Não estava tudo resolvido. Longe disso.

Mas, pela primeira vez em dias, Adam não se sentiu tão sozinho.