Tudo Começou em Letras

14 Capítulo 14 — Smoothies e Agradecimentos


Alguns dias se passaram desde a visita inesperada de Vincent, e Adam tentava convencer a si mesmo de que aquele encontro não tinha significado mais do que um leve abalo na rotina recém-estabelecida. O sebo seguia vivo, barulhento à sua maneira silenciosa, e ele já se movia pelo espaço com naturalidade.

Lá fora, a chuva fina batia constante contra o vidro da vitrine, escorrendo em fios irregulares. Era uma tarde tranquila quando a campainha da porta soou novamente.

Adam reconheceu Vincent antes mesmo de registrar o impacto completo da presença dele ali. O mesmo casaco, agora levemente úmido, a mesma postura despreocupada e o mesmo efeito imediato no seu peito. Vincent fechou o guarda-chuva com um movimento rápido e o deixou encostado num canto da loja, perto da porta, antes de se aproximar do balcão.

— Ei — Vincent disse, aproximando-se. Havia um sorriso fácil em seu rosto. — Terminei o livro.

Adam sentiu o coração acelerar.

— Ah… — respondeu, surpreso. — E… gostou?

— Muito — Vincent afirmou, sem hesitar. — De verdade. Não consegui largar. — Ele fez uma pausa breve, apoiando o antebraço no balcão. — Pensei em passar aqui pra agradecer.

Adam sentiu o calor subir pelo rosto.

— Não precisava — disse rápido demais, desviando o olhar. — Mas… fico feliz que tenha gostado.

Vincent inclinou a cabeça, avaliando-o.

— É… — continuou. — Tem um lugar ali na frente que faz smoothies ótimos. Queria te pagar um, como agradecimento pela indicação.

Adam abriu a boca, já pronto para recusar.

— Não precisa mesmo, eu—

— Vai — Laura surgiu do nada, interrompendo-o sem cerimônia.

Adam virou o rosto para ela, arregalando levemente os olhos em um pedido silencioso de socorro.

— Eu dou conta aqui — ela disse, com um sorriso curto e cúmplice. — Pode ir.

— Laura… — Adam murmurou, quase implorando.

Ela apenas sorriu de novo, discreta, como quem já tinha decidido tudo por ele.

Adam voltou o olhar para Vincent, ainda ruborizado, sentindo-se sem saída. Engoliu em seco e assentiu, mais por falta de coragem de insistir do que por convicção.

— É… tá — disse, baixo. — Um smoothie.

Vincent sorriu, satisfeito, e fez um gesto em direção à porta.

— Prometo não tomar muito do seu tempo.

Enquanto seguiam para fora do sebo, Adam teve a estranha sensação de que aquele convite simples carregava mais peso do que parecia, e que, mais uma vez, ele estava aceitando algo sem saber exatamente onde aquilo poderia levá-lo.


***


Do lado de fora, a chuva ainda caía fina, deixando o ar mais frio e o chão escorregadio. Adam caminhava alguns passos à frente, os ombros tensos, enquanto Vincent o acompanhava.

— Você não pode simplesmente aparecer lá onde eu trabalho assim — Adam disse baixinho, parando de repente e virando-se para ele. A irritação escapava na voz, mesmo que baixa. — Não é… não é apropriado.

Vincent ergueu as sobrancelhas, surpreso por um instante, mas não defensivo.

— Eu… — respondeu, ponderando. — Fazia tempo que eu não te via. Nem na biblioteca. Nem em lugar nenhum.

As palavras ficaram suspensas entre eles por um segundo a mais do que deveriam.

Adam desviou o olhar, sentindo um incômodo estranho se espalhar no peito. Parte dele queria manter a distância; outra, muito mais honesta, se aquecia com o que aquelas palavras significavam.

— Eu tenho estado ocupado — murmurou.

— Eu percebi — Vincent disse, num tom leve demais para esconder completamente o que sentia.

Adam apertou os lábios, incomodado consigo mesmo. A ideia de Vincent ter sentido sua ausência, de ter pensado nele, o deixava perigosamente satisfeito.

Eles chegaram à pequena lanchonete em frente ao sebo. Vincent entrou primeiro, fez o pedido quase automático e, minutos depois, voltou com dois copos gelados nas mãos. Estendeu um deles para Adam

— Achei que te devia isso. Pelo livro.

Adam hesitou, mas acabou aceitando.

Se acomodaram num sofá encostado na parede do estabelecimento, perto dos fundos do local. Sentaram lado a lado, os joelhos quase se tocando, observando a chuva cair pela janela.

Por um instante, nenhum dos dois disse nada.

Adam levou o canudo aos lábios e deu um gole lento, mais para ocupar as mãos do que pela sede. O sabor doce contrastava com o nó silencioso em seu peito. Ao seu lado, Vincent também bebia em silêncio, o olhar perdido na chuva que escorria pelo vidro.

Foi então que Adam sentiu o toque em sua mão livre.

A mão de Vincent encontrou a sua com cuidado, os dedos se fechando devagar, como se perguntassem antes de se afirmar. O contato era quente, firme na medida exata. Adam prendeu a respiração por um instante, o corpo inteiro reagindo ao gesto simples.

Ele poderia ter puxado a mão. Mas não fez.

Ficou ali, imóvel, sentindo o polegar de Vincent pressionar de leve sua pele, como se aquele gesto silencioso dissesse mais do que qualquer palavra. O coração de Adam batia rápido demais, e ele manteve o olhar fixo à frente, com medo de que, se encarasse Vincent, tudo transbordasse.

A chuva continuava a cair do lado de fora. Por alguns segundos, o mundo parecia reduzido àquele sofá, à proximidade e às mãos entrelaçadas.

Vincent não disse nada. Apenas permaneceu ali.

E Adam, ainda em silêncio, deixou sua mão ser segurada. Ele respirou fundo, como se precisasse reunir coragem até para quebrar o silêncio. Ainda sentia a mão de Vincent envolta na sua, quente demais.

— Eu… — começou, a voz baixa. — Eu admiro isso em você.

Vincent virou o rosto devagar, o olhando com atenção.

— Isso o quê?

Adam hesitou, os olhos ainda presos à janela embaçada.

— O fato de você ler. — disse, simples.

Por um segundo, Vincent pareceu surpreso. Então um sorriso surgiu em seus lábios, torto, provocador.

— Você achava que eu não sabia ler, é isso? — perguntou, num tom leve, claramente se divertindo.

Adam virou o rosto na hora, ruborizado.

— Não foi isso que eu quis dizer e você sabe. — murmurou.

Vincent soltou uma breve risada, apertando de leve a mão dele, não como provocação, mas como um gesto de presença.

— Eu sei. — disse, mais sério agora. — É que… música sempre foi um refúgio pra mim. Um lugar onde eu consigo… me desligar do resto. Mas os livros também. Sempre gostei de me perder em histórias. É como se o mundo ficasse em pausa por um tempo.

Adam finalmente o encarou.

— Pra mim também — disse, sentindo algo se aquietar dentro do peito. — Ler é… como fugir para algum lugar diferente.

Vincent o observou por um instante mais longo, o sorriso agora mais suave, menos brincalhão.

— Talvez seja isso que fizemos. Fugir. — comentou.

A chuva continuava a cair do lado de fora, e, entre uma frase e outra, as mãos continuavam unidas.


***


Do lado de fora, a chuva havia diminuído para um chuvisco quase tímido. O ar estava frio, carregado daquele cheiro de asfalto molhado que parecia amplificar tudo. Adam soltou a mão de Vincent com relutância quando atravessaram a porta da lanchonete.

— Eu… preciso voltar — disse, ajeitando a manga do casaco. — A Laura tá sozinha no sebo.

Vincent assentiu, como se já esperasse por aquilo, mas não se afastou. Em vez disso, deu um passo a mais, desviando levemente do fluxo da calçada e puxando Adam pelo pulso com cuidado.

— Só um segundo — murmurou.

Antes que Adam pudesse protestar de novo, Vincent o conduziu até um beco estreito ao lado do prédio. Não era escuro, apenas afastado o suficiente para silenciar o mundo. O barulho distante da rua virou pano de fundo.

Adam abriu a boca para repetir que precisava ir, mas as palavras morreram quando Vincent parou à sua frente. Havia algo diferente no jeito como ele o olhava agora, menos provocação, mais intenção.

— Vincent… — Adam começou, já sem tanta convicção.

Vincent não respondeu. Apenas se aproximou devagar, como se desse a Adam tempo para recuar. Ele não recuou.

O beijo veio contido, breve. Não houve pressa, nem exagero. Apenas a pressão suave dos lábios, o reconhecimento silencioso, o coração de Adam batendo alto demais para algo tão simples. Foi rápido, mas intenso o suficiente para deixá-lo sem fôlego quando Vincent se afastou.

Por um instante, ficaram ali, com os rostos ainda próximos, respirando o mesmo ar.

Vincent sorriu de leve e, antes que Adam pudesse reagir, deu-lhe um selinho rápido, quase brincalhão.

— Vai lá — disse, baixo. — A gente se vê, mon chéri.

E então se afastou, saindo do beco e se misturando à rua molhada sem olhar para trás.

Adam ficou ali por alguns segundos, parado, sentindo o coração disparado, os lábios ainda quentes e a cabeça cheia demais para voltar imediatamente à realidade. Quando enfim respirou fundo e se recompôs, passou a mão pelo rosto, incrédulo.

Só então voltou em direção ao sebo.

Assim que empurrou a porta, a campainha tilintou acima de sua cabeça. Ele ainda estava meio fora de si, tentando recompor a expressão antes que alguém percebesse o turbilhão que carregava por dentro.

— Demorou, hein — Laura comentou do balcão, erguendo os olhos do livro que organizava. Um sorriso malicioso se abriu em seu rosto no instante seguinte. — Aliás… vou dizer uma coisa: ele é bem gatinho. Você deu sorte. É um leitor ainda!

Adam sentiu o rosto esquentar na mesma hora.

— Laura… — murmurou, passando por ela e indo direto para trás do balcão. — Não começa.

Ela apoiou os cotovelos na madeira, inclinando-se um pouco na direção dele, claramente se divertindo.

— Começar o quê? Só tô constatando um fato — disse, em tom leve.

Adam desviou o olhar, fingindo se concentrar em uma pilha de livros, mas não conseguiu esconder o sorriso pequeno e nervoso que escapou.

— Não é bem assim — retrucou, tentando soar indiferente. — Ele só… gostou da recomendação.

Laura soltou uma risada curta.

— Claro. A recomendação. — fez aspas no ar. — Adam, eu não nasci ontem.

Ele suspirou, derrotado, e finalmente a encarou.

— Dá pra gente fingir que isso não aconteceu? Pelo menos até o fim do expediente?

Laura ergueu as mãos em rendição, ainda sorrindo.

— Tudo bem, tudo bem. Prometo me comportar. — fez uma pausa, piscando para ele. — Mas só porque você fica fofo quando tá sem jeito.

Adam gemeu baixo, apoiando a testa por um segundo no balcão, enquanto o coração ainda batia rápido demais. Mesmo tentando retomar a rotina, ele sabia: seria impossível fingir que nada tinha acontecido.