Tudo Começou em Letras
7 Capítulo 7 — Proximidade Perigosa
Adam voltou para o quarto, ainda sentindo o coração acelerado e a cabeça confusa. Encontrou Tyler sentado no chão, ao lado de Finn, concentrados em um jogo de Monopoly. As peças estavam espalhadas, algumas cartas caídas, e o som de risadas baixas preenchia o espaço.
Tyler ergueu os olhos para ele assim que ele entrou e, franzindo a testa, perguntou:
— Aconteceu alguma coisa?
Adam deu de ombros, tentando soar despreocupado.
— Nada.
— Nada? — Tyler insistiu, percebendo o rubor que teimava em permanecer no rosto de Adam. — Seu rosto tá meio vermelho, sabia?
Adam suspirou e tentou disfarçar, passando a mão pelo cabelo.
— É só o frio da noite — respondeu, tentando soar casual, mas a voz ainda carregava um tremor que não conseguia esconder.
Finn soltou uma risada, sem levantar os olhos do tabuleiro.
— Tá bom, tá bom — disse ele. — Quer jogar com a gente ou vai ficar aí parado?
Adam balançou a cabeça lentamente, exausto.
— Não… tô com muito sono. Acho que vou dormir.
Adam foi até sua cômoda, pegou um pijama e foi até o banheiro se trocar. A água fria da torneira ajudou a clarear a mente, mas não o suficiente para apagar o calor que ainda sentia no rosto. Quando voltou, já vestido para dormir, encontrou Tyler e Finn continuando o jogo de Monopoly, resmungando e reclamando sobre as regras que não pareciam fazer sentido para eles.
Sem esperar mais, deitou-se e virou-se de costas no colchão, afastando-se do tabuleiro, das peças espalhadas e das vozes dos amigos. Mesmo com os comentários e reclamações baixas de Tyler e Finn, não tinha cabeça para nada daquilo agora; tudo o que queria era fechar os olhos e se perder no silêncio do quarto, tentando acalmar o turbilhão que ainda girava dentro dele.
***
O dia do seminário finalmente chegou. Adam e seus amigos estavam na frente da sala, organizando as anotações, slides e referências. A apresentação sobre Crime e Castigo e a exploração da psique humana na literatura russa estava pronta, cada trecho cuidadosamente dividido entre eles. Embora fosse aberta a qualquer um, a plateia era pequena: estudantes de Letras, alguns professores e alguns curiosos ou amigos de outros cursos que haviam aparecido para prestigiar.
— Todos prontos? — Adam perguntou, respirando fundo e ajustando a postura.
— Sempre — Tyler respondeu, jogando uma olhada divertida para Min-su, que apenas revirou os olhos e voltou a encarar os slides.
A apresentação começou. Cada um falou com segurança, destacando pontos relevantes da obra de Dostoiévski e analisando os dilemas morais e psicológicos dos personagens. Quando chegou a vez de Adam, ele se adiantou, abrindo o slide com sua parte cuidadosamente ensaiada.
Olhou para a plateia, respirou fundo, e então notou algo que fez seu coração acelerar de forma instantânea: no fundo da sala, parcialmente encostado à parede, estava Vincent. Ele parecia casual, mas o olhar atento parecia medir cada movimento de Adam. Por um instante, Adam sentiu o chão sumir debaixo dos pés.
— E… então, Raskólnikov… — começou, mas a frase tropeçou na própria gagueira. — A ideia central do crime… e… — sua voz falhou.
O rubor subiu ao rosto, e ele sentiu as mãos suarem. Isabelle, percebendo o nervosismo, colocou a mão firme no ombro dele.
— Respira, Adam. Você consegue — murmurou.
Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo o toque dela como uma âncora, e então respirou fundo. Abriu os olhos e, ao olhar novamente para a plateia, a gagueira havia desaparecido. Falou com clareza, articulando cada palavra, mergulhando na análise da obra, como se fosse completamente absorvido pelo tema.
Quando o grupo terminou, os aplausos ecoaram pela sala. O professor Gallagher sorriu, satisfeito:
— Excelente trabalho, todos vocês. Muito bem fundamentado e claro.
Adam deixou o olhar percorrer a plateia uma última vez e percebeu que Vincent já se levantava para sair. Seu coração apertou, e ele não conseguiu desviar os olhos enquanto o outro se movia calmamente entre as fileiras, desaparecendo pela porta.
Finn, que estava ao lado de Adam, notou seu olhar fixo e seguiu a direção. Franziu o cenho ao ver quem estava lá:
— O que ele está fazendo aqui? — murmurou para si mesmo, surpreso e levemente irritado.
Tyler, percebendo a reação de Finn, virou-se curioso:
— Quem?
— Vincent — Finn respondeu, a voz baixa, mas carregada de frustração. — Ele estava aqui.
Tyler estalou a língua, irritado, cruzando os braços.
— Ah, sério? Veio fazer o quê aqui? — disse, com um olhar indignado.
Finn balançou a cabeça e bufou, incomodado, e voltou a encarar a porta por onde Vincent havia saído, os pensamentos claramente agitados. Adam desviou o olhar, tentando disfarçar a confusão e a mistura de sentimentos que aquela presença inesperada havia despertado, enquanto Tyler continuava resmungando baixo, emburrado com a situação.
***
No dia seguinte, Adam caminhava pelo campus, com o livro Madame Bovary apertado contra o peito, tentando organizar os pensamentos que se recusavam a se acomodar. O céu estava cinza, e o cheiro de chuva se misturava ao ar frio. Passou por uma das salas de ensaio de música e, de repente, um som claro e firme atravessou o corredor: um violino.
Ele parou. Pelo vidro da porta entreaberta, viu Vincent, sozinho, tocando com concentração absoluta. Cada nota parecia pulsar no ar, intensa e íntima. Um impulso inesperado atravessou Adam, uma mistura de raiva, surpresa e algo que ele não queria admitir. Sem pensar, empurrou a porta e entrou.
Vincent parou, arqueando as sobrancelhas, e ergueu os olhos verdes, penetrantes, fixando-os em Adam com uma intensidade que o deixou imediatamente fora de si.
— Por que… você apareceu no seminário ontem? — Adam disse, a voz carregada de irritação. — Você não deveria estar lá.
Vincent apenas sorriu, calmo, quase desarmante.
— Não entendi… você foi ao nosso concerto, não foi? — respondeu ele. — Por que eu não poderia prestigiar o seu trabalho assim como você fez com o nosso?
Adam engoliu em seco, sem conseguir formular palavras. Vincent continuou, inclinando levemente a cabeça, os olhos brilhando de curiosidade.
— E, aliás — disse, com um leve sorriso — eu também gosto de Crime e Castigo, assim como você disse gostar de O Fantasma da Ópera.
Adam sentiu o coração acelerar e a garganta se fechar. Nervoso, disse, quase num sussurro carregado de tensão:
— As coisas… não podem chegar a esse ponto.
Vincent arqueou uma sobrancelha, fingindo inocência, e perguntou:
— Que ponto?
O silêncio que se seguiu parecia pesado demais. Adam respirou fundo, tentando ordenar os pensamentos e o impulso que queimava dentro dele. Mas Vincent continuava ali, parado, com aquele sorriso tranquilo, como se estivesse esperando que Adam explicasse, ou talvez esperando que ele se rendesse.
Adam desviou o olhar, batendo o pé levemente contra o chão, tentando se convencer de que podia manter algum controle. Mas a presença de Vincent e aquela proximidade inesperada já haviam quebrado qualquer racionalidade.
Ele revirou os olhos, frustrado consigo mesmo, e se virou para ir embora, tentando ignorar o calor inesperado que se espalhara pelo peito. Mas antes que pudesse dar um passo, sentiu uma mão firme segurando seu braço.
— Adam… — disse Vincent, baixo, quase um sussurro, olhando-o com aqueles olhos verdes que pareciam ler cada pensamento confuso que ele tentava esconder.
— Não… me solta — Adam conseguiu balbuciar, a voz tensa, tentando afastar o turbilhão que se formava dentro dele. — Aquilo… aquilo não pode se repetir.
Vincent inclinou-se mais perto, o rosto muito próximo, e uma ponta de sorriso brincava em seus lábios:
— “Aquilo” o quê? — perguntou ele, passando o dedo suavemente pelos lábios de Adam, uma carícia mínima que fez seu corpo inteiro se enrijecer.
Adam ficou paralisado. Cada músculo pareceu congelar, o rubor subindo rápido pelo rosto. Não podia acreditar no quanto seu próprio corpo reagia a algo tão simples, tão próximo, tão proibido para a razão que tentava manter.
Vincent aproximou-se ainda mais, mãos deslizando pelos cabelos de Adam, espalhando alguns fios que caíam sobre a testa dele. A proximidade era quase sufocante, mas de uma forma que Adam não queria escapar. Seu coração batia acelerado, e a sensação de estar vulnerável e ao mesmo tempo tentado por aquela intimidade o deixou confuso e um pouco culpado.
Então, quase sem aviso, os lábios de Vincent tocaram os seus. O beijo começou lento, cuidadoso, como se estivesse explorando cada reação de Adam. Primeiro, um roçar delicado dos lábios, testando limites, provocando arrepios que subiam pelo pescoço de Adam. Depois, Vincent aprofundou o beijo, passando a língua suavemente sobre os lábios de Adam, pedindo permissão de maneira silenciosa, quase tímida, enquanto suas mãos permaneciam nos cabelos dele, segurando firme, mas sem pressionar demais.
Adam respondeu com hesitação inicial, mas logo cedeu, sentindo o calor de Vincent se espalhar por todo o seu corpo. Cada toque era uma mistura de intensidade e delicadeza: o violento e o suave coexistiam em perfeita tensão. Ele sentiu as mãos de Vincent se aproximarem do rosto dele, acariciando as bochechas, explorando, guiando. Adam apertou levemente os braços contra o corpo de Vincent, incapaz de decidir se queria recuar ou se perder por completo na sensação.
O mundo ao redor desapareceu: não havia portas, não havia corredores, não havia som de violino, apenas o calor, o toque e o cheiro de Vincent que invadiam todos os sentidos de Adam. Cada inspiração parecia insuficiente, cada batida do coração ecoava no silêncio da sala de ensaio. O beijo se tornou mais intenso, mais urgente, mas ainda assim carregado de cuidado; nenhum passo em falso, nenhuma pressa. Era intimidade pura, uma comunicação silenciosa entre os dois, cheia de tensão e desejo contido que explodia em pequenos estalos de eletricidade.
Quando finalmente se separaram, apenas por alguns segundos, Adam respirou fundo, as mãos tremendo levemente. O rosto dele estava quente, os lábios ardendo, e o coração parecia prestes a saltar do peito. Vincent aproximou a testa da dele, os olhos verdes brilhando, um sorriso suave curvando os lábios:
— Dá pra ver que você quer isso tanto quanto eu — murmurou ele, quase como uma constatação.
Adam desviou o olhar, mordendo o lábio inferior, incapaz de responder imediatamente. Sabia que estava entregue, e ao mesmo tempo aterrorizado com o que isso significava.
Ele recuou alguns passos, o corpo ainda vibrando com o toque de Vincent, e ergueu o olhar, olhos arregalados e a respiração um pouco presa.
— O que você pensa que tá fazendo? — perguntou, a voz saindo mais firme do que se sentia por dentro.
Vincent inclinou-se levemente, com aquela calma quase provocadora, e respondeu simplesmente:
— Te beijando.
Adam arregalou os olhos com aquela forma simplista de falar e abriu a boca para retrucar, mas não conseguiu emitir uma palavra. Apenas fez uma expressão de indignação, o cenho franzido, os lábios comprimidos.
Vincent acompanhou cada movimento, seu sorriso suave ganhando um toque de diversão.
— É normal, Adam. — disse, com tranquilidade, percebendo a reação de Adam. — Pessoas beijam. É a coisa mais normal do mundo.
Adam respirou fundo, virou-se de costas, sentindo as pernas bambas e o coração acelerado, e começou a andar em direção à saída da sala.
Sem olhar para trás, apenas murmurou para si mesmo:
— Isso não pode…
E saiu, deixando Vincent parado no meio da sala, observando-o ir embora, com um leve sorriso nos lábios e os olhos verdes ainda brilhando de curiosidade.
***
Adam caminhava pelo campus, os passos ecoando levemente nas pedras úmidas, e cada movimento parecia fazer o mundo girar um pouco mais rápido ao seu redor. A chuva do dia anterior tinha deixado um cheiro fresco no ar, mas nada disso parecia alcançar a mente turbulenta que ele tentava, inutilmente, organizar.
O que acabara de acontecer na sala de ensaio martelava em sua cabeça. O toque, a proximidade, o beijo, tudo isso era novo. Pela primeira vez, ele sentira desejo real por alguém, e isso o assustava profundamente. Logo ele, que sempre se permitia tão pouco, que tinha regras invisíveis para sentimentos e corpos, agora se via paralisado por uma reação que não sabia controlar.
E ainda havia o episódio com Finn. A humilhação de Miles, o riso contido de Vincent e dos amigos dele, a sensação de impotência diante daquela situação. Adam se lembrava nitidamente de cada detalhe e percebeu que não podia deixar aquilo se prolongar, pois ceder aos próprios impulsos seria uma traição ao amigo, algo que ele jamais poderia aceitar.
Mas havia mais. Vincent falara do beijo com uma simplicidade quase casual, como se fosse apenas algo que se fazia, natural e despretensioso. Para Adam, porém, que só tinha beijado apenas uma pessoa antes e sempre se conteve em relações e experiências, aquilo significava demais. Era intimidade, era desejo, era algo que ele não sabia se conseguiria controlar, mas que o chamava de forma irresistível.
Ele apertou o exemplar de Madame Bovary contra o peito, tentando controlar os próprios sentimentos. Cada passo que dava em direção ao dormitório era acompanhado de um turbilhão de emoções conflitantes: atração, medo, culpa, desejo e uma estranha sensação de que, talvez, nada mais fosse tão simples quanto antes.
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