Tudo Começou em Letras
3 Capítulo 3 — Entre Estantes
A aula terminou com o som característico de cadeiras sendo arrastadas e cadernos fechados às pressas. O Professor Gallagher ainda dizia algo sobre referências bibliográficas quando metade da turma já estava de pé, mentalmente em outro lugar.
— O que vocês vão fazer hoje? — Finn perguntou, ajustando a mochila no ombro.
— Tenho ensaio pra adiantar — Isabelle respondeu, com um meio sorriso. — Vou aproveitar que ainda estou produtiva.
Tyler esticou os braços, como quem se livra de um peso invisível.
— Eu tenho um encontro com alguém que ainda não conheço direito, mas que já considero importante o suficiente para passar algumas horas.
Finn revirou os olhos.
— Você é impossível.
Adam fechou o caderno com calma.
— Eu vou pra biblioteca.
Nenhuma surpresa ali.
Eles se despediram com naturalidade, cada um seguindo em direções diferentes pelos corredores da Trinity. Adam caminhou sozinho até a biblioteca antiga, sentindo aquele alívio quase imediato que sempre o acompanhava ao cruzar suas portas.
A tarde estava estranhamente quieta.
As mesas longas estavam quase vazias, algumas poucas figuras espalhadas entre livros abertos e laptops silenciosos. O som predominante era o virar ocasional de páginas e o eco distante de passos. Adam escolheu um lugar próximo à janela, onde a luz cinzenta de Dublin entrava suave, sem incomodar.
Abriu O Morro dos Ventos Uivantes exatamente onde havia parado.
Leu sem pressa, mergulhado, mas não arrebatado. Gostou da intensidade, da atmosfera carregada, das escolhas erradas que se acumulavam como nuvens pesadas no horizonte. Ainda assim, quando chegou à última página e a fechou com cuidado, sua conclusão foi simples e honesta: era um bom livro. Apenas isso. Nada que o tivesse atravessado profundamente.
E tudo bem.
Ele ficou alguns minutos parado, observando a capa, como se estivesse se despedindo de algo que já havia cumprido seu papel. Depois se levantou, caminhando até a seção correta para devolvê-lo à prateleira.
Foi então que o viu.
Vincent estava ali, de pé diante da estante, o corpo levemente inclinado para frente enquanto percorria os títulos com atenção genuína. Não parecia apressado. Nem entediado. Apenas concentrado.
Adam diminuiu o passo sem perceber.
Havia algo diferente em vê-lo ali, fora do ambiente carregado do pub, longe da presença dos outros três. Sozinho, silencioso, Vincent parecia menos inalcançável e mais… real. Seus cabelos escuros caíam de forma despretensiosa, e a postura relaxada contrastava com o cuidado com que passava os dedos pelas lombadas.
Adam observou quando Vincent puxou um livro da prateleira.
O Fantasma da Ópera.
Seu peito se apertou de leve.
Adam amava aquele livro.
Lembrou-se imediatamente de Ennistymon, das tardes chuvosas em que se refugiava em seu quarto, lendo à luz fraca enquanto o vento batia contra as janelas. Lembrou-se de como tinha se encantado pela solidão do Fantasma, pela música, pelo amor torto e silencioso. Pela ideia de alguém que existia à margem, observando o mundo sem nunca pertencer completamente a ele.
Vincent abriu o livro, folheando algumas páginas, o rosto sério, interessado.
Adam percebeu tarde demais que estava encarando.
Vincent ergueu o olhar.
Seus olhos verdes encontraram os de Adam com uma clareza inesperada.
— Algum problema? — perguntou, em voz baixa, respeitando o silêncio do lugar.
Adam piscou, como se despertasse de um transe. Sentiu o rosto aquecer levemente. Ajustou os óculos num gesto automático.
— Não — respondeu, rápido demais. Depois balançou a cabeça. — Nada.
Vincent o observou por mais um segundo, como se ponderasse algo, então fechou o livro com cuidado e o segurou contra o peito. Ele se afastou da estante e seguiu pelo corredor silencioso, desaparecendo entre as fileiras de mesas.
Adam ficou ali, parado, o exemplar de O Morro dos Ventos Uivantes ainda em mãos. Depois, lentamente, colocou o livro no lugar certo.
A biblioteca voltou ao seu silêncio habitual.
Mas, por algum motivo, aquela tarde, que até então parecia apenas tranquila, ganhou um peso diferente, como se algo tivesse sido levemente deslocado dentro dele.
Adam respirou fundo e retornou à sua mesa.
***
De volta à mesa, abriu Crime e Castigo com um suspiro quase imperceptível. O livro caiu aberto exatamente onde havia parado, como se o estivesse aguardando com paciência excessiva. Ele leu algumas páginas, depois mais algumas, seguindo disciplinado pelas linhas densas.
Mas não fluía.
Os monólogos dos personagens se estendiam em círculos, retornando sempre aos mesmos pontos, às mesmas angústias. Adam reconhecia o mérito — a construção psicológica era precisa, quase sufocante —, mas naquela tarde tudo lhe parecia exagerado demais, insistente demais. As descrições longas, os pensamentos repetidos, que se arrastavam por páginas inteiras.
Ele passou os olhos por um parágrafo sem absorver nada.
Voltou ao início.
Tentou outra vez.
Nada.
A concentração escapava como água entre os dedos. Sua mente insistia em deslizar para longe das páginas, retornando, sem pedir licença, à imagem de Vincent diante da estante. Ao livro em suas mãos. Ao tom neutro da pergunta. Ao breve contato visual que parecia ter durado mais do que deveria.
Adam fechou os olhos por um instante, pressionando levemente a lombada do livro com os dedos.
— Foco — murmurou para si mesmo.
Leu mais algumas páginas, por obrigação. Marcou um trecho. Fez uma anotação vaga na margem. Mas o prazer habitual da leitura não vinha.
Depois de mais uma tentativa frustrada, ele fechou o livro com mais força do que pretendia.
O som ecoou baixo pela biblioteca quase vazia.
Adam olhou ao redor, certificando-se de que não havia incomodado ninguém, e começou a guardar suas coisas. Crime e Castigo foi parar na mochila sem cerimônia, junto com o caderno de anotações ainda quase em branco.
Talvez não fosse uma tarde para livros difíceis.
Ou talvez, pensou enquanto deixava a biblioteca, não fosse uma tarde para ficar sozinho.
O caminho até o dormitório foi feito em silêncio, acompanhado apenas pelo som distante da cidade. Quando entrou no quarto, encontrou-o vazio. A cama de Finn estava desarrumada, como sempre, mas não havia sinal dele.
Adam largou a própria mochila no chão e sentou-se na cama. Pegou o celular e abriu a conversa com Finn.
Adam: Onde você tá?
A mensagem foi enviada quase imediatamente, mas a resposta não veio.
Ele deixou o aparelho ao lado e se recostou na parede, olhando para o teto conhecido. Normalmente, aquele seria o momento perfeito para abrir outro livro. Algo familiar, algo seguro. Um clássico relido, uma história já conhecida.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, a ideia não o animou.
Os livros sempre tinham sido suficientes. Sempre tinham dado conta do silêncio, da espera, das tardes longas demais. Agora, porém, havia um espaço estranho se formando dentro dele, um intervalo que nenhuma página parecia capaz de preencher.
Ele respirou fundo, sentindo o peso daquela constatação com certa surpresa.
Talvez fosse apenas cansaço.
O celular vibrou alguns minutos depois.
Finn: Tô com o Min-su. Sorveteria na O’Connell Street. Vem.
Adam não hesitou. Vestiu o casaco, pegou as chaves e saiu do dormitório antes que pudesse pensar demais. O ar frio da tarde o recebeu com uma clareza quase revigorante, e ele seguiu pelas ruas conhecidas sem pressa, sentindo que aquele deslocamento, por si só, já era um alívio.
A sorveteria era pequena, iluminada demais para o céu cinzento de Dublin. Finn estava sentado numa mesa externa, gesticulando enquanto falava, um copo de sorvete quase intacto à sua frente. Min-su ocupava a cadeira ao lado, atento, as mãos envoltas no próprio copo.
— Olha só quem resolveu socializar por vontade própria — Finn disse assim que o viu.
Adam puxou uma cadeira e se sentou.
— Não se acostuma.
Min-su sorriu.
— Oi, Adam.
— Oi — respondeu, sentindo o corpo relaxar um pouco só por estar ali.
Por alguns minutos falaram de coisas pequenas: a aula daquele dia, o professor Gallagher, o clima que parecia nunca decidir se ia chover ou não. Finn reclamou do sorvete que tinha pedido, dizendo que não tinha gosto de nada, enquanto Min-su defendia que aquilo era justamente o ponto.
— Aliás — Min-su começou, inclinando-se na mesa —, vocês saíram com o Tyler ontem?
Finn soltou uma risada curta.
— Saímos, sim. Fomos num pub ontem à noite.
Adam permaneceu em silêncio, apenas ouvindo.
— Ele não durou muito tempo com a gente — Finn continuou. — Cinco minutos lá dentro e já estava grudado num cara alemão. Literalmente grudado.
Min-su abriu um sorriso imediato.
— Alemão?
— Sim — Finn confirmou. — Alto, sotaque carregado, cara de quem definitivamente não estava ali pra beber cerveja com calma.
Adam deixou escapar um riso baixo.
— Tyler realmente não perde tempo — Comentou.
— Nenhum — Finn concordou. — Ele foi embora antes mesmo da gente terminar a segunda rodada. Sumiu com o cara e pronto. Depois disso, a gente acabou indo embora também.
— Isso explica o áudio — Min-su disse, rindo. — Recebi às três da manhã. Só vi quando acordei. Não entendi absolutamente nada do que ele estava dizendo.
Finn apoiou os cotovelos na mesa, animado.
— Ah, você não perdeu muita coisa. Ele veio me contar hoje cedo que acordou todo dolorido.
Min-su arqueou a sobrancelha.
— Dolorido como?
— Dolorido como você deve estar imaginando — Finn respondeu, sem nenhuma sutileza.
Os três riram ao mesmo tempo. Adam levou a mão ao rosto por um segundo, tentando conter o sorriso, mas não conseguiu evitar.
— Eu juro que não sei de onde ele tira tanta energia — Min-su comentou, ainda rindo.
— Nem eu — Finn disse.
O riso foi diminuindo aos poucos, dando lugar a um silêncio confortável. O movimento da rua seguia ao redor deles, pessoas passando, carros, o som distante da cidade.
Min-su tomou mais uma colherada do sorvete antes de falar:
— Bom… eu vou ter outro turno hoje à noite. Bar cheio. Vou ficar lá até fechar.
Finn fez uma careta solidária.
— De novo?
— De novo — Min-su confirmou, com um meio sorriso resignado. — Mas antes disso, preciso ler um pouco de Crime e Castigo. Se eu não adiantar agora, não leio nada.
Adam soltou um suspiro que era metade empatia, metade cansaço.
— Boa sorte com os monólogos.
Min-su riu e respondeu:
— Boa sorte pra nós.
Eles se levantaram pouco depois. Caminharam juntos por alguns metros antes de se despedirem, Min-su seguindo em direção ao metrô, já com a mente dividida entre o trabalho e as páginas que o aguardavam.
Adam observou até ele se afastar, e então começou a andar com Finn ao seu lado.
Talvez fosse verdade que os livros nem sempre fossem suficientes.
Mas, naquela tarde, companhia tinha sido exatamente o que ele precisava.
***
Adam e Finn seguiram de volta para o dormitório em silêncio, caminhando lado a lado pela calçada úmida. O céu já começava a escurecer de vez, e as luzes dos prédios se refletiam no chão como manchas difusas.
Foi Finn quem os avistou primeiro.
Ele diminuiu o passo de forma quase imperceptível e, num gesto automático, encolheu levemente os ombros. Adam percebeu a mudança antes mesmo de entender o motivo e acompanhou o olhar do amigo.
Miles vinha na direção oposta.
Caminhava despreocupado, com seus cabelos claros bem penteados. Uma das mãos estava entrelaçada à de uma garota de cabelos escuros e cacheados. Ela ria de algo que ele dizia, inclinando-se um pouco em sua direção. Adam reconheceu Pauline; já a tinha visto outras vezes pelo campus, sempre ao lado dele. A proximidade entre os dois era natural, evidente, como algo que não precisava ser anunciado.
Finn desviou o olhar imediatamente, fingindo ajustar a alça da mochila.
Eles passaram por Miles e Pauline sem troca de cumprimentos. Adam notou que Finn manteve o olhar fixo no chão até estarem alguns metros à frente.
Só então sua postura relaxou um pouco, como se tivesse soltado o ar que prendia nos pulmões.
Adam lançou-lhe um olhar rápido, atento, mas não disse nada.
***
Assim que entraram no prédio do dormitório, Finn diminuiu o passo.
— Vou ao banheiro — disse, rápido demais, já se afastando pelo corredor.
Adam assentiu.
— Vai lá.
Ele não o seguiu. Não perguntou nada. Apenas subiu as escadas até o quarto sozinho.
Adam fechou a porta atrás de si e largou o casaco sobre a cadeira. O quarto estava silencioso demais agora. Ele se sentou na própria cama e deixou o olhar vagar pelo espaço conhecido enquanto a memória, inevitável, se organizava sozinha.
Quando ele e Finn eram calouros recém chegados.
Tudo era novo demais, grande demais. Finn chegara à Trinity com aquela mistura de excitação e insegurança que tentava esconder sob piadas e energia excessiva. Foi Miles quem os encontrou primeiro, Adam lembrava disso com clareza.
Miles tinha se oferecido para mostrar o campus. Andava à frente, confiante, falando dos prédios, das salas, dos atalhos que “só quem estava ali há mais tempo conhecia”. Adam seguia mais atrás, observando. Finn estava atento a cada gesto, cada sorriso, cada palavra.
Adam percebeu antes mesmo de Finn admitir para si.
A paixão veio silenciosa, mas cresceu rápido. Finn falava de Miles o tempo todo; disfarçava mal. Adam ouvia, sorria, torcia. Queria que desse certo. Queria que o amigo fosse feliz.
E, por um tempo, pareceu que seria.
Miles correspondeu.
Um beijo, primeiro meio incerto, depois outros. Mensagens trocadas tarde da noite. Encontros rápidos entre aulas. Finn andava diferente naquela época, mais leve, mais presente. Adam e os amigos acompanhavam tudo de perto, cúmplices silenciosos, felizes por ele.
Finn acreditou que era algo sério.
E então veio a noite do bar.
Adam lembrava como se fosse um recorte mal iluminado da memória. O som alto, as luzes confusas, Finn já um pouco alterado pela bebida. E Miles, alguns metros adiante, se agarrando com uma garota, rindo, despreocupado.
Finn foi até ele sem pensar.
A discussão foi rápida, intensa, pública demais.
— Eu achei que a gente tinha alguma coisa — Finn disse, a voz trêmula, alta demais.
Miles riu.
Não um riso nervoso. Um riso frio.
— Você entendeu errado — respondeu, sem nenhum cuidado. — Nunca foi nada sério. Foi só diversão.
As palavras atingiram Finn com violência. Ele tentou dizer algo, mas a voz falhou. As lágrimas vieram antes que pudesse se conter.
E então vieram os risos.
Laurent encostado na mesa, sorrindo como quem assiste a um espetáculo. Marcel comentando algo baixo, divertido. Vincent ali também, com um sorrisinho no rosto, silencioso, observando. Todos viram.
Adam lembrava de ter se levantado na hora, o corpo tomado por uma raiva seca, impotente. Lembrava de segurar Finn quando ele começou a chorar de verdade, de tirá-lo dali enquanto os outros ainda riam.
Depois disso, nada foi simples.
Finn demorou a se recompor. Demorou a confiar. Demorou a não se culpar por ter acreditado. Adam esteve ali em todas as fases, nas noites longas, nos silêncios pesados, nas tentativas de fingir que não doía mais.
Era por isso.
Por isso aquele grupo não era apenas “antipático”. Eles tinham sido cruéis.
Adam respirou fundo, sentindo o peso antigo daquela memória se acomodar de novo em seu peito. Sua raiva aumentou só de lembrar.
A porta do quarto se abriu alguns minutos depois. Finn entrou sem dizer nada, foi direto para a própria cama e se deitou, de costas.
Adam não falou nada. Ele apenas ficou ali, presente, como sempre tinha feito, garantindo que Finn não estivesse sozinho.
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