Tudo Começou em Letras

25 Capítulo 25 — Leitura Conjunta


Alguns dias depois, a rotina de Adam já parecia definida. Hospital, sebo, universidade, dormitório, hospital de novo. Sempre com um livro diferente debaixo do braço, quase sempre o mesmo cansaço nos ombros.

Naquela tarde, ele estava sentado na poltrona ao lado da cama, lendo em voz baixa, mais para preencher o silêncio do que por acreditar que Vincent realmente ouvia. O quarto tinha aquele cheiro característico de álcool e lençóis limpos. O bip constante das máquinas já não o assustava tanto, tinha virado parte do fundo sonoro da sua vida.

A porta se abriu.

Adam ergueu os olhos por reflexo.

Um homem entrou.

Ele parou por um segundo ainda perto da porta, observando a cena: Adam ali, o livro aberto, a mochila jogada aos pés da poltrona, Vincent desacordado na cama. Algo no rosto dele fez o estômago de Adam dar um leve salto.

Havia semelhança demais.

Os mesmos traços marcantes de Vincent, o mesmo formato do rosto, os olhos, o mesmo jeito sério no olhar, só que mais velho. Mais duro. Como se o tempo tivesse passado por ali deixando marcas que Vincent ainda não tinha.

O homem caminhou até a cama sem dizer nada. Observou Vincent por alguns segundos, o olhar atento, carregado de coisas que Adam não conseguia decifrar. Preocupação, talvez. Culpa. Raiva.

Adam se mexeu na poltrona, desconfortável.

Foi então que o homem se virou para ele.

Qui êtes-vous? — perguntou, a voz grave, precisa.

O francês veio limpo, sem esforço, e pegou Adam desprevenido. Ele sentiu o corpo enrijecer por um instante. O coração deu um salto curto, desconfortável. O francês que ele tinha era básico demais para sustentar uma conversa daquele tipo, e, ainda assim, ele entendeu perfeitamente a pergunta.

Quem é você?

Adam fechou o livro devagar, pousando-o sobre o colo. Endireitou um pouco a postura na poltrona, engoliu em seco.

— Sou Adam — respondeu em inglês, a voz mais baixa do que pretendia. — Sou… um amigo do Vincent.

O homem não disse nada de imediato, apenas o olhou.

O silêncio se estendeu por alguns segundos longos demais. O olhar dele era avaliador, atento, como se tentasse entender que tipo de pessoa ficava sentada ali, lendo em voz baixa para alguém que não acordava.

Adam sentiu o desconforto crescer. Mexeu levemente os dedos na borda do livro, respirou fundo e criou coragem para perguntar:

— E… você é…?

O homem desviou o olhar por um instante, voltando-o para Vincent. Observou-o desacordado, os curativos, os fios, as máquinas, como se precisasse confirmar algo para si mesmo antes de responder.

Então falou, em inglês, com um sotaque francês suave, mas firme:

— Victor. Irmão dele.

A confirmação caiu com peso.

Adam sentiu algo apertar no peito, uma mistura estranha de alívio e nervosismo. Fazia sentido. O rosto, o olhar, a presença.

— Oh… — foi tudo o que conseguiu dizer num primeiro momento. — Eu não sabia que ele tinha um irmão.

Victor assentiu e voltou a observar o irmão desacordado. O olhar suavizou só um pouco.

Sem dizer mais nada, ele tirou um pequeno cartão do bolso da jaqueta e estendeu para Adam.

— Anota meu número — disse. — Qualquer coisa… qualquer coisa mesmo, você me liga.

Adam pegou o cartão quase automaticamente, os dedos ainda um pouco trêmulos.

— Tá — respondeu, baixo. — Pode deixar.

Victor assentiu novamente, sério. Lançou um último olhar para Vincent e então caminhou até a porta e saiu.

A porta se fechou, devolvendo o quarto ao silêncio habitual.

Adam ficou alguns segundos parado, olhando para o cartão na mão. Depois ergueu os olhos para Vincent, respirou fundo e voltou a abrir o livro.


***


O pátio da universidade estava cheio como sempre. Grupos espalhados pela grama, vozes se misturando, risadas soltas, gente indo e vindo com copos de café e mochilas jogadas nos ombros. Tudo parecia igual, exceto por uma ausência que ninguém ali conseguia ignorar.

O lugar de Adam estava vazio.

O banco onde ele costumava se sentar, sempre meio encolhido, com um livro no colo ou o celular entre as mãos, permanecia intacto, como se ninguém tivesse ousado ocupá-lo. Aquilo criava um silêncio estranho no meio do grupo, mesmo com o barulho ao redor.

Finn estava sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para o chão. Min-su mexia no celular sem realmente prestar atenção em nada. Isabelle observava o movimento do pátio, inquieta. Tyler estava de pé, encostado no encosto do banco, braços cruzados, claramente incomodado.

Foi Isabelle quem falou primeiro, a voz baixa:

— Gente, ele tá definhando.

Finn ergueu o olhar devagar.

— Como assim?

— Você não vê? — Isabelle respondeu, sem agressividade, mas com um cansaço evidente. — O Adam. Ele emagreceu demais. Parece que tá sempre… apagado.

Min-su assentiu, sem olhar para eles.

— Ele mal aparece mais. E quando aparece, é só pra aula. Senta longe.

O silêncio voltou a se instalar.

Foi então que Adam passou pelo pátio.

Sozinho.

Caminhava rápido, mochila pendurada num ombro só, o rosto abatido, os olhos fundos, como se não dormisse direito há dias. Ele passou pelo grupo sem sequer diminuir o passo. Não olhou. Não hesitou. Era como se eles não existissem mais.

Isabelle sentiu um aperto no peito.

— Ele nem olha pra gente…

— E nem vai — Tyler respondeu, a voz baixa, mas carregada. — Depois de tudo, por que ele olharia?

Finn continuava em silêncio.

Tyler respirou fundo, passando a mão pelo rosto.

— A gente fez isso — disse, de repente. — Não adianta fingir que não.

Min-su ergueu o olhar na hora.

— Tyler…

— Não — ele continuou, firme, mas claramente abalado. — A gente encurralou o Adam. Eu encurralei. Fui frio, fui insensível…

Isabelle engoliu em seco.

— Você não sabia que era tão sério.

— Agora eu sei — Tyler respondeu, com amargura. — Eu vi. Eu e Isabelle vimos no hospital. O jeito que ele segurava a mão do Vincent… — a voz falhou por um segundo.

Finn permaneceu em silêncio.

— Ele se apaixonou — Tyler disse, com a voz mais baixa agora. — De verdade. Não foi só uma escolha idiota. Não foi só curiosidade. Ele caiu fundo.

Finn finalmente levantou o olhar.

Tyler continuou, encarando-o agora:

— E a gente tratou isso como fraqueza. Como burrice. — Ele balançou a cabeça. — Imagina como ele deve estar se sentindo agora.

Isabelle respirou fundo antes de acrescentar:

— Eu ouvi uma menina de música comentando… — hesitou. — Disse que o Adam passa quase todo dia no hospital. Que fica horas lá. E que o Vincent ainda não acordou.

O nome caiu pesado no meio deles.

— Ele tá passando por isso tudo sozinho — Min-su murmurou.

O silêncio que se seguiu foi espesso.

Finn abriu a boca, como se fosse dizer alguma coisa. Fechou de novo. Passou a mão pelos cabelos, inquieto. O olhar perdido, distante.

Pela primeira vez desde tudo aquilo, ele não tinha resposta pronta. Nenhuma acusação. Nenhuma certeza.

Só o peso do vazio no banco ao lado.


***


O quarto do hospital já tinha se tornado um lugar estranhamente familiar.

Adam estava ali como em quase todas as tardes das últimas duas semanas, sentado na mesma poltrona ao lado da cama. O corpo curvado, o livro aberto apoiado nas pernas, a voz baixa preenchendo o espaço entre o bip constante das máquinas e o silêncio pesado de quem não responde.

Vincent permanecia imóvel, o rosto um pouco mais pálido do que Adam lembrava, fios presos aos braços, curativos ainda visíveis depois das cirurgias. Os médicos diziam que ele estava estável. Sempre a mesma palavra. Estável.

Adam leu a última frase do capítulo com cuidado, como se cada palavra tivesse peso próprio.

Fim do capítulo quinze — murmurou, fechando o livro devagar.

O silêncio voltou a se acomodar no quarto.

Adam respirou fundo, apertando o livro contra o peito por um segundo, antes de pousá-lo no colo. O cansaço pesava nos ombros, nos olhos, no coração. Ele passou os dedos pela borda da página, como se estivesse adiando o inevitável: levantar, ir embora, deixar Vincent sozinho outra vez.

Foi então que ouviu.

— Que livro é esse?

A voz era fraca. Rouca. Quase um sussurro.

Adam levantou os olhos num reflexo imediato, o coração disparando com tanta força que doeu. Por um segundo, teve medo de estar imaginando. Medo de que fosse só mais uma peça que sua mente cansada pregava nele.

Mas Vincent estava olhando para ele.

Os olhos ainda pesados, semicerrados, mas conscientes.

— V-Vincent…? — a voz de Adam falhou.

— Adam… — Vincent murmurou, um sorriso pequeno e torto se formando com esforço.

O mundo pareceu parar.

— Vincent! — Adam levantou num pulo, o livro caindo no chão sem que ele percebesse. Ele se aproximou da cama às pressas, pegando a mão de Vincent com cuidado, como se tivesse medo de que ele desaparecesse ao toque. — Você… você acordou…

Vincent apertou os dedos dele de leve. Muito de leve.

— Acho que sim — disse, quase num sopro.

Os olhos de Adam se encheram de lágrimas antes que ele pudesse impedir. Ele riu e chorou ao mesmo tempo, um som quebrado, incrédulo.

— Eu vou chamar a enfermeira — disse rápido, a voz trêmula. — Eu vou chamar alguém, espera, não fala nada, tá?

— Adam — Vincent tentou dizer, mas Adam já estava se afastando.

Ele saiu praticamente correndo do quarto, o coração acelerado, a visão embaçada. Chamou pela enfermeira no corredor, a voz alta demais, desesperada demais.

— Ele acordou! — disse, quase sem fôlego. — Ele acordou!

A enfermeira arregalou os olhos por um segundo antes de agir, chamando outros profissionais, seguindo Adam de volta ao quarto com passos rápidos.

Quando Adam voltou, encostou-se à parede perto da porta, deixando o espaço livre enquanto eles examinavam Vincent, faziam perguntas, checavam aparelhos.

Porém, mesmo cercado por médicos, mesmo cansado, mesmo fraco, Vincent procurava Adam com os olhos. Como se quisesse ter certeza de que ele ainda estava ali.

E Adam estava.

Pela primeira vez em duas semanas, o peso no peito dele se afrouxou um pouco.

O quarto voltou a ficar silencioso depois da saída dos médicos e da enfermeira. O bip das máquinas retomou seu ritmo constante, quase reconfortante agora. A luz estava mais baixa, o fim de tarde entrando pelas persianas em tons suaves.

Adam permaneceu parado por alguns segundos, como se ainda estivesse com medo de que tudo aquilo fosse frágil demais. De que, se respirasse errado, Vincent pudesse apagar outra vez.

Ele se aproximou da cama devagar.

— Eles disseram que você vai precisar descansar bastante — falou em voz baixa, puxando a poltrona para mais perto. — Mas… eu vou ficar aqui. A noite toda. Se você quiser.

Vincent virou um pouco o rosto em direção a ele. O movimento foi lento, cuidadoso, como se cada músculo ainda estivesse reaprendendo a existir.

— Você não precisa… — começou, a voz ainda fraca.

— Preciso, sim — Adam respondeu rápido demais, antes de se conter. Depois respirou fundo. — Quero dizer… eu quero ficar.

Vincent o observou por alguns segundos, os olhos atentos apesar do cansaço.

— Quanto tempo… — ele hesitou. — Quanto tempo faz que eu tô aqui?

Adam engoliu em seco.

— Duas semanas.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Vincent arregalou um pouco os olhos, claramente surpreso.

— Duas… semanas? — repetiu, como se o número não fizesse sentido. — Eu achei que… — Ele parou, fechando os olhos por um instante.

Adam sentiu o nó se formar na garganta.

— Eu sei — murmurou.

Ele baixou o olhar, os dedos se apertando uns nos outros no colo. O peso que vinha segurando há dias finalmente encontrou uma brecha.

— Vincent… — a voz dele falhou. — Eu sinto muito. Me perdoe.

Vincent franziu levemente a testa, confuso.

— Pelo quê?

Adam respirou fundo, os olhos ardendo.

— Por ter te ignorado — disse, de uma vez. — Por não ter te atendido, por fingir que você não existia quando você tentou falar comigo. Eu fui covarde. Eu achei que tava me protegendo com isso, mas só fiz tudo ficar pior. E também por ter te falado aquelas coisas horríveis… você não mereceu nada daquilo.

As lágrimas começaram a cair antes que ele conseguisse controlar. Adam passou a mão pelo rosto, frustrado consigo mesmo.

— Quando eu fiquei sabendo do acidente… — a voz dele quebrou de vez. — Foi um susto gigantesco. Eu achei que… — Ele balançou a cabeça, incapaz de terminar a frase. — Eu quase não consegui respirar.

Vincent o observava em silêncio, os olhos brilhando mais do que antes. Ele tentou se mexer, mas acabou apenas apertando de leve a mão de Adam, que levantou o rosto devagar.

— Isso tudo não é porque não eu me importava, Vincent — continuou. — Era justamente o contrário. Eu não sabia o que fazer com tudo o que eu sentia.

Por um momento, Vincent não disse nada. O olhar dele ficou perdido no teto, como se estivesse reorganizando pensamentos que ainda vinham aos pedaços. A respiração era calma, mas havia tensão ali, um peso antigo despertando junto com a consciência.

— Eu… — ele começou, a voz baixa. — Eu perdi o controle, Adam. Com tudo. Com você, comigo. — Engoliu em seco. — Eu devia ter lidado melhor com tudo isso… — Ele parou, frustrado.

Adam não respondeu de imediato. Ele apenas apertou um pouco mais a mão de Vincent, um gesto simples, firme, como se dissesse eu tô aqui sem usar palavras. O polegar dele fez um movimento lento, quase distraído, sobre a pele fria.

Ele respirou fundo, tentando estabilizar a própria voz antes de perguntar:

— Você… se lembra do que aconteceu?

Vincent manteve o olhar no teto por alguns segundos, como se estivesse tentando puxar as memórias de um lugar distante e nebuloso.

— Lembro de partes — respondeu devagar. — Não de tudo.

Adam ficou imóvel, atento a cada palavra.

— Eu tinha bebido — Vincent admitiu, sem rodeios. — Mais do que devia.

A confissão veio simples, direta. Sem desculpas.

O estômago de Adam se contraiu.

— Eu gosto de dirigir até os penhascos quando preciso pensar — Vincent continuou. — A estrada é vazia. O vento ajuda a… limpar a cabeça.

Ele soltou um suspiro leve, irritado consigo mesmo.

— Só que daquela vez eu não devia ter pego o carro. Eu tava com a cabeça cheia demais. E bêbado.

Adam sentiu a mão de Vincent apertar a dele um pouco mais, como se inconscientemente buscasse ancoragem.

— Eu lembro da estrada — Vincent prosseguiu. — Lembro de estar rápido demais. Muito rápido. — Fez uma pausa. — Depois… faróis. Um desvio brusco. O carro perdeu o controle.

O silêncio no quarto ficou mais pesado.

— Acho que bati na lateral primeiro — ele disse, o cenho franzido de leve, como se sentisse a memória no corpo. — E provavelmente capotou. Eu lembro do barulho. Do vidro quebrando. Depois… nada.

Adam mal estava respirando.

— E então eu acordei aqui — Vincent concluiu, virando o rosto de leve para encará-lo. — Sem saber quanto tempo tinha passado.

— Você não se lembra quem te tirou de lá? — Adam perguntou, a voz quase um sussurro.

Vincent balançou a cabeça, devagar.

— Não. Não faço ideia. Talvez alguém me encontrou por acaso. — Fez uma pausa curta. — Talvez tenham visto o carro.

Adam sentiu uma onda de frio percorrer o corpo ao imaginar.

— Foi estupidez minha — Vincent disse, firme. — Eu sabia que não devia dirigir.

Não havia autocomiseração na voz dele. Só constatação.

Adam engoliu em seco, os olhos voltando a arder.

— Você podia ter… — Ele não conseguiu terminar.

Vincent apertou a mão dele outra vez.

— Mas não aconteceu — disse, calmo. — Eu tô aqui.

E eles permaneceram de mãos dadas. Os dedos entrelaçados com cuidado, como se aquele contato fosse a única coisa concreta no meio de tudo que quase se perdeu. Adam sentia o calor da pele de Vincent, frágil ainda, mas viva. E Vincent parecia se ancorar naquele toque.

Depois de alguns segundos, Adam respirou fundo.

— Seu irmão esteve aqui — Ele disse então, com cuidado. — Alguns dias atrás.

Vincent virou o rosto para ele na mesma hora, os olhos se arregalando levemente.

— Meu irmão?

— É — Adam assentiu. — Victor o nome dele.

O efeito foi imediato. Vincent desviou o olhar, encarando a parede ao lado da cama. A mandíbula se contraiu de leve, um músculo pulsando ali, como se aquele nome tivesse aberto algo que ele preferia manter fechado.

Adam percebeu.

— O que foi? — perguntou, baixinho.

Vincent demorou a responder.

— É que a nossa relação é… complicada — disse por fim, com um suspiro cansado escapando — A gente não se fala tanto quanto deveria. Ou… quase não se fala.

Adam franziu levemente a testa.

— Ele parecia preocupado com você — comentou.

O silêncio voltou a se instalar, mas não era desconfortável. Adam continuava ali, segurando a mão de Vincent, ancorando-o no presente.


***


No dia seguinte, o quarto estava mais claro. A luz da manhã entrava filtrada pela cortina, desenhando sombras suaves nas paredes brancas. Adam estava sentado na mesma poltrona de sempre, o livro fechado no colo, apenas observando Vincent respirar, acordado, vivo.

Vincent tinha os olhos semicerrados, cansado, mas atento. Às vezes olhava para Adam como se ainda estivesse confirmando que ele realmente estava ali.

A porta se abriu sem aviso.

Adam ergueu o olhar no mesmo instante.

O homem que entrou era inconfundível. A mesma semelhança dura do outro dia. Victor não hesitou: atravessou o quarto em passos rápidos e foi direto até a cama.

Vincent virou o rosto devagar.

— Victor… — disse, a voz rouca, quase incrédula.

O homem parou ao lado da cama, os olhos passando pelo rosto do irmão, pelos curativos, pelos tubos. Por um segundo, pareceu lutar para manter a compostura.

Vincent… ça va? — perguntou em francês, baixo, urgente. — Tu vas bien?

Vincent soltou um meio sorriso cansado.

Je crois… oui. — respirou fundo. — Je vais bien.

Victor fechou os olhos por um instante, como se aquela simples constatação fosse pesada demais. Passou a mão pelo cabelo, depois apoiou a palma na lateral da cama.

Tu m’as fait peur — disse, a voz mais dura agora, traindo o alívio. — Tu n’as aucune idée.

Vincent desviou o olhar por um segundo.

Je sais.

Eles continuaram falando em francês, frases baixas, entrecortadas. Victor perguntava, Vincent respondia como podia. Havia cobrança ali, mas também algo muito mais antigo: cuidado mal resolvido.

Adam permaneceu imóvel por alguns segundos, sentindo-se subitamente intruso. Ele se levantou devagar, pegou a mochila do chão e deu um passo para trás.

— Eu vou… — murmurou em inglês, quase para si mesmo.

Nenhum dos dois pareceu notar de imediato. Estavam presos um ao outro, naquele reencontro necessário.

Adam lançou um último olhar para Vincent. Vincent o viu dessa vez. Seus olhos encontraram os de Adam por um breve instante, um pedido silencioso para que ele não fosse embora de verdade.

Adam assentiu de leve.

Então saiu do quarto, fechando a porta com cuidado, deixando os dois irmãos sozinhos. No corredor, apoiou as costas na parede fria e respirou fundo, o coração acelerado.