Tubarão

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Tomara q gostem.

— Não!

Ela me dizia séria pela terceira vez, os olhos azuis apertadinhos. Um pedacinho de gente, que mal batia na minha cintura, parada na minha frente exigindo minha presença ao lado dela no banheiro enquanto ela urinava.

— Por quê? – perguntei novamente para ouvir a mesma resposta da outra vez.

— Porque eu tenho medo.

— Medo? – perguntei colocando as mãos na cintura. – Medo de quê?

— De tubarão. – aquele assunto era super sério para ela, principalmente porque a mana mais velha fazia questão de aterrorizar.

Me acoquei, para ficar na altura dela, tomando ar buscando paciência onde já não havia.

— Meu bem... – comecei – Tubarões não saem de vasos sanitários.

— Saem sim! – resposta exclamativa salientada por uma mãozinha erguida diante do meu rosto.

E se saíssem?

Me deu vontade de perguntar. Minha presença parada, encostada na parede não era garantia de que ele deixaria de escapar pelo cano e abocanhar a rechonchuda bundinha dela.

Outra vez o ar foi puxado com força.

— Dai-me forças! – pedi em silêncio.

Nesse instante percebi que ela começava a se contorcer, apertar as coxas grossas uma contra a outra. Ia acabar concluindo o trabalho ali mesmo, bem na minha frente, se demorasse mais em dar a resposta. E quem teria que limpar tudo depois? Quem teria que banhá-la? Quem teria de trocar toda a sua roupa?

Resposta: eu!

— Vamos lá!

Falei, vencida pelo cansaço. Ela sorriu mostrando aquela arcada dentária torta. Os dentes superiores não encaixavam nos inferiores o que a deixava ainda mais engraçadinha do que já era. E ainda mais irresistível para uma mãe boba.

Sentada no vaso, a calcinha enrolada nos joelhos gordinhos e o rosto apoiado nas mãos ela não tirava os olhos de mim, como se eu pudesse escapar a qualquer momento e deixa-la ali, a mercê de um animal sanguinário que pretendia acabar com a vida dela.

— Deu. – falou finalmente. Parecia que ela fazia por gosto, demorava um tempão.

Peguei o papel higiênico. Ela se limpou, mesmo que não ficasse cem por cento, precisava aprender a se virar, afinal no ano seguinte enfrentaria a escolinha. Lavamos e secamos as mãos. Isso é muito importante mesmo que tubarões possam escapar também pela torneira do banheiro. Ou pelo chuveiro, ou ainda pelo ralo.

Isso aconteceu há tantos anos. A curta fase tubarão matador passou. A professora nem soube que existiu. Ela agora faz tudo sozinha. Não precisa mais de mim para afastar o medo de tubarões pois sabe que tubarões não saem de vasos sanitários. Os dentes estão perfeitos. Mas incrivelmente parece que não cresceu. De alguma forma ainda é uma criança que grita: Mãe lá do quarto e eu vou, vou para saber o que precisa. E porque precisa.

Afinal isso raramente acontece agora.

Por isso, enquanto ela estiver aqui, assim será. Logo haverá na vida dela um namorado que talvez se transforme em marido, filhos, que serão meus netos. Entretanto. Neste momento ela ainda é minha. Posso aproveitar novas situações, novas descobertas. Tenho uma amiga para fofocar, para passear e fazer compras, para preparar guloseimas. Ela cozinha bem!

O que desencadeou essas lembranças? E todas essas palavras?

Um corte de cabelo. Uma simples franja... engraçada a mente da gente né...?

Notas finais
Foi, beijocas para quem ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!