Tu Supermán
1 Capítulo único
Notas iniciais
POV Sergio
Me viro na cama mais uma vez tentando achar uma posição confortável, minha mente agitada, um caos de pensamentos. Olho para o relógio ao meu lado são 4:18 da madrugada, a casa encontra-se no mais completo silêncio, porém minha mente agitada não parece querer se acalmar hoje. Raquel dorme serena ao meu lado, me levanto devagar para não acordá-la, silenciosamente caminhou pela casa antes de chegar ao meu destino nossa varanda faço uma parada na sala, pego o velho álbum de fotos da família Murillo-Marquina. Com o objeto em mãos me sento no sofá, abrindo o álbum nas primeiras páginas há fotos da saudosa Marivi, algumas fotos da infância da Raquel e sua irmão, continuo a folhear o livro até achar as fotos que quero ver no momento, as fotos de minha doce garotinha.
Te imagino dentro de seis años
Corriendo con tu diente en una mano
El susto y la alegría
Se mezclan en tu cara
Mientras escondes tu ilusión bajo la almohada
Paula era um bebê gorducho, risonha e de olhinhos brilhantes, imagens dela dando seus primeiros passos, os primeiros aniversários, primeiro dia de aula entre os vários acontecimentos têm um que sempre me chamou a atenção, Paulita por volta de seu seis anos com uma expressão engraçada no rosto e a pequena mãozinha aberta mostrando seu primeiro dente de leite que havia caído. Raquel contou que a menina saltitava pela casa ansiosa pela hora de dormir em que a fada do dente viria recolher seu dente.
Miro o céu estrelado, lembranças vem à tona como se tivessem acontecendo neste instante. O dia em que conheci Paula, os primeiros meses de adaptação quando elas vieram morar comigo. Eu a levava para a escola todas as manhãs e as tardes brincávamos na praia, eu lhe ensinava a tocar piano, fazer origamis, brincavamos na praia e respondia suas inúmeras perguntas. Nós nos divertimos tanto, d entre as lembranças uma é a mais especial para mim.
Flashback on
Era para ser mais uma quinta-feira normal. Levei Paula para a escola, ao me despedir prometi que iríamos tomar sorvete depois da escola. Por volta das 10 horas ligaram da escola avisando que a garotinha tinha se machucado na aula de educação física, a enfermeira da escola já havia cuidado dela, mas precisava de alguém para buscá-la. Marivi tinha uma consulta médica e Raquel foi acompanhá-la, sobrando para mim a tarefa de apanhar a pequena na escola. Fui o mais rápido possível, no corredor que dava acesso a enfermaria eu conseguia ouvir seu pranto angustiado.
“Eu quero o meu papai. Meu papai vai fazer a dor passar” Ela pedia em meio ao choro eu travei por um momento, ela queria o pai e devido a nossa situação ela nunca mais o veria. Respirei tentando me acalmar e assim tentar acalmar a menina.
“Já liguei para sua casa, daqui a pouco alguém vem para te buscar.” A enfermeira gentilmente tentou acalmá-la.
“Paulita, meu bem, o que houve?” Questiono assim que adentro a enfermaria, a menina ao ouvir minha voz levanta correndo da cadeira em que estava sentada e se joga em meus braços.
“Papai, eu estava pedindo por você!” suas palavras me fazem congelar de emoção.
“ Do que você me chamou, meu bem?” Pergunto ainda em choque.
“ Te chamei de … papai “ Paula se dá conta de como me chamou e abaixa a cabeça envergonhada.
“Hey, querida. Olhe para mim.” Peço enquanto ergo seu rosto para que possa olhar nos meus olhos. “ É assim que você me considera? Como … Seu pai?” Pergunto hesitante com medo da resposta.
“ Sim, você cuida de mim, me ensina várias coisas, brinca comigo, lê para mim, me dá beijo de boa noite, sempre faz as coisas que eu quero e nunca briga comigo se eu errei você senta e conversa. E eu te amo.“ — A última parte ela sussurrou tão baixo que se eu não estivesse bem perto dela talvez não tivesse escutado.
“ Eu também te amo, e amo fazer todas essas coisas com você. Seria uma honra ser o seu pai.” Falo a abraçando novamente, a pequena Murillo me tem enrolado em torno de seu dedo mindinho se ela me pedisse a lua eu daria a ela. “ Agora me conte o que houve com o seu braço.” Peço ao ver a tipóia no seu braço esquerdo.
“ Eu tropecei e cai em cima do braço, doeu muito e eu fiquei com medo” Ela conta.
“ Tá tudo bem, eu tô aqui agora e vou cuidar muito bem de você” Digo tentando confortá-la. “Vamos para casa?” Pergunto por fim.
“E o sorvete que você tinha me prometido?” — Paula pergunta.
“Sorvete? Antes do almoço? Só se você quiser que sua mãe coloque nós dois de castigo” Digo a ela
“ Mamãe não precisa saber disso” Ela tenta me fazer mudar de ideia.
“ Sabe muito bem que sua mãe sempre descobre tudo. Fazemos assim, vamos para casa, eu faço um almoço bem gostoso para nós e à tarde vamos nós quatro à sorveteria, pode ser?” Proponho.
“ Sim!” Ela responde empolgada por ter uma tarde em família.
Como prometido, tivemos uma agradável tarde em família a pequena se divertiu tanto que até esqueceu da luxação no braço, a noite depois do jantar sempre vamos para a varanda ler ou ficar conversando. Nessa noite ela quis que eu lesse para ela, o livro escolhido naquele dia foi O pequeno príncipe, sua história favorita. Paula se aconchegou do meu lado e eu comecei a contar a história, uns minutos após começar a ler olho para meu colo,a garotinha dorme serenamente em meus braços nesse momento me sinto o homem mais sortudo do mundo, como um super herói. Minha vontade é proteger essa menininha de toda maldade do mundo.
Flashback off
Tem quase vinte anos e ainda me emociona lembrar deste dia. Meses depois nos separamos, Rio foi capturado e como não poderia ser diferente embarcamos em um missão quase suicida para resgatá-lo. Para manter nossa filha em segurança mandamos, Paula e Marivì para Mindanao, eu achava que perder Andrés tinha sido doloroso, nada se compara a ter que me despedir da minha menina sem saber se voltaria a vê-la.
Flashback on
Paula apesar de tímida é extremamente observadora, sempre nos questionava por que tínhamos nos mudado para tão longe. Tanto eu quanto Raquel sempre prezamos pela honestidade, Paula é muito madura e esperta para a idade dela então sabíamos que uma desculpa qualquer não a convenceria, resolvemos contar a verdade a ela. Semanas depois do ocorrido, Tokyo entrou em contato com um dos atravessadores, Rio tinha sido pego.
"Paula meu anjo, é para o seu bem. Também não queria isso, mas não sabemos qual é a real situação. Quando tudo acabar, prometo que vamos buscar você e sua avó." Digo pacientemente tentando convencer a garota.
"Eu quero ficar com você e com a mamãe. Eu prometo que me comporto." Ela tenta barganhar.
"Querida, a questão não é essa. Tu és a menina mais comportada que eu conheço. Não sabemos direito o que aconteceu com o Rio e vai ser muito perigoso você ficar aqui." Raquel explica de maneira doce.
"Será por pouco tempo, não se preocupe, iremos te buscar. Eu te amo ao infinito e além." Falo a ela.
" Eu vou ficar com muitas saudades de vocês. E também amo vocês ao infinito e além" Paula diz agarrada a nós.
"Agora vá com a vovó ela está te esperando no barco" Raquel fala por fim já não conseguindo mais segurar as lágrimas.
Ficamos lá parados até o barco sumir de vista, ambos com o rosto banhados em lágrimas. A dor era imensa, porém sabíamos que era o certo a se fazer. Por maior que seja a saudade e incerteza do que que vai acontecer nunca seríamos capazes de deixar nossa filha no meio disso tudo.
Flashback off
Dias depois o pessoal chegou, no início ficaram bravos e com medo. O que é perfeitamente normal, aos poucos, os convenci de que somos família e ninguém fica para trás.
Correndo contra o tempo para ajustar e pôr em prática o plano de Andrés e Martin, foram dois meses bastante intensos. No final deu tudo certo, resgatamos Rio, quase perdemos Tokyo e Nairobi e para meu desespero a polícia tentou me enganar forjando a morte de Raquel, pensei seriamente em desistir de tudo. Lembrar da promessa que tinha feito a minha filha me deu forças para continuar.
Logo após o assalto cada dupla partiu para um lado, Raquel e eu fomos para Mindanao como combinado, buscamos nossa pequena e regressamos ao nosso lar.
Pouco mais de seis meses depois a banda se mudou de mala e cuia para Palawan, os primeiros a aparecerem foram Denver e Estocolmo junto com o pequeno Cincinnati, depois foi a vez de Tokyo já recuperada dos tiros que levara e Rio, Palermo e Helsinki, Pamplona, Manila e Benjamin, Alícia com a pequena Victoria e Marseille. E por último Bogotá e Nairobi ainda se recuperando dos ferimentos e o motivo dos meus cabelos brancos Axel. Sim Axel, ele descobriu que Ághata não havia o abandonado e quis voltar a viver com ela, o exército teve que acatar a decisão depois que usaram o menino para tentar matar Nairóbi.
Axel é um doce de menino, gentil,prestativo e sempre querendo aprender coisas novas principalmente em relação à culinária. No início ele era muito retraído até mesmo com Ágatha a única que conseguia se aproximar de verdade era Paula.
Flashback on
Sábado ensolarado eu só queria um pouco de sossego, mas quem disse que minha vontade será atendida? 8 da manhã e a trupe de bagunceiros já estava quase pondo minha porta abaixo. Acho que eles não tem noção do perigo que é acordar minha mulher muito grávida tão cedo da manhã, ela só deu um olhar mortal aos mais bagunceiros : Nairobi, Denver e Tokyo que os fez encolher e já foi colocando todo mundo pra trabalhar.
" Nairobi, Rio e Sérgio. Vocês vão fazer o café da manhã. Tokyo e Denver lavam a louça depois, Helsinki e Palermo colocam a mesa, Estocolmo e Manila cuidem das crianças e da Alicia. Tô indo pro banho" Raquel ditou as ordens e subiu as escadas rumo ao nosso quarto sem nem olhar para trás.
" Ouviram a Raquel, se não quiserem ficar sem as orelhas. Sugiro que façamos o que ela mandou" Palermo graceja.
" Ou ela pode nos deixar sem comida" — Denver continua.
" Pior ainda nos ajoelhar no milho." Rio acrescenta.
“Bueno, se têm noção do risco que correm, por que estão brincando ao invés de trabalhar?” Ralho com eles, depois disto cada um foi fazer o que lhe foi atribuído.
Horas mais tarde, estávamos reunidos na beira da praia conversando e brincando. Axel encontrava-se quieto apenas assistindo nossa interação. Minha filha se levantou de seu lugar para sentar ao lado do menino, foi nítida sua mudança de expressão seus olhinhos chegaram a brilhar e um alerta vermelho começou a piscar em minha mente. Os observei brincar por uns instantes retornado a conversar com os adultos quando ele me chamou.
“ Tio Sérgio” — Axl me chamou timidamente
“ Pode falar,sou todo ouvidos” Respondi ao garoto
“ Um dia quando Paula e eu formos adultos nós vamos nos casar. Aqui mesmo nessa praia” O menino disse com propriedade, Paula ostenta um sorriso imenso ao ouvir isso. Pego de surpresa quase infartei, Raquel ao invés de me acudir se juntou aos outros para zombar de mim.
Flashback Off
Após esse dia foi inevitável olhar Axel com outros olhos, agora eu o via e imaginava ele em uma versão mais velha, fugindo com minha filha para algum lugar distante. Raquel dizia para eu deixar de ser paranóico, que aquilo era apenas coisa de criança e que eles eventualmente esqueceriam daquilo. Me apeguei às suas palavras e rezei para que ela estivesse certa. Nunca me imaginei virando um pai ciumento.
Continuo olhando para o firmamento com minha mente vagando por minha memórias, passaram -se alguns anos, nossa barulhenta e enorme família aumentou ao longo dos anos, eu e Raquel tivemos dois meninos Andrés e Miguel, Denver e Estocolmo tiveram a Helena. Nairobi queria muito que seu filho se chamasse Ibiza, porém foi voto vencido e o garotinho acabou se chamando Santiago. Até mesmo Tokyo que jurou de pé junto que nunca teria filhos os teve e para seu desespero foram três de uma só vez: Salvador, Dakota e Logan. Palermo e Helsinki adotaram dois irmãos, também Gael e Lorena. Mas nem tudo na vida foram momentos felizes.
Flashback on
O dia amanheceu cinza para combinar com nosso humor, todos estamos tristes. Acabamos de voltar do funeral de Mariví, embora saibamos que ela teve uma vida plena e feliz e que partiu pacificamente durante o sono, ainda sim é doloroso saber que ela não estará mais aqui. Todos a amavamos muito, ela era nossa figura materna a vovó amada de todos os pequenos, que em seus momentos cada vez mais raros de lucidez nos dava grandes conselhos, uma mulher doce, generosa e muito engraçada que vai nos deixar imensas saudades.
Meus filhos estão inconsoláveis, os três eram muito apegados à avó. Passaram o dia todo abraçados, chorando baixinho é de partir o coração. Infelizmente não há como mudar , esse é o ciclo da vida e um dia todos nós partiremos deste mundo.
Flashback off
Nos dias posteriores, passamos várias horas reunidos lembrando dos momentos bons que passamos juntos com Mariví. Isso ajudou muito e aos poucos a tristeza foi dando lugar a saudade e a gratidão por tudo que vivemos juntos.
Flashback on
Te imagino a tus dieciséis años
Reinando en el castillo de tu cuarto
Llegando de puntillas
En plena madrugada
Porque duermes esa noche acompañada
Os pais temem a adolescência dos filhos por um único motivo, também já fomos adolescentes e fizemos tudo que eles querem fazer nessa idade. Apesar dos meus temores Paula é uma boa garota não é de fazer birra, se comporta bem em casa e na escola, com exceção de uma única coisa a pilantrinha tem saído escondida durante a noite. Ela se acha muito esperta, pensa que não a ouço se esgueirar pela casa durante a madrugada.
“ Cariño, penso que já passou da hora de confrontá-la. Ela pensa que não suspeitamos de nada” Indago minha mulher.
“ Penso que sim, mas estás preparado para o que pode ouvir ou ver?” Raquel pergunta.
“Como assim ver ?” Devolvo a pergunta um pouco confuso.
“ Sérgio, você é muito ingênuo. Querido, ela pode não estar sozinha no quarto.” Raquel me responde, demora alguns segundos para que eu entenda.
“ Você acha que a minha garotinha está fazendo …” O choque é grande demais para que eu consiga terminar a frase.
“Fazendo sexo? Bem provável, ela não é mais uma menininha. Paula já tem dezesseis anos. “ Raquel rebate.
“ Ela pode ter quarenta anos e ainda assim vai ser minha garotinha. Vamos lá resolver isso já!” Respondo já saindo do quarto.
Ao abrir a porta do quarto de Paula me deparo com minha filha e Axel dormindo abraçados, porém para o meu alívio ambos vestidos. Raquel e eu voltamos para o nosso quarto deixando a conversa para a manhã seguinte.
Mal amanheceu e já estou de pé, a janela do quarto de Paula vai dar no nosso quintal dos fundos, para que não tenha como fugir já os estou esperando sentado num dos sofás que tem ali. perto das 7h vejo a janela se abrir e o jovem se esgueirar para fora do quarto. Eles estão conversando, por isso não me notam. Axel é o primeiro a reparar a minha presença, seu sorriso rapidamente some se transformando em uma expressão um tanto cômica. Faço um gesto para os dois para que se juntem a mim, Paula nem se dá ao trabalho de descer as escadas e faz os mesmo trajeto feito pelo garoto segundos antes. Fico de pé ordenando que sentem-se, no exato instante Raquel aparece.
“ Quem vai querer começar a se explicar?” Raquel pergunta com a sobrancelha arqueada, sua expressão é de dar medo.
“Mãe é que …”
“ Tia Raquel …” Os dois falam ao mesmo tempo
“ Um de cada vez, por favor.” os instruo. Os jovens se olham e Axel começa.
“ O que fizemos foi errado eu sei, mas eu amo Paula mais que tudo e gosto muito de poder dormir abraçado a ela é tudo o que fazemos eu juro.” Explica ele
“ Desde quando estão fazendo isso?” pergunta Raquel
“ Desde que começamos a namorar há uns três meses atrás.” Paula responde como se fosse algo sem importância.
"Vocês estão namorando? Quando pretendiam contar pra gente?” Pergunto aturdido.
“ Achei que já tinham entendido quando o viu saindo do meu quarto, eu e Ax, conversamos a gente ia falar com vocês hoje a noite.” Ela responde.
“ Eu tinha esperança de que fossem dois amigos grudentos.” Digo a eles. “ Já que a situação mudou. Diga-me Axel Jiménez quais são as suas reais intenções com minha filha?” Pergunto tentando soar amedrontador, o que faz Raquel rir e Paula revirar os olhos.
“São as mais sérias, lembra o que eu disse a você quando éramos crianças?” Pergunta Axel sério.
"Pensei que era papo de criança.” Respondo
“ Não é, eu amo a Paula e farei tudo que estiver ao meu alcance para fazê-la feliz. Tem minha palavra.” O jovem fala de maneira firme e verdadeira.
“ Lembre-se que se você quebrar o coração da minha filha, eu tenho uma arma e eu irei atrás de você até no inferno se preciso for.” Raquel o ameaça.
“Querida, ensinamos nossa filha a atirar, lembra? E os meninos adorariam usar o arco e flecha.deles” Digo calmamente para lembrar ao garoto que deve ter cuidado se machucar minha menina.
“Se eu magoar Paula, a primeira a me perseguir será minha mãe.”Ele confessa com receio.
“Ainda bem, que sabes bem onde te metestes. Agora temos algumas regras para vocês." Raquel diz.
Flashback off
Por incrível que pareça eles obedeceram as regras direitinho, muito mais comportados que os malucos que eles chamam de tios. Ao completarem 18 anos decidiram que queriam cursar faculdade na Espanha. Nós os pais ficamos preocupados mais uma vez íamos nos separar, o acordo que fizemos com Tamayo nos permite andar livremente então não havia empecilhos à partida deles, pois facilmente poderíamos vistar uns aos outros. Ponderei esse e tantos outros motivos. Meu maior medo era que Paula fosse atrás de Alberto e me esquecesse, estupidez eu sei só que o coração de um pai simplesmente parece não querer entender.
Foram cinco longos anos, Paula cursou psicologia e Axel gastronomia. Ax terminou seu curso primeiro e aproveitou para fazer um intercâmbio de um ano na França e na Itália. Minha filha se especializou em psicologia infantil. Paula nunca procurou pelo pai biológico comprovando que meus medos eram infundados.
Flashback on
Estamos reunidos no auditório da Universidad Europea de Madrid, daqui a pouco começa a cerimônia de formatura de Paula. Todos eufóricos para presenciar mais essa etapa da vida dela. Nosso numeroso e barulhento grupo ocupa quase metade do auditório. Um a um os formando vão sendo chamados, assim que chegou a vez de Paula nos pusemos de pé com direito a muitos gritos, palmas e assovios.
Findada a solenidade nos dirigimos para a agora reformada casa que nos serviu de esconderijo em Toledo, lá seria realizada uma festa de comemoração. Estava saindo do carro no momento em que Axel me abordou.
“Tio, posso falar com você um momento? Em particular” Me pede acanhado
“Do que se trata?” Pergunto agitado
“Nada de mais, só quero te perguntar uma coisa.” Ele tenta me tranquilizar enquanto nos afastamos dos outros.
“Creio que daqui ninguém pode nos ouvir, pode falar.” Informo-o.
“Bem, por onde começar … — Ele diz tentando escolher as palavras.
"Pelo começo seria bom.” Gracejo para tentar aliviar o clima. “ Axel, relaxa sou eu Sérgio te vi crescer, não precisa de tanto rodeio, te acalma e fala.” Tranquilizo-o.
“Certo, não é novidade para ninguém o quanto eu amo sua filha. Ela é o meu mundo. Minha vida só faz sentido se ela fizer parte dela. Hoje vou pedir Paula em casamento, achei que devia perguntar a você primeiro. Tenho sua benção?” Ax pergunta nervoso.
“Garoto, pode parecer que não aprovo o relacionamento de vocês, mas eu não poderia ter pedido genro melhor, tenho muito orgulho do homem que te tornastes. Tudo que fiz foi para proteger minha garotinha, o dia que tiver uma filha me entenderá. Claro que você tem minha benção.” Confesso emotivo.
Após a conversa voltamos para a celebração, algo bem informal já que éramos só o bando de desajustados que chamamos de família. No meio da refeição, Axel que estava sentado à minha frente fez um gesto perguntando a mim se podia fazer o pedido, apenas acenei com a cabeça dando o consentimento.
“ Pessoal, eu gostaria de dizer algumas palavrinhas.” Ele fala visivelmente nervoso. gesticulei para que ele respire fundo e se acalme antes de falar. “ Paula, meu amor parabéns por mais essa conquista. você batalhou tanto para chegar até aqui, se esforçou tanto. Me sinto muito orgulhoso de ter estado junto de ti até agora.”
“Ah, meu amor, só tenho a agradecer por todo o apoio que você me deu durante toda essa jornada.” Paula agradece emocionada.
"Calma, ainda não acabei.” Ele se levanta, vira-se, segura firme as mãos de Paula e continua. “Quando eu conheci você, percebi que tinha encontrado meu par. Nós nos divertimos como melhores amigos, amamos como almas gêmeas, brigamos algumas vezes por motivos bobos, mas sempre ficamos unidos como uma família. Era apenas uma questão de tempo até chegarmos a esse momento tão especial. Agora está em suas mãos: aceita casar comigo?” Axel fez o pedido.
“sim, mil vezes!” Ela exclamou emocionada se jogando em seus braços.
Flashback off
Como prometeram, logo depois de formados voltaram para casa. Axel está para abrir um restaurante e Paula trabalha numa ONG junto com Nairobi e Raquel. Fazem seis meses do pedido de casamento, o casamento será daqui algumas horas. Esse é o motivo da minha insônia. A partir de amanhã Paula será uma Jiménez Vejo nos olhos deles o quanto se amam e sei que é irracional, mas mesmo assim o sentimento de perda me assola .
“Tinha quase certeza que ia te encontrar aqui.” Paula fala atrás de mim.
“Acordada a essa hora, pretende fugir? Ainda dá tempo.” Digo me virando para encará-la.
‘Pai, sabe bem que eu nunca fugiria.” Ela rebate .
“ Ninguém pode me culpar por tentar.” Falo dando de ombros.
“Pode até se fazer de durão, mas todos sabemos que você ama Axel e também sabe que não há mais ninguém com quem eu queira compartilhar a vida.” Paula assegura.
“Sim, eu o amo, entretanto amo mais a você. Não importa que não tenhamos o mesmo sangue ou que você tenha 50 anos. Sempre serás minha garotinha tagarela.” Confesso.
“Ah, papai. Eu te amo tanto, você é o melhor pai que minha mãe podia ter me dado… Lembra que eu te chamei de bobo quando nos despedimos antes de eu ir pra faculdade?” — Ela perguntou risonha.
“Lembro. Só nunca soube o por quê.“ Respondo curioso.
“Mamãe me contou o motivo de você não querer que eu voltasse para a Espanha.” Confessa rindo baixinho para não acordar ninguém.
“ Raquel, sua traidora.” Exclamo com falsa braveza.
"O que você tá vendo aí?” Paula indaga, vendo o objeto na minha mão.
“Umas fotos antigas, estava me sentindo nostálgico." Mostro a página que estava vendo por último, uma foto de nós cinco abraçados no aeroporto nos despedindo de Paula.
“Quero ter uma família exatamente igual a nossa.” Afirma ela.
“Grande e barulhenta?” Pergunto fazendo graça.
“Não, unida e amorosa. A bagunça vem de brinde.’ Responde se aconchegando no meu ombro tal qual como quando era criança.
“ E você terá” Digo beijando sua testa, ficamos ali em silêncio. Quando reparo que Paula dorme serena. Com dó de acordá-la, fico ali olhando para ela.
Ahora te miro hipnotizado
Mientras duermes en mis brazos
Y me siento
Tu supermán
Por eso déjame guardar
En un cajón de mi memoria
Este momento
Como un talismán
Porque el tiempo es sólo arena
Que se escapa entre los dedos
Y algún día
Tú también volarás
XXXX
Y cuando duermas a tus hijos
En la cuna de tus brazos
Te acordarás
De tu supermán
Te imagino el día de tu boda
Deja que me agarre estoy nerviosa
Me miras fijamente
Y floto en una nube
Con el brillo de tus dos ojos azules
Ahora te miro hipnotizado
Mientras duermes en mis brazos
Y me siento
Tu supermán
A pedido dos meninos, Palermo e Helsinki celebraram o casamento. A cerimônia foi lindíssima. Levar minha filha até o altar, vendo a devoção nos olhos do noivo compensa tudo. Axel e Paula foram feitos um para o outro. E ainda tive a grata surpresa de saber que Paula não mudou de sobrenome, apenas acrescentou o sobrenome do marido. Agora ela é Paula Murillo- Marquina y Jiménez, sim um nome gigante, mas segundo ela é sua essência, nunca conseguiria abrir mão de suas raízes.
A banda toca Isn’t She Lovely para nossa dança pai e filha, valsar com ela é sempre uma alegria.
“Obrigada” Paula sussurra com os olhos marejados.
“ Pelo o que?” Indago-a.
“Por tudo. Por ter me amado, me protegido, por fazer minhas vontades e sobretudo por me ensinar e encorajar a tomar minhas próprias decisões.” Ela responde.
“Querida ,não há por que agradecer. Fiz tudo isso simplesmente por amar você. Quis ensinar valores e encorajar para que você fosse uma adulta independente, forte e corajosa. Exatamente como és. O dia que tiveres um filho saberá o que eu digo.” Asseguro a ela.
“ Vai acontecer mais breve do que o senhor imagina.” Ela revela.
“ Como é? Você está … Grávida?” Indago aparvalhado.
“ Sim, espero não ter te decepcionado. Por vocês nos acharem jovens demais. Você é o primeiro a saber. Nem Ax ou a mamãe sabem ainda“ Ela diz baixinho.
“ Me decepcionar? Nunca. Você é forte decidida, corajosa e vai ser uma ótima mãe” Declaro emocionado. “Mal posso esperar para ser chamado de vovô. Prepare-se pois irei mimar muito ele ou ela.
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