Tsuru
2 Capítulo 2
O comboio humano era escoltado por três soldados. Divididos em duas filas, uma masculina e outra feminina, as pessoas de diferentes faixas etárias prosseguiam em direção à Konoha. As roupas não passavam de maltrapilho na cor bege acinzentado morto, e com vários rasgos.
Os soldados que encabeçavam a formação vestiam um conjunto de protetores para canelas e braços. Talhado no colete rijo, o novo símbolo de Konoha. Comentavam o fato de que a palavra Shinobi escrita em Kanji, o novo símbolo da vila, fora embasado no Kanji que significava arma.
Poucos tinham coragem de tocar no assunto, mas, diziam que se olhasse para a insígnia de um determinado ângulo veriam o Kanji de Shinobi transformar-se no de arma. Não que Naruto realmente se importasse com os malditos Kanjis, mas sim com o significado por trás deles, e isso estava bem claro na sua mente.
Para Danzou Shinobis não passavam de armas, instrumentos para alcançar seus próprios objetivos.
Uma gota de suor desceu de sua têmpora direita, deslizando pelo seu rosto e alcançando o queixo, do qual jogou-se ao chão. O maxilar tensionado denunciava o nervosismo, assim como as mãos que suavam por debaixo das luvas pretas. Até aquele momento, a operação havia sido executada sem falhas.
Juntamente com Sasuke e Sakura, Naruto havia emboscado os guardas que escoltavam os prisioneiros. O ataque surpresa fora vital, já que a batalha havia sido breve e com isso pouparam tempo. Não seria seguro desperdiçarem um segundo sequer. Os prisioneiros foram guiados até à resistência e substituídos por clones de Naruto – sendo que as pessoas que ele escoltava agora, não passavam de seus clones com jutsu de transformação.
- Naruto, nós temos que aparentar calma. – A voz de Sakura chegou aos seus ouvidos, abafada devido à máscara de algum animal que o não reconhecia. Mas havia três manchas vermelhas distribuídas uma em cada bochecha e outra cobrindo a testa, e um focinho felino.
- Eu estou tentando, mas é difícil. – Retrucou. Sua máscara de raposa escondia a feição irritada.
- Nós estamos nos preparando para isso já faz meses, então não vá pôr tudo a perder logo agora. – Ela o olhava fixamente. Mesmo que ambos não conseguissem enxergar por trás da máscara, os dois sustentavam olhares incomodados.
O Uzumaki sabia muito bem quanto tempo havia gastado para estar ali, e Sakura realmente não precisava lembrá-lo. Desde que Konoha fora invadida, há cinco anos, ele se preparava para o dia em que a resistência conseguiria sobrepor o poder de Danzou.
As lembranças vagavam vividamente por sua mente, ao menos uma vez por dia ele obrigava-se a se lembrar pelo o que estava lutando. Não sabia se era motivado mais pelo ódio que sentia por Danzou ou pela vontade de libertar o lugar que um dia fora a sua casa.
Ele deixou ser tomado novamente pela lembrança daquela noite. Talvez assim conseguisse concentrar-se na missão.
Seu sono fora interrompido pelo som incomum que viera da cozinha. Ele não se preocuparia muito com o fato propriamente dito, pois poderia muito bem ser qualquer pessoa que morasse com ele almejando um copo d’água ou um lanche noturno. Contudo, o fato dele não possuir uma família era o problema. Quem quer que fosse a pessoa que trouxera seus sentidos à tona, era um intruso.
Levou a mão ao criado mudo, agarrando uma Kunai que descansava ao seu lado. Quando se mora sozinho era necessário medidas de proteção, já que não haveria ninguém para fazê-lo por você.
A visão tornava-se menos turva à medida que os olhos acostumavam-se à escuridão. Os pés pousaram no assoalho sem fazer ruído. O loiro tentava ao máximo controlar a respiração, que tornou-se esbaforida sem nem ao menos perceber quando, mas mesmo assim o som enchia o quarto.
Os passos eram perfeitamente ritmados, quem quer que fosse não parecia querer se ocultar. Essa constatação preencheu seu corpo com um medo que nunca havia sentido.
“Essa pessoa está muito calma e não está tentando se esconder. Quem que seja, é treinado para matar e já esteve nessa situação muitas vezes.”, pensou. A adrenalina dava voltas pelo seu interior e talvez fosse a razão de sua mente pôr aquela conclusão em evidência.
Sua mão cobriu o metal frio da maçaneta, girando-a lentamente. Puxou a porta velha de madeira em sua direção. Naruto estava consciente que se a puxasse mais um pouco, ela rangeria tão alto que o denunciaria. Mas não havia outra opção, havia se tornado gennin há pouco tempo e ele não poderia deixar-se abater por aquilo.
Abriu o restante da porta rapidamente. O ranger veio alto, mas o som de uma explosão próxima que encheu todo seu apartamento e a vizinhança, sobrepôs qualquer barulho. Os vidros da janela balançaram com força, o loiro esperou o momento em que elas virassem nada mais do que migalhas no chão, mas isso não ocorreu. Uma fina poeira flutuou do teto ao chão.
Uma sensação nauseante atravessou seu corpo. As pontas dos dedos começavam a formigar e os cantos da visão eram borrões negros, que há um segundo não existiam. O pânico brotava de uma forma nunca antes experimentada.
Uma nuvem de fumaça ascendeu, não demoraria até o ambiente tornar-se sufocante. Ele não podia sair ainda, tinha que resolver a situação em que se encontrava primeiro. Girou sobre os calcanhares, tornando os olhos da janela para a escuridão do corredor. Deu um passo em direção ao corredor, um punho, que ele não conseguira detectar, retirou todo o ar de seus pulmões com o soco que recebera na boca do estômago.
Seu corpo curvou-se para frente irremediavelmente. Antes que pudesse tomar qualquer atitude, o joelho do homem — pelo soco fora fácil perceber que era um homem. — acertara seu nariz em cheio. Pensou ter quebrado o nariz mediante a dor que sentira, porém como não ouvira nenhum barulho vindo dele, concluiu que por pouco não o quebrara. Avançara em direção ao algoz, a kunai assobiava ao cortar o ar.
Sentira o aperto de aço envolta de seu pulso, girando-o num ângulo incômodo. Sentiu o ar escapar-lhe novamente ao ser atingido no tórax. Seu corpo fora arremessado para trás, as costas e a nuca colidiram violentamente contra a cabeceira da cama. A visão turvou-se, a consciência equilibrava-se na tênue linha que o separava do desmaio.
A figura a sua frente parecia dissolver-se na escuridão do cômodo. Entre as poucas que ele conseguia distinguir, estava o colete avermelhado-sangue e a máscara que cobria o seu semblante. O odor férreo invadia seu sentido sem permissão. Num instante Naruto percebera que talvez o que tingia o colete não fosse tinta.
"Merda!", o xingamento ecoara tão alto e claro em sua mente que duvidava se isso havia ficado somente em sua cabeça. "Eu não posso morrer. Eu tenho que ajudar a defender a vila. Eu quero me tornar Hokage."
Um soluço desesperado subiu do fundo da garganta, mas obrigou-se a sufocá-lo antes que saísse por seus lábios.
Não fraquejaria.
Apertou a Kunai entre os dedos e, aos trôpego, colocou-se de pé. Sua mão tremia, contudo a causa era o forte aperto que fazia as pontas dos dedos perderem a cor. Mesmo com a visão nublada, o louro decidira que avançaria, atacaria com os poucos recursos que tinha. Naruto sentiu cada músculo se contraindo, o maxilar apertado pela tensão. As narinas infladas buscando por ar.
Mas antes que pudesse se mover, algo atravessou a janela deixando um rastro de cacos de vidro pelo chão e fincou no chão. Àquela altura já começava a distinguir os contornos dos objetos. A lâmina, igual a que estava em sua mão, estava agarrada ao piso de madeira, entre ele e o intruso. Duas pequenas esferas negras jaziam penduradas por uma linha atada à argola.
A adrenalina deu lugar a um sentimento que não conseguia discernir ao certo. Naruto duvidava se estava em seu juízo perfeito, poderia estar mesmo sentindo alívio ou prazer — realmente não conseguiu dar um veredicto quanto a isso.- por saber que aqueles explosivos, que sabe-se lá quem tenha jogado, matariam ambos?
Era engraçado como uma decisão poderia mudar tão rápido. Segundos atrás estava obstinado a atacá-lo com o que tinha, e agora tudo que vinha a cabeça era que tinha que mantê-lo ali para ambos morrerem. Mais engraçado era o fato de não ter visto nenhum filme com momentos de sua vida, era o que todos diziam que acontecia quando alguém se encontrava à beira da morte. Os segundos pareciam se alongar absurdamente.
Os lacres das esferas se romperam numa explosão de fumaça. Tão negra e densa que sequer conseguia seu próprio nariz. A fumaça descia por sua garganta queimando-a, assim como os seus pulmões. Mesmo que não pudesse enxergar nada, ele conhecia tão bem a sua casa que poderia andar por todos os cômodos sem esbarrar em um móvel. Um sorriso brotou na sua face.
Tudo havia mudado novamente.
Quando deu por si já estava com a Kunai cravada no abdômen do intruso. Sentiu o aperto estrangulador no pescoço. Não sabia exatamente se os borrões negros pela falta de oxigênio já o atingiam, porque simplesmente não conseguia ver nada. Girou a lâmina nas entranhas do agressor, o grito surgiu como um rugido grotesco.
Sentiu as mãos se afrouxarem. Sua respiração tornou-se áspera, era tão estranho que não parecia um mais ato involuntário. Algo puxou seu braço com força, mas estava desnorteado demais com o sangue que escorria pelas suas mãos para conseguir reagir. Quando conseguira voltar a si, se percebera correndo a esmo pelas ruelas da vila.
Meio guiado, meio arrastado. Naruto parou abruptamente no meio de uma rua estreita e deserta. As mãos que o puxava para frente retiraram todo seu equilíbrio. A atenção do loiro foi para a mistura nauseante de sangue e terra em seus dedos. Os joelhos sustentavam o corpo em choque.
- Vamos logo, Naruto. Nós temos que fugir. — As palavras não encontraram um caminho lógico até os ouvidos do rapaz. Mesmo não tendo entendido o que a pessoa falara, o corpo do Uzumaki sobressaltou-se ao reconhecer a voz.
- Iruka-sensei! — Um alívio avassalador reverberou pelo seu corpo. Era uma das únicas pessoas que ele podia confiar. Antes mesmo que o moreno pudesse esboçar qualquer reação as palavras saíram de sua boca: — Iruka-sensei, o que está acontecendo?
- Levante-se, Naruto, eu irei te explicar pelo caminho! — A tom de voz era duro, mas ninguém deu muita importância para isso.
Então enquanto caminhavam, Iruka narrou os acontecimentos que tornaram a vila o caos em que estava agora. Danzou havia começado uma invasão. Não havia muitos colaboradores, contudo os que colaboravam eram ninjas de alta classe. E mais importante que isso, o ataque viera de dentro para fora, premeditado de todas as formas. Um assalto forte o suficiente para abalar os alicerces da vila, mas não tão forte para destruí-los. Afinal, o moreno assegurou, o objetivo de Danzou era tornar-se o novo líder da vila, e não de um monte de escombros.
Os passos de ambos eram rápidos e silenciosos na medida do possível. A atenção de loiro estava tão fixa em Iruka que sequer notou o caminho que trilhavam. As ruas afunilavam-se quanto mais corriam, acompanhados pela iluminação precária. Naruto começava a ouvir os sons de passos e de pessoas próximas. Não demorou muito até que estivesse encarando um pequeno conjunto de moradores.
- Naruto, está vendo aquele túnel? – A voz era urgente entre uma respiração e outra. Com a cabeça, Iruka sinalizou um buraco, um pouco menor que o próprio Naruto, crivado na parede de um beco. O loiro acenou assim que viu algumas pessoas entrarem. Não sabia exatamente o porquê, todavia começou a ficar nervoso com a hipótese que percorria a sua mente. Uma gota de suor desceu de sua têmpora direita pelo rosto. – Você entrará nela, e saíra nos arredores da vila. Não se preocupe, pois Danzou não tem conhecimento desse túnel, entendeu?
Naruto assentiu. Mas ele ainda estava em dúvida. Fora sua imaginação ou Iruka deu mesmo a entender que não fugiria também?
- Vamos, Iruka-sensei! – Agora era ele que mantinha a mão envolta do braço do moreno o puxando em direção ao túnel.
- Não, Naruto. Eu tenho que voltar para o campo de batalha. – Iruka puxou seu braço de volta tão forte que escapou dos dedos do Uzumaki.
- Então eu também irei. Eu sou um ninja de Konoha também.
- Você não irá. – Para Naruto, aquela não era a voz do seu Sensei. O tom era carregado de raiva e agressividade nunca vistas antes. As mãos seguraram o loiro fortemente pelos ombros chacoalhando-o. – Você é sim um ninja. E é por isso que você tem que ir com eles. Você tem que protegê-los, está me ouvindo? – Ele conseguia ouvi-lo, mas não conseguia se mexer. Não queria deixar Iruka lutando enquanto ele fugia. – Naruto, pare de ser fraco e aja como um ninja que você diz ser.
Cambaleante, Naruto começou a adentrar o túnel. O ar parecia mais pesado e sujo naquele lugar. Agachado, ele já estava a um metro da entrada. Ele tinha que proteger os moradores. Tinha que agir como um ninja. Não houve tempo para despedidas ou qualquer troca de palavras.
O barulho de uma explosão distante do local ecoou dentro do túnel. Instantaneamente, o loiro girou a cabeça para trás observando a cena que nunca sairia de sua cabeça. A garganta de Iruka aberta de um modo que Naruto sabia que não havia mais salvação. Do corpo próximo da entrada, formava-se uma generosa poça vermelha de sangue. Uma pessoa mantinha-se de pé junto ao corpo, uma Kunai jazia em sua mão. O colete perfurado no lado esquerdo da barriga. O provável local onde Naruto havia esfaqueado o intruso de sua casa.
Os músculos trabalhavam intensamente tentando voltar para a abertura atrás de si. Não para salvar Iruka, o loiro sabia que ele já estava morto, mas para vingar-se. Queria o sangue dele em suas mãos, assim como estava antes de limpá-lo de suas mãos. As pessoas tornaram-se um obstáculo naquele pequeno espaço.
Seus olhos conseguiram captar, com dificuldade, três pequenas esferas na palma da mão inerte do moreno. Elas tinham um brilho tão fraco que Naruto quase não o notou. Ultrapassou mais uma pessoa. Subitamente, o Uzumaki soube o que elas eram.
Bombas.
Seu rosto empalidecera. Iruka pretendia não só matar o ninja que esteve em sua casa, mas também, pelo impacto dos explosivos, obstruir a entrada do túnel para que ninguém conseguisse os perseguir. Não existia uma escolha certa ou errada, mas mesmo morto, Iruka havia feito a sua. Pelo jeito que as chamas consumiam as esferas, Naruto entendeu que não dispunha de muito tempo.
Uma garotinha engatinhava em sua direção, agora era ele que era o obstáculo para ela. Ela não conseguiria se afastar da área de abrangência da explosão. Ele tinha que salvá-la. Não podia se vingar, ao menos não agora. Ele tinha uma escolha para fazer. E já havia decidido. Tinha que agir como um ninja.
Abriu os olhos num rompante, mas ninguém percebeu por debaixo da máscara. As conseqüências de seus atos ficaram gravadas em ambas as pernas em forma de queimaduras. Conseguira salva Moegi, a garotinha do túnel, usando seu próprio corpo como escudo contra as chamas. Fechou as mãos em punhos. Havia se lembrado do por que lutava.
Queria vingança.
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