Tsurara

1 Velocidade


Winter

A chuva, a chuva me confunde, no meu país sempre houveram inundações, mas também grandes períodos de secas. Ao mesmo tempo a chuva mata e dá vida, é desejada e odiada, a ambiguidade em sua estrutura sempre me fez questionar o que era de fato. Ela sempre me confundiu. Mas eu morava no meio, exatamente no meio da insanidade temporal, esse lugar tão ameno, era muito extremo, invernos frios demais, e verões extensos, até você querer que o frio volte. Eu nunca estive satisfeito com o tempo. Mas isso foi antes... antes do que mudou minha forma de ver o mundo, antes de descobrir algo sobre a vida aos meus 15 anos, ela é limitada.

Fazia quase um ano que meu pai tinha ido, tudo passou tão rápido, tão rápido que quase não me lembro dos primeiros dias, mas conforme foram passando o tempo pareceu desacelerar, dia a dia, tudo voltava ao normal, eu a Ryoko e minha mãe vivíamos assim, desacelerando até um ponto em que eu quis parar, só que apesar de podermos decidir nossos ritmo, não decidimos a que ritmo a vida nos vive, ainda bem.

Oi! você precisa de ajuda? esse cão aí parece que está babando é perigoso é melhor se afastar. O que? você não fala? meu deus, agora ele está olhando pra nós dois. É o seguinte eu vou jogar meu estojo nele e aí agente corre tá? 1, 2, veeeeeeem!

Conseguimos fugir! urfa! desculpa te puxar assim, aquele cão parecia nervoso! meu nome é Takato Mizuri e o seu? não vai falar mesmo?

"Eu sou Rik'ka Tsurara, prazer em conhecê-lo. Não consigo falar me desculpe."

Era só o caminho da escola, o caminho que eu fazia todos os dias, e tudo era muito igual, com exceção da neve que cobria, tudo parecia idêntico, as ruas mais vazias do que de costume, o frio era terrível mas a quase um ano, o tempo não me incomodava mais. Uma garota magricela sendo amedrontada por um cão, foi assim que a conheci, eu até pensei em dar meia volta, mas não conseguiria deixar alguém naquela situação, muito menos uma menina. Quando percebi que ela teria que escrever no seu bloquinho pra se comunicar comigo, me senti culpado de ter sido irônico, e um pouco de pena, não poder falar deve ser horrível, eu sabia disso, pois não tinha ninguém com quem falar, não o falar cotidiano, outro tipo mais importante.

Desculpe. Me desculpe. Eu não queria...

"Por que está se desculpando?"

Eu não sei. Acho que só estou me desculpando por me desculpar. Bom então vou indo pra casa, até mais. Ahn? por que está andando atrás de mim? ah! deve estar com medo, daquele cão aparecer de novo né? eu te acompanho pra sua casa. Onde fica? não? então... Eu tenho que ir pra casa logo sabe e se você não se decidiu então...

"Pra sua casa."

Pra minha casa? por que? escreve aí alguma coisa!

"Por favor. Estou com fome."

Fome? você não parece moradora de rua! desculpe. Tá, eu te levo lá, e agente almoça.

Eu não poderia imaginar, nunca uma garota com o uniforme daquela escola cara com fome e pedindo pra comer na casa de um estranho, alguma coisa estava muito errada, mas mesmo querendo eu não conseguiria dizer não, eu tenho muita dificuldade com essa palavra, alguma coisa em mim me fazia dizer sim, vários sins.

Oi filho quem é a sua amiga? é a Rik'ka mãe. Eu conheci ela hoje. Hum! meu maninho arrumou uma namorada, até que enfim, já tinha desistido de você a um ano atrás, pelo visto ainda tem gente querendo apostar na sorte. Cala a boca Ryoko. Rik'ka essa é minha mãe Mio Sanae e a doida da Ryoko minha prima. O que foi? o gato comeu a sua língua Rik'ka? ela é muda sua chata! Ah! como é que eu ia saber? filho eu vou preparar um lanche pra vocês dois. Seja bem vinda Rik'ka-san. Mãe vamos subir pro meu quarto pra jogar um pouco. Essa eu não posso perder. Adeus Ryoko! ah qual é! eu ia pegar a câmera! não esqueça mano que na primeira vez... Ryokoooooooo!

Minha não tão normal família era singular, minha mãe com sua calma, e Ryoko com seu ar de riso e ironias intermináveis tentando a todo custo me constranger e conseguindo sempre, mesmo assim era uma boa família, mas nem sempre foi assim.

Esse é meu quarto Rik'ka. E esse aqui é meu vídeo-game que te falei, agente pode jogar pra passar o tempo. Você já manja desses jogos? não? ok. Eu te ensino então. Daqui a pouco a minha mãe traz algo pra comer então não esquenta não.

Jogando as horas começaram a passar como minutos, ela era incrivelmente ruim, mas era até de certa forma bonita a falta de prática dela. Lanchamos depois de alguns minutos, e achei que a hora seria propícia a matar minha curiosidade de quem era aquela garota sem voz.

Então você é da região? e estuda no OtokatoSensei? é que seu uniforme é de lá então pensei que... ah, então estuda mesmo lá? legal. Quantos anos você tem? 13, 14, 15... 14? desculpa tá te enchendo de perguntas, é que sou muito curioso.

Takatooo! já são sete horas da noite! desçam os dois pra jantar!

Já vamos mãe. E aí Rik'ka? tá com fome de novo? "Eu tenho que ir embora." Mas já? a minha mãe já deve ter colocado o seu prato na mesa. "Desculpe." Bom, se você tem que ir, boa noite. "Diz pra sua mãe e pra Ryoko adeus." Adeus? se você quiser pode voltar aqui, foi legal jogar com você. "Desculpa, adeus."

O olhar dela mudou, ela parecia bem animada durante o jogo, mas agora parecia triste, quase chorando, eu não entendi nada, era a primeira garota que eu tinha levado em casa, e estava parecendo se tornar mais um desastre, não sei o que fiz de errado, mas depois de se despedir de mim ela guardou o bloquinho e se foi, não olhou pra traz ou eu não olhei pra frente o suficiente na porta. No outro dia o café da manhã tudo parecia ter voltado ao normal, a monotonia e as piadas infantis da Ryoko. Eu desacelerei novamente e assim vivi por mais uma semana. E o caminho da escola parecia ser mais um deserto de neve novamente.

Rik'ka? Rik'ka é você? sou eu Takato lembra? semana passada você foi lá em casa! você tá indo pro seu colégio? ele fica quatro quadras depois do meu né? você se importa da gente ir pelo caminho do meu? então tudo bem. Hoje não tem mais cachorro, é impossível ele...

Mas o impossível inventa o possível.

Não acredito! Para aí! é aquele cachorro da semana passada ali na esquina? e ele trouxe a gangue dele! não tenho tantos estojos! Vamos fugir Rik'kaaaaaaaaaaaaa!

Foi nesse dia que a minha vida parou finalmente de desacelerar.

MUNDO DO MEIO TEMPO.

"Num mundo onde não começo ou fim estamos fadados ao meio tempo, fazemos o que queremos mas não queremos muitas coisas, não existe consenso geral, ou grandes desejos, só gastamos ideias em esforços inúteis, por esse lado não parece ser tão diferente do mundo humano, já que a vida é um esforço inútil."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.