Tsufuru Mania
12 Capítulo X
A viagem durou apenas algumas horas, de tão avançada que era a tecnologia dos tsufurujins. Ainda assim, as naves nunca haviam ido muito longe, pois estavam em fase de testes. Então foi muita sorte o fato de elas terem combustível suficiente, além de não terem passado por nenhuma onda de asteroides. Foi uma viagem rápida e segura, e a maioria dos viajantes dormiu.
Purin acordou algum tempo antes de chegar, e estava se sentindo muito melancólico; pela primeira vez, escapara das garras dos saiyajins, e assim teve tempo para pensar em tudo que aconteceu. Ele chorou, pensando em Bito, no traidor do Sunakku, nos colegas da escola, professores, nas pessoas que cumprimentava no caminho de volta para casa, na família, nas pessoas que via na televisão, e em todo mundo. Tudo estava destruído, transformando em cinzas, e possivelmente os últimos tsufurujins vivos eram ele, Keki e os outros 30 sobreviventes na nave maior. Purin também pensava em Remonpai, que era o nome do planeta onde todos estavam indo. Na verdade, Purin não pensava no planeta por estar indo para lá, mas sim porque esse era o planeta para o qual ele e o avô olhavam, através de um super telescópio, em suas viagens para o deserto. Ir para Remonpai era um sonho se tornando realidade, embora obviamente em circunstâncias diferentes. Então quando finalmente chegaram, Purin estava dormindo de novo, sonhando que ainda estava em Planta, observando Remonpai com seu avô.
Depois de mais uma hora, acordou de novo. Havia um alto barulho de ventania vindo lá de fora. Pela janela da nave, Purin viu que estava tudo escuro. Pouco tempo depois, o rosto de Keki apareceu pela janela, e Purin abriu a porta.
- Purin, tudo bem? Cara, a gente precisa sair daqui, porque o tempo não está bom. Chiri disse que viu uma caverna boa não muito longe daqui. É melhor nos abrigarmos lá logo, antes que o tempo piore — Keki teve de falar alto para ser escutado, por causa da ventania. Além disso, ele estava descabelado e sujo. Purin entendeu o porquê assim que saiu da nave.
Era um lugar sombrio, e o pouco que conseguia-se enxergar, parecia um inferno. Uma densa camada de nuvens escuras cobria todo o céu, com ocasionais clarões de luz brilhando aqui e ali. Eram clarões brancos, azuis, verdes e roxos, que por alguns instantes iluminavam a superfície do planeta; um deserto caótico, com chão irregular, cheio de rochas e buracos que pareciam crateras. Nas montanhas, haviam pontos levemente luminosos, mas era impossível distinguir o que era, ou a extensão desse cenário, devido à poeira escura cercando a tudo. Não parecia haver plantas por ali, o que era de se imaginar, com aquele clima. Ainda assim, os garotos se perguntaram como conseguiam respirar, ainda que não muito bem. E fazia frio, muito frio.
Por sorte, as naves haviam pousado em uma grande depressão em uma extensão de montanhas, como um berço. Essas montanhas os protegiam da maior parte dos ventos, que vinham do sul, atrás das montanhas.
- Aquela coisa não estava ali antes, ou estava bem menor — disse Keki ao primo, apontando para algo no horizonte, que puderem ver bem alguns segundos depois, com a iluminação de um raio — É um furacão, e parece estar se aproximando. Antes de irmos embora, vamos para a nave maior, nossa família está te esperando lá.
Purin e Keki entraram naquela nave, onde puderam respirar melhor e se aquecer. Os tsufurujins ali estavam inquietos, andando de um lado para o outro e discutindo. Sabiam que tinham de sair dali, mas a perspectiva de andar por aquele planeta não era nada agradável. Pediram que Purin verificasse o computador da nave, e após fazer isso, ele confirmou seus temores: tinha pouco energia restante. Com essa quantidade, não conseguiriam voltar. E para que, voltar?
- Não dava para você ter escolhido outro planeta? — questionaram os outros tsufurujins.
- Eu não conheço as coordenadas de nenhum outro planeta! E além disso, nós estávamos com um pouco de pressa, se é que vocês não se lembram.
É claro que ninguém ali estava de bom humor. Mas eventualmente cansaram de discutir e decidiram que precisavam encarar os fatos: eventualmente, a energia e oxigênio da grande nave acabariam, e ela não seria mais tão confortável. Resolveram se agarrar à única esperança que tinham, a tal caverna que Keki mencionou anteriormente. Talvez ela fosse mais confortável. Talvez encontrassem um lugar naquele planeta que não fosse tão horrível. Talvez sobrevivessem.
Purin perguntou onde Chiri estava, mas está logo em seguida entrou, mais descabelada do que de costume, já que estivera voando naquela ventania.
- Purin, que bom que está bem! Fico feliz por isso, mas olha, você tem um péssimo gosto para planetas — disse Chiri. Aquilo poderia ter parecido rude, mas a essa altura, eles já eram amigos, e todos sabiam que o tom de deboche foi uma tentativa de amenizar o clima. Na verdade, depois de sua vitória heróica contra Nappa, Chiri ganhou o respeito e gratidão da maioria dos tsufurujins ali.
- Hã, vá catar coquinho — disse Purin, tentando rir, apesar de tudo — Eu e meu avô sempre achamos que este planeta seria um paraíso, já que estava tão bem posicionado em um sistema solar. Não entendo o que aconteceu…
A barriga de alguém roncou, e um temor terrível abateu o grupo. Onde conseguiriam comida por ali? Voltaram a se sentir arrasados, e alguns sequer queriam tentar a sorte fora da nave, embora isso significasse uma morte iminente.
- Ei… Não sei vocês, mas estou com fome — Chiri falou para todos na nave. Ela ainda estava hesitante, já que não estava acostumada a dar discursos como este que estava prestes a dar, além do fato de que a raça dela havia exterminado a raça deles — Não se preocupem, porque eu vi alguns animais selvagens, a uma certa distância. Vou caçar eles, e a gente deve conseguir fazer fogo para cozinhar. Mas primeiro acho que devíamos ir para a caverna que falei antes, já que o clima por aqui parece estar piorando. Vamos montar a nossa base lá, pelo menos até darmos um jeito de sair deste planeta.
Chiri e Keki olharam para Purin, sem falar, esperando que ele respondesse a pergunta que estava no ar: Seria possível sair de Remonpai? Ele levou alguns momentos, mas conseguiu pensar em uma resposta “Esta nave consome combustível demais, mas se juntarmos o que sobrou, ainda deve ser possível voar para algum lugar com as três naves esféricas. Assim a gente pode dar um jeito de conseguir mais combustível em outro lugar…”.
Aquilo era um começo, e já foi suficiente para animar alguns deles, por enquanto. Ainda havia, porém, o problema de que a nave maior talvez não sobrevivesse ao clima cada vez mais extremo naquele canto do planeta. Chiri pensou em levantar a nave e levá-la voando para longe, mas mesmo se ela tivesse força suficiente para isso, seria impossível levantar sem que a nave se partisse no meio. As naves esféricas, porém, eram outra história. “Consigo levar essas naves sem problemas! Posso guardar elas dentro daquela caverna. Então de um jeito ou de outro, poderemos sair deste planeta. Mas antes, vamos logo para a caverna, vou mostrar o caminho”
Assim, eles saíram da nave, e Chiri conduziu a comitiva de 32 pessoas em fila indiana por uma trilha natural que serpenteava aquele lado das montanhas. Sozinha, Chiri conseguia ir até a caverna em questão de minutos, mas sem a habilidade de voar, os tsufurujins tiveram um caminho árduo pela frente. Às vezes precisavam pular por cima de grandes rochas bloqueando o caminho. Às vezes o vento mudava de direção, de modo que precisavam se segurar para não caírem da montanha. Em alguns pontos, o caminho era irregular demais, ou a montanha não oferecia nenhuma proteção contra o vento, de modo que Chiri precisou voar carregando os tsufurujins um a um. Também havia o problema de que em boa parte do caminho, precisavam encarar o horizonte caótico de Remonpai, uma ameaça constante de perigo, que na melhor das hipóteses, apenas distraía os tsufurujins do terror existencial que era serem os últimos sobreviventes de sua espécie. “Se existe alguma esperança, ela não está aqui” pensaram.
No meio do trajeto, viram uma luz verde fraca brilhando alguns metros à frente. Era parecida com os pontos de luz que conseguiram ver ao longe, em outras montanhas. Quando chegaram lá, viram que era algo que cresceu em meio à uma área com terra dura, esbranquiçada por resquícios de neve, com folhas rígidas desafiando a pressão do vento. Essas folhas eram o que emitia a luz, e havia também pontos escuros se movendo por ela. Era uma planta, com alguns insetos andando e voltando em torno dela. Ver aquilo em um lugar tão inóspito pôs algum ânimo nos corações da comitiva, que seguiu em frente.
A viagem já estava durando duas horas. Antes de partirem, haviam percebido que havia suprimentos de astronauta na grande nave, então estavam um pouco alimentados. Ainda assim, a sede, o frio intenso e a longa viagem estavam colocando a determinação de todos à prova. Até mesmo Chiri começou a ficar cansada de conduzir a todos. Além disso, talvez fosse pelo frio, estavam começando a se sentir doentes. Foi quando os tsufurujins mais deprimidos estavam pensando em desistir, que eles finalmente avistaram a caverna, então deram mais esses últimos passos.
Normalmente, entrar em uma caverna completamente escura seria medonho, mas todos se sentiram aliviados em entrar lá e descansar. Tinha dez metros de altura e largura, e o comprimento era desconhecido. Chiri criou uma bola de energia para iluminar o ambiente, mas ainda assim, a escuridão seguia caverna a dentro, para as entranhas da montanha. Ninguém decidiu se aventurar muito a fundo na nova base. Na verdade, os tsufurujins deitaram no chão logo que chegaram. Chiri, que ainda estava um pouco disposta, saiu para buscar as três naves esféricas. Os outros teriam protestado em serem deixados sozinhos no escuro, mas estavam cansados demais para isso, e adormeceram.
Os saiyajins nômades geralmente viviam em desertos e florestas, então estavam acostumados a caçar para ter o que comer, dentre outras técnicas de sobrevivência. Obviamente, Chiri nunca havia estado em um ambiente como aquele, mas ela ainda possuía alguns instintos que a ajudaram. Antes de sair da caverna, ela pegou as garrafas d’água, agora várias, que os tsufurujins haviam trazido. Ela levou essas garrafas para um lago que havia encontrado antes, e as encheu — obviamente o lago estava congelado, mas ela criou uma rajada contínua de energia para derreter um pedaço dele, como se estivesse usando um maçarico. Após colocar as garrafas cheias de volta na caverna, ela foi voando rápido de volta para o local onde haviam pousado. No caminho, ela pensou ter visto alguns vultos se movendo em montanhas distantes. Era difícil distinguir o que eram, pois as nuvens densas e sombrias nunca deixavam o céu, então todo o planeta era muito escuro. Algum desses vultos poderia ser uma criatura maligna, que potencialmente serviria de comida. Chiri era muito forte, mas mesmo assim, naquelas circunstâncias, sozinha em um planeta desconhecido, ela não deixava de sentir medo. De qualquer maneira, ainda havia a questão das naves, o único jeito de sair daquele planeta. Chiri pensou em seus amigos, que estavam a uma distância incalculavelmente grande, então seguiu em frente.
Foram necessárias três viagens de ida e volta, mas tirando o fato de que precisava ter muito cuidado para não quebrar nada, Chiri conseguiu trazer as naves sem problemas. Enquanto isso, Purin, Keki e alguns outros tsufurujins mais jovens saíram para explorar as proximidades da parte de fora da caverna. Conseguiram encontrar mais daquelas plantas luminosas e as usaram como tochas — elas eram duras como tochas, mesmo. Também encontraram um ponto com grossos pedaços de madeira escura fincadas no chão. “Acho que um dia isso foram árvores” disse Purin. Eles tentaram arrancar cascas dessa madeira, mas ela era fria e dura, então conseguiram apenas uns poucos pedaços, que pretendiam usar para criar uma fogueira. Sem nenhuma energia para explorar mais, voltaram para a caverna. Deixaram as plantas espalhadas pela caverna, para terem um pouco de luz. Quando Chiri chegou, ela acendeu uma pequena fogueira com os pedaços de madeira que os outros haviam trazido — ela mesma foi sozinha e conseguiu pegar mais madeira daquela árvore, já que tinha mais força que os 33 tsufurujins combinados.
Depois disso tudo, todos dormiram, pois estavam exaustos e ficando com febre. Levou muitas horas para Purin acordar e ter vontade de se levantar. Por um momento, se lembrou dos invernos em Planta, quando precisava acordar cedo para ir à escola. Irritado, afastou esse pensamento e se levantou. A fogueira havia se apagado, então o lugar estava ficando muito frio de novo. Com a luz das plantas, Purin viu que Chiri e Keki também se levantaram. Ele se perguntou se os dois também estavam com dor de estômago, mas evitou pensar nisso também, pois já havia muito o que resolver.
- A questão agora é encontrar comida, será que devemos procurar dentro ou fora da caverna? — perguntou Chiri.
- Eu estava pensando, acho que nós devíamos explorar para dentro da caverna. Se tiver alguma criatura escondida lá dentro, prefiro que a encontremos antes que ela nos encontre — disse Purin.
- É, e com nós devíamos, queremos dizer que você devia explorar a caverna… enquanto nós te acompanhamos de uma distância segura, é claro — disse Keki.
Chiri mostrou a língua em resposta, mas sabia que aquele era o único jeito. Se tivesse de lutar com alguma criatura, Purin e Keki poderiam acabar apenas atrapalhando. De qualquer maneira, eles queriam ajudar como fosse possível, e ela não queria andar por aí sozinha. Então o trio pegou pegou algumas plantas e foi a caminho das profundezas da caverna, com Chiri indo na frente.
À princípio, tentaram fazer silêncio, mas não conseguiram por muito tempo, já que estavam resfriados e espirrando bastante. Se prepararam para todo tipo de aventura horripilante, mas não encontraram nada por um tempo. Felizmente não deram de cara com nenhuma bifurcação, então não havia realmente o risco de se perderem. O túnel ia apenas para baixo e para dentro. A primeira coisa que perceberam foi que estava fazendo cada vez menos frio à medida que avançavam. Depois de mais alguns metros, ouviram o som de água fluindo, em algum ponto distante. Mais e mais passos adiante, e agora havia pontos luminosos no teto. Esses pontos se mexiam um pouco, e quando Chiri levantou vôo para ver mais de perto, percebeu que eram larvas.
Continuaram andando. O túnel estava mais bem iluminado, o que era bom, mas começaram a ouvir sons suspeitos. O rugido preguiçoso de uma criatura misteriosa poderia ser apenas suas barrigas roncando. O som de passos poderia ser apenas o eco de seus próprios passos, ou água pingando em algum lago subterrâneo. Era difícil distinguir. Purin já estava pensando em dizer aos outros que deviam todos voltar, mas havia uma curva fechada logo à frente, e decidiu que antes deveriam fazer essa curva, se forçando a dar uma última chance à caverna. Eles fizeram a curva e “BU”, disse uma voz vinda das sombras.
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