Tsufuru Mania

5 Capítulo III


Purin despertou de um sono pesado e sem sonhos na manhã seguinte. Tinha um gosto amargo na boca e uma leve dor de cabeça. Levou alguns instantes até se lembrar de que a noite anterior não foi uma qualquer, e com esses pensamentos se pôs sentado ereto na cama; Por que ele e seus amigos não foram mortos pelos saiyajins? Será que alguma informação secreta muito importante havia sido revelada por parte dos tsufurujins? Afinal, os tsufurujins e os saiyajins são inimigos mortais há muito tempo, e qualquer adulto diria a Purin que ele jamais deveria confiar “naqueles monstros”.

Mas não havia muito mais tempo para devaneios; o relógio ao lado da cama já indicava 6h25 e aquela ainda era uma segunda-feira de aula qualquer. Purin, que já deveria estar quase pronto para sair, se levantou e foi para um banho rápido que expulsou de seu corpo um pouco da preguiça, em seguida foi à sala de estar. Keki já estava lá, tomando seu café da manhã.

— Cara, ontem aconteceu de verdade? – Purin perguntou indo para junto dele, se servindo de um copo de suco de laranja e umas torradas.

— Eu não sei, mas espero que sim – Keki respondeu, também aparentando sonolência. A festa de aniversário de Purin, ocorrida logo após o encontro com os sayajins, se estendera até mais de uma hora da manhã – foi a maior aventura que já tivemos! Uma pena que não vamos poder contar para ninguém, provavelmente.

— Acho que ninguém acreditaria em nós, mesmo.

Os dois se apressaram para terminar a refeição a fim de não se atrasarem para a aula. Keki colocou uma ultima torrada em sua boca e foi verificar se os materiais necessários já estavam em sua mochila – apenas um caderno e um estojo; com o Festival da Lua a apenas uma semana de finalmente acontecer, os professores vinham se importando pouco em passar tarefas mais dispendiosas, para a alegria de muitos dos alunos -. Com tudo pronto, Purin e Keki partiram, ainda discutindo sobre os acontecimentos extraordinários do dia anterior. O caminho até a escola era constituído de apenas uma caminhada de alguns minutos, pelas ruas tranqüilas da vizinhança até a zona sul da Cidade Central, então os dois conseguiram chegar sem atraso.

As escolas em Planta funcionavam de tal modo que a grande maiorias dos jovens tsufurujins as encaravam sem tanto desânimo quanto se poderia imaginar. Não havia, em nenhuma cidade, um sistema de ensino para pessoas ricas ou pessoas pobres, já que todas as escolas eram excelentes por igual; a carga horária principal era de apenas quatro horas por dia e cobria as matérias mais essenciais, mas os alunos sempre acabavam ficando lá por mais tempo, já que dispunham de uma quantidade enorme de aulas extracurriculares.

Purin e Keki entraram na sala de aula logo que o sinal tocou, porém, o clima pela escola toda era de tanta descontração naqueles dias que os poucos alunos que de fato se dispuseram a vir, não se preocuparam muito com pontualidade.

Sunakku não freqüentava mais a escola já que era um ano mais velho que os outros e já havia iniciado seus estudos na faculdade. Já Bito frequentava e surpreendentemente resolveu aparecer para a aula, poucos minutos atrasado. Ele estava com um aspecto péssimo, todo descabelado.

— Pelas plantas, como vocês são nerds! – disse Bito, se reunindo a Purin e Keki. Claramente ele estava passando severamente pelos efeitos da ressaca. Sentou-se e apenas deitou a cabeça na mesa cobrindo parte do rosto com o capuz – Só vim hoje porque estou quase estourando meu numero de faltas, mas eu dormi muito mal. Acho que a minha cabeça vai literalmente explodir.

— Se ferrou. A gente bem que avisou você para não ficar bebendo mais daquele hidromel estranho dos saiyajins – Keki falou baixinho, olhando discretamente ao redor. Os outros alunos estavam reunidos em seus respectivos grupos conversando distraidamente, então não havia muito risco de eles serem ouvidos.

— Eita, eu pensei que tivesse sido um sonho estranho. Que doideira.

— É impressão minha, ou eles não pareciam realmente tão malvados como todo mundo diz? – Purin perguntou aos amigos, ciente de que não era uma opinião muito popular. – Digo, eles não nos mataram nem nada.

— Eu sei lá, provavelmente só estavam bêbados demais também e se esqueceram, ou só estavam com preguiça.

— Ora, você só diz isso porque já estava desmaiado de bêbado quando eles começaram a cantoria, aquilo foi incrível! – Purin continuou, cruzando os braços – Estou dizendo, eles parecem legais...

— Você também perdeu a parte em que uma das saiyajins ficou flertando com o Purin – Keki disse, com ar provocativo – Como se pode ver, ele está claramente apaixonado.

— Cale a boca! – Purin disse, dando um soco no ombro do amigo – Só quis dizer que como nem todos os tsufurujins são bons, nem todos os saiyajins devem ser maus também.

— Seu pervertido, cale a boca você – Bito se juntou às provocações – Traiu o movimento!

A conversa foi interrompida quando a professora de história, que chegara na sala sem que os três amigos tivessem percebido, começou a falar.

As aulas de história em Planta tratavam principalmente sobre os grandes feitos e avanços tecnológicos ocorridos no decorrer das gerações passadas. Nunca se tratava de guerras, pois isso não era algo que ocorria antes da chegada dos saiyajins, cujos conflitos ainda eram considerados recentes demais para tal aula. O próprio avô de Purin já havia sido mencionado em algumas dessas aulas por conta de suas invenções tão inovadoras, o que provocava certo constrangimento em Purin. Mas tirando isso, ele e os amigos gostavam razoavelmente desta aula e o tempo pareceu passar rápido por ela.

Havia também uma outra aula, ocorrida logo antes do recreio, a aula de Mesa de Restaurante. Ela tinha um formato diferente das demais, era um modelo de ensino simples mas eficiente, funcionando muito bem para os tsufurujins; nela, eram trazidos temas da atualidade, às vezes através de vídeos, filmes ou matérias de jornal, e o professor mediava uma discussão a respeito disso com os alunos, sentados ao redor de uma grande mesa redonda com uma plataforma rotatória, onde era servido um conjunto variado de alimentos (a aula poderia render tanto que eventualmente todos ficariam com fome!), e também havia um balcão com bebidas, não alcoólicas, ao lado. Então era uma conversa produtiva e bem descontraída, literalmente como uma mesa de restaurante. Naturalmente, os assuntos várias vezes giravam em torno dos saiyajins, e naquele dia não foi diferente.

Então o professor de Mesa de Restaurante, um sujeito chamado Nasu, alto e magrelo de cabelos compridos e uma expressão serena no rosto, começou a aula. Ligou o projetor e o deixou exibindo uma apresentação de slides, à medida que falava:

“Hoje nós vamos falar sobre a Incursão Incômoda. Como vocês já sabem, esse nome se refere ao principal ataque dos sayajins ocorrido pouco depois de sua chegada em Planta. Foi uma invasão surpresa à Cidade S, que não tinha estrutura nenhuma para se defender de tal ataque. Isso resultou na morte da maioria dos habitantes de lá, à exceção de alguns poucos que conseguiram fugir. Este foi o estopim para que os tsufurujins desistissem de qualquer tentativa de se estabelecer uma convivência amistosa com os saiyajins, e assim a guerra começou...”

— Quanto tempo exatamente levou para os saiyajins efetuarem esse ataque, desde sua chegada? – uma aluna perguntou, se servindo de uma tigela de sopa – Me lembro de ter lido em algum lugar sobre um tal Tratado Tentador, que impediria qualquer tipo de confronto entre as duas raças. Isso não adiantou nada?

— Sim, o Tratado Tentador – o professor respondeu, ajeitando os óculos – nele, foram definidas uma série de regras que os saiyajins deveriam seguir para que houvesse paz, além de lhes serem concedidas terras e uma quantidade de suprimentos para que eles prosperassem. Na verdade foi a única tentativa de um acordo formal, feita diretamente com o próprio líder deles, o Rei Vegeta, que até chegou a assinar o tratado. Mas naturalmente isso não deu certo e apenas uma semana depois eles atacaram a Cidade S. É dito que o Rei Vegeta estava lá também, que ele desenhou um pênis no documento do Tratado e o queimou com as próprias mãos, na frente de todos. Até estava dando uma risada maléfica.

— Professor – Purin começou a falar, com a mão no alto, embora isso não fosse necessário. Não tinha o hábito de dar a própria opinião durante as aulas, mas sua dúvida era tão grande que ele não se conteve – Que direitos os saiyajins tinham, de acordo com esse tratado? Digo, será que eles nem ao menos consideraram seguir as regras e viver tranquilamente?

Nasu encarou Purin por alguns instantes antes de responder; percebeu a dúvida que o garoto realmente tinha e que ele se sentia acanhado com isso. Muitos tsufurujins já se questionaram antes, sobre se os saiyajins eram de todo ruins. Ele respondeu com um tom bondoso – Bem, aqui em Planta nós nunca tivemos muitos problemas como falta de recursos ou desastres naturais. Há muito espaço para que todos possam viver confortavelmente, então os saiyajins foram recebidos de braços abertos, mas eles não quiseram que fosse assim. São uma raça bárbara que almeja apenas a guerra e pouco se importam com o que têm em Planta. Creio que mesmo se déssemos o planeta inteiro de graça para eles, ainda assim nos matariam. Infelizmente, se existe um saiyajin bom neste mundo, nunca se ouviu falar dele.

— Provavelmente teria morrido nas mãos dos outros – Bito acrescentou, para o riso de alguns.

Embora ainda tivesse mais duvidas, Purin permaneceu calado pelo resto da aula. Não conseguia parar de pensar naquele grupo que conhecera no deserto, especialmente em Chiri, com quem mais conversara.

Durante o recreio, Purin, Keki e Bito sentaram-se juntos em uma das mesas no refeitório, onde comeram mais. O lugar, que já era bem grande, parecia ainda maior, já que normalmente era cheio de alunos, mas naquele dia nem tanto. A comida lá era distribuída em um modelo de self-service também, com um prato especial diferente todo dia, que naquele caso era pizza de brócolis e suco de laranja. O prato preferido de Purin, mas ele mastigava a pizza com pouco entusiasmo.

— Ainda pensando nos saiyajins, ou já comeu demais na Mesa de Restaurante, Purin? – perguntou Bito, que já aparentava estar se sentindo melhor, devorando uma tigela de tofu teriyaki.

— Eu já falei que não tem nada a ver com a Chiri! – Purin respondeu, irritado.

— Ninguém aqui falou nela – Keki disse, rindo do amigo – Mas brincadeiras à parte, eu entendo. É estranho como aquele grupo de saiyajins foi tão receptivo com a gente, considerando que nunca ouvimos falar de algo do tipo.

— Sim! Além do mais, e se aqueles não forem os únicos saiyajins bons que existem? – Purin continuou. Aquela era uma questão particularmente sensível para ele, já que Eyoso, seu avô, dedicara quase dez anos de sua vida trabalhando em tecnologias usadas na guerra contra os saiyajins, e agora o próprio Purin estava encarregado dessa missão – Só queria que existisse um jeito de acabar com isso sem que tanta gente inocente morra.

— É, talvez esteja certo – disse Bito, com a boca cheia de tofu – Mas alguém tem que aniquilar esse Rei Vegeta.

Aquele comentário ficou ecoando na mente de Purin pelo resto das aulas naquele dia. Obviamente matar Vegeta não era algo que ninguém havia pensado antes, mas o problema é que ele era sem dúvidas, literalmente a pessoa mais forte do planeta, e a pessoa mais influente para seu povo. Ele sempre andava cercado de guarda costas também muito poderosos. O poder de fogo dos tsufurujins permitia que eles conseguissem apenas defender suas cidades e realizar alguns ataques nas bases inimigas, mas atacar o líder supremo dos saiyajins era algo difícil até mesmo de se planejar.

Purin ainda pensava nisso quando chegou em casa, mas repentinamente ficou empolgado quando um plano, ou o princípio de um plano, se formou em sua mente. Ele preparou sua mochila com alguns equipamentos de seu avô, com pressa para evitar que mudasse de ideia; estava prestes a dar mais um passeio no deserto.