Tsufuru Mania

8 Capítulo VI


A manhã começou gélida e com nuvens brancas cobrindo todo o céu. Não era uma sexta-feira qualquer, e logo as nuvens abririam espaço, como cortinas revelando o grande espetáculo que todos estavam esperando: a Lua Cheia, vista pela última vez há dez anos. Ela apareceria às seis da tarde, mas as festividades já começaram logo pela manhã.

O movimento nas ruas era diferente; você não veria as pessoas fazendo suas mesmas caminhadas matinais de sempre, nem o jornal sendo entregue, ou carros saindo da garagem e indo para o trabalho. Até mesmo os pássaros pareciam cantar em uma melodia diferente. Dentro de casa, Purin notou a mudança na rotina: a cozinha estava revirada, a mãe de Keki e outras tias estavam lá, conversando e fazendo os últimos retoques nas sobremesas que estavam preparando para a festa. Purin não se lembrava direito dos detalhes, mas normalmente os adultos se reuniam na casa de algum parente para festejar e comer, enquanto os mais novos ficavam brincando na rua, onde eram montados quiosques com todos os tipos de jogos, como tiro ao alvo, fliperamas e até boliche — a bola era branca e com pintura de crateras para representar a lua.

Keki acordou quase na mesma hora que Purin. Os dois tomaram um café da manhã leve, apenas para forrar o estômago.

- Não comam demais agora! — disse uma das tias — Guardem espaço no estômago, porque vai ter muita sobremesa mais tarde.

Do lado de fora, alguns membros da família ainda estavam passando o tempo por lá, enquanto outros já partiram para a capital, onde se concentravam as festividades. Bito estava mexendo em seu celular, sentado no quintal da frente, esperando os amigos.

- Até que enfim vocês acordaram! — ele disse, quando Purin e Keki apareceram — Vamos logo, eu soube que eles montaram uma pista de carrinhos bate-bate no Centro Cultural. A gente devia ir até a capital de carro, para praticar.

- Nem pensar — disse Keki, rindo do amigo, embora soubesse que ele estivesse falando sério — vai ser impossível encontrar um lugar para estacionar. Vamos à pé mesmo, é só quarenta minutos de caminhada. Cadê o Sunakku?

- Não sei. Trocamos mensagens ontem, mas acho que o traidor vai passar a tarde em alguma das festas de adulto.

O trio seguiu caminho para a capital. Andavam sem pressa, parando para olhar as decorações que as pessoas colocavam nas casas, ou para cumprimentar colegas da escola, que estavam passando o tempo sentados na calçada, jogando bola ou algo do tipo. Todos estavam ansiosos para aquele dia, em que poderiam se divertir como sempre, mas de um jeito mais especial.

Na Capital, o movimento já estava mais agitado. Algumas pessoas ainda andavam para lá e pra cá, fazendo preparativos, como no palco sendo montado no fim da Grande Avenida, onde haveria shows de música. A Grande Avenida, principal cartão postal da cidade, fora toda fechada para a entrada de veículos, então além do palco, foram montados diversos quiosques com comida, bebida e jogos. Shoppings e outros estabelecimentos nas intersecções da avenida também estavam adaptados para o evento. O lugar era o mesmo, mas estava tudo diferente.

Logo que chegaram, Purin, Keki e Bito passaram em uma barraquinha onde compraram uns petiscos, e saíram comendo enquanto pensavam em onde ir a seguir. Em meio à muvuca, eles conversavam, andavam e paravam para olhar e sentir o ambiente. Após algum tempo, Purin olhou para trás e viu Keki interagindo com duas garotas que eram de sua classe. Uma delas enrolava uma mecha de cabelo entre os dedos enquanto olhava para Keki, que repentinamente parecia confuso. Purin entendeu a deixa e resolveu seguir outro caminho com Bito.

Os dois amigos então foram para o Centro Cultural, no meio da Avenida — se perderam brevemente em meio à fuzarca, apesar de conhecerem o local. A pista de boliche ainda estava sendo montada, então eles resolveram ver os outros jogos, e passaram um bom tempo no estande de tiro — havia uma grande lua pintada na parede do fundo, enquanto na plataforma no balcão, um dispositivo movia placas com imagens de meteoros, que eram os alvos. Eles faziam turnos, um tentando bater o recorde do outro, embora a mira de Bito estivesse lhe garantindo a maioria das vitórias.

- Catapimbas, você salvou a Lua de novo! Quando foi que você ficou tão bom nisso? — perguntou Purin, vendo o amigo acertar em cheio mais uma sequência de meteoros.

- Fácil, só imaginar que os alvos são saiyajins — disse Bito, assoprando a ponta da arma, que na verdade era de chumbinho. Purin pensou em retrucar aquela alfinetada, mas resolveu deixar isso de lado.


Após saírem do Centro Cultural, Purin mandou uma mensagem para Keki, perguntando onde ele estava, e ficou mexendo no celular por alguns minutos. Por acaso, acabou avistando o primo saindo de um beco logo em seguida, quando olhou para frente. Ele não estava mais acompanhado por aquelas garotas, e por algum motivo, guardava o scounter na mochila.

- Ei, por que você trouxe o scounter?

- Hã, eu?! Hum… Só quis testar ele, brincar e tudo mais. Vi nosso professor de matemática agora a pouco, e você acredita que ele tem 105 de Poder de Luta? — Purin percebeu que era uma desculpa esfarrapada antes mesmo de Keki terminar a frase, o que não era muito difícil, já que ele estava corando e gaguejando. Purin apenas ergueu uma sobrancelha, esperando pela resposta sincera — Certo, está bem… Eu trouxe porque quis me comunicar com a Ichigo, e claro que só podemos fazer isso pelo scounter. A gente fez isso algumas vezes essa semana, e eu quis contar para ela sobre o festival e tudo…

Purin caiu na gargalhada. Não tinha como ele não debochar do primo, embora na verdade, estivesse feliz por ele.

- Claro! Mas aposto que você não contou sobre aquelas duas garotas com quem você estava conversando mais cedo.

- Cala a boca! — disse Keki, rindo com o primo.

Bito havia sumido também, mas logo Purin e Keki reencontraram o amigo. Ele estava saindo de um quiosque e bebendo algo de uma garrafinha que trouxe no bolso do casaco. Purin e Keki conheciam Bito a bastante tempo, e só pelo jeito que ele levava a garrafa à boca, dava para imaginar o que havia dentro.

- Cara, você devia dar um jeito na bebida, isso está saíndo de controle — disse Keki

- Claro, já dei um jeito nela, por hoje — disse Bito, que riu sozinho.

A festividade foi se intensificando à medida que as horas foram passando. Purin, Keki e Bito, cansados de andar, compraram mais lanches em uma lanchonete qualquer e se sentaram para comer na calçada, onde vários outros grupos de jovens também estavam descansando e papeando. A mãe e os tios de Keki passaram ali perto, mas logo rumaram para uma casa a algumas quadras dali, onde outros parentes estavam reunidos para festejar. Fora isso, Purin viu vários outros rostos familiares, amigos e conhecidos. Quase todos da cidade estavam na capital.

Não que isso tenha passado pela cabeça de alguém naquela tarde, mas é estranho pensar em como tudo pode mudar drasticamente, num piscar de olhos. Era o que estava prestes à acontecer ali, enquanto todos ainda se divertiam em meio a dança, comida e brincadeiras. O vento refrescante começou a ficar mais forte e a afastar as nuvens no céu. As pessoas olhavam cada vez mais para o céu, na expectativa de ver o grande satélite natural que os reuniu ali. A lua ia ficar visível por apenas uma noite, mas não havia realmente pressa em compartilhar o momento de admirá-la com todos os entes queridos logo de cara. Purin e Keki estavam na avenida, conversando sobre qualquer coisa, quando perceberam que a lua estava prestes a aparecer, e começaram a olhar para o céu, junto de todo mundo. Mas então o scounter começou a apitar loucamente na bolsa de Keki, que o pegou logo em seguida. À princípio, pensou que fosse uma ligação de Ichigo ou de algum de seus amigos, mas vários números, números altos, apareciam na tela, um em cima do outro.

- Esse aparelho deve estar quebrado. Acha que tem um monte de KI inimigos por aqui — Keki ia dizendo, mas quando olhou para Purin, percebeu que ele estava com uma expressão perplexa, de olhos vidrados no céu. Keki olhou para cima também, e viu: centenas e mais centenas de saiyajins voando.

A segurança fora reforçada para o Dia da Lua, mas ninguém esperava que os saiyajins simplesmente iriam voando para o meio da capital. Por mais que eles fossem mais fortes, aquela posição os deixava extremamente expostos para a artilharia dos tsufurujin. Mas aquele ataque foi tão estranho que as pessoas ficaram sem reação por alguns instantes. Na verdade, ainda nem parecia um ataque; os saiyajins estavam parados no céu, olhando para cima, a vários metros um do outro, no que parecia uma formação cuidadosamente planejada. A lua finalmente apareceu, e assim começou o terror.

Os números no scounter que Keki segurava ficavam cada vez mais altos. A roupa dos saiyajins rasgava à medida que eles ficavam maiores, revelando a pelagem grossa que repentinamente crescia em seus corpos musculosos. Uma fúria descontrolada tomou conta de suas mentes e fez seus olhos assumiram um tom de vermelho vivo. Ao final da transformação, eles eram macacos gigantes. Monstros de 20, 30 metros de altura. Eles tinham pouca ou nenhuma consciência nessa forma, mas sua fúria recaiu sobre o alvo mais próximo: a cidade.