Notas iniciais
Peço desculpa pelo atraso - dessa fic e da outra, que acreditem, está sendo escrita. Espero que vocês gostem. Adoraria ouvir o que acharam.

Jane se odiou por um minuto, no momento em que Maura desabou em seus braços tudo o que ela conseguia pensar era em como ela deveria ter ficado, ter saído do carro e tê-la acompanhado para dentro de casa. E foi quando lágrimas quentes molharam seu pescoço que ela se deu conta de que ela não podia ser duas pessoas: ela não podia ser aquela pessoa que estava confrontando Maura e a pessoa que a confortava. Ela tinha que escolher um lado, caso contrário ela só criaria mais conflitos entre elas. Ela soube quem seria quando a loira apertou os dedos nas costas dela e tentou se afastar de cabeça baixa, possivelmente envergonhada por perder o controle sobre si. Os próximos gestos traçariam um novo destino. Eles eram simples, suscetíveis em um momento que Jane esperava ser transitório em suas vidas.

Ela tinha feito uma escolha. Ela tinha uma oferta. Ela queria conceder a Maura segurança, companheirismo. Ela queria oferecer para a loira tudo o que tinha, o que podia, incluindo seu futuro. Quando os olhos cansados e claros de Maura seguraram seu olhar, ela sabia do fundo de seu coração o que ela poderia fazer.

Ela não deixou que a loira se afastasse. Com uma mão em sua cintura e outra em seu rosto, Jane limpou uma lágrima com o polegar e a segurou perto de si. Distanciamento não fazia parte o plano que tinha em mente, e ela iria começá-lo agora.

'Me deixa eu te ajudar.' A voz soou firme e determinada, e Maura sorriu gentilmente no mesmo momento em que inclinou seu rosto na mão da morena.

'Você está aqui, Jane. Isso já é o bastante.' Ela murmurou.

'Não. Não... Você não entendeu.' Jane a conduziu até o sofá e as duas se sentaram ao mesmo tempo. A morena segurou as mãos da médica nas suas, os olhos nunca deixando os de Maura. Ela respirou fundo antes de continuar. 'Eu não... Eu não entendo completamente os motivos pelos quais você não quer o bebê, Maura. Para mim você só parece assustada e... se sentindo sozinha. O que eu entendo, mesmo. Eu não poderia ter um bebê sozinha, também, eu sei como é. E eu sei que ainda tem o Jack, e que outras implicações irão surgir. Mas...'

Ela respirou fundo e abaixou os olhos. Depois de considerar as palavras, ela encontrou os olhos atentos de Maura estudando-a. 'Você sempre foi sozinha.' Ela murmurou a observação. 'Você ainda tem medo de que... isso aconteça novamente?' Que eu deixe você? Mas essa segunda pergunta ela não verbalizou. Ela soube que tocou no ponto certo porque a loira se remexeu e abaixou os olhos, e Jane desconfiou de que se ela não estivesse tão cansada, ela estaria chorando novamente.

'Eu sei o quanto sua família e você me amam, Jane. Porém, eu também sei que... as pessoas mudam. E cada um vive sua vida.'

Ela não precisava explicar mais. Jane sabia que ela estava certa, no final das contas. Ela mesma quase se mudara por conta de Casey para um outro país. A imagem de Maura tentando evitar o choro no laboratório criminal meses antes ficara grudada em sua cabeça, e nesse momento acusava e a fazia se sentir imensamente culpada por ter causado sofrimento na médica.

'Você não precisa fazer isso sozinha. Ter o bebê, eu quero dizer. Se você considerar... Você não vai estar sozinha, Maura.' Ela acariciou a mão da loira para reafirmar as palavras.

'Jane, sua família me apoiaria, eu sei disso. Mas não é algo que eu quero pedir, nem impôr. É uma responsabilidade muito grande, não é um simples favor.' Ela balançou a cabeça em negativo, apertando de volta as mãos da morena.

'Você nunca pediu por nada. Você acolheu minha mãe, meu irmão mais novo por um tempo. Você sabe de todo drama da minha família, Maur... E o meu próprio. Você sempre ofereceu, acolheu, repartiu o que é seu. E você nunca pediu nada em troca.'

A voz grave atingiu o peito de Maura, despertando a velha sensação familiar, aquela de sua infância, a conhecida solidão toda vez que via o pai trabalhando até tarde da noite em seus livros, ou quando a mãe chegava de uma viagem apenas para partir para outra. Você é uma criança tão boa, não exige nada. Era o que eles disseram, e Maura de fato nunca chegara a pedir-lhes algo, nem mesmo atenção. E depois de um tempo a sensação passou a ser banal, tão comum a ponto de não incomodá-la mais. Por que ela pediria para outras pessoas, então?

'Vocês me oferecem várias coisas, mesmo sem saber.' Ela disse naturalmente.

'É claro.' Jane observou com sarcasmo. 'Principalmente problemas que não são seus.' Ela chacoalhou a cabeça e respirou fundo. 'A coisa é que... Eu fiquei insistindo tanto para você ter o bebê, Maur, e não sei se realmente cheguei a te dizer que... Eu tô aqui.'

'Jane, eu nunca duvidei de que — '

'Não. Escuta.' Ela cortou a médica e se ajeitou no sofá, sentando ligeiramente mais perto dela. 'Eu disse que entendo seu medo, sua insegurança. Eu entendo.' Ela segurou o olhar de Maura porque queria que a loira soubesse o quão sincera ela estava sendo. 'Tenha o bebê, Maur. Me deixa criá-lo com você.'

A médica sentiu o coração disparar, mais pelo jeito que Jane a encarava do que pelas palavras em si. Os olhos negros e cintilantes guardavam um tipo de emoção. Esperança, empatia... Algo mais que Maura não conseguia identificar, mas que mexia com ela. E aquela era a Jane que ela conhecia, disposta a ajudá-la, a ampará-la. Ela sorriu tristemente, porque apesar de nunca ter duvidado de que a morena teria feito aquilo, mesmo que não dissesse, Maura sabia que ainda assim a vida das duas poderiam tomar rumos diferentes.

'Jane, você sempre esteve aqui. Eu sei que estaria nesse caso também. Acontece que...'

'Nós casamos.' Ela disparou sem nem mesmo pensar.

Maura arregalou os olhos e prendeu a respiração. O que Jane estava fazendo? Ela queria formular algo para dizer, mas a surpresa tinha sido tanta que nenhuma palavra cruzava sua mente agora.

'Eu quero dizer... Para nos estabilizar. Nós nos casamos e tão logo o bebê nasça eu o adoto. E oficialmente temos os mesmo direitos e obrigações com a criança.'

Ar era tudo o que passava pelos seus lábios. A detetive tinha noção do que aquilo significava? De quão grande era aquele compromisso? De que criar uma criança era algo para a vida toda?

'Você...' Ela se calou porque o olhar de Jane pesava demais sobre ela.

'A não ser que... Você considere contar para o Jack e, eu não sei, tentarem juntos?' Ela soou incerta, um tanto quanto desconsertada. Por que Maura não estava falando? Ela se sentia uma idiota! Não era para ela ter colocado as coisas assim.

'Não.' A médica finalmente conseguiu dizer. Ela não tinha planos nenhum de envolver Jack por enquanto, ainda mais porque considerava não ter o bebê.

'Não...? Eu... É apenas uma idéia, Maura.' Ela parecia cada vez mais incerta agora, sem saber que rumo a conversa estava tomando.

'Jane, isso... Você... Pensou sobre isso? É muito... Jane, é o resto de sua vida. Não é algo que você possa voltar atrás.' Ela acrescentou num murmúrio, ainda surpreendida pela oferta da morena, espantada pelo tanto que a morena havia oferecido por ela. Praticamente sua vida toda. 'Você pode encontrar uma pessoa nesse tempo... Querer construir sua família, Jane. Não seria nenhum pouco justo da minha parte aceitar isso pensando apenas em mim. Prender você num relacionamento por causa da guarda de uma criança, isso... Sem contar a própria criança em si!'

'Você é minha família, Maura. E até onde eu sei, nós praticamente moramos juntas. Nós passamos mais tempo juntas do que separadas, não é? E eu sei o que isso significaria, para nós duas e não só para mim. O compromisso envolve as duas partes.' Ela suspirou. 'Eu quero fazer isso. Se você estiver disposta a fazer também. Eu quero, acima de tudo, que você saiba que tem essa opção. E não tome isso como um sacrifício de minha parte, ou... Um favor. Não. Eu não vejo ninguém no meu futuro, nenhum relacionamento amoroso... Bem, isso que nós temos, Maura, eu sei que nós podemos fazer isso. Eu, você e um bebê. Nós ficaríamos bem, não ficaríamos?'

Maura sempre fora boa em resolver problemas. Ela encontrava as soluções para equações mais complicadas, para eventos imprevistos. Ela era assertiva com suas escolhas e mantinha sua vida em controle, de modo que raramente era surpreendida com algo indesejável. Evita pessoas, porque pessoas vivas a deixavam desconfortável, e isso só havia mudado por causa de Jane. Oh sim, ela era muito boa em encontrar soluções. Sua mente era afiada... Exceto quando se tratava de suas emoções. Nesse momento, com tanta coisa acontecendo dentro de si, ela não conseguia colocar seu cérebro para pensar. A lógica havia se perdido em meio de questões infinitas, e em sua ansiedade de encontrar um saída, algum sentido dentro daquilo tudo... Ela só se sentia mais sem direção.

'Você não tem que responder agora, Maur.' Jane finalmente disse, porque ela entendia que a decisão deveria ser analisada com calma, tempo. 'Quando você estiver pronta, quando você decidir o que quer... Você sabe que tem essa opção, que eu ficaria sempre do teu lado.' Ela apertou as mãos de Maura uma última vez antes de soltá-las.

'Obrigada.' A loira murmurou, os olhos estudando atentamente Jane.

Ela dispensou a gratidão com um sorriso e um leve menear de cabeça. 'Eu vou... preparar algo para comer. Ok?'

'Ok.' Ela respondeu simplesmente e seu olhar acompanhou Jane, que se moveu da sala para a cozinha.

Tudo tinha acontecido rápido demais, mudado de um estado para outro, e depois para outro novamente, em pouco tempo. Maura se sentia aturdida. O mundo parecia girar rapidamente ao seu redor, e ela não conseguia acompanhá-lo. Apenas flashes de imagens eram capturados em sua mente. Memórias de infância: seu primeiro animal de estimação, sem o conhecimento dos pais, tinha sido um sapo que encontrara no jardim. Eles jamais permitiram que ela tivesse cachorros ou gatos, nem mesmo peixes. Qualquer criança se assustaria com um bicho daquele, menos ela. Ela não teve problema alguma em segurá-lo nas mãos, sentir a pele fria e escorregadia do anfíbio. Ela o soltou perto de um formigueiro e o observou ele comer as formigas. Tinha sido por apenas um dia, e ele nunca mais voltara. Ela não tinha escolhido um nome, mas ela ainda se lembrava do animal porque tinha sido a primeira vez, em seus poucos anos de vida, que ela sentira a companhia de alguém. Ou algo, que seja. Na escola ela sempre caminhava sozinha com livros em baixo dos braços. As outras crianças não a notavam, ou quando o faziam, era apenas para provocá-la. Seus melhores amigos naquela época tinha sido os livros que encontrava na biblioteca. De alguma forma ela não se incomodava. Na adolescência chamava a atenção por sua beleza, mas ainda assim parecia tão impossível manter uma conversa com outra pessoa: ela era mais inteligente, mais avançada e esperta que a maioria — senão todos — os outros alunos. Eles se cansavam rapidamente dela, e ela, deles. Os anos de infância e adolescência tinham sido passados em plena solidão. Sem irmãos, sem amigos. Sem nem mesmo um bicho de estimação. Tudo começou a mudar, por fim, na faculdade. De um relacionamento ao outro, Maura conhecia pessoas, ricas, bem-relacionadas. Um tanto bonitas, completamente fúteis. O círculo intelectual que fazia parte era pequeno, e talvez por serem tão inteligentes, as habilidades sociais eram tão baixas quanto à dela. Ainda assim, era algo mais do que o que teve na infância.

Ela suspirou e voltou-se a deitar no sofá. Ela não tinha dúvidas de que a infância de Jane tinha sido melhor do que a dela. Mesmo quando Jane lhe contara sobre a falta de dinheiro dos pais quando ela e os irmãos eram pequenos. Eles sempre cuidavam um do outro, estavam juntos em qualquer situação: nas brigas, nas reconciliações, nas encrencas com os vizinhos, nos castigos que recebiam. Jane saberia guiar, sem dúvidas, uma criança. Ela saberia de brincadeiras, ela entendia sobre companhia. Maura? Não. Não ela. Problemas com amigos de escola seria algo que ela nunca conseguiria ajudar seu filho ou filha lidar. Ela mesma nunca tivera nenhum problema — porque nunca tivera amigos. Como ela poderia fazer isso? Como ela poderia criar uma criança sendo que sua própria infância fora um fiasco? E Jane estava lhe pedindo para fazer justamente isso. Ela não saberia. A criança seria infeliz e ela se sentiria miserável. Não lhe parecia justo colocar alguém no mundo sabendo que ela não tinha capacidade para exercer tal papel.

Ela ouviu Jane xingar quando uma panela fez barulho ao se chocar com o chão. Jane estava lá. Ela sempre estava. A detetive lhe dissera que ela estaria ao seu lado se ela simplesmente pedisse, que criaria a criança com ela. Suas mãos tremeram levemente quando ela esfregou os olhos, ainda cansada. A morena continuava a cozinhar algo, enquanto ela estava perdida em pensamentos. Jane saberia o que fazer. Ela ficaria para sempre? Ela jogou o corpo para o lado e o sofá, junto com a coberta, a acolheu num abraço. Exausta e com o corpo dolorido, ela fechou os olhos e focou no som vindo da cozinha. Ela dessincronizado, às vezes metálico outras vezes abafado e oco. Uma melodia desacertada e estridente que por vezes acrescentava a voz rouca e ao mesmo tempo branda de Jane. E foi ouvindo à essa sintonia que ela adormeceu, dispensando toda a ponderação de antes.

...

'Maur?' A voz soou tão distante em sua cabeça, mas carregada com ela veio a sensação de alguém acariciando sua coxa. Ela estava tão confortável ali, por que alguém estava tentando acordá-la? Por que não deixavam ela continuar a dormindo? Ela resmungou uma desaprovação, ou pelo menos tentou. Ela jogou a cabeça para o lado e tentou afugentar o incômodo. A voz tinha cessado, mas o carinho continua sendo aplicado em sua coxa. Ela franziu o cenho e tentou resistir à vontade de simplesmente voltar a dormir. Alguém estava ali, chamando por ela. Ela queria pedir que a pessoa a deixasse em paz, e ela pediria educadamente, até mesmo porque estava consumida pelo sono. Ela abriu os olhos e demorou para a imagem entrar em foco. Jane estava ali, sorrindo pacientemente para ela. Jane estava ali!

Com o coração disparado, ela apoiou as mãos no sofá e tentou se sentar. Jane estava em sua casa, em sua cozinha, preparando jantar e ela tinha simplesmente adormecido. Quão rude tinha sido de sua parte! Provavelmente a morena tinha falado com ela e ela não tinha respondido, e essa era a razão de ter sido acordada. Ela tentou se lembrar da última conversa que tiveram e sentiu uma dormência se instalar em seu corpo e mente quando se recordou que Jane havia pedido em casamento. Não de um jeito romântico, não. De um jeito que facilitaria a adoção do bebê que ela, até então, não queria ter.

Ela piscou os olhos e se perguntou se aquilo tinha mesmo acontecido. Afinal ela estava dormindo o tempo todo no sofá, não estava? Talvez ela tivesse apenas sonhado. Sim, talvez fosse isso. Atordoada, ela se sentou no sofá desajeitadamente, de um modo que Jane precisou segurar seu antebraço.

'Hey, você tá bem?' Os olhos negros se arregalaram em preocupação e Jane colocou uma mão na sua cintura, pronta para segurá-la se caísse.

'Sim. Desculpa, eu...' Ela vagueou. Ela lançou um olhar para a mesa de centro e estreitou os olhos. Ela não tinha sonhado, Jane realmente estivera lá, cozinhando enquanto ela dormia. Dois pratos de... sopa estavam colocados ali em cima, fumegantes.

'Você sabe que tem que comer.' Jane disse colocando uma almofada em cima de suas pernas cruzadas. 'Cuidado, tá bem quente.' O prato de sopa foi colocado em cima da almofada e Maura o segurou cuidadosamente pelas bordas. 'O que você quer assistir?' Ela observou enquanto Jane segurava o controle remoto na mão, esperando por sua resposta. Ela estava muda, ela notou.

'Documentário?' Ela soou insegura aos próprios ouvidos.

'Lá vamos nós.' Jane suspirou e passou por alguns canais. Discovery Channel teria que servir. 'Você sabe... Você acha que eu não presto muito atenção no que você diz, mas... A verdade é que você tem razão. As pessoas comem mais quando estão distraídas pela tv. Quer dizer, ao menos você come.' Ela provocou, mas Maura continuava em silêncio, segurando a colher na mão, olhando dela para a tv.

Ela viu Jane sorrir timidamente e abaixar a cabeça. Claro, Jane prestava atenção nela, óbvio. Maura piscou os olhos e, sem muita vontade, revirou o conteúdo dentro do prato. Tudo o que viu foi legumes. Bem, ela precisava reconhecer que Jane tinha se esforçado ao máximo ao fazer uma sopa com apenas legumes. Jane odiava comer aquilo, e ainda assim, surpreendentemente ela tinha colocado um prato para ela mesma. Maura experimentou o sopa. Ela recebeu de bom grado o calor do alimento e o gosto... Aonde Jane tinha aprendido a cozinhar assim? Ela lançou um rápido olhar para ela. Os olhos negros fixos na tv.

'Isso... Está delicioso.' A loira disse.

'Há. Receita de família. Um dia eu te ensino.' Jane respondeu sem olhar para ela, mas sorrindo.

Maura sorriu e decidiu comer o quanto podia, o que acabou sendo todo o prato. Intrigada, ela lançava olhares a todo momento para Jane, mas ou a morena desconhecia ou ela simplesmente decidiu por ignorar. Quando Maura terminou, ela descruzou as pernas e fez menção de se levantar, mas Jane a parou com as mãos e tirou o prato dela.

'Deixa comigo.' Ela disse enquanto se levantava. Ela tinha terminado a refeição primeiro, e aparentemente estivera esperando Maura para só então levar o prato das duas.

'Obrigada.' Ela disse de novo, se sentindo cada vez mais grata, e agora, graças à refeição, mais forte também.

Jane levou os pratos à pia e voltou a se sentar no sofá em seguida. 'Então...' Ela disse, suspirando e segurando uma almofada entre os braços. 'Ailurus fulgens.' Ela leu na parte inferior da tv o nome do animal que estavam documentando. 'Panda-vermelho é tão mais simples.' Ela reclamou.

Maura virou a cabeça e sorriu docemente para ela. Ela já estava acostumada às críticas de Jane sobre os nomes científicos. Ela encostou a cabeça no sofá e um silêncio caiu sobre elas, salvando o som da tv, cuja voz do narrador continuava informando sobre a vida do animal.

'Os pandas-vermelhos são animais muito hábeis e acrobáticos, vivendo principalmente nas árvores. Eles habitam áreas territoriais demarcadas e são frequentemente solitários, raramente vivendo em casais ou em grupos familiares.'

Maura se remexeu no sofá e abraçou as pernas. Ela fora familiarizada com a solidão uma vez. E sim, ela temia senti-la de novo. Ela deveria ter dito isso à Jane quando a morena colocou a pergunta, mas covarde demais, orgulhosa demais, ela preferiu desviar o assunto.

'Pandas-vermelhos adultos raramente se interagem fora da estação de acasalamento. Ambos os sexos podem se acasalar com mais de um parceiro durante a estação. O acasalamento ocorre entre meados de janeiro até o começo de março, e os filhotes nascem entre junho e o final de julho.O período de gestação varia de 112 a 158 dias, e a fêmea dá à luz entre um a quatro filhotes, que nascem cegos e pesando de cento e dez à cento e trinta gramas. Alguns dias antes do nascimento a fêmea começa a reunir material, como capim e folhas para usar na confecção do ninho. O ninho é normalmente localizado em uma árvore oca ou uma fenda de rocha.'

Maura fechou os olhos. Ela não queria pensar em ninhos. Ela não queria pensar em filhotes e mães pandas que criam seus bebês sozinhas. Um documentário tinha sido uma péssima idéia, e dessa vez, ela tinha que reconhecer que era ela quem tinha escolhido o programa errado, e não Jane.

E, se Maura estivesse com os olhos abertos agora, ela notaria o olhar preocupado que a morena estava lançando sobre ela. Tudo o que ela supôs, porém, é que Jane tinha tomado sua atitude como cansaço, porque...

'Maura.' A mão da morena foi parar em seu ombro. Ela abriu os olhos e virou a cabeça para a detetive. 'Você parece extremamente cansada. Acho que... Acho que seria melhor se você deitasse. Na cama, quero dizer.'

'É claro.' E ela se sentiu grata pelo mal entendido da morena. Ótima maneira de evitar os pandas, sem ter que dar o braço a torcer. 'Claro.' Ela repetiu de novo e ansiosa por sair de lá, colocou a almofada de volta ao sofá. 'Eu vou tomar um banho rápido e... me deitar. Você vai ficar?'

'Vou.' Ela respondeu sem pensar porque ela não queria deixar Maura sozinha essa noite.

'Certo. Obrigada pela sopa e... por tudo mais.' Maura tentou um sorriso e abaixou a cabeça, tímida.

'Você sabe que não precisa agradecer, Maura.' Jane sorriu para ela e apertou seu ombro com carinho.

'Boa noite.' Maura murmurou e esperou até que Jane respondesse para só então sair de lá.

A morena desligou a tv, arrumou o sofá e foi até a pia, lavar a pouca louça que tinha sujado naquele noite. Maura odiava as coisas fora do lugar e, conhecendo bem a loira, Jane não queria estressá-la logo pela manhã. Ela organizou a cozinha e depois, um tanto quanto cansada, se dirigiu de novo para a sala e tirou as botas. Estava frio, mas o ar quente circulava pela casa, e a sensação estava agradável. Ela considerou ligar a tv novamente, apenas conferir as notícias de tempo e esporte — claro — mas o celular de Maura estava em cima da mesa, e aquilo chamou a sua atenção.

Era uma desculpa esfarrapada, mas ela iria usá-la assim mesmo. Ela agarrou o aparelho e caminhou de meia no chão até o andar de cima. Bateu suavemente na porta de madeira do quarto da loira e abriu devagar.

'Jane?' Maura se sentou na cama e estudou a mulher.

'Eu... Vi seu celular lá em baixo e achei que você poderia querer dormir com ele por perto.' O que de fato Maura fazia. Ela sempre mantinha o aparelho consigo a noite, em caso de alguém ligar por causa de corpos encontrados.

'Oh.' E ela se surpreendeu de ter realmente deixado o celular lá em baixo. 'Obrigada.'

'Não por isso.' Jane sorriu e passou o celular para ela. Ela nunca admitiria que estava ali porque queria checar a médica, mas todas suas atitudes a entregavam. 'Você tá melhor? Tá confortável?' Ela pareceu insegura, se sentiu idiota.

'Bem melhor.' Maura sorriu docemente, o sorriso que Jane adorava ver brincando em seus lábios.

'Ótimo.' Ela se remexeu sobre os pés e soltou as mãos ao lado do corpo. 'Bem... Boa noite, então.' Ela balançou a cabeça como pedindo licença para sair e se virou. Antes de dar o primeiro passo, entretanto, a mão de Maura correu dentro da sua e apertou.

'Jane.' Ela murmurou.

Quando a morena se virou para ela, mais uma vez, tudo o que viu foi fragilidade em seu olhar. Ela inconscientemente apertou a mão da médica.

'Eu não quero ficar sozinha.' A voz baixa confessava um segredo e Jane reagiu instintivamente a isso.

'Me dê um minuto.' Ela respondeu e quando Maura balançou a cabeça, ela soltou sua mão e sumiu pela porta. Não mais do que três minutos, de fato, ela estava de volta ao quarto, vestindo seu pijama.

Maura observou enquanto Jane contornou a cama e se enfiou de baixo das cobertas. A médica ainda estava sentada e não seria a primeira a se deitar. Ela colocou um travesseiro na cabeceira da cama e apoiou suas costas. A médica a observava de cenho franzido. Depois de acomodada, ela viu Jane bater a mão ao seu lado na cama, pedindo para ela se aproximar. Intrigada, ela atendeu ao pedido e se sentou ao lado da detetive, o rosto virado para a morena que, Maura suspeitava, estava tão cansada quanto ela. Num movimento novo e inesperado, Jane passou o braço por suas costas e sem nenhuma resistência, a médica se inclinou para dentro do abraço.

Seu coração disparou consideravelmente e ela ergueu a cabeça para encarar a mulher. Com o movimento, uma lufada de ar trouxe ao seu nariz o perfume de lavanda, um que ela particularmente gostava. Ela apoiou sua mão na barriga de Jane, ainda surpresa pela ação da morena e encostou a cabeça em seu ombro. De repente ela se sentiu cansada demais e escondeu o rosto no pescoço da detetive. Ela se perguntou se era porque tinha encontrado a proteção que precisava ali, a ponto de se desarmar completamente, de deixar que tudo o que estivesse sentindo tomasse eu corpo, porque agora ela finalmente poderia dormir em paz. Pelo menos enquanto Jane estivesse ali. Ela parecia segura, e Maura tinha se acomodado tão bem nos braços dela.

Sim, agora o outro braço da morena estava sobre seu corpo, se certificando de mantê-la pressionada contra si, apenas o suficiente para que ela soubesse que não pretendia sair dali. A mão da morena acariciou seu braço e ela sentiu Jane se mexer, e ela sabia que a mulher estava estudando-a. Ela ergueu a cabeça ligeiramente, e seus rostos estavam tão perto agora.

E o mundo tinha parado.

'Jane...' Ela murmurou, tão incerta do que estava sentindo, do que estava acontecendo ali. Era um momento como todo outro, um que Jane só tentava confortá-la da melhor forma possível. Certo? Um gesto que ela poderia simplesmente aceitar, sem questionar muito sobre ele, sem interpretar nada mais. Um gesto de carinho... Incomum.

'O que você está fazendo?' Ela não conseguiu reprimir a curiosidade.

Um beijo foi plantado carinhosamente em sua testa e ela fechou os olhos. Uma batida de coração e ela se sentia mais renovada. A voz rouca de Jane abraçou suavemente seus sentidos.

'Eu estou ficando, Maura.'

Notas finais
Os pandas-vermelhos? São lindos! Peguei toda a referência na wikipédia. ;)