Três minutos
1 Três minutos
Notas iniciais
Quem os relógios inventou? Decerto
Algum homem sombrio e friorento.
Numa noite de inverno tristemente
Sentado na lareira ele cismava
Ouvindo os ratos a roer na alcova
E o palpitar monótono do pulso.
— Álvares de Azevedo
Os soluçares das estrelas petulantes, antes apagadas atrás das nuvens maciças, a aparecerem, resvalando e galgando noturno ébrio e funesto, às luzes de um prédio escuro meio à madrugada, num trovejar abraçam árvores tácitas, quietas, e despertam durante pouco tempo longos e largos sonhos cansados entre trons tempestuosos, paralisando até relógios por um pequeno instante de espanto e provocando breve queda de luz. Num dos quartos lá em cima, ao terceiro andar da construção, dorme um só jovem, num sono mais pesado que a raiva dos trovões. O único a não se acordar àquela noite, o rapaz, numa furiosa dor de cabeça, levanta pela manhã como se uma pedra se o tivesse atingido despercebidamente enquanto repousara. — Oh! quão pesadas nos são as horas quando ritmam num febril pulsar de tontura ao topo da testa... assim ele se sentia.
No entanto, nem tão cedo quanto lhe parecia, quando desperto ao sofá da sala, marcava 09:03 em seu relógio de pêndulo — uma relíquia da qual seus amigos e familiares faltavam dar devido valor, mas a ele deslumbrava-lhe os olhos de alguma forma por toda vez que, monótona e insistentemente, ouvia o tiquetaquear do pêndulo oscilando, sentindo-se como se vivesse num tempo próprio —, no tempo que for — pensou —, atrasa-se já três minutos meu professor de flauta... e não é de seu costume tardar a chegar. Mas assim a sorte era-lhe oportuna sequer uma vez, e, mesmo tendo dormido mais do que devia, daria tempo de vestir-se e ao menos pôr algo à boca para lhe tirar o sabor seco dormido de seu hálito.
Todavia, após ter engavetado seu pijama e ter dobrado os lençóis e vestido-se e lanchado e escovado demoradamente os dentes, o jovem passou a preocupar-se definitivamente com a demora de seu professor. Passava já quase uma hora, nem sinal do exímio flautista, seus pais chegariam na próxima hora e não havia razão para ainda esperar o professor, decidindo, pois, por ficar algum tempo fazendo escalas melódicas em sua flauta transversal e depois praticar o primeiro minueto de Bach enquanto seus pais não retornavam.
Transcorrido mais uma hora e meia — segundo o relógio oscilante —, o garoto, já sem fôlego, e com o minueto barroco em perfeita execução — com cujo som já era-lhe enfadonho aos tímpanos —, foi-lhe involuntário largar o instrumento de sopro sobre os lençóis como que em desafogo e, seguidamente, pôr-se a ligar para seus pais. Infezlimente, eles sequer tinham os celulares ligados, que teria lhes acontecido para se atrasarem? Sem aviso algum, nada? — pensou o garoto... — Eles vão à charneca de minha tia e, logo à primeira vez que deixam seu filho passar a noite só, com míseros 12 anos de idade, esquecem sua pontualidade e senso de comunicação? Oh! como os deuses amam desgraçar-me...
E então, quando o pequeno percebe que lhe será lícito comer besteiras de almoço, achando-se incapaz, pois, de pôr à prova suas habilidades de culinária, passa a não considerar assim tão ruim a situação, e logo se entretêm com salgadinhos e leituras de tarde. Mas se passam mais horas, são 15:30, que estão a fazer seus pais? Essa pergunta passa a incomodar profundamente o menino, assim, depois de tentar por numerosas vezes contatá-los por números telefônicos tantas vezes, resolve sair porta a fora, quem sabe até o apartamento vizinho... Mas eis que se depara com uma incógnita.
Incógnitas normalmente tem da velhice sombria algo de soturno (como se espreitasse uma cova) e, não tendo rugas ou falta de dentes, falta razões e abundam segredos nela. Essa incógnita, porém, era de fato um velho sombrio, enrugado, de mãos ossudas e sem os dentes da frente, ainda cuja pele, aparecendo onde acabava um roupão negro, era nívea feito gelo, carregando uma obscura voz friorenta a lhe dizer: “...sê bem-vindo ao meu humilde invento, pobre criatura que os minutos deixaram para trás...” e, com essa lira oracular, sumiu o senhor com um vento subitamente soprado de um piscar de olhos. Exatamente, a imagem sinistra e ancestral do velho não perdurou mais que talvez uns três estreitos segundos à frente do menino, e o sumiço dele, embora talvez houvesse causado mais trêmulo espanto que a persistência da figura incrível e oracular, fazia-lhe pensar, evidentemente, que estivesse simplesmente delirante, e isso o ajudou na superação do ocorrido.
Contudo, ainda no corredor do prédio, o rapaz deu uma olhadela convulsa pra cima e pra baixo até onde acabavam as escadarias na escuridão, o velhote sombrio tinha realmente desaparecido. Pensando bem, o velhote havia lhe parecido tão velho que não era de se duvidar que o tempo o houvesse esquecido de levar e agora o fizera repentinamente, era só osso encascado em rugas, e até a sua fala confundia-se com a quietude. Assim ou de outra maneira, ainda encontrava-se preocupado com sua família e sentia-se mais só do que nunca, e pôs-se a bater na porta e tocar a campainha de seu vizinho — sem nenhum sucesso, porém —, quando, ao acotovelar a maçaneta da porta, viu que ela não estava trancada, e a terminou de abrir, mesmo carecendo de permissão para tal.
Deparando-se com a sala do vizinho, após esgaçar a porta e fechá-la atrás das costas, receou ao passear por um tapete franzino, fitando a TV muda lá numa tela congelada numa fotografia de filme que já vira há algum tempo atrás, Mr. Nobody, estampando com todas as cores um velho sentado, centenário, que muito assemelhava-se ao velhote sombrio que viu ao passadiço dos apartamentos mais cedo. Tentou ignorar essa semelhança, porém, o jovem, e seguiu, quase que furtivamente, para as demais peças da casa, mas, sem encontrar ninguém, opta por voltar ao seu apartamento. Nesse momento, ao passar outra vez pela sala de televisão, vê sair do televisor o senhor de idade, recurvava-se sobre os braços com a cabeça erguida, avistando o garotinho de doze anos, e tão logo já punha-se em pé acobertado pelo mesmo traje opaco de há pouco (revelando-se mais ágil do que se esperaria alguém de sua idade). Então, após o primeiro entrecruzar aterrorizante dos olhares dos dois, o menino lá tremia feito os arvoredos frente à tempestade da noite anterior, lá com os lábios arroxando-se, a bocarra entre aberta, com o coração espasmado em pulsos esparsos e possantes, auscultados ao pé do ouvido, os pelinhos do braço seu eriçados, em frágeis sismos ao queixo, em suspiros ásperos e fundos, letárgicos e assoviando ao silêncio álgido, os ombros desmaiados, as costas num arrepio à espinha encurvando-se — como se quisessem imitar as do velho —, os olhos, tácitos, secos, rijos, sem uma piscadela mínima, arregaladíssimos, tingidos duma cor vermelha que lhes tomava conta, e sem afastar-lhe as vistas nem por um momento, penetrou-lhe os ouvidos a fala do idoso: “como te chamas, rapaz?”, e, doendo-lhe as pálpebras esbugalhadas, ainda sem piscar, respondeu numa voz que mais parecia um débil ruído, do qual tinha certeza de que tão só ele mesmo teria escutado — tão estremecido e suspirado que era —, e dizia: “me-meu... nom...e... Fernando”.
“Humm... hum...” — murmurou pensativamente o velho, enquanto o garoto que lhe respondeu não sabia se o teria entendido afinal ou não, mas logo soube... o Senhor Ninguém continuou: “um bonito nome para dançar em passos pequenos; ter uma aventura tão breve... quiçá criar coragem para novas aventuras...” e, depois de uma pequena pausa, prosseguiu: “olha o teu relógio de pulso... que horas são?”. E Fernando tornou os olhos para baixo, piscando-os pela primeira vez desde então, e o relógio digital ainda indicava 09:01. Como isso é possível? Estaria tão errado assim? A bateria falhara? Parece que o ponteiro está paralisado, ou... não sei, demorando para se mover, por algum motivo — pensou o menino, e ao levantar seus olhos estranhados, não menos assustados que outrora, sumia novamente o velho, sem deixar qualquer resquício da existência, sem nem mesmo a televisão voltar a mostrá-lo.
Ora, apavorado como jamais houvera ficado, o garoto corre desde lá para seu apartamento, trancafia as portas, todas, desde a de entrada até a de seu quarto, e lá joga-se à cama, com o coração saltando-lhe à boca. Ficou por lá algum tempo, nem sabia quanto, até que, um pouco mais calmo, quis fingir que tudo aquilo era um grande engano da consciência, que seus pais deveriam voltar em breve, e que seria mais prudente que aproveitasse o tempo tocando o outro minueto de Bach, no. 2, que deveria também mostrar para seu professor. Terminando-lhe, depois do que — acreditou o garoto — teria se passado trinta ou quarenta minutos, foi até à cozinha como se nada incomum houvesse-lhe ocorrido nesse dia — talvez estivesse certo, a música relaxou-o —, bebeu um copo de água e sentou-se ao sofá de que havia adormecido na noite anterior, com os ombros e as mãos descansadas, respirando doce e pausadamente, o pequeno flautista. Nessa ocasião, viu escorado o tal relógio de corda com o pêndulo oscilante, pra-lá-e-pra-cá musicando o tempo, em andamento adagio e inexpressivo, e viu: indicavam seus ponteiros "17:47", já final de tarde... nem sinal de seus pais. O pequeno Fernando não conseguia se desvencilhar da preocupação com seus pais, mas sem muito o que fazer além disto, pôs-se a, insistentemente, ligar de novo e de novo para seu pai e sua mãe, e nenhum atendia — os celulares, ainda aparentemente desligados —, e nesse tempo perpassou os dedos na tela do aparelho celular seu avistando contingencialmente as horas “09:02”, lembrando-se da hora em que o velho misterioso que saíra da TV de seu vizinho pediu-lhe que visse as horas em seu relógio de pulso, fez isso outra vez, lá estava: 09:02 também — como poderiam ambos os relógios (do celular e do pulso) estarem errados simultaneamente e apontando a mesma hora? E mais, o celular definitivamente está com bateria. Pôs-se a conferir, pois, todos os relógios da casa: o despertador eletrônico de seu quarto, o relógio digital do micro-ondas na cozinha, o horário que aparecia na Área de Trabalho do seu notebook aberto sobre a mesa de jantar, no computador de seu pai sobre a escrivaninha da sala e no aparelho de GPS esquecido numa das cadeiras ao lado da mesa; todos indicavam a mesma hora: 09:02 — poderia estar errado o relógio de pêndulo? Não, mas como ainda é tão cedo? 09:02, impossível! Tenho certeza do tanto de coisas que já fiz.
Assim, Fernando, depois de muito suor congelado lubrificar-lhe a face, decidiu outra vez sair do aposento. Não iria, no entanto — mas nem que o tempo dependesse disso! —, ao seu vizinho, porém desceria alguns andares, degrau por degrau — pois por algum motivo não se imaginava muito seguro no elevador na atual conjuntura —, e, chegando ao primeiro andar, um pouco manca uma perna sua pela descida em frio de espavento e ansiedade, com a mente girando-lhe os olhos em cogitações insanas — o tempo parara? Não é possível! As horas passaram! Tanto em uns relógios quanto em outros! O tempo passou! Eu fiz muita coisa! Não é possível... —, via porém, ao térreo do edifício, todas as pessoas paradas. Devia haver pelo menos meia dúzia delas, e a gente toda, a seus olhos nus, pareciam-lhe não se moverem um milímetro sequer, algumas pairavam no ar até, como se tivessem saltado e o tempo as congelasse no ar, desafiando a gravidade; era o caso de uma criança próxima à porta de entrada; passando por essa criança, Fernando foi até à rua... onde acha mais que uma centena de homens e mulheres, todos igualmente paralisados. Ao virar-se, porém, a atenção dos olhares ao asfalto, vê que uns carros passam com alguma velocidade, muitíssimo lenta, mas passam, talvez na velocidade de uma lesma colada ao gelo ou uma tartaruga em areia movediça, todavia andam, havia movimento ali — o tempo não está parado... —, e por entre dois carros, numa tímida faixa de pedestre, atravessa calmamente um velho. Fernando o conhecia, sim, o mesmo centenário do filme e mesmo que encontrara também nos corredores do prédio antes disso, inconfundivelmente o mesmo.
Com suor a escorrer e pingar de seus dedos, de olhos escancarados como de um peixe, o jovem estava como se viu mais cedo ao apartamento do vizinho — aquele senhor simplesmente dava-lhe um calafrio desumano ao ter sua presença processada pelos seus neurônios —, e ácidos calafrios delongados sentiu enquanto o velhote andejava até sua direção e o ultrapassava o ombro, passando com uma sublime indiferença, como se nem o notasse ali parado — havia também paralisado? —, mas, ao dar-se conta de que o velho já passara por ele, deu meia volta e fitou o Senhor Ninguém subindo as escadas do prédio. Fernando nada faria para o impedir, claro, simplesmente, atemorizado pelo que quer que fosse o velhote, contemplava-o em sua subida monótona e regular, ouvindo os degraus pisados por ele, paulatinamente, com a uniformidade de um metrônomo. E, depois que os passos cessaram finalmente — ou os sons das passadas enfim perderam-se aos andares superiores da construção —, Fernando ouvia da janela de um dos apartamentos o soar do minueto no. 3 em sol menor de Bach, o qual ainda não sabia ele tocar, mas que em seu quarto guardava a respectiva partitura. Eu... não deixei a porta de casa aberta, deixei?... — pensava —, pois tinha certeza de que aquele som era de sua flauta, e a janela... a janela, pelo que via da rua, conquanto que sua matemática não estivesse muito enferrujada ou que não houvesse também “parado no tempo”, devia de ser a de seu apartamento — será possível? Aquele velho... minha flauta?...
Quando, ao ouvir de lá o som fremindo cada vez mais alto da flauta tocada em notas barrocas, horrorizado e incrédulo, sentindo-se só como nunca o fora no mundo... — como que o mundo houvesse o abandonado, ele e o Bach de que jamais bem se entenderam —, em frio ao lume do Sol vagaroso — como se lentamente brilhasse —, tremendo-se todo, acordou num grito.
O minueto não toca, o monótono som do relógio, porém, ouve-se dali, ouvia-o suspeitosamente, e afundou os olhares para baixo como esticou os braços em uníssonas ações de reflexo; estava em sua cama. Tudo um sonho. Por conseguinte, já bastante aliviado e piscando com alguma normalidade, virou os olhos ao canto superior direito, encontrando os de seu professor de música, segurava sua flauta transversal em uma das mãos e próximas aos lábios — como se acabasse de executar alguma obra — enquanto a outra mão passava a revirar sua gaveta de partituras, e, percebendo que Fernando acordava, falou o professor: “ora, ora, enfim! Incrível como podes te atrasar mesmo que a aula venha até a tua casa, Fernando. Ah! que sono tivestes, não... parece que tua noite foi longa, tivestes problemas para dormir sozinho à noite? Teus pais avisaram-me que ficarias só.” O garoto olhou incrédulo para seu professor — quase tão incrédulo parecia-lhe como quando ouvia o minueto de Bach tocado por um velho (possivelmente mais velho que o tempo, ou inventor dele) com sua flauta no meio de um colapso temporal —, mas nada falou ao professor o quanto obviamente a noite havia sido longa, muito longa... o que lhe lembrou de olhar seu relógio: 09:03, três minutos que se passaram.
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