Três da Tarde

1 Capítulo único


O sino acima da porta tilintou uma vez às três em ponto, como sempre fazia, e, como sempre, Hermione já estava ali.

A mesa do canto, perto da janela embaçada, era sua desde a primeira terça. A luz do sol atravessava os vidros tortos, desenhando linhas douradas sobre a madeira gasta. O cheiro de canela vinha da cozinha, misturado ao perfume discreto de flores secas que a dona, uma bruxa de cabelos lilases chamada Maribel, insistia em manter sobre o balcão, mesmo fora da estação.

Hermione segurava uma xícara com as duas mãos, embora o chá já estivesse morno. Observava o movimento lá fora, um mundo que não sabia deles, enquanto o outro mundo, aquele que existia só entre três e quatro da tarde, se aproximava.

Na mesa, havia um livro aberto, mas ela não lia. O marcador, enfiado entre as páginas há semanas, estava preso no mesmo capítulo.

O mesmo marcador. Em uma terça. O mesmo silêncio cheio de possibilidades.

Ela já havia parado de se perguntar por quê. Por que às três. Por que ali. Por que ele. Mas era inevitável se perguntar se ele viria. Ela sempre se perguntava isso.

Maribel passou ao seu lado, deixando um pratinho com um scone recém-saído do forno. Não disse nada, apenas sorriu, cúmplice, parecendo saber que as palavras naquele lugar precisavam ser poucas, e suaves.

Hermione olhou o relógio de parede, que marcava exatamente três horas e dois minutos. Dois minutos de silêncio. De antecipação. Dois minutos de espera por um homem que nunca prometeu aparecer, mas, até então, sempre aparecia.

Ela girou a xícara devagar, ouvindo o som da porcelana sobre o pires. Respirou fundo.

E então, a porta tornou a se abrir. Um passo. Outro. Um casaco cinza. Olhos como tempestade prestes a acontecer.

Ele havia vindo. Claro que havia vindo.

Draco tirou o casaco devagar, os movimentos cuidadosos demais para alguém que sempre fingia pressa. Dobrou-o com exatidão matemática antes de colocá-lo no encosto da cadeira de frente para Hermione. Só então levantou os olhos.

— Você cortou o cabelo. — Foi a primeira coisa que disse, sem se sentar.

Hermione piscou, surpresa.

Levou uma mecha solta atrás da orelha, como se só naquele instante se lembrasse da mudança.

— Uma tentativa de parecer menos exausta — respondeu, com um sorriso pequeno.

Ele retribuiu o gesto com um dos cantos da boca, parecia querer sorrir por inteiro, sem permissão.

Sentou-se. Não muito perto, mas perto o suficiente.

As mãos dela ainda estavam na xícara. As dele cruzadas sobre a mesa, como se precisassem de algo para fazer.

— Você está, na verdade — disse ele, e os olhos dela encontraram os dele por uma fração de segundo a mais do que o necessário.

— O quê?

— Menos exausta.

Ela não respondeu e Draco, ao perceber que havia ido longe demais em uma gentileza, desviou o olhar para a janela.

— Maribel deixou scones de novo? — perguntou, apontando com o queixo.

— Ela acha que estamos juntos.

— Talvez ela esteja certa. — A frase escapou antes que ele pudesse pará-la.

Hermione travou. As mãos ainda na xícara, o corpo ainda no mesmo lugar, mas havia algo no modo como ela respirou, algo entre um susto e um riso contido.

— Você não costuma dizer coisas assim — comentou, baixo.

— Não costumo. — Draco passou o dedo na borda do guardanapo dobrado, parecendo desconfortável. — Mas também não costumo aparecer em um café toda terça, às três. E aqui estou.

Ela o observou. Não com a impaciência de quem espera uma definição, mas com a ternura de quem se acostumou a olhar demais e tocar de menos.

Ele estava bonito. Claro que estava. Draco sempre fora um homem que chamava atenção, mesmo quando tentava desaparecer. A barba por fazer, o ar cansado, as olheiras que o tempo não apagava, tudo nele dizia “não deveria estar aqui”. Mas ele estava.

E ela sabia o que aquilo custava.

— Você veio — disse, não como acusação, mas como constatação. Como se aquilo por si só fosse um gesto de afeto.

Draco assentiu. Estava sério agora.

— É difícil não vir — ele fez uma pausa. — Esse café fede à lavanda e poejo. A cadeira do lado da porta range. A música nunca muda. E ainda assim… — ele olhou para ela — sempre parece novo quando você está aqui.

Hermione abaixou os olhos. Não havia aprendido a lidar com esse tipo de ternura vinda dele. Ele sempre usava o sarcasmo como armadura, a distância como escudo, mas às vezes ele abaixava a guarda. E doía mais assim.

— A gente não pode continuar — ela disse, quase num sussurro.

Draco a encarou, mas não respondeu de imediato. Pegou o scone do prato, partiu-o ao meio com os dedos. Não comeu.

— Já dissemos isso antes — murmurou.

— E nunca cumprimos.

— Porque três da tarde é um lugar onde o mundo não entra. — Ele apoiou os cotovelos na mesa, se inclinando um pouco. — Aqui, você não tem aliança. Eu não tenho passado. A gente só é.

Ela mordeu o lábio. A garganta apertada.

Ele estava perto demais, mas ainda assim longe.

— E fora daqui?

Ele a olhou. Por um instante, Draco Malfoy, o mesmo que aprendera a sobreviver se fechando, quis responder. Quis dizer sim, dizer fica, dizer vem comigo, mas não disse.

— Fora daqui, Hermione — respondeu, por fim — é mais difícil.

Ela assentiu. Baixou os olhos para o chá já frio. Ele pegou a metade do scone e empurrou na direção dela. Um gesto mínimo. Um “fica mais um pouco”. Ela comeu um pedaço.

Nenhum dos dois falou por um tempo.

E ali, naquela mesa pequena, entre farelos de scone e xícaras esquecidas, o que existia entre eles, confuso, contido, mas profundamente real, ficou suspenso no ar, como se o tempo tivesse deixado de andar só por eles.

O relógio já marcava quase quatro, mas nenhum dos dois parecia com pressa para ir embora.

Hermione brincava distraída com um fio solto da manga, os olhos fixos na janela, como se buscasse respostas no mundo lá fora. Draco a observava, cada pequeno movimento dela preso em sua mente, parecendo querer guardar um segredo precioso. Então, quase sem pensar, inclinou-se e tocou de leve o canto do rosto dela. Um toque tão sutil que podia passar despercebido, mas que carregava todo o peso do que sentia.

Hermione piscou, surpresa, mas não recuou. Seus olhos se encontraram, intensos, silenciosos. Sem uma palavra, ela segurou a mão dele entre as suas. Não precisavam dizer nada.

E o silêncio entre eles era a coisa mais verdadeira daquele dia.

Eles ficaram ali, as mãos ainda entrelaçadas sobre a mesa pequena do café. O cheiro de café quente e o murmúrio distante das vozes ao redor criavam uma espécie de bolha ao redor deles, um mundo onde só importavam um ao outro.

— Então... o que a gente faz com isso? — Draco quebrou o silêncio, a voz baixa, quase hesitante

Hermione soltou um suspiro, olhando para as mãos unidas, depois para o rosto dele. Os olhos castanhos buscavam respostas que nem ela sabia se tinha.

— Não sei — disse, sincera. — Talvez a gente só precise continuar aparecendo aqui. Toda terça. Às três.

Ele sorriu, um sorriso pequeno, meio torto, cheio de algo que podia ser alívio, medo e esperança ao mesmo tempo.

— Acho que isso já é um começo.

Eles não disseram mais nada. Não precisaram. A incerteza do que viria depois pairava no ar, e talvez fosse assim que deveria ser, com a promessa silenciosa de que, de algum jeito, eles iriam descobrir juntos.

Quando se levantaram para sair, Draco hesitou, depois sussurrou quase inaudível:

— Até a próxima terça, então.

Ela sorriu, o coração batendo forte, e antes que pudesse responder, Draco inclinou-se lentamente, tocando seus lábios com um beijo breve, quase um sopro, leve, tímido. Ao se afastarem, os olhos de Draco permaneceram presos aos dela por um instante longo demais.

Hermione ficou imóvel por um instante, sentindo o calor daquele toque simples, e depois respondeu com um sorriso tranquilo.

— Até lá.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!