Três amigas e o amor.
52 Sílvia - Muitas coisas novas
E depois do jantar, no fim de noite preguiçoso, eles ficaram conversando sobre o passeio do dia. Sílvia tentava se lembrar de algo sobre aquele pássaro, não conseguia tirar aquilo da cabeça, até Ana anunciar, que iria dormir, com o olhar de súplica para a amiga. Pois sabia muito bem o que aconteceu na outra noite, mesmo que tentasse disfarçar, eles pareciam tão culpados como o gato que comeu o passarinho, ficava imaginando até onde levariam aquela história, pois se Marcelo gostasse mesmo de Ana, daria um fim naquele noivado e ficaria com ela, então daria uma chance aos dois para se resolverem.
— O que tem esse dois? – Pete indagou, ao ver Ana se retirar com um ar de pesar. – Eles são namorados ou algo assim?
— Não, é uma história muito mais complicada.
— Então, vamos para o meu quarto e você me conta – ele propôs.
Assim, Sílvia dormiu no quarto de Pete mais uma vez, ou melhor, praticamente não dormiram, porque, depois, de tanto tempo reprimida e frustrada, descobriu uma nova mulher, que se tornava mais audaz e curiosa, aprendendo e aproveitando aqueles últimos momentos prazerosos com ele, sem receio de pedir ou de dar, talvez, pela perspectiva que não havia futuro para eles dois.
Na manhã seguinte, ela acordou muito cedo, sobressaltada, depois de um sonho estranho, confuso, mas revelador, deu um pulo da cama, Pete levou um susto.
— Eu me lembrei! Lembrei! — exclamou, agitada.
— Lembrei o que? – ele quis saber, ainda sonolento, sentando-se na cama.
— Lembrei do pássaro! Eu tenho certeza, que era ele em um livro didático, que vi e tinha um capítulo sobre animais em extinção. E se eu estiver certa, pode ser a resposta para conseguirmos preservar esse lugar — Silvia estava empolgada, falava, mexendo os braços, nua na frente de Pete, que sorria, achando a cena engraçada.
— Resposta? Para que? — Pete questionou, sentindo-se confuso, observando Silvia, aflita, andando de um lado para outro pelo pequeno quarto.
— A construção do resort. Podemos impedir – Sílvia estava eufórica.
— Não compreendo?
— Porque, há algumas leis rigorosas para proteção de animais em extinção nesse país, nem sempre funcionam, mas se fizermos tudo certinho podem funcionar. Mas, antes, precisamos ter certeza, temos que achar um computador, que esteja conectado à internet.
— Internet, só na cidade mais próxima, a cerca de trinta quilômetros daqui – ele informou, pois já precisou ir até lá, várias vezes.
— Como podemos ir até lá? – Silvia começou a se acalmar.
— Ou carona ou na estrada e pegar um ônibus, mas demora muito.
— Carona com quem?
— Sempre, ter alguém indo para a outra cidade. Podemos tentar – Ele deu de ombros.
Portanto, vestiram-se rápido e procuraram a dona da pensão, que cuidava dos preparativos do café da manhã.
— Tão cedo! Vocês acordaram com os passarinhos! – ela brincou quando os viu, já de pé.
— Bom dia! Precisamos ir até a outra cidade, precisamos usar um computador! – Sílvia explicou.
— Por que esse desespero todo? – A dona da pensão quis saber, com aquela calma toda que lhe era peculiar.
— Coisas do meu trabalho, algo urgente, que eu esqueci de resolver – Sílvia mentiu, não queria que ninguém mais soubesse das suas suspeitas – Precisamos de uma carona. A senhora sabe de alguém que vai para lá agora?
— Roberval da venda. Ele sempre vai lá pegar mercadoria todas as manhãs. Podem falar com ele, que ele leva vocês — ela os informou.
— Obrigada! — Sílvia virou-se para Pete – Vamos!
— Não vão tomar café? – a mulher perguntou, decepcionada.
— Não temos tempo! — Sílvia puxou Pete pela mão, apressada.
— Então, levem um bolinho! – E entregou a eles, fatias de bolo que enrolou em guardanapos de papel.
Eles saíram da pensão, andando rápido, em direção à venda, Pete comia o bolo pelo caminho, encontraram Roberval já na frente dela, carregando sua velha caminhonete, com caixas de garrafas vazias, e pediram carona a ele.
— Não tem problema, é só acabar de carregar isso aqui, que a gente vai — ele falou, sem parar de trabalhar e para agradecer a carona, Sílvia e Pete ajudaram a ele acabar de carregar sua caminhonete.
A estrada de terra entre as duas cidades tinha muitos buracos e a velha caminhonete sacudia bastante, levantando poeira, Sílvia estava muito apreensiva e parecia que a viagem não acabava nunca. Após algum tempo, finalmente, chegaram à cidade vizinha, que era um pouco maior do que a vila, onde eles estavam hospedados, novamente, agradeceram a carona. Roberval ofereceu-se para levá-los de volta, mas, como não sabiam quando tempo iriam demorar, eles recusaram a proposta e foram procurar o dito Cybercafé da cidade, que Pete já conhecia, porém, era pouco mais que um botequim com dois antigos computadores. Lá, internet era bem lenta, a pesquisa foi demorada, porém, quando a imagem do pássaro apareceu devagarinho na tela e eles compararam com as suas fotos, Sílvia pulou de alegria e abraçou Pete.
— É o mesmo! É o mesmo! É o tal papagaio em extinção! Podemos salvar o lugar! Agora, vamos ver a legislação — Sílvia falou com entusiasmo, então pesquisaram e imprimiram a legislação e as imagens para levar para Ana.
— Estou com fome! – Disse Pete, depois que saíram e comeram em um pequeno e simples restaurante local.
— Antes de irmos, queria levar você a um lugar – Pete disse, logo após saírem do restaurante, Silvia ficou intrigada.
Ele a levou a uma pequena loja, que cheirava incenso, onde uma mulher com dreadlocks coloridas, vestida de roupas indianas, os recebeu com um sorriso gentil.
— Essa é Mara. Ela faz tatuagens – Pete explicou, mas, percebendo a dúvida no rosto de Silvia, completou – Faça uma de hena para testar, depois se gostar pode fazer uma definitiva.
— Vamos, experimente, moça – Mara a incentivou.
— Tudo bem. O que vocês sugerem?
— Que tal uma tribal na base da coluna, bem aqui – Mara apontou a base das costas dela — Não se preocupe, ela saíra, em poucos dias, se você não gostar.
E a volta foi pior que a ida, o ônibus era bem velho, sacudia muito na estrada poeirenta e o calor da tarde era intenso, demoraram bastante para chegar, pois a todo momento, parava para entrar e sair passageiros, porque devia ser o único meio de transporte entre as cidades da região.
Ainda, tiveram que descer na beira da estrada, a alguns quilômetros da vila, pois o ônibus não ia até lá, e voltaram andando para a pensão, onde chegaram no começo da noite, cansados, mas felizes.
Durante a volta, no ônibus, Sílvia e Pete conversaram sobre a possibilidade de uma reportagem fotográfica sobre o local da descoberta dos pássaros, ele já havia pedido pela internet a alguns amigos do seu país para publicarem alguma notícia a respeito, ele prometeu, também, entrar em contato com algumas pessoas que pertenciam a ONGs internacionais bastante conceituadas, que poderiam ajudá-los na divulgação da história, ele sabia que as empresas internacionais, que estariam envolvidas na construção do resort, não gostariam de ver sua imagem ligadas a crimes ambientais, pegava mal, principalmente entre os europeus
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