Três amigas e o amor.
37 Raquel - Não vá embora!
— Espere! Não vá embora! – Raquel pediu para Otávio. – Por favor, entre – abriu a porta.
— Eu não posso entrar aí! Não nessa casa! Vamos para a minha — Otávio foi firme, não queria cruzar aquele limite. Sem vacilar, Raquel voltou para o apartamento dele. Lá, sentaram-se no sofá, um tanto distantes.
— E agora, como ficamos? Eu quero um relacionamento com você por inteiro, Raquel. Ou você vai continuar vivendo pela metade? – Otávio questionou, voltando-se e encarando-a, com o olhar sério.
— Preciso colocar as minhas ideias em ordem. Estou com Vitor há quase três anos, não se pode acabar assim, tão de repente.
— Você está com ele, mas ele não está com você, Raquel. Não há nada o que perder — Otávio argumentou e ela sabia que ele estava certo, mas não conseguia achar a saída da situação, em que se encontrava, pois gostava de Vitor, que a fazia se sentir importante e especial, sentia-se protegida e segura, mas, talvez, isso só fosse dentro da sua cabeça.
— Eu não sei o que fazer. Um belo dia, você aparece na minha porta e vira minha vida de cabeça para baixo, quer que eu deixe tudo para trás, em um piscar de olhos — Raquel confessou, olhando nos olhos dele.
— Mas não há nada para deixar para trás, Raquel, Vocês não estão construindo nada junto. Para ele, você é como uma joia muito cara ou um quadro de um pintor famoso, guardada em um cofre, que só o proprietário tem as chaves e pode apreciá-lo. Até quando você acha que essa relação de vocês pode durar? – Otávio retrucou. – Eu tenho uma proposta para você, vamos experimentar, por algum tempo até a volta dele, e vê o que vai acontecer – parecia a negociação de um contrato.
— Mas, eu estarei traindo Vitor – Raquel replicou, mas Otávio sorriu.
— Imagine, que ele também está traindo você e com a esposa dele – Otávio racionalizou, Raquel não podia negar que era verdade, pois, com certeza, Vitor transava com sua esposa, mesmo que ocasionalmente, como ele falava.
— Tudo bem, podemos tentar – Raquel aceitou, ainda com ressalva, mas Otávio a puxou para si e a abraçou, então ele beijou, ternamente.
— Para selar o nosso acordo – sussurrou no ouvido dela, depois beijou seus cabelos, rosto e boca.
Está acontecendo muito rápido, outra vez, Raquel pensou, por instante, enquanto, beijavam-se. Mas, esses pensamentos ficavam cada vez mais entorpecidos, ao mesmo tempo que os beijos ficavam mais ardentes e as mãos mais audaciosas, as roupas arrancadas, Raquel sentou se sobre ele, podia o sentir por inteiro, completamente preenchida, movia-se intensamente, estava no comando, sentindo seu peito contra o dele, a pressão das suas mãos fortes nos seus quadris, aquela boca carnuda, tão boa de beijar.
Agora, Raquel estava deitada sobre Otávio ainda no sofá, a cabeça pousada sobre o peito dele, escutando seu coração e sentindo sua respiração.
— Você tem uma cor linda – ela deslizou a palma da mão no peito dele, escutando o riso ecoar no seu peito.
— Obrigado – respondeu, acariciando os cabelos delas.
— Eu estava pensando no meu pai – revelou, algo escondido na sua memória.
— Quando se está nua em cima de um homem, não é o melhor momento, para pensar no pai – ele brincou.
— Não é isso, se ele me visse agora assim com você, ele morreria ou me mataria, Ele era muito preconceituoso, mas, felizmente, já está morto – Raquel assumiu seu ressentimento antigo.
— Ainda tem muita gente preconceituosa e ignorante, por aí – Otávio falava com conhecimento de causa.
— Eu nunca falei isso com ninguém, porque morria de vergonha. Mas, ele era muito preconceituoso com tudo, de raça, religião, origem, sexo. Era muito difícil conviver com ele, maltratava minha mãe, tortura psicológica. Ela era quase uma prisioneira, casou-se muito jovem, era pobre, não tinha como sair daquele casamento, não podia estudar, cortar os cabelos, só usava roupa fechada. Para ele, nada do que ela fazia estava certo, a comida nunca estava boa, as roupas nunca estavam bem passadas ou a casa nunca estava bem limpa. Era um inferno! Você acredita, que ele parou de falar com ela, quando eu nasci porque era uma menina – Aquilo era algo que, ainda, feria Raquel, ela sabia que levaria aquela magoa para o resto da vida. Também, não entendia porque estava contado aquilo para ele nesse momento. Algo que trazia escondido por vergonha e rancor, porém, ali, junto de Otávio, as palavras se revelavam com facilidade.
— Devia ser muito difícil para você e sua mãe – Otávio a estreitou nos braços, como para protegê-la do seu passado.
— Era muito mesmo, não tinha liberdade para nada. Eu nunca podia ir a lugar comum como ao cinema, à casa de amiga, às festas. Era da casa para escola e da escola para casa, sempre acompanhada. Também, não podia usar calça comprida ou os cabelos soltos, só saia comprida, imagine isso para uma adolescente. Pode parecer terrível para você, mas, quando ele morreu foi um alívio para nós duas. Nossa vida mudou muito, mamãe voltou a estudar, cortou o cabelo e conheceu Alberto e está feliz agora – concluiu sua história com um final feliz.
— E você? – Otávio quis saber, curioso, pois começara a entender Raquel e o porquê da sua relação de dependência com Vitor.
— Eu fiquei bem, podia sair com minhas amigas e elas podiam ir à minha casa, podia até namorar.
— E namorou? – Otávio estava curioso.
— Algumas vezes, mas nada sério. Então, Vitor apareceu, charmoso, inteligente e se interessou por mim. E aí ... você sabe.
Ele a beijou e a abraçou mais forte, ela não se lembrava de ter ficado assim, com alguém antes.
— E você? — Raquel perguntou, queria saber mais sobre ele.
— Eu o que? – Otávio foi evasivo, fingindo de desentendido.
— Você me contou sobre a sua infância e a faculdade, e depois?
— Depois, eu me formei, dei muito duro, até conseguir um bom emprego – ele continuou. — Sou advogado empresarial. Atualmente, eu trabalho para uma rede internacional de hotéis.
— Por favor, diga que não é a MontReggio – Raquel falou em tom de suplica, Otávio riu.
— Não, é uma rede francesa. Mas, estamos negociando com a MontReggio, para uma parceria na construção de um resort, em uma praia meio-selvagem. – Raquel esperava, que ele começasse a falar algo sobre o seu casamento – Está com fome? – Otávio disse, mudando de assunto, já tentando se levantar.
— Sim, um pouco – Raquel respondeu, ainda sentada no sofá, enquanto ele, já de pé, procurava por seu telefone.
— Posso pedir comida chinesa? Você gosta?
— Sim, eu gosto – Ela respondeu, percebendo que Otávio fugiu do assunto.
Ele fez o pedido, vestiu a bermuda, que estava abandonada pelo chão, enquanto Raquel procurava suas roupas, encontrando a maior parte delas, amassadas, sobre o sofá.
— Mas, você foi casado? – Raquel insistiu.
— Fui e fomos felizes por algum tempo, mas nos afastamos, não podíamos viver mais um com o outro — ele respondeu com um ar de pesar.
— Às vezes, as separações são difíceis, sobram muita magoa e rancor, por mais amigáveis que possam ser.
— Mas, não sobrou magoa ou rancor entre mim e Mônica, só tristeza, era tanta que não dava mais para ficarmos junto, precisávamos nos separar.
— Por que? – Raquel indagou, intrigada – Vocês não tiveram filhos? – suspeitou, que fosse essa a causa da separação.
— Tivemos – Uma sombra de tristeza passou pelo rosto de Otávio, ele se sentou ao lado dela, Raquel ficou receosa do final daquela história.
— A menininha da foto no seu quarto – Raquel antecedeu a resposta,
— Você reparou na foto? – Otávio ficou surpreso, pois ela só esteve no seu quarto uma vez.
— Eu a vi antes, quando vinha aqui para alimentar o gato – confessou sua indiscrição, meio envergonhada, mas Otávio não se abalou.
— Nina, minha filha – ele revelou, melancólico.
— O que aconteceu com ela? – Raquel imaginava, que não seria uma história com final feliz.
— Nina tinha quatro anos quando ficou doente, leucemia. Ela lutou bravamente, tentamos de tudo. Até que surgiu a possibilidade de um transplante de medula, mas não encontrávamos um doador compatível. Pensamos até em ter outro filho, que poderia ser doador, mas Mônica não conseguiu engravidar, outra vez. Lembra, que eu falei que eu não conhecia meu pai? – comentou, em um folego só, não querendo perder a coragem.
— Lembro – Raquel escutava atenta.
— Eu menti, estava tão desesperado, tentado encontrar um doador, que fui procurá-lo, poderia haver uma mínima chance e precisava tentar. Então, fui pedir a ele, mas alegou estar muito doente, disse que não poderia fazer nada por mim – Otávio respirou fundo, procurando forças para continuar, as lágrimas desciam pelo rosto dele — Nina morreu e, foi por isso, que meu casamento acabou. Não conseguíamos mais olhar um para outro, sem nos lembrarmos dela, sem sofrer, doía muito, assim nos separamos e fiquei com o gato. Mônica falava que não podia mais olhar para ele. Nina adorava este gato – concluiu sua história, com a cabeça baixa e os ombros caídos, esgotado.
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