Três amigas e o amor.

54 Ana e Sílvia – um passo de realizar um sonho


Assim que Silvia saiu, Ana começou a ler os papéis que lhe dera, prestando atenção nos mínimos detalhes, pensando como começar o processo para entrar com liminar contra a construção do resort, precisaria que área fosse considerada de proteção ambiental, mas o nome de Marcelo não poderia estar envolvido nem o dela. Teria que estudar tudo aquilo melhor, pedi ajuda, mas, pelo menos havia alguma chance, mesmo que remota de salvar aquele lugar. Então, imaginando em nome de quem poderia abrir o processo, teve uma ideia e foi procurar a dona da pensão.

— Eu soube que tem uma associação de pescadores na vila – Ana recordou-se da conversa que tivera com Zeca, no barco. — Onde fica? Quem é o presidente? Será que eu posso falar com ele?

— É o Zeca. A essa hora, ele deve estar no bar da praia. Pode ir lá .

Sem explicar, Ana saiu rapidamente, na direção da praia, encontrou Marcelo de volta de onde quer que tenha vindo.

— Onde você vai com tanta pressa? – Surpreso, com aquela presa toda, parando na frente dela.

— Falar com o presidente da associação dos pescadores, Zeca, pois acho que descobrimos um jeito de impedir a construção do hotel.

— Como?

— Os papagaios.

— O que?!

— Isso mesmo! Sílvia descobri que estão extinção. Tenho um monte de documentos e leis que provam isso. Por isso, preciso falar com Zeca para ver se ele concordar que a ação saía em nome dele.

— Eu vou com você

— Nada disso! Não quero ninguém reparando em você. Eles não podem saber que você esteve aqui. Volte para dentro do hotel e espere. – Continuou a sua caminhada ligeira.

No bar carregado de fumaça de cigarro, ela encontrou um grupo de homens jogando cartas e bebendo cerveja e cachaça, aproximou-se de Zeca, que estava entre eles.

— Zeca, posso falar com você a sós? — Ana interrompeu o jogo, os homens a olharam desconfiados pela presença dela ali. – É importante. – finalizou, com firmeza.

— Pode, moça – Zeca tinha a fala mansa, jogou as cartas sobre a mesa, levantou-se, alguém assumiu o seu lugar e foi para um canto mais afastado, Ana o seguiu.

— Desculpe-me por estragar seu jogo.

— Não, faz mal, moça, as cartas estavam ruins mesmo – Zeca deu de ombros. – Mas, o que é tão importante assim.

— Zeca, meu nome é Ana, sou advogada e estou aqui para ajudá-los a salvar este lugar, se quiserem.

— Como, moça? — Ele deu um sorriso triste, não parecia levar muita fé nela. – A gente tentou, mas tem muito dinheiro nisso, muita gente comprada, ninguém liga para um bando de gente pobre e um monte de mato!

— Mas, parece que encontramos um jeito, eu vou explicar — Então, ela lhe contou sobre a árvore, os papagaios em extinção, o que era crime ambiental, enquanto o homem a encarava descrente. — Posso contar com o senhor? – Ela quis saber, no final.

— A senhora está falando que aqueles papagaios podem salvar a gente?!

— Sim, é isso.

— Moça, se é para salvar o nosso lugar e a gente, pode sim – Ele estava um pouco mais animado.

Assim, Ana contou o seu plano, explicou quais eram os documentos que precisariam, o que ele teria que fazer, deixaria tudo por escrito na pensão. Apesar de rústico e de ter pouco estudo, Zeca era um homem inteligente, esperto e prático, entendeu tudo com clareza, pois, estava determinado preservar a sua gente, o seu lugar e seu meio de vida.

Mais aliviada, Ana voltou para a pensão e para o seu quarto, encontrou Marcelo que a esperava um tanto ansioso, que se levantou em um pulo.

— E aí?

— Ele concordou – ela respondeu.

— Eu estou um pouco assustado com que estamos fazendo – Marcelo revelou, sentando na cama.

— Confesso que eu, também, estou com medo. Vai ser uma batalha e tanto. Precisaremos trazer a opinião pública para o nosso lado. Aparecer na mídia.

— Não poderei ajudar você nessa.

— Mas, eu acho que sei que pode.

— Essa é nossa última noite aqui.

— Amanhã, quando chegarmos, terei muitas coisas para resolver.

— Não é sobre isso que estou falando, Ana. É sobre nós.

— Nós?! Não existe nós, não mais, depois de tudo que aconteceu. Desculpe, Marcelo, eu tenho que escrever algumas instruções para Zeca. Vou até o refeitório – Falando assim, Ana pegou os seus papéis e se afastou, fugindo de qualquer tentação, pois só pioraria mais ainda a imensa melancolia que sentia agora.

Sílvia desapareceu, outra vez. Sem conseguir dormir, pois estava muito empolgada com a ideias que vinham a sua cabeça, começou a escrever as instruções para Zeca, fez planos e organizou as ideias, pois, na manhã seguinte, bem cedo, o motorista iria pegá-las para voltarem para casa. Assim, não pensaria em Marcelo sozinho no quarto e aplacaria o desejo de ir até ele.

Só retornou ao quarto bem mais tarde, Marcelo já estava deitado dormindo ou fingindo dormir. Silenciosamente, deitou-se, mas não conseguiu dormir, sentindo as lágrimas de desciam pelo seu rosto

Na manhã seguinte antes do amanhecer, Sílvia se levantou, recolheu suas roupas espalhada pelo chão e, antes de sair, inclinou-se para beijar Pete, pela última vez. Ele abriu os olhos e a beijou também.

— Vamos manter contato – ele disse, meio sonolento.

— Sim, vamos! – respondeu de um jeito tristonho e saiu devagarzinho do quarto.

Silvia entrou no outro quarto e encontrou Ana, acabando de arrumar sua bagagem, e ela, também, começou a juntar seus objetos, rapidamente, e pôr na sua mala.

— O que é isso? – Perguntou, surpresa ao ver a tatuagem nas costas de Silvia, quando ela se inclinou para pegar a mala.

— Isso, uma tatuagem – Silvia deu de ombros, displicente – Pete me levou para fazer. Onde está, Marcelo?

— No banheiro.

— E então, se despediu? – Ana brincou.

— Sim. E você?

— Eu?

— Sim, você? Como vocês vão ficar? – disse baixinho, para não ser pega desprevenida com a chegada de Marcelo.

— Não vamos. Terminou.

— Não me venha com essa conversa. Eu vi como você fica perto dele e como ele olha para você.

— Mas, ele mentiu para mim. Ele está noivo. O casamento do ano, segundo Raquel.

— Ele ainda não se casou.

— Ele me pediu um tempo.

— E você? O que quer? Você ama Marcelo?

— Amo.

No entanto, antes que Sílvia falasse, ouviram batidas na porta.

— Será que ele ouviu? – Ana encarou Sílvia, aflita, que deu de ombros.

— Pode entrar,

— O motorista chegou.

Durante a viagem de volta, no avião, enquanto Ana fingia que lia e relia os documentos, tentando esquecer que Marcelo estava logo ali bem na sua frente e que aqueles seriam seus últimos momentos juntos e Sílvia estava pensativa ao seu lado.

— Sabe, Ana, tomei uma decisão! – Silvia falou, depois, um bom tempo, calada.

—E é qual foi? – Ana parou, com a caneta no ar, olhando para a amiga.

— Vou vender o meu apartamento, não quero mesmo morar nele. E, também, vou estudar fotografia.

— Acho que será bom para você.

— É, eu acho que vai.

O restante da uma viagem foi silenciosa, curta e difícil, com a tristeza do iminente adeus, que se aproximava rapidamente. Até tocarem em terra. Já na saída do aeroporto, era o momento da despedida

— Não posso acreditar, que podemos vencer – Marcelo confidenciou.

— Sim, mas teremos muito trabalho, mas, pelo menos, temos como lutar – Ana parou o encarando – Parabéns, Marcelo.

— Por que?

— Por ter acreditado e feito alguma coisa para salvar aquele lugar, se você não começasse, tudo ficaria como estar e aquele lugar seria destruído. Você está a um passo de realizar um sonho.

— Não conseguiria sem você, acho que você me fez uma pessoa melhor – Ele olhou nos olhos dela, um arrepio subiu pela espinha de Ana, se espalhando pelo seu corpo.

— Eu tenho que ir. Sílvia está esperando – Ana olhou de relance para a amiga a uma certa distância, sabia que precisava sair dali, imediatamente, senão estaria perdida, mais uma vez – Amanhã, tenho muito trabalho pela frente.

— Eu pensei, que poderíamos tomar alguma coisa para comemorar – Marcelo tinha um ar desiludido.

— Não, obrigada. Eu estou cansada pela viagem. Manterei você informado assim que tivermos novidades — Ana já ia em direção à porta.

— Eu levo você em casa — ele insistiu.

— Acho melhor não. Adeus, Marcelo — Ana não queria dar nenhuma chance, pois, já sofreu demais, precisa ir embora.

— Adeus, Ana – Marcelo lhe deu um olhar resignado.