Três amigas e o amor.
10 Ana – Cheio de surpresas
O dia seguinte correu lento, Ana estava ansiosa, ela gostaria de ter tempo para ir a manicure, fazer as sobrancelhas e todas essas bobagens, mas não conseguiria, já que estava atolada de trabalho. De vez em quando, pegava-se imaginando como seria aquela noite, depois achava-se uma boba sonhadora, por estar cheia de expectativas. E no fim de tarde, saiu do trabalho apreensiva, voou para casa, para se arrumar. Talvez, queria dar uma caprichada, como uma boa maquiagem, para disfarçar os sinais de cansaço do dia, mas, isso não combinava com ela, por isso, só usou o de sempre, um pouco de blush, rímel e batom claro. Vestiu a roupa emprestada de Raquel, sentiu-se meia estranha, então, trocou os sapatos de salto alto por sapatilhas e pegou a sua antiga bolsa de sempre. Admirou-se no espelho, agora parecia consigo mesma, assim, se sentiria mais à vontade. Agora, só faltava um perfume e estava pronta. Na hora combinada, recebeu uma mensagem que Marcelo já havia chegado e a esperava do lado de fora do seu prédio.
— Pontual! — Ana exclamou, satisfeita, pois assim não perderia minutos preciosos, angustiada, com medo que ele não viesse. Respirou fundo, apagou a luz do quarto, saiu e fechando a porta atrás de si.
O carro de Marcelo já estava parado na frente da portaria, ele a esperava do lado de fora, encostado porta, displicentemente com as mãos no bolso, olhando para algum lugar indefinido. No momento que Ana o viu, constatou que era ainda mais bonito do que se lembrava. Foi quando ele percebeu a sua chegada, um sorriso encantador iluminou seu rosto, veio em sua direção e a cumprimentou com um beijo na face, o perfume dele invadiu suas narinas e um leve arrepio percorreu sua espinha.
— Oi, Ana. É bom ver você de novo – afirmou e a convidou com um sorriso, gentilmente.
— É bom ver você também – respondeu, enquanto o acompanhava para o carro e ele abriu a porta do lado do carona para ela entrar.
— Espero que ainda tenham ingressos – Ana começou uma conversa, em tom casual, para esconder seu nervosismo, mas estava certa teriam, pois, afinal, quem iria ver um filme francês desconhecido àquela hora da noite, no meio da semana.
— Não se preocupe, eu já comprei os ingressos, não queria ser pego desprevenido — informou com sorriso travesso.
— Então, você é um homem precavido? – Ana continuou, feliz pela agradável surpresa. – Espero que goste de cinema francês?
— Sim, eu gosto do cinema em geral — Marcelo respondeu, parecendo um garotinho. – Na verdade, eu gosto de cinema, da telona, da sala escura, até mesmo, da pipoca. Afinal, o que é cinema sem pipoca.
O filme escolhido se revelou uma comédia romântica e, durante a sessão, Ana percebeu que ele sempre ria das piadas, um pouco antes dos outros poucos espectadores.
— Você fala francês? — Curiosa, perguntou baixinho.
— Sim — ele respondeu, sussurrando, sem muita explicação.
Ficar ali, no escuro ao lado de Marcelo, tentando parecer calma e relaxada, foi bem difícil para Ana, quase um suplício. Sentados ali, lado a lado, no escuro, os ombros quase se tocando, um leve e furtivo roçar de braços, o calor que emanava do corpo dele, as mãos, displicentemente, abandonadas sobre o braço da cadeira, atraiam visão dela. Muitas vezes, era pega de surpresa, perdida divagações, despertada com os risos da piada que ela perdeu. Então, para alivio dela, as luzes se acenderam e saíram do cinema, de volta ao mundo real e ao carro, comentando, animados, sobre o despretensioso filme.
— Agora é minha vez. Está com fome? — Marcelo indagou, no momento, em que entravam no carro. — Espero que goste de comida italiana?
— Na verdade, estou com um pouco de fome — Ana mentiu, pois, na verdade, seu estômago dava voltas de ansiedade. — Sim, eu gosto muito de comida italiana.
Assim, Marcelo a levou a um pequeno e charmoso restaurante italiano, escondido em uma rua secundária, com velas e pequenos vasinhos com flores sobre as mesas. O lugar estava quase vazio àquela hora da noite, um garçomos levou até uma mesa mais reservada, Marcelo fez o pedido de vinho, apesar de Ana não gostar de beber em um dia de semana, mas não queria estragar aquele momento.
— Você vem sempre aqui? – ela começou uma conversa corriqueira.
— Não, quase nunca, apesar de gostar muito da comida daqui.
Ana tentou ler o menu, que estava em italiano, ficou surpresa, quando viu os preços dos pratos, pensou que seria um rombo e tanto no seu orçamento tão apertado, também, não sabia o que pedir, Marcelo percebeu sua indecisão.
— Você confia em mim? — Ana se espantou com a pergunta, não conseguiu entender, deve ter feito alguma cara engraçada, pois ele sorriu e complementou — Para fazer os pedidos dos pratos.
— Ah! Claro! — respondeu, com um sorriso sem graça. E ele tomou a iniciativa, fez os pedidos em italiano, o vinho, antepasto, o primeiro e segundo pratos, e por fim, a maravilhosa sobremesa tiramisu. Ana imaginava que a conta seria astronômica, mas não queria pensar nisso agora, distraída pela conversa, animada pelo vinho, indolente e satisfeita pela comida e muito cativada pela companhia.
— Você é cheio de surpresas, Marcelo. Fala francês e italiano. Suponho que inglês também, é claro? — Não resistindo a curiosidade, no meio da conversa, Ana indagou, um pouco mais desinibida pelo vinho.
— Sim — Ele sorriu, parecendo um pouco encabulado – Morei algum tempo na França e inglês e italiano são por causa da minha família. O meu ramo de negócios exige que eu fale algumas línguas. – explicou, Ana esperou que continuasse, interessada em saber mais sobre ele, porém Marcelo não prosseguiu. – Espero que tenha gostado do vinho – mudou de assunto.
— Sim, eu gostei muito. Você morou na França. Eu sempre quis conhecer Paris. É uma das minhas metas da minha vida.
— E por que não conheceu ainda? – quis saber, com ar inocente, ela se viu rindo alto.
— Porque nunca consegui juntar dinheiro suficiente para fazer uma viagem como essa, mas um dia eu vou consegui – Ana afirmou, determinada, ele deu-lhe um sorriso enigmático. — Em que cidade você morou? — perguntou, querendo manter a conversa, pois estava curiosa e com a língua mais solta pelo vinho.
— Bem, a maior parte do tempo em Paris — ele falou de modo casual, porém, não parecia confortável com aquele assunto.
— Dever ser linda! — Ana refletiu, talvez um pouco alto demais, percebeu a gafe, levando a mão à boca, outra vez, e se desculpou.
— É, mas chove muito – Marcelo respondeu, sem emoção.
— Eu pensei que em Londres chovesse muito? – Ana questionou o velho folclore.
— Também – Ele mudou de assunto – Explique-me, quais são essas suas metas?
— Metas ou sonhos, como preferir, são coisas que eu pretendo realizar um dia na minha vida – Ana sorriu, timidamente, pois nunca contou isso a ninguém, guardando seus sonhos só para si mesma.
— Como por exemplo? — ele a instigou, interessado, olhando direta nos seus olhos. Ana sustentou o olhar, sentindo seu rosto queimar.
— Bem, eu pretendo conhecer Paris, Londres, Roma. Trabalhar com o que eu gosto, ter uma casa e um jardim para cuidar. Coisas assim — falava contando nos dedos, pensativa, não querendo esquecer de nada.
— Não parecem sonhos complicados.
— Depende, não sei se conseguirei realizar todos, mas pretendo conseguir a maioria deles.
— Deve ser bom, ter objetivos de vida assim.
— Metas! – corrigiu em tom de brincadeira.
— Deve ser bom ter metas de vida assim – ele repetiu no mesmo tom.
— Faz a gente ir em frente. Não dá para viver sem sonhos, pois a vida seria muito enfadonha.
— Então eu proponho um brinde às suas metas, Ana. Que você possa consegui-las! – ele ergueu a sua taça.
— Eu sei que irei – Ana fez o mesmo e as taças se chocaram. – À suas metas também, Marcelo – Ela repetiu o brinde, erguendo sua taça, ele lhe devolveu um sorriso que não refletiu nos olhos.
Assim, a noite passou voando, enquanto, continuaram a conversar sobre vários assuntos, como filmes, livros, viagem. Ana falou muito só si mesmo, contando história engraçadas de quando era criança, mas Marcelo não revelou muito sobre si mesmo.
No entanto, ele era tão envolvente, charmoso e inteligente e Ana não queria que aquele momento acabasse, queria parar o tempo ali, então, quando chegou o café, percebeu que era hora de ir embora. Ele nem piscou, ao ver a conta, só entregou o cartão de crédito, sem a deixar ver o valor.
Infelizmente, àquela hora da noite, o trânsito estava ótimo, e eles chegaram, bem depressa, na frente do edifício de Ana, que começou a se despedir.
— Boa noite. A noite foi maravilhosa, obrigada pela companhia e pelo jantar — Ana foi sincera, um tanto relutante de sair do carro, então inclinou-se para beijar rosto dele, um pouco perto demais da sua boca, que virou e seus lábios se encontraram. Os lábios dele eram macios, o beijo suave e podia sentir o seu perfume mais forte e suas mãos quentes deslizando pelas costas delas. As mãos de Ana subiram pelos ombros dele até a nuca e ela enfiou os dedos nos seus cabelos. Em resposta, Marcelo a puxou para mais perto de si, Ana não resistiu, se deixando levar, abandonando-se naquele beijo cada vez mais selvagem e intenso, as bocas se abriram as línguas se encontraram e se roçaram em um jogo sensual, os corpos cada vez mais próximos, as mãos mais atrevidas, os corações em disparadas. Finalmente, Ana assustada, com aquele turbilhão de sensações impetuosas, juntou todas as suas forças e o empurrou, suavemente.
— Acho melhor eu subir agora. Boa noite, Marcelo — Ainda ofegante, conseguiu ponderar.
— É, acho melhor mesmo. Boa noite, Ana. – Marcelo concordou, com o pouco de lucidez, que lhe restava. – Eu ligo para você – Despediram-se, com receio do que poderia acontecer caso se tocassem, outra vez.
Ana saiu do carro e entrou no prédio, quase em piloto automático, meio tonta, os joelhos trêmulos, dando uma pequena olhada trás, viu Marcelo, ainda parado ali, dentro do carro, antes de fechar a porta, ele lhe deu um sorriso triste. Ao entrar em casa, ela se encostou na porta, como se fugisse de uma perseguição, sorrindo para si mesma, respirando fundo para se acalmar.
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