Três Tentativas Vãs
1 21 de Maio de 2020
Em um dos meus grupos do whatsapp perguntaram o resumo dos últimos dias.
Eu desejei responder e até mesmo escrevi 3 vezes, mas não mandei.
Não mandei da primeira vez porque escrevi realmente como me sentia e quando reli, percebi que ninguém precisava ler uma história tão doída e amarga.
Não mandei da segunda porque descrevi os fatos ocorridos de maneira sucinta e quando reli, concordei que a situação merecia um pouco mais de sensibilidade do que a que eu tinha esquecido de colocar.
Não mandei da terceira porque menti e quando reli, percebi que não valia a pena contar mais uma mentira em vão.
Optei pelo silêncio e a leitura do resumo dos dias de outras pessoas.
Era mais fácil assim.
Fácil como fingir que estou bem entre um cigarro e outro, mesmo que pra isso eu tenha que fumar 27 cigarros em dois dias.
Mas é complicado usar meu vício como alento, quando eu não o faço às vistas do mundo.
Nesse caso é necessário distração, que pra quem já não me conhece mais, deve pensar que é falta de sentimentos com a situação.
Talvez seja.
Até eu penso que é isso às vezes.
Mas eu sei o que realmente é.
Sou fraca demais para me permitir trincar mais do que já estou.
Sinto que mais um vento e eu vou despedaçar sem chances de volta.
Mesmo o meu lema sendo "sou forte porque muitas vezes já caí, mas mais vezes ainda eu já levantei".
Entretanto, eu duvido que dessa vez possa usá-lo.
Eu já venho testando minhas forças a alguns dias.
Não dando comida ao meu corpo, diminuindo minha quantidade de sono diário, parando com os remédios, fumando cada vez mais.
Eu não tenho certeza se entendo a razão pela qual fiz tudo isso. Espero que valha a pena.
Pois ainda sinto os efeitos colaterais de tais ações.
Um deles sendo o misto de sentimentos.
O pior dos sentimentos dessa última semana é que eu não sei se é efeito dos últimos meses em isolamento, se é meu transtorno dando as caras pela falta do remédio, se é a doença das pessoas que eu amo e a possível morte chegando, se é a pressão que terceiros colocam em mim, se é a necessidade de ser prestativa e responsável indo contra meu desejo de fazer vários nadas.
Eu sinto uma dor existencial mesclada a uma saudade questionável de momentos que nunca terei e vidas utópicas.
Sinto raiva por ter minhas poucas boas ações jogadas ao léu e fúria por sempre quererem mais do que estou disposta a dar.
Eu sinto o descaso por ninguém ter se dado ao trabalho de re-conhecer a garota que nasceu depois de tantas vezes que tentou se matar, mesmo que para todos, só exista uma vez.
Sinto desejo de paz e tranquilidade misturados com a esperança de que logo tudo melhore, mesmo eu sendo uma pessoa negativa.
Quem sabe não me tornei um elétron?
Ou quem sabe eu e tudo que me cerca, só esteja numa fase de metamorfose, onde nem mesmo eu, consigo imaginar o que se tornará.
Logo eu, a garota da imaginação mais fertil que esse mundo tenha tido a capacidade de produzir.
De toda forma, sinto um frio em minhas entranhas, que queima como ácido e se espalha de dentro pra fora, me deixando alerta, ouvindo meu próprio coração, sem saber respirar, sem saber se ataco ou se me defendo, sem saber o que fazer.
Perdida então no meu próprio caos, eu mais uma vez me escondo dentro do meu casulo, esperando que daqui um tempo eu saia numa forma melhor do que aquela que entrei.
Carente de todo e qualquer sentimento dirigidos a si mesmo, eu mais uma vez me fecho e obrigo a quem se importa fugir, desejando a eles tudo de melhor, que consequentemente, não sou eu.
Morta em minha própria vida, eu mais uma vez respiro, desejando que tal existência acabe.
E covarde demais para findar com minhas próprias mãos, eu mais uma vez espero qualquer que seja minha redenção.
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