Quando a cabeça de Brady para de rodar, o desespero toma conta de seu corpo.

Ele se sentia moído, e o pior, não conseguia enxergar nada. A escuridão era completa.

A princípio ele pensa "Sozinho no escuro!" e cai no mais completo desespero, grita, chora e balbucia palavras desconexas. Depois do desespero inicial sua mente tenta raciocinar.

"Será que eu estou cego? Ou estou em um local totalmente escuro?" pensa Brady se encolhendo diante das trevas. "Como Mikayla vai me encontrar aqui?"

"E se Mikayla não estiver mais viva?" pensa uma parte cruel da mente de Brady.

"Ela está viva, pode ter certeza disso" diz seu bom senso.

"Se uma banana descascada, fosse lançada a uma velocidade de trezentos quilômetros por hora, ela seria uma banana expressa ou uma banana bala?" diz a parte non sense.

— Ok, eu tenho que me focar — diz Brady, sua voz ecoando na escuridão da caverna. — Primeiro, parte non sense, essa é uma boa pergunta, mais completamente inapropriada, portanto vou pedir para que você se retire dessa discussão. Segundo, mal senso, essa é uma questão que não me acrescenta nada, por isso caia fora também. Agora bom senso, a questão é como eu posso ter certeza de que ela está viva?

"Não pode"

— Que porcaria de bom senso é você? — diz Brady irritado.

"Meu objetivo é tentar manter você vivo, não te dar falsas ilusões"

— Falou igual à Mikayla agora — diz Brady. — O que eu tenho a meu favor?

"Nada"

— Droga, devia ter deixado o non sense, ele pelo menos era mais otimista. — diz Brady socando a rocha fria aos seus pés. — Quais são minhas opções? E se você disser "nada", eu juro que eu te mato.

"Nada" "Brincadeirinha, brincadeirinha"... "Você pode começar a tocar o seu bandolim, porque alem da música te acalmar, se a Mikayla te ouvir ela saberá onde você está"

— Você está falando do violão esquisitinho?

"Sim, e o nome disso é bandolim"

Brady tira o bandolim da costa, e passa a mão por sua estrutura. O instrumento parecia intacto.

Com cuidado os dedos de Brady iniciam um acorde... Quando o som saiu do bandolim, Brady para de tocar assustado.

— Uow, o que foi isso?

Brady volta a tocar, e para a sua surpresa, era como se ele pudesse enxergar, o som do bandolim ecoava até as rochas e voltava para Brady mostrando o caminho. Aquele não era um instrumento qualquer, fora feito exatamente para aquele tipo de situação. Com o animo renovado Brady se coloca de pé, e inicia um longo dedilhado no bandolim, a caverna se abria diante dele, era como se ele fosse um morcego ou o demolidor.

"Você está mais para um morcego mesmo" diz o bom senso.

— A fica quieto, e deixa eu ser feliz por um segundo.

Brady começa a andar pela caverna, ela era espaçosa e havia ali uma corrente de ar batendo em seu rosto. Brady nota que não poderia voltar pelo mesmo caminho da queda, porque esse estava fora de alcance, sua única opção era seguir o caminho que levava ao coração da montanha.

Brady continua tocando e caminhando, até seus dedos incharem com bolhas. Quando enfim encontra uma luz no fim do túnel, literalmente, ele para de tocar e guarda o bandolim nas costas.

Ao alcançar a luz, sua boca se escancara diante da surpresa, ali estava uma nova seção da caverna, o sol entrava por uma fenda no alto, iluminando o rio que passava por ali.

No centro dessa caverna havia uma pequena ilhota, e ao redor dela o rio corria calmo e raso, lembrando mais um lago do que um rio. Nos cantos mais distantes Brady podia enxergar uma espécie de cana vermelha crescendo em montinhos.

— A nascente... — diz Brady sem palavras. — E ali está a banana brava, ou seja lá qual for o nome certo.

Quando suas palavras ecoam pelo espaço, algo se mexe na ilhota e se coloca de pé.

Era Mikayla.

Brady porém continuou parado onde estava seu coração acelerado. Aquela era a Outra Mikayla, não a sua namorada. Ele conhecia a Outra Mikayla, muito bem, porque ela sempre vinha incomodá-lo durante seus pesadelos.

***

— Oh, veja só quem está aqui! — diz Outra Mikayla sorrindo para Brady, seus dentes afiados como navalhas.

Ela parecia muito com a Mikayla, as diferenças estavam nos detalhes, dentes afiados, roupa do povo tarântula, movimentos bruscos e selvagens, olhos felinos e pelos saindo das axilas. Como Brady odiava ver pelos saindo das axilas.

— A outra! — diz Brady com um misto de raiva e medo, na verdade era noventa por cento, medo, e dez por cento, raiva.

— Tsc, tsc, tsc! — diz a Outra Mikayla com um sibilar semelhante ao de uma cobra, caminhando lentamente em direção a Brady com movimentos de um predador a espreita da presa. — Por que você insiste em me chamar de a outra? Eu sou a Sua Mikayla... Hahahaha!

A risada assustadora ecoa pela caverna.

— Pare de rir assim, é esquisito. — diz Brady, a Outra começou a rir ainda mais alto. — Ok, pode continuar rindo a vontade.

A Outra Mikayla para de rir abruptamente. "Pelo jeito ela não é muito inteligente" pensou Brady.

— Oh Bradynho, você não faz ideia do quanto eu tenho esperado a sua chegada — diz a Outra coçando a barriga. — Não é educado deixar uma dama esperando.

Ela estava cada vez mais próxima, Brady queria correr, mais suas pernas simplesmente não obedeciam.

"Espere o momento certo para tentar escapar, e lembre-se um erro e tudo estará acabado"

"Ah muito obrigado bom senso, deixe me ver, Por nada!"

Brady então tem uma ideia, saca o bandolim e começa a dedilhar.

— O que é isso? — diz a Outra Mikayla com deboche. — Uma serenata para mim?

O plano não estava funcionando como Brady havia imaginado, na sua mente a Outra se transformava em pó ao ouvir o som do bandolim. Seus dedos dedilham cada vez de forma mais frenética, a Outra Mikayla cada vez mais próxima. Próxima o suficiente para que Brady sinta seu bafo de sepulcro apodrecido.

— Antes de te devorar — diz a Outra Mikayla lambendo os lábios, como se Brady fosse a maior das iguarias. — Gostaria que você me falasse qual é o nome da música que está tocando? Sabe, para quando eu tiver tempo eu baixar o mp3 na internet.

— O nome da música, é: o doce som da DOR!!!

Brady pega o bandolim e rechaça o instrumento na cabeça da Outra Mikayla. Antes dos pedaços do bandolim cair na água rasa, Brady dispara para o outro lado da ilhota.

Os gritos da Outra Mikayla são furiosos e de fazer gelar o tutano.

Brady corre em direção a caniça brava, e com vários chutes e puxões consegue arrancar uma delas do chão. A caniça brava, tinha a cor de sangue e parecia que Brady estava empunhando um bastão envernizado.

— VOCÊ PODE CORRER BRADY!!! — diz a Outra Mikayla com as mãos na cabeça. — MAIS EU VOU TE ALCANÇAR E VOU TE DEVORAR LENTAMENTE!!!

Brady dispara em direção à outra passagem da caverna, torcendo para que aquele túnel o levasse para longe da morte.

Quando alcança o outro lado ele se permite, olhar para trás, a Outra Mikayla corria em direção a ele numa uma velocidade alarmante. Brady solta um grito estridente e começa a correr o máximo que pode.

A Outra Mikayla também grita muito, a diferença é que seus gritos eram de fúria.

Brady continua correndo pelo túnel com medo de ser alcançado a qualquer momento, quando de repente, ele quase cai diante de um abismo, que surge a sua frente. Era um beco sem saída!

— Agora peguei você!! — diz a Outra Mikayla se lançando sobre a cintura de Brady.

Os dois caem em direção ao abismo.

Em um último ato desesperado, Brady se agarra na beirada do rochedo, a Outra Mikayla ainda agarrada a ele o puxa para baixo. A caniça brava que Brady tinha pego, cai rumo ao infinito abismo.

— Me larga! — diz Brady fazendo força para continuar se segurando a lateral do abismo. — AI!

A Outra Mikayla dá uma mordida em sua nádega, tentando devorá-lo.

— Ei tira essa boca imunda dai de trás! — diz Brady uma de suas mãos se soltando. — Se você continuar fazendo isso nós dois vamos morrer!

— Eu não ligo! — diz a Outra Mikayla. — Minha missão é matá-lo.

Com a mão livre, Brady, tenta afastar o rosto da Outra Mikayla, e sem querer acerta os olhos dela.

— AAahh!! Meus olhos de novo não! — diz a Outra Mikayla ganindo de dor. — AAAAAAAAHHHHHHHHH!!! EU TE ODEIO BRADYYYYY!!!!!!!!!!!!

A Outra Mikayla diante da dor acaba se desprendendo dele, e cai. Em segundos a escuridão do abismo a engole e seu grito cada vez mais distante, para abruptamente.

Brady com a energia remanescente da adrenalina, escala o abismo e se joga no chão sem fôlego.

— Uff! Essa foi por pouco... Da próxima vez vou ouvir você, non sense, seus conselhos parecem muito menos perigosos e muito mais divertidos. Agora eu preciso voltar para a nascente e pegar outra caniça brava, e lavar minha bermuda.