Três Desejos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu tenho total certeza de que aquele garoto me encontrou por puro acidente, embora, é claro, eu deva saber que acidentes não existem. Moros deve ter se apiedado de mim, por fim…
Mas aquele garoto... eu jamais poderia esquecê-lo.
Estava lacrado em minha prisão de eternidade. Quando o vazio nos agarra para jamais soltar, a única coisa que nos resta são as lembranças… Minha penúria era questionar dia após dia o que eu havia feito de errado.
E então o garoto apareceu.
Só percebi que havia sido liberado da garrafa quando senti o vento familiar do deserto, senti seu cheiro e ouvi seu silêncio. A venda em meus olhos nada permitia que eu visse.
— Mas o quê…? — ele exclamou, a surpresa tingindo sua voz.
— Sou um gênio — revelei, eu ainda pensava que aquele seria apenas mais um trabalho exaustivo em realizar os caprichos de meus amos.
— O quê? — Quantos anos haviam se passado? Muitos, eu imaginava, tinha certeza que estava em Themaesth… Como aquele garoto não poderia conhecer a lenda?
— Um gênio. Realizarei apenas três desejos seus. Escolha sabiamen… — iniciei meu discurso de sempre, mas fui prontamente interrompido.
— Desejo que Analiese D’Herse se apaixone por mim. — As palavras saíram com tanta pressa que se atropelavam pelo caminho. Oh, então aquele era um rapaz apaixonado…
— Isso eu não posso realizar. Forçar amor a uma pessoa, tornar vivos aqueles que já morreram ou mudar o passado… Não tenho poder para isso. — Ouvi o som oco da garrafa caindo na areia e um suspiro exasperado.
— De que me servem três desejos, então? — gritou. Eu nada poderia fazer, fui transformado com limitações… aquilo era algo que ele deveria aceitar, assim como aceitei meu destino.
— A única coisa que deseja é o amor dessa jovem? — busquei manter a conversa fluindo. Não queria voltar para a garrafa, só agora eu percebia como sentia falta daquela brisa agradável.
— Sim — respondeu, taciturno.
— Você é jovem, pode conquistá-la no futuro. Quantos anos tem? Doze?
— Quinze... — respondeu com azedume. — Ela está apaixonada por outro homem…
— Oh… — O silêncio permaneceu por algum tempo. Imaginei que ele esperasse que eu dissesse algo. — Sinto muito.
— Aquele sereiano de merda nem a merece… — Agora eu conseguia ouvir seus passos, ele andava de um lado para o outro, o som fofo da areia… como eu senti falta.
— Ela se apaixonou por um filho de sereia? — Sim, eu sabia que era uma pergunta estúpida, mas precisava mantê-lo falando. Entretanto, ele apenas me deu o silêncio. Aguardei, porém não consegui nenhuma resposta. Eu ainda podia ouvir suas passadas, o que significava que ele ainda estava ali. — Amo?
— Sim, amor! Ela ama aquele desgraçado, eu já respondi. — Eu quase ri de seu tom irritado, contudo esforcei ao máximo para manter a postura.
— Mas você não disse nada.
— Eu acenei! Não estava prestando atenç...? — O próprio menino se interrompeu. Ele finalmente havia compreendido. — Você não pode ver…
— De fato, amo. — respondi e abaixei a cabeça. Enxergar era uma das coisas que eu sentia falta…
— Que merda você quer dizer com amo? — Havia um certo nojo em suas palavras que eu não conseguia entender. Aquele menino que tinha um tom tão adulto ia pouco a pouco captando minha curiosidade.
— É nossa forma de chamar alguém de mestre — esclareci, pensativo. Onde ele encontrou minha garrafa? Por que não conhecia os costumes de meu povo? Obviamente o sotaque daquele garoto não era themaesthino, contudo, ainda assim…
— Nós? — Eu não estava gostando da confusão em sua voz.
— Sim, nós. Os themaesthinos.
— Seu povo não existe mais… todos foram mortos em uma guerra, pelo que contam as histórias... — A facilidade com que aquelas palavras saíram, apesar de seu caráter insensível! Ele não podia estar certo. Obviamente não podia. A última vez que eu sai daquela maldita garrafa o lugar ainda estava vivo. Eu podia ouvir o som das risadas, o cheiro do comércio… — Agora esse é um lugar fantasma.
— Onde achou minha garrafa? — Eu queria disfarçar o pavor em minha voz, mas falhei miseravelmente. Talvez Moros não tenha me perdoado, talvez só quisesse me castigar ainda mais. — Quem é você?
— Achei em um dos poços das ruínas do palácio. — Ruínas! Eu precisava me sentar. Senti a areia quente em minhas mãos, mas não me importei. Ruínas.... — Eu me chamo Vinccenzo Faísca. Sou um pirata, pensei em vender a garrafa, mas estava cheia d’água… O que achei estranho, porque o poço estava seco.
— Ela sempre está… — murmurei. — A pessoa deve se livrar da água para que eu possa sair.
— Como é lá dentro? — Eu o ouvi perguntar e dei de ombros.
— Eu já era cego quando Moros me amaldiçoou, embora antes eu pudesse ver de alguma forma… — parei, não era permitido falar sobre minha vida antiga. Respirei fundo enquanto sentia minha língua queimar. — Não sei como é lá dentro, mas não tem água… Sei que sai água da garrafa, porque todos que me encontraram antes de você disseram isso, mas sempre é seco onde eu fico.
— O que você era antes de se tornar um… — Ele pareceu esquecer a palavra, mas antes que eu pudesse ajudá-lo, o garoto conseguiu recordar. — Gênio.
— Não posso dizer. — Um vento desagradável passou por nós, deixando minha boca com gosto de areia. — Você disse que era um pirata… não é muito jovem para isso?
— Sou um prodígio. E já sou um homem. — Aquele mesmo tom azedo… Tratá-lo como criança deveria ser algo muito incômodo para ele.
— Não há vergonha em ser apenas um garoto… — Ouvi o som de algo caindo na areia, ele parecia ter se ajoelhado ao meu lado. Senti uma de minhas mãos ser segurada e levada até a altura dos cabelos do rapaz e fui obrigado a agarrar uma pena que estava presa a eles.
— Sou um garoto apenas em sua cultura. De onde eu vim, essa pena prova que já sou um homem. A não ser que queira voltar para aquele maldito poço, será melhor respeitar isso. — Foi a primeira vez que tive medo de alguém tão jovem. A forma como ele segurava minha mão era firme e eu não tinha dúvidas que, se fosse possível, ele me mataria bem ali.
— E de onde você vem? — Vinccenzo soltou minha mão e eu a apoiei em meu colo, o menino ficou em silêncio por algum tempo e eu tive dúvidas se ele responderia ou não.
— Acho que não faz muita diferença você saber ou não… — murmurou, como quem estava em um debate interno. — Antes eu vivia em uma ilha. Eu não me chamava Vinccenzo naquela época, esse foi um nome que inventei… a sobrevivência era a única coisa que importava lá, poucas crianças chegavam até os doze. Parece que aquela ilha não tem um nome… todo mundo que fala dela se refere como Ilha dos Canibais. Nenhum mapa que eu roubei continha um nome... mas era o que fazíamos. Se um estrangeiro chegasse, nós o matávamos e então… bom, você imagina. Mas a forma mais comum era comer a pessoa que você venceu em combate. Eles acreditam que assim as forças daquele corpo passam a pertencer ao seu corpo.
Tentei manter minha expressão neutra. Não era um lugar desconhecido para mim, eu conhecia muitas lendas a respeito… e encontrar alguém, encontrar um garoto, que vivia ali… era irreal demais, mesmo que eu não devesse me surpreender com coisas irreais.
— Um garoto só se torna homem quando vence seu primeiro combate. Geralmente eles matam outros garotos, mas eles não levam muita credibilidade. Precisariam matar outros dois para ganharem a pena. Tudo porque são apenas garotos. — Sua voz era distante e eu tentava imaginar sua aparência. Estaria com um semblante sofrido? Eu não saberia dizer. — Houve uma vez que cruzei o caminho de um homem. Ele mandou que eu saísse da frente e não obedeci, fui desafiado para um duelo e simplesmente não consegui recusar. Ele era considerado o mais forte, só que era burro… era um estúpido que adorava se vangloriar. Deixei que ele me desse um golpe, porque isso iria deixá-lo com a guarda baixa. Fiquei caído o chão enquanto o ouvia me xingar de maneiras grotescas. Ele urrava para o círculo de pessoas ao nosso redor, feliz por mais uma batalha ganha… mas eu era apenas um garoto e garotos podem ser difíceis de se pegar.
A mudança em sua voz foi o que mais me surpreendeu. Estava carregada de orgulho, de prazer. Esperava que ele não estivesse olhando para meu rosto, não estava certo se conseguiria disfarçar o horror por muito tempo.
— Aproveitei quando ele fez a idiotice de ficar de costas para mim e montei em suas costas. Eu agarrei seu pescoço, mas claro que eu não tinha força o suficiente para estrangulá-lo. Ainda assim, tinha força o suficiente para me manter preso ali… ele ficou em fúria, tentando me tirar dali com os braços e eu apenas aguentava firmemente. — Se calou por um momento, eu não poderia dizer ao certo a razão. Após um longo minuto, ele voltou a falar. — Claro que ele poderia ter tentado quebrar meu braço… Ele teria me vencido se tivesse raciocinado apenas um pouco… o idiota fez o que eu estava esperando. Se jogou para trás, tentando esmagar o meu corpo contra o chão. Fui para frente dele e segurei sua cabeça, o susto o paralisou. Eu me aproveitei do impulso da queda e da minha força para bater a cabeça dele contra o chão. Ele era um homem alto… foi o suficiente.
— Ganhou sua pena após isso? — perguntei, sentindo minha boca seca.
— Não. Eu precisava devorá-lo e eu o fiz. Só depois disso que ganhei minha pena.
— Como veio parar aqui? Como fala a língua comum? — quis saber. Aquilo não fazia sentido algum.
— Alguns homens não ficaram felizes com minha vitória. Disseram que fui desleal, de algum modo. Eles tentaram me matar e eu fugi para o único lugar que eles temiam: o mar. — pensei em levantar, porém mudei de ideia. Não queria que ele interpretasse como desrespeito… o fato era que eu apenas temia estar vulnerável a ele. Eu não podia morrer, mas ainda podia sentir dor. — Não sabia nadar muito bem naquela época, mas sabia boiar. Deixei que o mar me levasse… Preferia morrer para o Kraken do que dar o prazer a eles. Um navio pirata me encontrou e sou um pirata desde então. Eu não falei nada durante meses, porque não entendia o que eles queriam dizer e por algo dentro de mim dizia que não era sensato que eles soubessem de onde vim. Todos eles pareciam ser homens inteligentes e civilizados. Ao menos se levar em consideração os homens com quem cresci. Com o tempo fui aprendendo aos poucos o que eles diziam… acho que pensavam que o mar tinha me deixado afetado. Tudo o que eu fazia era observar e ouvir. Consegui aprender rápido.
Ficamos em silêncio por um longo período, ele se sentou ao meu lado e assim permaneceu por, ao menos eu acredito, quase meia hora. Não conseguia entender como ele não tinha medo das criaturas venenosas que se escondiam sob essas areias… ou talvez apenas não tivesse conhecimento sobre elas.
— Não sei porque me abri com você… — murmurou, por fim. Pensei algum tempo sobre aquela revelação, sem saber o que responder. Refletindo sobre sua história, fazia sentido que ele fosse uma pessoa fechada. Talvez eu tenha sido o primeiro a quem ele revelou sua verdadeira natureza.
— Imagino… se você não sente a falta de alguém para chamar de amigo. — O garoto soltou uma risada abafada, mas não havia graça em seu riso. De algum modo, aquilo me entristeceu. Apesar de não poder ver seu rosto, eu tenho certeza de que seu semblante naquele momento era o de uma criança perdida.
— Não acredito em amizade, ela exige confiança e os humanos esqueceram o que é isso. — Era um jovem amargurado demais para sua idade. Levantei, sentindo os raios de Sol esquentarem meu rosto.
— Pela forma que você fala, faz parecer que não se sente como um humano.
— Não me sinto… em minha visão, a humanidade deixou de existir — disse em tom baixo, como quem conta um segredo que lhe assusta.
— E o que nós somos? — questionei, mesmo que eu talvez não pudesse mais ser classificado como um ser humano.
— Alguma outra coisa. Algo deu errado e nos tornamos isso, mas ainda existe uma última humana... — Apenas pelo tom de sua voz eu já poderia dizer a quem ele se referia. Suspirei, em sinal de clara tristeza.
— Analiese D’Herse. — Pelo silêncio que se seguiu, imaginei que ele tenha acenado, esquecendo-se de minha deficiência. Eu não teria ficado magoado, é claro. Contudo, seu silêncio era por outra razão. Há muitos anos eu havia me esquecido de como era ter um coração apaixonado.
— Não há nenhum modo de realizar meu desejo? — A voz do garoto estava carregada, ainda que seu esforço em controlá-la fosse louvável. Eu sabia que Vinccenzo estava chorando e tinha certeza de que ele se odiava por demonstrar aquele sinal de fraqueza.
— Não. Embora, exista a possibilidade de que ela se apaixone naturalmente por você. — Parte de mim não entendia porque eu estava consolando-o. Mesmo após ouvi-lo se vangloriar de seu passado, eu ainda era capaz de sentir certa simpatia por aquele estranho.
— Disso eu sei... o que me mata cada dia é não saber. Fico imaginando que talvez exista algo que eu possa fazer... alguma palavra ou atitude que a faça desistir daquele sereiano idiota! — O ódio tingia sua voz com cores que eu não gostaria de lembrar. Julguei que aquele era o momento certo para me levantar, com a raiva dele direcionada para outro foco, não parecia haver muito perigo na minha atitude… exceto, é claro, se ele resolvesse extravasar seu ódio em mim.
— Quem sabe você possa desejar ver o seu futuro — sugeri sem muita confiança enquanto sacudia minhas vestes para retirar o excesso de areia, todavia, Vinccenzo pareceu empolgado com a ideia. Ele me segurou pelos ombros, o que dizia bastante. Nunca fui um homem alto, mas pelo peso que o garoto fazia, pude perceber o esforço que fazia pra me alcançar.
— Eu posso? — dei um aceno positivo com a cabeça e ele me soltou. Ficamos sem falar nada por algum tempo, ele parecia avaliar a situação. Era um desejo complicado… como ele reagiria a tal conhecimento? — Desejo ver todo o meu futuro.
Respirei fundo e o busquei com minhas mãos. O rapaz ficou imóvel diante do meu toque. Com o dedo médio e indicador, fechei suas pálpebras, concedendo seu desejo.
Eu podia sentir seu ombro tremendo, mas o que realmente me incomodava era o movimento inquieto de seus olhos. Sua respiração era pesada e tudo o que eu pude imaginar é que o futuro de Vinccenzo Faísca não era nada como ele desejava.
Depois do que pareceu ser uma eternidade, seus olhos pararam de se mover, parecia ser o fim da visão. Meus dedos estavam molhados e pude sentir meu coração partir um pedaço.
— Não há vergonha em chorar — murmurei, eu ainda segurava seu ombro, apesar de ter libertado das pálpebras do menino.
— Qual seu nome? — ele perguntou. Há quantos anos não me perguntavam isso? Estava tão acostumado a ser chamado de gênio… com grande pesar, eu descobri que havia me esquecido.
— Não consigo me lembrar — confessei em tom infeliz.
— Irei te chamar de Nebulus. — O motivo para aquele nome? Eu não saberia dizer e nem mesmo tive a oportunidade de perguntar, uma vez que ele fez um novo questionamento. — Sabe o que é ter um desejo que nunca se tornará realidade?
— Sim. — Não pensei muito sobre a resposta. Eu vivia para realizar o desejo de outras pessoas e ainda assim… jamais seria capaz de realizar o meu.
— Qual o seu desejo mais profundo?
— Minha própria morte… imagino que é a única forma de me tornar livre do meu dever. No entanto, eu não posso morrer. Antes meu desejo era ser livre, mas os anos se passaram e não há nada mais pelo que eu almeje viver. — Por mais mórbidas que fossem minhas palavras, elas não passavam da mais pura verdade.
— Ainda há algumas coisas que tenho que fazer antes de morrer… — disse em tom soturno. O que seu desejo havia lhe mostrado? — Não sei se quero voltar…
— Voltar para onde? — questionei e o ouvi suspirar.
— Pra perto de Liese e dos outros. — Ah, então a moça estava com ele. Estaria o filho de sereia presente também?
Ele pegou a garrafa, nunca entendi a razão, mas imagino que Moros tenha feito com que ela se tornasse parte de meu corpo, pois eu sempre era capaz de sentir quando isso acontecia. Movi minha cabeça na direção do objeto, aguardando.
— Você é cego mesmo? — Aquela pergunta quase me fez rir.
— Sim, mas posso sentir minha garrafa… acredito que ela seja parte de mim — esclareci com um meio sorriso.
— Vai escurecer em breve... — Eu o ouvi dizer. De fato, a temperatura já apresentava suas mudanças costumeiras. Era reconfortante saber que ao menos aquilo não havia mudado. — Você consegue voltar?
Acenei em sinal de afirmação e logo fui capaz de desfrutar da sensação engraçada de ter meu próprio corpo sendo transformado em névoa.
Eu ainda podia ouvir a respiração do rapaz, por mais baixa que fosse. Ele era um verdadeiro sobrevivente, eu diria. Lembro-me de que, antigamente, achava terrivelmente incômoda aquela ideia de que eu estava flutuando no nada. Agora, isso já não é o maior dos meus infortúnios.
Vinccenzo caminhou por um longo período, o que me levou a questionar se o lugar que ele me encontrou tenha sido o poço dos jardins… Saber que um lugar tão belo agora se resumia a areia quente e seca me revoltava. E o que mais me causava revolta era saber quem era o culpado e não ter poder algum para me vingar. Eu deveria ter queimado o livro quando tive a oportunidade, mesmo acreditando que o bastardo seria esperto o suficiente para me impedir.
Após certo tempo, captei vozes animadas. Não consegui compreender o que diziam, ainda estávamos muito distantes para que aquelas palavras fizessem sentido.
Houve uma voz feminina se apresentando e uma resposta grosseira por parte do rapaz. Pouco depois, pude sentir o impacto com o chão e a voz daquele que eu acreditava ser o sereiano.
Pelo o que se seguiu da briga, algo parecia dizer que seu rival tinha conhecimento de seu segredo. A forma como ele o forçava a se desculpar… eu não saberia dizer a razão do meu desgosto. Parte de mim sabia que, de algum modo, ele havia merecido. Porém, a humilhação era palpável. O desconforto, a vergonha… era quase sufocante.
Quando Vinccenzo finalmente cedeu, temi que o sereiano não cumprisse sua parte do trato. Temi que ele contasse, sem o mínimo pudor, sobre a llha dos Canibais…
No entanto, para meu alívio, aquilo não ocorreu.
Imaginava se o pirata desejaria que todos eles morressem. Certamente eu poderia conceder aquele pedido…
Novamente, para meu alívio, o garoto apenas se afundou em silêncio.
Houve um homem que o seguiu, que buscava forçar um diálogo incessantemente. Eu podia notar a preocupação em sua voz, ainda que não pudesse disfarçar aquela aura de segundas intenções.
— Enzo, o que houve? Por favor, sabe que pode se abrir comigo… — Minha garrafa se moveu repentinamente e se chocou contra alguma outra coisa. Eu estava em uma bolsa?
— Eu disse para não tocar em mim… — Sua voz era como uma cobra. Apenas um sussurro cruel. Um longo silêncio se seguiu após isso, teria o homem desistido?
— Faísca, pelo amor de Moros! Como seu capitão, ordeno que diga o que aconteceu. — Nenhum movimento brusco. Um pirata religioso? Aquilo existia? Mais uma alma iludida… podia entender porque Vinccenzo não o suportava. Ao menos, achei que podia entender.
— O capitão não acha que, de todas as pessoas, você é o que menos merece o amor de Moros? Uma pessoa tão suja, tão cheia de pecados… — Ele pareceu querer continuar, mas se conteve. E as palavras que vieram a seguir, de algum modo, me surpreenderam. — Sinto muito.
O homem nada respondeu e o garoto pareceu ficar na mesma posição pelas horas que se seguiram. Ao menos até ele decidir falar novamente comigo.
— Nebulus? — chamou.
— Sim, amo? — respondi em seus pensamentos. Aquilo pareceu confundi-lo por alguns instantes.
— Pode parar de me chamar de amo? — pediu em um sussurro.
— Como desejar. — Diante daquelas palavras, ele pareceu se irritar.
— Isso contou como um desejo? — questionou, exasperado.
— Não — respondi entre risos.
— Você quer sair dai? Posso ir para um lugar isolado. — Era tão raro encontrar um amo que se preocupasse com meu bem estar… pensei um pouco a respeito, parecia arriscado.
— Há quantas pessoas no grupo? — indaguei, avaliando.
— Acho que… oito? Contando comigo…
— Talvez não seja prudente, alguém poderia nos ver. — Mas o garoto estava rindo e eu não consegui entender a razão.
— Não irão — respondeu com confiança. Quase havia me esquecido do seu primeiro pedido. — É engraçado, às vezes é como se duas coisas estivessem acontecendo ao mesmo tempo.
— Eu diria que é confuso… — Lembranças de uma antiga prisão me atormentavam. O jovem não pareceu prestar atenção em minhas palavras. Talvez estivesse sendo atormentado por alguma visão do futuro.
— Não importe de que ângulo eu tente olhar, nós nunca ficamos juntos… — Novamente o tom infeliz havia voltado. A solidão, que antes apenas permeava seu jeito de falar, agora se tornara abrangente. — Eu tenho um desejo.
— Então vou precisar sair da garrafa… — Como resposta, ele se levantou e caminhou durante algum tempo. O quão longe ele iria desta vez? — Está voltando para os jardins?
— Não, vou encontrar o sereiano lá… pronto. — O frio noturno invadiu minhas narinas. Permiti a mim mesmo sorrir um pouco, era quase nostálgico… mesmo que eu nunca houvesse, de fato, visitado o palácio.
— Achei que iria querer uma chance de se vingar — comentei, pensativo enquanto me lembrava da discussão de horas atrás.
— Liese estará lá também… — murmurou em resposta. — De todos os modos, eu terei minha vingança eventualmente.
— Vai desejar a morte do seu rival? — questionei, ainda que duvidasse daquela possibilidade.
— Não vou gastar um desejo para fazer Liese infeliz. Mesmo se Leharuin morresse, não ficaríamos juntos… — Seria aquela uma maldição que Moros havia lhe imposto? Por vezes, eu me perguntava se não seria uma mentira todas as visões, todo aquele futuro deprimente e solitário. E se fosse tudo uma armadilha de Moros? Valeria a pena torturá-lo com aquela incerteza? — Se ela o escolheu… que fique com ele. Mas eu nunca a deixarei me esquecer.
Ficamos em silêncio por minutos a fio. Seria aquilo um tipo de bondade? Quase conseguia imaginá-los num futuro. Uma voz no oceano, outra voz governando reinos. Vozes que talvez jamais tornariam a se encontrar. A voz de um pirata solitário e a voz de uma princesa perdida.
— Quero ser imortal. — Franzi o cenho, ele não poderia querer aquilo…
— Não há vantagens em ser imortal. — Ele riu, cabisbaixo.
— Para mim há. — Quando fiz menção de falar, o jovem pirata me interrompeu. — Você sabe que há uma forma de me tornar imortal. Ouça meu desejo.
Estaria ele percebendo minha expressão taciturna? Provavelmente desconfiava pelo modo como minha boca se curvava para baixo. Ou quem sabe pela minha aura de desgraça iminente.
Suspirei quando senti o calor preencher minha mão. Eu já não lembrava como ela era, mas lembrava das guerras que ela havia causado.
— Isso é…? — ele perguntou, sua voz era um misto de surpresa com encantamento.
— O coração de uma sereia — murmurei. Nunca consegui aceitar as consequências ocasionadas pela ganância humana. — Os alquimistas costumam chamá-la de Pedra Filosofal.
Deixei de sentir o calor daquele coração rígido. Era algo engraçado, sobre as sereias… eram julgadas como criaturas frígidas, contudo, mesmo na morte, seu coração nunca perdia o calor.
— Eu não sei muito bem sobre esses, mas começo a ter uma ideia de como usar… vai servir. — Tão grande foi o meu alívio ao não encontrar nenhum tipo de cobiça em sua voz. Existia uma pura tristeza, uma consciência cruel de que havia matado uma criatura inocente. — Acho que… talvez…
O garoto segurou minha mão e pude sentir novamente aquele calor que agora me era familiar.
Foi então que fui pego de surpresa.
Havia algo de novo. Uma sensação parecida com a de se lembrar vagamente da forma como sua mãe costumava cantar para que você tivesse sonhos tranquilos. Aquele tipo de lembrança que você já não tem certeza se é verdadeira ou apenas fruto de sua imaginação.
Ainda assim, aquela sensação vinha do lugar errado.
Na base do meu polegar havia um olho.
Cai no chão, sem compreender e, então, veio a dor. Porque agora havia areia em meu olho.
Eu podia ver meu rosto. Podia ver minha boca aberta. Era capaz de ver minha pele negra iluminada pelo luar.
Ainda assim eu não acreditava.
Não conseguia me lembrar como era enxergar. Era quase como se eu fosse cego desde o nascimento.
E agora lá estava eu, me observando. Aquele olho coçava, mas eu não conseguia piscar. Mesmo com toda a areia, mesmo com as lágrimas escorrendo.
— Não vai durar… três? Três dias, acho. Não tenho certeza. — Meu rosto se virou na direção da voz, movido pelo impulso. Apoiei as costas da minha mão no rosto, numa tentativa quase falha de me lembrar do modo como as coisas deveriam ser vistas. — Eu também não vou conseguir fazer um segundo...
E o que eu via era um rapaz loiro de pele bronzeada. O que eu via eram olhos azuis como o oceano. Eu ainda não acreditava.
— Nebulus? — Ele chamou, porém minha voz falhava. Eu não sabia como agradecer. Um leve sorriso iluminou aquele rosto. — Não precisa procurar por palavras.
Contemplei o céu estrelado, a Lua e a areia. Vinccenzo fingia não me observar, buscando me dar privacidade.
Mesmo a imagem das ruínas ao longe não me entristeceram completamente.
Eu sabia que todo o meu povo havia sido morto, eu agora podia ver todo o meu reino destroçado, conseguia visualizar as cicatrizes da guerra e ainda assim… eu me sentia encantado como uma criança.
Isso fazia de mim alguém insensível?
Eu não me importava.
Não posso dizer ao certo por quanto tempo ficamos ali. Sei que tive que voltar para a garrafa, sei que fiquei desapontado por ver apenas escuridão em seu interior.
E o medo.
E se meu olho desaparecesse?
Mas não iria, correto? Vinccenzo teria me alertado. Ele disse três dias. Então entrar na garrafa não poderia afetar minha visão.
Tomei conhecimento do objetivo do grupo na manhã seguinte e não consegui acreditar. Aquilo era uma armadilha, certamente. Não sai da garrafa durante todo o caminho e o pirata não parecia querer me responder. Estaria ele próximo demais dos outros? O homem que tentou falar com ele na noite anterior frequentemente voltava a perturbá-lo, sempre cobrando respostas.
Houve uma breve discussão com Analiese, porém não consegui prestar atenção.
Eu estava voltando para aquela torre…
Eu não queria voltar para lá.
O livro, o cheiro de morte.
— Vinccenzo, diga a todos para não irem… Moros só quer enganá-los, vão morrer se forem lá! — Ainda assim ele permanecia em silêncio, completamente crédulo na visão que seu desejo concedera.
Houve um momento, é claro, onde senti esperança de que ele fugiria dali. No momento em que Analiese D’Herse falou novamente com ele.
— Enzo… — Ela o chamou, com a voz carregada de preocupação. — Por favor, me deixe te ajudar.
— Você quer me ajudar? — Vinccenzo indagou, só eu e ele sabíamos como o jovem pirata estava completamente cansado. — Então mude o meu destino.
— Como eu poderia fazer isso? — Pergunto-me se ele percebeu seu tom defensivo, talvez estivesse tão desesperado que se fez surdo para ele.
— Mande todos eles à merda. Esqueça o sereiano, fuja comigo agora. — Ele parecia estar prestes a dizer algo mais, todavia, se calou por um momento. Quando sua voz se fez audível novamente, pude sentir meu coração se quebrar de tristeza e desespero.. — Nós poderíamos viver juntos, você adora o mar… mas você já fez sua escolha. Você não quer me ajudar, vossa majestade.
Ele estava subindo as escadas. Estava cada vez mais próximo daquele lugar maldito.
— Vinccenzo, volte! — gritei.
— Nada vai nos acontecer… — disse em sussurro quase inaudível.
E, de fato, toda aquela situação ocorreu estranhamente calma. Mesmo quando o escrivão atual morreu, mesmo quando aquilo que eles chamaram de bonecas assumiram seu papel…
Tudo estava doentiamente calmo.
E mesmo que eu tivesse percebido toda a estranheza da situação, nada me era permitido dizer.
Eles estavam voltando para casa… vivos, quase felizes.
Estavam livres.
Não saberia dizer se estava feliz por eles ou e sentia inveja.
Quando Vinccenzo me libertou novamente de minha garrafa, nós estávamos em um navio.
— É seguro? — questionei enquanto observava o lugar. Parecia ser a cabine do capitão. O jovem pirata se limitou a um aceno com a cabeça. Estava limpando o lugar, porém parecia enjoado. — Ainda se enjoa quando está no mar?
— Não… — murmurou e, ao perceber que eu ainda fixava meu olho em sua expressão, seu rosto pareceu se contorcer ainda mais. — Hoje ele vai beber demais…
— Quem?
— O capitão. — A forma como ele sibilou, tão cheio de ódio… me fez lembrar de quando ele contou sobre o primeiro homem que matou. Não consegui reprimir um calafrio. — Será a última vez…
Desviei o olhar e busquei distrair minha mente com os livros que haviam no local. Eu já não me lembrava como decifrar o enigma das palavras, no entanto fui capaz de lembrar daquele símbolo. Quase todos os livros falavam sobre Moros.
— Nebulus, pode se esconder embaixo da cama? Ou se preferir voltar para a garrafa… — Refleti sobre e optei pela cama, não podia mentir para mim mesmo e negar que estava curioso.
Quando a porta se abriu, o jovem estava no meio da cabine.
— Bom trabalho, Faísca! — ele saudou, alegremente. Vinccenzo não se moveu.
— Estou liberado, capitão? — Havia uma doçura enjoativa em sua voz. O homem se aproximou do garoto e colocou a mão em seu ombro.
— Gostaria de companhia essa noite, Vinccenzo… foi uma jornada difícil. — Eu não conseguia ver o olhar do garoto, mas algo nele fez com que o capitão recuasse. — Sinto muito… eu… Ah, Enzo!
Ele o abraçou bruscamente, mesmo que parecesse temer tocá-lo. Recolhi minha mão, não queria ver aquilo. Eu podia entender perfeitamente o motivo do garoto estar enojado. Eu me sentia enojado.
O capitão tirou a parte de cima de suas vestes e se sentou na cama.
— Enzo… não me faça implorar. — Ele murmurou para o garoto que continuava no mesmo lugar.
— O capitão irá implorar por outra coisa hoje… — Ele não podia mais esconder a raiva. Toda a sua voz tremia, assim como seu corpo.
— O quê? — Uma pitada de desespero… como adorei ouvi-la! Vinccenzo correu para a porta da cabine e a abriu com violência.
— Escória! — gritou. O capitão levantou, pálido. Se dirigiu para fora do aposento e eu, o mais silenciosamente que pude, sai de meu esconderijo. Coloquei minha mão na pequena janela, buscando ver o que viria a seguir. — Pecador, imundo.
— Faísca, cale-se. — O tom autoritário me surpreendeu, mas Vinccenzo não se abalou.
— Aposto como queria que Moros te escolhesse. Aposto que ficou desapontado quando ele escolheu as duas aberrações. — A tripulação se juntava cada vez mais, só havia uma mulher. Não foi difícil descobrir quem ela era.
— Enzo! — Ela gritou, em choque, mas ele apenas a ignorou. Os homens do capitão claramente não sabiam o que fazer.
— Mas sabe? Você é uma aberração ao seu modo. Caleb, a escória da humanidade. — Não conseguia vê-lo como um garoto indefeso, não mais.
— Faísca! — A cólera tomou conta da voz do homem. Ele puxou sua espada e seus homens seguiram o exemplo. Parecia ser o fim de Vinccenzo Faísca.
— Não consegue lutar uma batalha sozinho? Contra um garoto? — Ele gargalhava abertamente, Analiese exibia a mesma expressão perplexa que eu. — Covarde! Você sempre será um covarde, Caleb!
— Quer me desafiar, garoto? — O rosto vermelho, a voz descontrolada, até que, por um instante, ele pareceu se acalmar um pouco. — Enzo, eu sou seu capitão. Você me deve respeito. Eu salvei sua vida. Esqueça isso, peça desculpas e eu me mostrarei misericordioso, assim como Moros.
Senti uma súbita vontade de rir, no entanto consegui refreá-la. Vinccenzo, no entanto, não obteve sucesso.
— Não tenho motivos para respeitar alguém imundo como você. Sabe, Caleb? Eu sempre tive nojo, aversão… — Caleb atacou e Vinccenzo desviou com facilidade. Ele próprio puxou sua espada. — Pela posse desse navio eu o desafio, Capitão Sendulum. Eu não terei misericórdia. Eu irei devorar seu coração.
Após proferir essas palavras, ele brandiu a espada. A tripulação abriu espaço para o duelo, Analiese e um rapaz de cabelos azuis pareciam tentar segurar um homem ruivo. Pude perceber que ambos eram filhos de sereia, mas para qual deles a princesa havia entregado seu coração?
O capitão conseguiu acertá-lo no rosto, em sua bochecha esquerda. Aquilo pareceu lhe dar coragem, contudo, eu já sabia como o jovem lutava… E, além disso, não era um corte profundo.
O garoto girou habilidosamente para o lado e fez um corte profundo nas costas nuas de seu oponente que urrou de dor. Vinccenzo chutou a parte de trás do joelho, fazendo com que Caleb perdesse o equilíbrio.
— E-enzo… — O homem murmurou, os olhos cheios de lágrimas.
— Sua vida miserável termina aqui, pecador. — Ele apontou a espada para o rosto daquele a quem Moros abandonou.
— Por favor, Vinccenzo, não faça isso. Por Moros, Enzo… — A cada palavra que dizia, só se tornava ainda mais patético.
— Enzo! — Analiese gritou uma vez mais e, ainda assim, o jovem pirata não desviou os olhos de seu objetivo. Mesmo com o pânico na voz dela, o garoto não pareceu se abalar.
— Eu disse que você imploraria. — Com um sorriso vitorioso, executou uma perfeita decapitação… isso, é claro, se um ato como aquele poderia ser chamado de perfeito.
O sangue se espalhava por todo lado, até mesmo o rosto e os cabelos dourados haviam se contaminado com aquele líquido doentio.
Assassinato sempre foi algo doentio, mesmo para mim.
A pena que lhe parecia tão importante, estava manchada agora. E nada importava.
Porque Vinccenzo havia vencido.
Mas não havia terminado ainda.
Porque faltava uma única coisa.
E certamente, era algo que eu não gostaria de assistir.
— Esse navio se chamará Princesa Analiese deste dia em diante… — mesmo que autoritária, sua voz era triste.
— Não! — A princesa gritou e, finalmente, ele não ignorou a presença dela.
— Vossa majestade, creio que você não possa me impedir quanto a isso. — A jovem de cabelos cacheados caminhou ferozmente até ele. Ambos eram do mesmo tamanho, quando ela ergueu a mão para estapeá-lo, Vinccenzo a segurou. — Eu sou o capitão desse navio agora, majestade. Também sou o único que pode levá-los até Anankes em segurança…
— Como pôde fazer isso? — Ela perguntou, o rosto vermelho pelo choro.
— Quando temos um coração quebrado, as coisas perdem a importância. — Libertou o braço da garota, que ficou manchado pelo sangue de Caleb. — Sabe qual é a única coisa que me impede de matar os dois filhotes de sereia agora mesmo?
— Não — respondeu friamente.
— Sua felicidade — deu um sorriso triste e desviou seus olhos para a tripulação, que o observava bestializada. — Limpem o convés e joguem o corpo no mar. Estarei em minha cabine, não desejo ser perturbado.
— Foi uma boa luta — comentei quando ele passou pela porta.
— Ele não acreditou que eu iria matá-lo, por isso perdeu. — Caminhou exausto até a cama e se jogou ali. — De algum modo, foi tedioso. Eu tinha uma breve noção dos movimentos que ele faria. Aquilo não foi nem o mínimo que ele merecia... se Liese não estivesse aqui…
— Seria melhor ver esse rosto. — Ele deu um aceno negativo com a cabeça e sorriu.
— Um, dois… — Estavam batendo na porta, me virei para o garoto, aguardando instruções. — Pensei ter dito que não gostaria de ser incomodado!
Gritou, no entanto, algo dentro dele sorria. Talvez ele tenha visto aquela cena também…
— Enzo… — era a voz de Analiese D’Herse.
— Vossa majestade, mesmo para você, agora é Capitão Vinccenzo — Ele sinalizou para que eu, uma vez mais, fosse para debaixo da cama. Levantou e caminhou até a porta, Analiese o fitava com olhos tristes. — O que deseja?
— Eu… Seamus e eu gostaríamos que Sendulum tivesse um enterro digno… pedi para que seus homens aguardassem até eu pedir sua autorização. — Não conseguia ver a expressão do pirata de onde eu estava, mas eu tinha certeza de que era cruel.
— Escória não merece um enterro digno, vossa majestade. Não poderei atender ao seu pedido. — A princesa parecia estar prestes a chorar novamente.
— O que ele fez pra você ter uma atitude dessas? — o capitão desviou o olhar. Mesmo que ele fosse capaz de prever determinadas cenas do seu futuro, creio que nada o havia preparado para a dor nos olhos de Analiese D'Herse.
— Ele me embebedou... o resto dessa história eu tenho certeza de que seu amado sereiano adoraria contar. — Ele fez menção de fechar a porta, porém a princesa o impediu.
— Seu rosto... — Tenho certeza de que seu tom preocupado o acalmou.
— Vai melhorar... — A voz do garoto era mais branda agora.
— Sei que vai, farei um curativo. Posso entrar? — Por um breve momento, acreditei que ele não permitiria, contudo... sua postura mudou e nesse momento eu soube: O seu rival os observava. O capitão cedeu passagem e Analiese entrou sem olhar para trás mesmo que algo em sua expressão denunciasse que ela sabia que estava sendo vigiada.
— Espero que o sereiano não tenha a audácia de bater em minha porta — disse Vinccenzo em bom som.
— Ele não vai... está cuidando de Seamus. — Ao ver a expressão ligeiramente confusa no rosto de Vinccenzo, ela tentou se explicar. — Seamus desmaiou quando você... quando você...
— Quando eu comi o coração de Caleb. — ele completou com o tom impassível.
— Por que fez uma coisa dessas? — acredito que sua voz saiu mais alta do que ela planejava. Ela escondeu o rosto nas mãos e permitiu que as lágrimas saíssem. O pirata esticou a mão para tocá-la, mas recuou. Havia dor em seus olhos.
— Você tem medo de mim... — ele sorriu com pesar. — Talvez isso seja uma boa coisa.
— Por que seria? — A princesa o olhava fixamente agora.
— Não teria graça saquear seu reino se eu não fosse capaz de lhe amedrontar. — Ficaram em silêncio por alguns instantes até ela se levantar e caminhar em direção a uma cômoda de aspecto envelhecido. — Não é ai que fica, é no baú.
A princesa o olhou curiosamente e se dirigiu ao baú. Nessa hora, tentei esconder minha mão o mais rápido possível, no entanto...
Vinccenzo avançou rapidamente e cobriu a boca de Analiese com a mão que estava um pouco mais limpa. A jovem conseguiu conter o grito de pavor e o pirata suspirou, aliviado.
— Nebulus, pode sair — fechei suavemente a palma direita para proteger aquele olho frágil e saí de meu esconderijo. Ergui minha mão na altura do lugar onde deveriam existir meus olhos e revelei o olho que ali existia. Ela me olhava com espanto e um misto de confusão. Eu não poderia culpá-la... parando para pensar, Vinccenzo era o verdadeiro estranho ali, pois levava toda a situação com uma naturalidade inacreditável. — Majestade, esse é meu gênio: Nebulus.
— Gostaria que não me chamasse assim... — Ela fez uma careta de desagrado. — E gênio? Não seria como o gênio das histórias, seria?
— Hmmm... — refleti por alguns segundos. O mundo estava completamente diferente agora, o que significa que as histórias também poderiam ter mudado. — Quais histórias?
— Que os gênios compram sua alma em troca de alguns desejos... — ela murmurou, agora eu entendia porque ela parecia ter medo de mim. Não era apenas a minha mão o problema... Vinccenzo, no entanto, estava rindo.
— Eu não venderia minha alma para ninguém, exceto para você. — O rapaz abriu o baú e retirou alguns panos já encardidos, para o desagrado da princesa.
— Permita-me fazer isso... — Com um gesto gentil, Analiese pegou os trapos da mão de Vinccenzo. Havia água quente em um jarro que foi utilizada para molhar o tecido. O pirata estava sentado na cama e observava suas mãos sujas de sangue seco. Eu permaneci em pé, por outro lado, observando toda aquela cena de maneira impassível. Quando a princesa retornou, havia um sorriso triste em seu rosto. — Quer dizer que eu poderia comprar sua alma?
— Sim — ele respondeu com um sorriso zombeteiro.
— Mas isso significaria que você faria tudo o que eu pedisse.
— Exatamente. — Eu me perguntava se ele já escutou todo aquele diálogo antes...
— Incluindo permitir que Sendulum tivesse um enterro digno? — ela ergueu uma sobrancelha, crédula.
— Incluindo isso. — Não sei dizer se a princesa apenas ignorou o perigo naqueles olhos celestes ou se ela não era capaz de visualizá-lo devido a sua alma inocente.
— Muito bem, qual o seu preço, Capitão Vinccenzo Faísca? — Os dois se encararam com intensidade e o pirata sorriu.
— Não é um preço que você possa pagar, majestade. — No entanto, ela continuou a encará-lo... tenho certeza de que, enquanto ele não estipulasse o preço, ela não desviaria o olhar. — Seu amor, majestade. Você teria que ser capaz de me amar...
— Enzo... — Analiese começou, porém ele não permitiu que ela terminasse.
— Não há problema. Sei que você não seria capaz disso. — Finalmente, a jovem não conseguiu mais sustentar o olhar do pirata e se concentrou em sua tarefa de limpar a ferida.
Um longo silêncio se seguiu após isso. Voltei minha atenção para os livros sobre Moros... queria queimar todos eles. Será que Vinccenzo permitiria? Não acreditava que o rapaz gostaria de lê-los, mesmo que algo dentro de mim soubesse que ele seria capaz disso. Para um selvagem, o garoto era culto demais. Mesmo para um pirata... certamente Caleb o havia educado. Aprender tanto em tão pouco tempo... ninguém poderia negar que, de fato, Vinccenzo Faísca era um garoto prodígio.
Por um momento, ele ficou tenso e olhou furiosamente para a porta. Analiese frangiu o cenho e mordeu o lábio, pensativa.
— O que houve? — questionou.
— Nada... nada. — Ele pareceu relaxar, mas não tirou os olhos da porta.
— Enzo... eu... eu queria saber se... — Vinccenzo desviou os olhos da porta para encarar a jovem friamente.
— Realmente espero que você desista de me ofender com essa pergunta, majestade. E, eu já disse, mesmo para você é Capitão Vinccenzo. — Soltou um suspiro, exasperado. — Meu primeiro desejo foi ver o meu futuro. Meu segundo desejo foi... algo que permitisse que Nebulus voltasse a enxergar, mas capaz de me trazer benefícios também.
Franzi o cenho, era uma sorte que a venda em meus olhos não permitisse que a princesa visse completamente minha feição.
— Não desejei ser capaz de derrotar Caleb. Apenas vi em meu futuro que, se eu tentasse, venceria. E eu tentei. — Ele levantou bruscamente e tornou a olhar para a porta. — Não fale a ninguém sobre o Nebulus se preza a segurança dos sereianos. Saiba que, se eu quisesse, seria capaz de matar os dois. Vá antes que ele resolva bater...
Os olhos prateados de Analiese se derretiam em lágrimas de pura tristeza. Tenho certeza de que o coração do pirata se partia em milhões de pedaços toda vez que a via chorando. Eu me dirigi para um ponto cego da cabine, quem quer que estivesse lá fora não seria capaz de me ver.
A princesa trocou um último olhar com Vinccenzo e saiu. Quanto a porta bateu, o jovem se deixou cair na cama. Os braços cobriam o rosto... será que estava chorando?
— Estou bem, Nebulus… eu só… — ele se levantou como um gato assustado. A porta se abriu repentinamente e por ela passou um rapaz ruivo, seguido pela princesa e pelo estranho rapaz de cabelos azuis. Era apenas impressão minha ou meia dúzia de borboletas pareciam acompanhar aqueles dois?
— Enzo, desculpa eu tentei fazê-lo bater… — Os dois homens me encaravam perplexos. Eu certamente não deveria estar ali. Claro que eu não tinha noção do quão errada era minha presença. Pelo menos ainda não.
— Um amaldiçoado? — O ruivo sussurrou, surpreso. O de cabelo azul exibia uma expressão de desagrado, eu não saberia dizer se era eu o responsável por isso.
— Sua atitude é passiva de morte, Seamus. — Vinccenzo informou com uma expressão inabalável. — Nebulus é meu convidado, você deve tratá-lo com cortesia. Peça desculpas.
— O que um amaldiçoado faz nesse navio? Como ele entrou? — O capitão avançou em direção ao ruivo. O outro tentou impedí-lo, no entanto não foi rápido o suficiente. Vinccenzo deu um pequeno salto e segurou Seamus pelos cabelos, puxando-o para baixo logo em seguida e colocando uma pequena adaga em seu pescoço.
— Eu deveria arrancar sua língua pela desobediência.
— Capitão Vinccenzo, peço desculpas pelo comportamento de meu irmão. — Franzi o cenho. Os dois eram filhos da mesma sereia? Vinccenzo deu um sorriso sarcástico. — Tenho certeza de que ele também sente muito.
Os olhos arroxeados do ruivo buscaram o irmão, que estava fora do seu campo de visão. O pirata ainda o segurava firmemente. Alguns homens da tripulação estavam parados na porta, confusos, o que fez com que Vinccenzo arrastasse o filho de sereia para fora da cabine.
— Tripulação, sua atenção, por favor! — ele gritou. Era uma madrugada tranquila, o grupo que estava acordado e cuidando das tarefas noturnas desviou sua atenção para o capitão. — Nebulus, fique ao meu lado. Preciso apresentá-lo.
O que ele pretendia com aquilo? Apenas o obedeci, torcendo internamente para que Vinccenzo Faísca soubesse o que estava fazendo.
— Quero todos acordados. Não irá demorar muito, preciso apenas de alguns minutos. — Meu olho olhava fixamente para Vinccenzo. O rapaz que havia me chamado de amaldiçoado estava claramente desconfortável, contudo… eu não conseguia sentir uma aura de medo. Avaliando melhor suas vestes, percebi que ele era um Seguidor de Moros. Imagino que isso explicasse sua conduta irracional.
— Capitão, estão todos aqui... — um tripulante informou, após alguns minutos.
— Sinto por ter interrompido o descanso de alguns, mas precisava falar. Como prometi, não levará muito tempo e vocês poderão retornar para suas tarefas ou para o merecido descanso. As águas estão calmas, então não iremos desperdiçar essa oportunidade. — Todos o encaravam, em completo silêncio. A irrealidade ainda era palpável, ninguém conhecia acreditar que seu capitão anterior havia sido derrotado por um garoto de quinze anos. Todos ali, de algum modo, temiam Vinccenzo Faísca. — Quero apresentá-los a Nebulus. Eu o encontrei nas ruínas de Themaesth, dentro de uma garrafa. Ele se auto proclamou gênio e me ofereceu três desejos.
Burburinhos se espalharam pelo navio, porém Vinccenzo não deu atenção a eles.
— Estou contando-lhes isso para provar minha honestidade. Irei revelar a vocês meus desejos. — Novamente o silêncio. O olhar de Vinccenzo passeou por todos os presentes e finalmente repousou nos olhos de Analiese. — Meu primeiro desejo… foi que Analiese D’Herse se apaixonasse por mim.
A expressão do rapaz de cabelos azul endureceu e ele assumiu uma postura protetora em relação a jovem.
— Fico feliz que esse desejo não tenha sido realizado, afinal não seria um amor real… Nebulus, conte a todos suas limitações. — O olhar dele ainda estava fixo na princesa.
— Não tenho poder para forçar amor a uma pessoa, tornar vivos aqueles que já morreram ou mudar o passado. — Senti meu braço cansado. Há quanto tempo eu não tinha aquela sensação? Eu não precisava ver aquela situação, além disso, os olhares começavam a me irritar. Cruzei os braços, tomando cuidado para não ferir o meu olho temporário. Tudo o que eu via agora eram minhas próprias vestes.
— Como segundo pedido, desejei saber tudo sobre o meu futuro. Eu precisava saber se Analiese D’Herse um dia se apaixonaria por mim, se havia qualquer coisa que eu pudesse fazer para tornar isso possível. — Sua voz ia se tornando mais fria a cada palavra que pronunciava. — Meu futuro revelou muitas coisas, mas não havia espaço para o amor nele. Ainda assim, eu vi glória e conquistas. Eu vi a maior frota pirata dos três reinos! Eu vi que, caso eu tentasse, seria capaz de derrotar o Capitão Sendulum. Vi um futuro extenso… extenso demais. Nebulus, informe o meu segundo desejo.
— Imortalidade… — informei, tristemente. Tornei a erguer minha mão, para visualizar a situação. Será que os piratas acreditariam em Vinccenzo?
— O que, certamente, não significa que eu não sou capaz de morrer. Quem quiser me matar nesse momento, pode tentar. — Com a mão livre, retirou uma pequena adaga das vestes e pressionou sua lâmina. Deixou que o objeto caísse e revelou o corte em sua mão. — Eu ainda sangro, ainda posso ser ferido. Viverei por anos e não serei capaz de envelhecer se essa for a minha vontade. Sei que no futuro haverá alguém capaz de me matar, sei que essa pessoa ainda não nasceu. A pessoa que conseguir isso, terá o controle desse navio e de todos os outros que eu conquistarei no futuro.
Ele olhou para Seamus com desprezo e o soltou com violência no chão.
— Esse sereiano tentou questionar minha autoridade, ofendeu Nebulus e isso seria o suficiente para matá-lo aqui e agora… — Seus olhos se tornaram nublados e distantes. — Mas não farei isso. O preço já foi pago. Quem eu matarei diante de vocês nesse momento será a minha clemência! E eu juro que deste dia em diante qualquer ofensa contra mim ou contra minha tripulação não será perdoada! Nem mesmo você, majestade… por isso, joguem o corpo de Caleb no mar! Isso é uma ordem direta e quem quer que tentar atrapalhar sofrerá as consequências.
Analiese e o outro rapaz conseguiram conter Seamus, contudo uma dupla de piratas também não parecia satisfeita com a ordem de Vinccenzo. O garoto foi capaz de desviar dos dois com graça, ele os atraiu até a borda do navio e os atirou no oceano.
Os outros homens gritavam de euforia, ninguém mais se atreveu a desafiar seu capitão. Jogaram o cadáver de Caleb nas águas negras e iniciaram uma festa. Ninguém voltou a dormir e Vinccenzo assumiu o leme. Eu fiquei ao seu lado, como de costume, mas sem saber o que sentir. Talvez eu não devesse sentir nada, afinal.
Não. Havia algo que eu estava começando a sentir.
Desespero.
Sim, porque minha visão estava começando a deteriorar.
Vinccenzo percebeu sem que eu nada dissesse. Ele me encarava, com um ar concentrado, na maior parte do tempo.
Questionei Vinccenzo sobre o motivo que levou Seamus a se referir a mim como amaldiçoado. O pirata explicou que aquele era um conhecimento que só possuía graças a Caleb e que toda a guerra envolvendo Themaesth era considerado um grande tabu pela sociedade. Meu povo foi o primeiro a se rebelar contra Moros e por isso foi castigados, quem quer que tivesse sangue themaesthino era considerado como um amaldiçoado por Moros e deveria ser morto, na realidade, era considerado uma grande honra assassinar quem possuísse tal sangue. A terceira geração, no entanto, foi poupada pelo deus, mesmo que ainda houvesse preconceito pela Tríade… desde então esse assunto se tornou proibido, talvez porque as pessoas enfim se envergonharam pelos seus atos...
Aquela informação me deixou em estado de choque… de algum modo, eu sabia do que Moros era capaz, no entanto… não conseguia acreditar naquilo. Busquei me distrair com coisas simples, não queria pensar no horror daquela descoberta. Tentei aproveitar ao máximo o pouco tempo de visão que me restava, observei o mar e o céu, analisei o comportamento dos piratas e dos três que não se encaixavam.
Eles nunca mais se falaram. Analiese e Vinccenzo. Pelo menos não no tempo em que permaneci no navio.
O Sol estava se pondo, quando Vinccenzo resolveu fazer seu último desejo.
— Hoje você será livre. — Franzi o cenho, confuso. Forçar amor a uma pessoa, tornar vivo aquele que já morreu, mudar o passado… e minha liberdade. Eram as únicas coisas que eu não era capaz de realizar.
— Creio que isso seja impossível. — Mas Vinccenzo estava rindo, não uma risada prepotente… era uma risada infantil, jovial. Sua risada verdadeira. — Já tentaram.
— Fizeram o desejo errado. Ei, eu vejo o futuro, lembra? — Seu dedo indicador bateu duas vezes contra sua têmpora. — Só há um jeito… mas você não poderá aproveitar sua liberdade.
Então eu entendi, de algum modo… o único desejo que ela não fez, o único que ela não tentou… porque ela jamais suportaria desejar tal coisa.
— Tem certeza de que dará certo? — Ele acenou, afirmando. Respirei fundo. Então era isso. Dei um sorriso trêmulo e fixei meu olho no rosto do mais jovem capitão pirata de todos os tempos, ele não era nada mais que um borrão loiro agora. — Obrigado, Capitão Vinccenzo Faísca.
— Adeus, Nebulus. — Tornei a direcionar meu olhar para o Sol se pondo, embora eu não pudesse vê-lo claramente, ainda era uma das coisas mais belas que eu lembrava. — Eu, Capitão Vinccenzo Faísca, desejo o fim de sua miserável existência.
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