Três
2 Chocolate amargo
Liza acordou meio que sem saber onde estava. Abriu os olhos tentando lembrar-se do que ocorrera na noite anterior. Havia apagado depois de passar a noite conversando com alguém – quem? Não conseguia recordar-se. Piscou novamente. Viu um cara dormindo no sofá do quarto do hospital onde se encontrava. Qual era mesmo o nome dele? Ela não sabia. “Ah, meu Deus,” – pensou – “como posso ter contado toda a minha vida para um desconhecido dessa forma?” Ficou remoendo aquela frase em sua mente por mais alguns minutos. Levantou-se da cama, escreveu um bilhete e deixou ao lado do homem deitado no sofá do quarto. Pedia desculpas por sair sem se despedir, mas tinha um compromisso. Também agradecia pela companhia e desejava sorte. Trocou de roupa silenciosamente no banheiro, prendeu os cachos negros num coque alto e deixou o quarto sem acordar aquele pobre coitado. No corredor, falou com algumas enfermeiras, que concordaram em liberá-la sem mais delongas. E então deixou o hospital.
Estava praticamente perdida naquela cidade enorme. Tinha para onde ir, mas não onde quisesse estar. Ficou quase dez minutos parada na entrada do hospital pensando no que fazer. Por fim, pegou um táxi que a levou à parte nobre da cidade; uma viagem bastante curta. Ao mesmo tempo em que queria logo deixar o carro, o que menos desejava era ir para casa. Mas não podia adiar isso para sempre. Pagou o motorista com uma nota de vinte e pediu que ficasse com o troco.
Há uma coisa importante sobre ela que vale ressaltar: Liza não se preocupava com dinheiro. Nunca.
Entrou em casa e tentou não fazer barulho, pois ainda era cedo demais para que alguém estivesse acordado. Mas sua mãe estava sentada no sofá branco de couro falso, vestindo seu roupão de ficar em casa, esperando a volta da filha.
– Onde estava? – disse séria, a Sra. Elgin.
– No hospital, esperando o médico me liberar.
A mulher no sofá quase saltou. As olheiras profundas deixadas pela noite em claro haviam assustado a jovem que estava parada no hall de entrada.
– O que houve Liza? Por que não atendeu o celular? Por que não ligou?
– Fui atropelada ontem à tarde no parque da cidade. Só quebrei o braço, está tudo bem. A bateria do celular descarregou, desculpa. Não foi nada de mais. Mas gostaria de uma xícara de chocolate quente e de um pouco do aconchego do meu quarto; não dormi bem no hospital.
Boa parte do que dissera não era verdade, mas esse não era o tipo de coisa na qual a atenção de sua mãe se prendia.
– Eu imagino... Quem foi o bárbaro que te atropelou? Ele precisa ser preso ou no mínimo multado!
– Ele… Ele fugiu, mãe. Posso descansar agora?
– Claro. Vou levar seu chocolate.
Pronto. Estava refugiada. Não sabia como, mas tentaria ao máximo fugir do interrogatório que dona Marina Elgin faria. Aquele quarto a fazia sentir protegida, mas ainda se sentia solitária. Tornou a pensar naquele homem do hospital. Qual era o nome dele? Não conseguia se lembrar. Mas lembrava-se dos olhos cor-de-mel, da boca suave falando calmamente e se abrindo em sorrisos tristes toda vez que falava da ex. Sentiu um calafrio percorrer suas costas. Como queria ter se despedido. Aquela voz leve provavelmente cantava canções lindas. Ela queria vê-lo novamente. E como queria. Mas não podia. Ela nem o conhecia.
– Está aqui o seu chocolate. – Marina estava na porta do quarto.
– Obrigada, mãe. Cadê meu pai? Já foi trabalhar?
– Ainda não voltou da viagem. E bom, eu preciso me vestir e ir para o estúdio. Uma tal de Gaga vai fazer uma seção com as minhas roupas, sei lá.
– A Lady Gaga?
– Acho que é.
– Pode pedir um autografo pra mim? – disse quase saltando.
– Isso é totalmente antiprofissional, você sabe. Fique quietinha em casa. Se precisar de alguma coisa, peça à empregada. E descanse.
Liza não teve tempo nem de respirar e a mãe já estava fora do quarto.
O chocolate, a preocupação, a doçura da mãe eram realmente raridades. Sair de casa sem nem despedir-se, era sinal de que Marina estava voltando ao normal. Liza recostou-se na cama enquanto bebia o chocolate. Queria perdidamente apagar aquele dia de sua cabeça. E se de repente ela o visse novamente? Era pedir demais? Era sonhar alto demais?
(continua…)
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