Kyle já estava habituado a chegar em casa para ouvir os sons perturbadores dos cubos de gelo sendo remexidos dentro do copo de cristal. Não havia um dia em que Cartman não bebesse. Mas naquela noite em especial, não foi envolvido pelo doce perfume do conhaque na dose apropriada, como de costume. Em vez disso, foi atingido com força pelo intoxicante cheiro de álcool – cachaça, talvez, o cheiro era forte demais para que a bebida fosse identificada – que impregnava a sala inteira.

Chamou pelo nome de Eric, esperando encontrá-lo no chão, inconsciente, vomitado; algo com que Kyle tinha pouquíssima tolerância, mas só acontecera uma vez em toda a sua vida juntos, quando Cartman foi demitido do emprego anterior. Em geral, sua tolerância com a bebida era extraordinária. O ruivo foi surpreso, e chegou levar um susto com o homem sentado à mesa da sala de jantar, perfeitamente ereto e lúcido, sem copos de bebida por perto. Havia apenas uma garrafa vazia de pé à sua frente, que Kyle reconheceu de imediato: era um uísque caro que Cartman guardava com zelo há alguns meses, que já estava pela metade antes daquela noite. Cartman já não bebia mais, apenas fumava um charuto cubano – a única coisa apreciável que vinha de Cuba, segundo ele – com uma sinistra tranquilidade. Os dois trocaram um olhar demorado, nenhum deles desejando quebrar o silêncio. Não por ser confortável ou por qualquer medo da reação do outro, ainda que o ar estivesse denso. O que impedia uma conversa era a falta de vontade.

–Você tomou banho de uísque? — Kyle finalmente questionou, franzindo o nariz para o cheiro.

Cartman pigarreou, levando a mão livre à bochecha para esfregá-la. A fumaça do charuto subia de forma quase sensual e se dissipava no ar. Seus olhos estavam pesados, mas firmes, profundos e carregados de uma mistura de amargura e dor. Aquilo bateu tão fundo no peito de Kyle que chegou a transparecer em seu rosto: ele enrugou um pouco os lábios e estreitou o próprio olhar com receio, deslizando uma mão pela barriga enquanto seu estômago se contorcia por dentro. Compreendeu o que acontecia ali. A agressividade de Eric vinha com o intuito de intimidar. Nunca dava certo. E Eric sabia disso. Tudo o que funcionava com maestria em todas as pessoas do mundo simplesmente não dava certo com Kyle. Ele era valente demais para o próprio bem.

Mas a verdade era que Kyle queria dar as costas. Talvez fosse mais covarde do que Cartman imaginava, provavelmente era, mas o desejo de se retirar daquela sala não tinha a ver com intimidação. Tudo o que ele queria era tomar um banho longo e dormir. Estava exausto, tinha um artigo para escrever até onze da manhã do dia seguinte, precisaria acordar cedo e havia dormido muito pouco. Não tinha estrutura emocional, física ou mental para lidar com a própria culpa ou com Cartman embriagado. Esperou pela resposta grosseira e escandalosa, mas o outro homem sequer se moveu. Kyle preferia que ele tivesse; o peso da apatia de Eric era cruel. Aquela sanidade no rosto dele era um reflexo do que Kyle fazia às escondidas, nada mais precisava ser dito. Kyle não o culparia pela agressividade, assim como não o culpava pelo uísque, mas tudo seria mais suportável se Eric estivesse descontrolado. Ele não estava.

Kyle suspirou fundo e tentou novamente:

–Você vem dormir?

Não houve resposta. Os olhos de Cartman estava focados na mesa, sem vida, e não se incomodaram em procurar pelo olhar do outro. Foi então que Kyle começou a ficar verdadeiramente preocupado. Não se tratava de uma pessoa ingênua, tampouco ignorante: no fundo de sua consciência, o ruivo tinha certeza absoluta do que estava acontecendo com seu relacionamento com aquele homem. Sabia que Cartman sentia, tanto quanto ele, tudo o que foi construído deslizar pelos dedos com uma facilidade impressionante. E não era fácil aceitar, então ambos ignoravam. Nos últimos dias, mantiveram uma convivência sem grandes anomalias e se trataram com o respeito de sempre (dentro das medidas que a intimidade permitisse). A coisa foi muito gradual, mas curiosamente indolor, pois Kyle desenvolvera a habilidade de fingir para si mesmo que não estava fazendo nada que realmente pusesse em risco tudo o que tinha com Eric Cartman. Especialmente porque Kyle não havia conseguido, ainda, absorver a dimensão do que estava fazendo com Kenny McCormick, aquele fantasma que esteve presente durante todas as relações que teve depois do término fatídico. Ele havia aceitado que Kenny jamais iria embora realmente, assim como imaginava que Cartman também tivesse aceitado. Mas a presença física de Kenny tornava aquele acordo inválido.

Enquanto encarava o homem grande e embriagado à sua frente, com o olhar baixo como de um bulldog – causando um misto de amarga compaixão e receio inevitável de se mover -, Kyle teve vontade de dizer que o amava. Mas não pôde.

Escorregou a mão pelo topo da cabeça, sentindo a textura macia dos cachos, olhando-o com aflição. Deslizou a língua pelo lábio inferior, sentindo a língua inchar e a garganta seca. Respirar era difícil.

–Eu acho que nós precisamos conversar.

–Não. — Eric finalmente disse, sacudindo a cabeça. Fechou os olhos com a dor de quem renega algo meramente por consciência, mesmo que cada célula do corpo clame pelo oposto. — Não precisamos.

Cartman começou a se levantar. Só agora parecia realmente bêbado, apagando o charuto e largando-o sobre o cinzeiro de madeira e apoiando as duas mãos sobre a mesa para poder erguer o corpo pesado. A mesa rangeu. Kyle continuou parado de pé a alguns metros, observando-o de lado enquanto ele se aproximava, passando a mão pela parede e mantendo o queixo abaixado, os olhos penetrantes completamente fixos nos do ruivo. Ao chegar perto o suficiente, precisando abaixar a cabeça para encará-lo de perto, Eric levou a mão grande para cobrir a bochecha de Kyle, pressionando as pontas dos dedos, quase apertando seu rosto com certa agonia. O ruivo instintivamente segurou seu braço por um instante, logo dando um passo à frente para diminuir a distância e envolvê-lo em um abraço aflito que não teve retribuição. Mas não importava.

–Eu te amo. — O ruivo finalmente sussurrou, a boca esmagada contra o ombro do outro, a voz fina carregada de certo desespero, apertando os olhos para conter o gosto azedo e a coceira insistente que anunciava o choro. Os braços envolveram o corpo largo de Eric e o pressionaram contra o seu, as palmas deslizando pelas costas, o cheiro de álcool tão forte que quase o desnorteava.

Cartman acreditava nisso. Apenas não tinha certeza de que isso realmente importava àquela altura. Kyle, por outro lado, havia tomado uma decisão.

* * *

Stan estava achando tudo aquilo muito estranho. Curioso, no mínimo. Recebeu um telefonema bastante peculiar quando saía do trabalho, enquanto abria a porta da caminhonete. Pela pontualidade da ligação, como o celular tocou exatamente cinco minutos depois do fim expediente, presumiu que só poderiam ser duas pessoas nesse mundo inteiro: Sally ou Kyle. Mas não eram nenhum dos dois. Ficou surpreso ao ouvir a voz inconfundível de Eric Cartman. Ironicamente, por mais inconfundível que fosse, Stan não chegou a reconhecê-lo imediatamente, pois além do fato de Eric nunca telefonar – como adultos, eles se davam muito bem, mas não tinham muito assunto em particular -, estava diferente, rouco e apático, perguntando se eles poderiam se encontrar em um bar no centro aquela noite. Assim que Stan concordou, hesitante, Eric desligou o celular antes que ele pudesse fazer quaisquer perguntas.

Talvez seja relevante apontar que Stan Marsh tinha um pequeno problema com álcool. Não um grande problema, nada muito grave, apenas gostava de beber pelos motivos errados. Sua esposa não ficou muito alegre ao saber que ele iria a um bar no meio da semana, e menos ainda quando soube quem seria a companhia; Sally não gostava muito de Cartman e a recíproca era 100% verdadeira. Stan não pretendia beber ou demorar. Era uma quinta-feira e ele precisava consertar o chuveiro do banheiro de visitas ainda aquela noite. Kenny estava tomando banho no chuveiro de cima e ficava extremamente desconfortável com a situação, apesar de o casal não se importar.

Mas quando adentrou o bar e bateu os olhos em Eric, deu-se conta da gravidade da ocasião. Deveria ter previsto que o outro homem não o convidaria se não fosse por um motivo muito forte. Cartman vestia uma camisa branca de abotoaduras, sem o terno, e uma gravata azul tão frouxa no pescoço que lembrava algum estereótipo de homem de negócios em crise existencial, talvez até mesmo uma crise depressiva. Os olhos castanhos amendoados não perdiam o brilho fugaz, mas o olhar era cansado e a aparência era de quem se esquecera como dormir. Tratando-se de Eric Cartman, aquele homem grande, imponente e vaidoso, nem passou pela cabeça de Stan se preocupar até aquele instante.

Agora, no entanto, era impossível não pensar em coisas terríveis. Era chocante a expressão no seu rosto, as olheiras escuras e profundas, a maneira com que ele encarava o copo de uísque ou conhaque amarelado mesclando-se à água gelada. Estudava aquele copo com a atenção de um cientista, umedecendo os lábios secos, uma pequena ruga formada entre as sobrancelhas grossas.

–Ei. — Stan tentou dizer casualment ao se aproximar com as mãos socadas nos bolsos da calça. — O que aconteceu? Kyle está bem?

E Cartman respondeu com um sorriso sutil, antes mesmo de erguer os olhos. Quando o fez, parecia um bulldog, causando em Stanley uma mistura entre apatia e pavor, pois havia tanto rancor dentro daquelas pupilas. O sorriso se desfez tão rápido quanto veio, um vislumbre que fez Stan imaginar que o tinha imaginado. Eric abanou com a mão para descartar qualquer pensamento mais macabro que o outro pudesse ter, afirmando assim que não era nenhuma desgraça. Sinalizou para que ele se sentasse e chamou o garçom para pedir uma bebida para Stan, ignorando a tentativa de protesto.

Quando ficaram a sós, sem rodeios, Cartman deu um gole em seu copo e disse, limpando a boca com o dorso da mão, pigarreando:

–Eu acho que ele tem alguém.

Stan piscou confuso.

–Oi?

–Oi.

Um momento de silêncio.

–Eu não entendi.

–Eu acho que ele tem alguém. — Cartman repetiu de forma exageradamente lenta, como se explicasse algo para uma criança de seis anos.

–Kyle?

–Não, a puta da sua mãe. Você é retardado?

Não havia resposta imediata para aquilo (e não era como se Cartman esperasse por uma). Stan rescostou-se para trás na cadeira e estudou o rosto dele, aquela agressividade de um bicho acuado, mas persistente, como se tentasse descobrir se ele estava falando sério. Separou os lábios antes de saber o que dizer, soprando em uma voz branda e gentil:

–Você não pode estar falando sério.

–Não se faça de idiota comigo, Marsh. — Eric levantou o dedo indicador grosso ao rosto dele, apoiando o cotovelo na mesa. — Se ele está vadiando por aí, você sabe.

–Kyle nunca faria isso com você. — Stan gaguejou. — Com ninguém. O que enfiou essa merda na sua cabeça?

Foram brevemente interrompidos pelo garçom que trazia a bebida (licor, e por mais que Stan tivesse resistido, beber começava a parecer uma excelente ideia). Cartman grosseriamente mandou que trouxesse mais uma dose, depois afundou o rosto nas mãos para esfregá-lo, visivelmente perturbado pelas palavras de Stan. Era compreensível; Homens como Eric Cartman sempre escolheriam, se tivessem oportunidade, uma certeza dolorosa no lugar de uma dúvida corrosiva. Agora, ele transparecia aquela delicada e confusa fragilidade masculina que é difícil de encarar, especialmente porque não é óbvia. É uma fragilidade que existe por baixo da pele grossa, precisa ser muito inspecionada para ser reconhecida. Stan não teve dificuldade alguma em fazê-lo.

–Eu o conheço. — Foi a resposta que Eric encontrou, dando um último gole.

–Então você sabe que ele não te enganaria.

Eric teria achado graça da inocência daquela afirmação em qualquer outro cenário. Isso era reflexo de um sentimento bastante antigo de que ele e Stan conheciam lados diferentes – quase opostos – da mesma pessoa. Stan e Kyle acreditavam conhecer um ao outro por inteiro, mas Cartman sempre soube que havia uma parcela do ruivo reservada somente a ele; uma parte imunda, aproveitadora, egóica, como todo ser humano tem. A questão era que Kyle gostava de fingir que não tinha, e tapeava a maior parte das pessoas. Ele não era uma pessoa ruim por isso, não aos olhos de Cartman, de forma alguma. Aliás, quase o tempo inteiro, ele de fato correspondia àquela moralidade íntegra que Stan – e o resto do mundo, talvez com exceção de Kenny McCormick – enxergava, mas era aquela pontinha maliciosa de Kyle que fazia com que Cartman o amasse mais ainda. Aquela ideia de que ele seria, sim, capaz de qualquer coisa. O que havia entre Eric e Kyle sempre foi muito cru, muito honesto, difícil de ser compreendido pelo observador alheio e desavisado. Mas Kyle sempre se permitiu ser exatamente quem ele era quando estava perto de Eric Cartman, desde criança, e por isso Cartman tinha certeza absoluta de que o amava como ninguém mais podia.

Talvez à exceção de mais uma pessoa. Talvez.

Ainda sim, era difícil acreditar que Stan não sabia de nada. Stan acreditava na moral de todo e qualquer ser humano porque ele mesmo era ingênuo, um dos últimos exemplares de homem bom desse mundo. Cartman pensava que isso fazia dele uma bichinha, mas isso não tinha importância, não diminuía o respeito entre eles. Claro, Stan tinha seus defeitos. Um ego um tanto inflado, um gosto por álcool, uma visão muito preto no branco, e por isso podia ser um homem depressivo, mas eram defeitos que Cartman compreendia comon ninguém e abraçava. Não podia acreditar que Stan estivesse mentindo com tanta maestria. Stan não sabia mentir.

–Ele não mentiria para mim. — Cartman finalmente respondeu, afastando a tormenta de pensamentos.

Enquanto os dois estiveram em silêncio, Stan envolveu o pequeno copo de cristal em seus dedos e tomou de uma vez só a dose de licor, franzindo o rosto. Agora o corpo estava vazio e sua garganta estava ardendo, como um alívio. Passou a língua pelos lábios, saboreando as gotículas nos lábios, pensativo. O garçom se aproximava novamente.

Era um bar que Stan nunca tinha visitado antes, apesar de não haver tantos assim em South Park. As paredes eram de tijolos à vista, de um laranja escuro, e toda a decoração era de madeira. Havia cartazes de filmes antigos logo atrás da cabeça de Eric, que estava encostado à parede, sentado de lado, com um braço esticado sobre a mesa.

–O que isso quer dizer?

Cartman suspirou pesado, agarrando o copo recém-cheio. Os cubos de gelo batiam no cristal do copo e reproduziam um barulho familiar. A boca de Stan ficou seca de repente.

–Quer dizer que eu não perguntei. — Explicou. — Não quero saber.

A reação de Stanley foi mais do que natural; franziu as sobrancelhas e encolheu o nariz, encarando-o com julgamento e compaixão mesclados, ligeiramente confuso. Cartman não esperava que ele entendesse. Cobriu a boca com a mão e esfregou um pouco, sentindo contra a palma um pouco de barba rígida que começava a crescer.

–Então por que está me perguntando sobre isso, Cartman? Não é possível que não faça diferença pra você.

Esse foi precisamente o motivo pelo qual Stan era a pessoa certa para aquele tipo desconfortável de conversa: ele julgaria em pensamento, mas não verbalizaria ou agrediria qualquer decisão. A verdadeira resposta para aquela pergunta era que havia um bocado de esperança de que Stan diria as coisas que disse; que tais alegações não faziam sentido algum. Mas aquilo não seria suficiente para convencê-lo de algo que ele soube desde o início. Eric Cartman, com todos os seus defeitos, farejava de longe coisas que ninguém mais podia perceber. Stan achava neurótico, exagerado da parte dele.

–Eu nunca disse que não faz diferença. Mas nós não somos mais crianças, Marsh; Se ele quer ter uma aventurazinha insignificante...

–Você não pode estar falando sério.

–O quê? Vai me dizer que você foi fiel o seu casamento inteiro? — Cartman prosseguiu com uma gargalhada cínica, embriagada, cheia de amargura. — Isso não existe. Se o judeu não contou a nenhum de nós dois o que ele anda chupando na rua, é porque não é importante o suficiente.

Mas era importante o suficiente e ambos sabiam disso. Stan não pôde evitar lembrar-se do momento em que viu Kyle encolhido no sofá de sua sala e mentiu para Eric ao telefone, acreditando estar protegendo seus amigos mais importantes. Umedeceu os lábios para conter o desejo de questionar se Cartman também estava desconfiado da mesma pessoa que ele. Stan não acreditava naquilo, não realmente. Nem que Kyle faria uma coisa do gênero depois de tudo o que passou para superar o desaparecimento de Kenny, nem que Eric toleraria algo assim. Se conhecesse seus amigos, Stan colocaria a mão no fogo para afirmar que aquilo era um grande engano.

Mas não os conhecia.