Trégua Suspensa
4 Is this the real life?
Notas iniciais
O ruivo esperava com as mãos dentro dos bolsos do casaco após ter tocado a campainha. Eram quase onze da manhã, ele havia dando uma espiada no relógio há pouco tempo. Porra, ele detestava acordar cedo. Estava de pé desde as oito e meia e o fato de ser sábado apenas tornava a situação mais desagradável. Teve algum tempo para olhar em volta, embora já conhecesse de cor o jardim e a rua de Stan. Tão suburbano e familiar. Assim que a porta foi aberta, ele ofereceu um sorriso largo.
–Oi, cara, será que eu posso...?
–Shh. Fala baixo. – Stan sussurrou, inclinando-se para mais perto dele enquanto segurava a porta aberta. Parecia inquieto, quase perturbado. E de ressaca.
–Por quê, o que foi? – o ruivo retrucou em um tom normal. – Cara, o que aconteceu com v-
A voz de Kyle foi interrompida pelo “shh!” quase agressivo de Stan, que levava o dedo indicador em frente aos lábios e oferecia um olhar de reprovação. O ruivo não entendeu. Quando abriu a boca para questionar, seu amigo já entrava em casa novamente e fazia sinal com a mão para que Kyle o seguisse, coisa que o ruivo fez sem mais delongas, sem deixar de expressar irritação com uma ruga discreta em sua testa.
A explicação da coisa toda foi breve e certeira.
Kenny McCormick dormia no sofá da sala. Aliás, talvez “dormir” não fosse o termo adequado para aquela cena: Kenny estava completamente desmaiado. Era a primeira visão ao entrar na casa. O loiro com os braços jogados por cima da cabeça, cobrindo o rosto com um deles. Uma das pernas caída para fora do sofá, a boca aberta, um ronco muito baixo de sono pesado escapando entre seus lábios. A roupa amassada do dia anterior, com uma jaqueta – que Kyle reconhecia bem, visto que foi ele quem deu de presente de natal há muitos anos – jogada no chão. Kenny vestia só uma camiseta branca que levantava um pouco no abdômen, expondo a pele. E ainda vestia seus tênis. O loiro lembrou de tirar a jaqueta, mas não os tênis. Inacreditável.
Sally, a esposa de Stan, achou que amigo de seu marido poderia estar sentindo frio. Tentou cobri-lo três vezes, mas o loiro continuava chutando o cobertor azul bebê conforme se mexia no sofá desconfortável.
Pelo olhar que Kyle direcionou a Stan Marh, seu melhor amigo desde que podia se lembrar, apenas uma coisa era absolutamente certa: todo o esforço para manter a voz do ruivo em um tom baixo seria inútil se os dois continuassem naquele cômodo. Apressadamente, Stan fechou a porta, deixando o frio cortante lá fora e acenou com a cabeça para que os dois fossem até a cozinha. Olhou diretamente para o seu amigo, que já balançava a cabeça negativamente e esfregava os olhos com as mãos, sem dizer nada. Stan perguntou se ele queria beber algo enquanto abria a geladeira, tentando soar tranqüilo, mas o efeito não foi como o esperado.
–O que ele faz aqui? Ele vai dormir na sua casa agora, que merda é essa?
–Kyle...
A voz que Stan usava nessas ocasiões sempre fazia Kyle pensar no quanto o moreno seria um bom pai quando o momento chegasse. A voz era tão firme, mas tão calma, como quem explica algo para uma criança ou alguém que não tem a mesma capacidade de raciocínio. Era um tom comum quando Kyle se irritava, os dois já conheciam essa dança de cor.
–Não, Stan. – Ele ergueu o dedo indicador como se isso fundamentasse seu argumento. – Nem vem com essa. Ele já começou a se aproveitar de você.
–Cara, a gente bebeu muito ontem num bar e ele mal conseguia andar sozinho. Ele tá morando com a irmã, daria encrenca se ele fosse pra casa. O que você queria que eu fizesse? Deixasse o cara dormir na rua?
–Ah, agora vocês fazem happy hour de amiguinhos? É sério, isso?
–Kyle.
–O quê?
Stan começou a se aproximar. Isso era outro movimento que o ruivo detestava entre os dois, quando o amigo chegava com aquelas mãos calmas nos ombros dele, segurando-o no lugar com um aperto firme e acalentador, olhando bem fundo nos olhos dele. Implorando apenas com o olhar para que Kyle o escutasse. Um grunhido irritado escapou do fundo da garganta do ruivo, que desviou o olhar ao ouvir as primeiras palavras.
–Faz muito tempo. Eu sei, ele fez merda com você. Eu mesmo não sei como não quebrei a cara dele na época. – a frase veio com um riso tímido e Kyle precisou apertar os lábios para não sorrir. – Mas você sabe como ele era. Você gostava de como ele era. Cara, nós crescemos juntos. Todos nós. Você continua mesmo odiando ele?
Então, o momento preferido de Stan: aquele em que Kyle soltava um suspiro pesado, sem olhar para ele, sem responder, admitindo que talvez, só talvez, ele tivesse se precipitado um pouco nas conclusões. Stan também sentiu vontade de dizer que não faria sentido guardar rancor de um relacionamento antigo quando se está feliz em um relacionamento novo. Pelo menos funcionava dessa forma com ele. Uma vez que Stan se apaixonava por uma outra garota – e ele sempre foi o cara de namoros longos, que nunca ficava solteiro -, todo o ódio e mágoa e rancor da garota anterior já não faziam mais sentido. Mas seria uma escolha idiota de palavras, poderia acordar a fera dentro de Kyle com mais vigor do que antes.
–Foi bom conversar com ele, cara. – Stan prosseguiu com cautela. – Eu quase me esqueci do quanto ele era divertido. Vocês eram amigos antes da merda toda, devia dar uma chance.
–Ser amigo dele? Agora você tá forçando um pouco. Além do mais... Logo ele vai desaparecer de novo.
–Não sei.
–O quê?
–Não sei se logo ele vai desaparecer de novo. Ele também não sabe.
Até o momento, Kyle encarava a coisa como um fantasma. Kenny era só um fantasma, isso. Algo que aparecia, assombrava, causava um taquicardia, mas logo sumia no ar como mágica. A possibilidade de que ele não desaparecesse no mundo de novo quase fez o coração do ruivo parar de bater. Ele não se sentia bem. Afastou-se da mão de Stan, puxou uma cadeira e sentou com as duas mãos na testa, afastando o cabelo dos olhos.
–Ele quer voltar pra cá?
–Ei, eu disse que ninguém sabe. Calma.
Stan voltou à geladeira que havia deixado entreaberta tirou um jarro de água, mesmo que o ruivo não tivesse pedido. Talvez fosse útil.
–Puta merda. Eu nem contei ao Cartman ainda.
O moreno o observou enquanto servia o copo de água, deixando ao lado de seu amigo e dando um tapinha nas costas dele.
–Ele vai surtar.
Apesar de Stan não ter dito nada em retorno, concordava totalmente com a afirmação. Uma coisa era evidente no relacionamento de Eric Cartman e Kyle Broflovski. Por mais que Cartman fosse provedor e cuidasse de todas as necessidades do ruivo, e por mais que fosse um babaca que continuava fazendo piadas anti-semitas direcionadas ao namorado, e por mais que fosse totalmente apaixonado por ele... Dentre todas as características de Eric, Stan acreditava que o ciúme fosse a mais latente e mais preocupante. Era um homem controlador, possessivo. Se alguém nesse mundo odiava mais Kenny do que o próprio Kyle, esse alguém era Eric Cartman.
Quando ocorreu o momento de silêncio, Sally apareceu na porta da cozinha. Deveria estar ali há algum tempo esperando um momento apropriado para entrar. Era uma garota encantadora, essa que Stan havia arranjado. Deu um olá carinhoso e se inclinou para beijar a face de Kyle, afagando os cabelos dele. Os dois se davam surpreendentemente bem, diferente de todas as outras namoradas que Stan tivera ao longo da vida. Provavelmente por isso que Sally foi a escolhida para casar. Porque aceitava que sempre teria que dividir o marido com sua alma gêmea: Kyle Broflovski. Nunca tentou disputar espaço com ele.
Kyle foi convidado para o almoço, enquanto Sally colocava o avental para começar a prepará-lo. Recusou veementemente, ansioso para sair dali antes que o loiro inconsciente na sala voltasse à vida. Apesar disso, não foi embora. Estendeu uma conversa com o casal, ajudando Sally a picar as verduras enquanto Stan tomava café preto, de pé, encostado no balcão. Fez o café mais forte porque sabia que Kenny iria precisar quando acordasse.
Passou do meio dia.
Como uma múmia que se levanta da tumba, Kenny arrastou os pés pesadamente até a cozinha. O braço alcançava por trás da cabeça para coçar as costas, os cabelos loiros tão bagunçados que mal se enxergava um rosto por detrás dos fios. O corpo cambaleando para trás e para frente, os olhos inchados, a perspectiva de vida baixa. Não era um bom dia. Ele só queria encontrar Stan, agradecer e voltar para a casa da irmã.
Mas parou na porta.
Kyle estava de costas. Quer dizer, era um homem mais alto do que o Kyle do qual ele se lembrava, um pouco mais encorpado, talvez, e vestido de forma mais polida. Embora ele sempre tivesse se vestido daquele jeito impecável, com suéteres, camisas de botão, cores pastéis, mas esse homem que Kenny enxergava estava vestido como se realmente fosse algo importante na vida. Algo no corte daquela camisa creme e o caimento sobre o corpo dele, calça jeans escura mais bem passada que Kenny já vira, a postura dele. Não havia qualquer necessidade de ver o rosto dele para saber que era Kyle. Aqueles cachos mais ruivos do que nunca, tão bem cuidados, aquele brilho dourado nos fios de cabelo quando a luz do sol entrava pela janela e banhava parte de seu corpo. E a bunda. Ah, Kenny não precisaria de mais nada para saber: era a bunda de Kyle.
Talvez a ressaca tivesse algo a ver com isso, mas as coisas em volta dele pareciam se mexer em câmera lenta a partir daquele ponto. Conseguia sentir o cheiro intoxicante dele, mesmo que estivesse do outro lado da cozinha. Na época em que eles namoravam, o ruivo gostava de dizer que Kenny tinha um focinho de cachorro no lugar do nariz. Era impossível surpreendê-lo porque o loiro sentia o perfume dele de longe, sempre sabia que ele estava se aproximando sem precisar olhar. Mas não era o perfume. Era o cheiro da pele. Era assim que Kenny sabia.
Quando Stan disse algo ao loiro – ele não entendeu as palavras, só viu os lábios do amigo se mexendo -, Kyle virou na direção dele com uma faca enorme de cozinha na mão e uma cenoura pela metade na outra. Os olhos se cruzaram.
Vê-lo novamente não foi nada como Kenny imaginou que seria.
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