Kenny ligou a água do chuveiro antes de tirar a roupa. Ainda não tinha se acostumado com o chuveiro a gás da casa de Karen, que jorrava a água assim que você vira a torneira. Ele teve que puxar o braço rapidamente, molhando metade da manga do moletom no processo mesmo assim. Um grunhido de insatisfação e mais nada. Não valia muito a pena se estressar por essas coisas, mesmo que ele quase não tivesse o que vestir. Também não reclamava de ter que esperar até que a água esquentasse, era tempo suficiente para se despir.

Antes mesmo de pisar no chuveiro, seu cérebro já trazia tantas cores e aromas e lugares distantes no tempo (tomar banho tinha alguma mágica desse tipo, pelo menos com Kenny. Ele sempre divagava mais do que deveria quando entrava num chuveiro). Fechou os olhos enquanto a água quente despejava sobre sua cabeça, ardendo no couro cabeludo até que ele se acostumasse, enquanto o resto do corpo estremecia de frio. Kenny chacoalhou a cabeça e passou as duas mãos pelo rosto, subindo por dentro dos cabelos encharcados, suspirando fundo. Kenny apertava os olhos e endurecia o maxilar, quase rangendo os dentes em uma tentativa falha de levar sua mente para qualquer outro lugar.

Mas o cérebro é uma vadia sem escrúpulos.

Então Kenny começou a assobiar uma canção qualquer enquanto alcançava o sabonete, deslizando-o pelos braços e pelas mãos sujas de graxa – por ter ajudado o marido de Karen com o carro. Kenny podia jurar, se aquele homem dependesse das habilidades de mecânica para sobreviver nesse mundo, estaria fodido. Felizmente, deixou que Kenny interviesse, antes que ele desse conta de estourar o motor do carro na própria cara. O marido de Karen, Carl, realmente não gostava de receber ajuda. Assim como não gostava da presença do cunhado na casa dele. Como qualquer homem contrariado que usa um bigode, Carl estava carrancudo. A lembrança dos resmungos dele trouxe um sorriso aos lábios de Kenny, parando de assobiar de repente.

Foi aí que ele se lembrou de onde conhecia a música.

Kyle gostava de transar ao som de música. Não sempre, não era algo do qual ele sentisse muita falta, mas sempre que possível o ruivo roubava o toca-discos da sala e colocava no seu quarto, em cima da cômoda assustadoramente organizada. Escolhia sempre alguma coisa que, para Kenny – nenhum grande conhecedor de música -, soava como um folk manso romantizado pela situação. Nunca encontrava tempo de perguntar de quem era o CD, porque tirar a roupa de Kyle parecia uma tarefa infinitamente mais importante.

Naquela noite, Kenny se espreguiçava embaixo do peso leve do corpo de Kyle; alguns fios alaranjados de cabelo roçavam pela boca do loiro, que abriu um sorriso e beijou o topo suado da cabecinha dele, apertando-o mais em seus braços até que Kyle emitisse aquele som que ele adorava: um gemido satisfeito e divertido, aquela alegria idiota sem propósito que segue após o orgasmo. As pernas dos dois estavam tão enroscadas que não se sabia onde começava um e terminava outro. Kenny não queria mesmo saber. Os dois caíram em um silêncio confortável de beirada do sono, os corpos encaixados embaixo da coberta quentinha, a cabeça de Kyle deitada no peito arfante do loiro. Os dedos grosseiros de Kenny passeavam por aquele pele branquinha e macia, subindo até os cabelos bagunçados de um jeito que ele adorava. E adorava, provavelmente, porque esse era o único tipo de situação em que Kyle permitia que os cabelos ficassem daquele jeito. Selvagens como Deus quis.

“Baby I've been here before

I've seen this room and I've walked this floor

You know, I used to live alone before I knew you

And I've seen your flag on the marble arch

and love is not a victory march

it's a cold and it's a broken hallelujah”

Antes que o mantra calmo de “hallelujah” começasse a ecoar pelo quarto, cantado por uma voz rouca muito diferente – e mais bela – do que a versão que Kenny conhecia dessa música. O CD era de Jeff Buckley. Kyle brincava que teria se casado com ele se Kenny não o tivesse fisgado primeiro, mas o loiro não guardava nomes. Seu dedo indicador e médio corriam pela coluna vertebral de Kyle, sentindo os ossinhos, subindo e descendo em um carinho lento enquanto olhava o teto, seus olhos azuis entreabertos.

–Essa música não é cristã? Sua mãe sabe que você ouve essas coisas?

Kyle ergueu o rosto para observar o loiro com a boca entreaberta, em uma expressão surpresa, antes de jogar o peso para trás e soltar uma gargalhada que poderia ter acordado Stan se ele estivesse em casa. Kenny não conteve o riso também. Deu um tapa com as costas da mão no peito do ruivo como se estivesse ofendido, observando como o corpo dele caía para o lado e se contorcia, tão pálido em contraste com o lençol verde escuro. Aquela podia ser a coisa mais linda que Kenny já vira em toda a sua vida. Aquele sorriso... Se Kyle, que estava sempre com cara de bravo, tivesse alguma noção do que o sorriso dele era capaz de fazer com as pessoas...

–É sério! – o loiro continuou, deitando de lado e erguendo o tronco com o apoio do cotovelo. – A Sheila Broflovski que eu conheço, se soubesse que você ouve música gospel, daria com um yiddishe kup na sua cara, te amarraria numa cadeira e forçaria um monte de comida kosher na sua boca pra aprender.

A pronúncia das palavras era propositalmente exagerada, quase cuspindo, e Kyle só conseguiu rir mais alto ao ouvir Kenny usar as únicas duas expressões judaicas que ele conhecia.

–Meu deus, você pelo menos sabe o que é um yiddishe kup?!

–Claro que sei. – Kenny se endireitou para sentar na cama com as pernas abertas, o pau flácido provocando Kyle discretamente. O loiro levou a mão como uma garra no topo da cabeça. – É aquele chapeuzinho que vem aqui, ó.

Kyle levou as duas mãos à boca, com o sorriso mais largo do que nunca, olhando incrédulo enquanto sacudia a cabeça negativamente, esfregando as palmas pelo rosto.

–Não, criatura, isso é um quipá. – ele corrigiu rindo, espiando Kenny entre as frestas dos dedos. – Se você falar assim na frente da minha mãe, ela enfarta.

Kenny segurou os pulsos do ruivo para afastar as mãos do rosto, prendendo-as sobre a cabeça dele enquanto deitava sobre seu corpo úmido de suor, mantendo um sorriso malicioso ao passar a pontinha do nariz pela bochecha dele, mordiscando o maxilar e beijando com a boca aberta, sussurrando baixinho:

–Diz que eu sou um schmoe, diz. É tão bonitinho quando você diz...

Ah, é. A terceira palavra judaica que Kenny conhecia.

Não que Kyle realmente falasse dessa forma, mas Kenny encontrava um prazer muito grande em satirizar quando ele xingava em hebraico. Não era de graça que duas das três palavras que Kenny conhecia eram palavras feias. Mas isso não tirou o sorriso dos lábios rosados de Kyle, que ainda estavam um tanto inchados pelos beijos violentos e o boquete de 20 minutos atrás. Kenny adorava marcar o corpo dele de todas as formas que encontrava.

A essa altura, o loiro já havia soltado as mãos dele e fazia cócegas na barriga, o ponto mais sensível do corpo dele (pelo menos para cócegas), apertando com vontade, rindo e gritando para que Kyle o xingasse, amando observar como o ruivo se torcia sob o peso dele e o empurrava com as pernas, dando gargalhadas tão deliciosas que Kenny poderia comê-lo de novo.

–Você é um schmoe! Pronto, satisfeito?!

E Kenny estava.

Deitou parte do seu peso em cima do corpo de Kyle, respirando fundo de cansaço. A música já havia mudado para alguma outra coisa que Kenny não conhecia. Os dedos se entrelaçaram, misturados como o suor dos dois garotos, agora descobertos. Era quase quente dentro do quarto. O nariz de Kenny passeava pelo pescocinho do ruivo, um sorriso mostrando os dentes de forma maliciosa se formava nos lábios enquanto ele exalava aquele cheiro delicioso, ajeitando seu peso sobre o dele, cobrindo o corpo menor com o seu de forma protetora. As mãos de Kyle passeavam pelas costas largas de Kenny, alisando a pele lentamente, acariciando uma cicatriz que Kenny conseguiu em um acidente de moto. Kyle amava aquela cicatriz, por mais estranho que isso soasse quando ele dizia em voz alta. Kenny tinha várias cicatrizes pelo corpo, todas muito sutis e ninguém enxergava se não estivesse procurando. Exceto a das costas. Entrou um caco de vidro enorme que poderia ter perfurado o pulmão dele se Kenny não tivesse uma quantidade absurda de sorte. Acima de qualquer coisa, Kyle amava como ele vestia as cicatrizes com orgulho, assim como as tatuagens, como parte da história dele. Kyle amava a história do loiro e tudo que tinha a ver com ele.

–Não é uma música gospel. – O ruivo sussurrou depois de um tempo, amassado sob o corpo de Kenny, que virou o rosto preguiçosamente e soltou um “hm?” sonolento, sem prestar muita atenção. – Não é uma música gospel. É sobre ser agraciado, não sobre religião.

Kenny respondeu com um sorriso orgulhoso, roçando o nariz pelo pescoço de Kyle sem abrir os olhos.

Então Kenny desligou a água do chuveiro. As duas mãos apoiavam o corpo do loiro contra a parede, a cabeça caída para frente, o corpo inteiro pingando água. E Kenny se sentiu um babaca. Não acontecia com frequência, porque ele não era o cara mais auto-consciente do mundo. Mas quando acontecia, era um atropelamento de trem.

Ele chacoalhou a cabeça para tirar o excesso de água dos cabelos, puxou a toalha e amarrou em volta do quadril sem se secar, pingando pelo chão todo do banheiro ao sair, catando as roupas do chão e apertando-as embaixo do braço. Estava tomado por um estouro de adrenalina e não quis desperdiçá-lo. Correu pelo corredor em direção ao quarto, fazendo barulho no piso de madeira que rangia sob o peso do seu corpo, mas Kenny ignorou. Parou no meio do corredor, em frente à pequena cômoda em que ficava o telefone. Era antigo, daqueles de casa de vovó, mas servia muito bem para o trabalho. Kenny espiou em volta, olhando a porta do seu quarto de relance, torcendo o lábio enquanto ponderava se deveria se vestir primeiro ou não.

–Droga. – resmungou, sacudindo a cabeça e abrindo a gavetinha da cômoda com a mão livre, sentindo a meia cair do bolo de roupas que ele segurava embaixo do outro braço. Não deu importância. Puxou uma agendinha preta e começou a folhear todos os números anotados; seu cabelo pingava gotas de água em cima das páginas da agenda. Kenny mordeu o lábio inferior, lendo os garranchos de nomes e números que considerava importante o suficiente para anotar. Sentia o nó da toalha soltando aos poucos, então pressionou as pernas contra o móvel para segurá-la, discando com uma das mãos e segurando o telefone no braço ocupado pelas roupas, curvando o corpo para alcançar o gancho. –Droga. – repetiu.

Tocou uma vez.

Tocou duas vezes.

Tocou três.

Isso já pareceu tempo o suficiente para que Kenny desistisse. O universo realmente conspirava de um jeito muito esquisito com ele, porque foi só esse pensamento cruzar o seu cérebro que duas coisas aconteceram:

A primeira foi Carl abrindo a porta do quarto deles e aparecendo no corredor com um maço de cigarros e uma sobrancelha levantada, deparando-se com seu cunhado nu, com a toalha frouxa quase caindo pelas pernas, molhando o chão todo, curvado sobre a mesinha do telefone tentando fazer uma ligação, o pé batendo contra a madeira do chão, denunciando que ele estava nervoso. Carl abriu a boca para questionar, no mesmo instante em que Kenny ouviu uma voz do outro lado da linha.

–Oi.

Kenny gastou alguns segundos abanando para que Carl continuasse o que ia fazer e parasse de encará-lo, mal processando o que acabara de acontecer. Esperava que ouvir a voz de Kyle Broflovski depois de tantos anos fosse, no mínimo, um evento histórico que arrancaria o seu coração da cavidade do peito. Em vez disso, Kenny foi tomado por um sentimento de total e completa naturalidade.

Pelo menos até tentar abrir a boca para responder.

E nada saiu.

–Alô? – Kyle repetiu com uma voz quase impaciente. Kenny podia ouvir uma torneira sendo ligada do outro lado da linha e sons de louça sendo colocadas contra o mármore.

–Porra, que saudade da tua voz. – o loiro disse baixinho, mais para si mesmo do que para Kyle ouvir. Mas agora já estava aí, jogado pro mundo e Kyle havia escutado muito bem.

Ele não conhecia esse telefone. Talvez ainda houvesse tempo de desistir.

O ruivo silenciou. Kenny não soube dizer quanto tempo eles passaram assim, sem dizer nada um ao outro, enquanto Kyle provavelmente achava que era algum maníaco saído de Todo Mundo em Pânico querendo pegá-lo no jardim. Kenny gaguejou um pouco, querendo mostrar que ainda estava ali, largou as roupas sobre a mesinha enquanto segurava o telefone com o ombro, usando as duas mãos para dar um nó mais forte na toalha que envolvia seu quadril.

–Desculpa. É... – ele umedeceu os lábios. – É o Kenny.

–Eu sei quem é.

A voz foi direta, sem demonstração de qualquer sentimento. Não exatamente fria, também. Tão neutra que não foi possível ler nada, nem sequer imaginar a expressão do ruivo.

–Ah. Ok. É que, você sabe, eu achei que podia ter ficado confuso. – E soltou uma risada nervosa, sacudindo a cabeça de forma perdida, voltando a segurar o telefone com a mão e passando a outra entre os cabelos molhados. – Mas quantas pessoas te ligam dizendo que sentem saudade, né?

–Menos do que você imagina.

Kenny suspirou fundo. Coçou o topo do nariz e suspirou de novo. Talvez só agora se desse conta do quadro geral, de que estava pelado no corredor de Karen e provavelmente Carl já estava lá embaixo agora mesmo reclamando, perguntando quando o irmão psicótico dela iria embora. Mas era a última preocupação de Kenny quanto à situação toda.

–Olha, Kyle, eu... É uma hora ruim? Você tá ocupado?

O som de água corrente da torneira desligou e o som de louça também. Kenny pôde ouvir uma segunda voz ao fundo, e Kyle respondendo alguma coisa para essa voz, mas foi abafado demais para que ele entendesse. Kyle provavelmente cobriu o fone para responder. Logo voltou sua atenção ao loiro novamente.

–Não, não é uma hora ruim.

–Bom, eu tô em South Park.

O silêncio seguinte se arrastou por tanto tempo que Kenny cogitou que Kyle tivesse desligado discretamente na cara dele. Chamou pelo ruivo só para ter certeza.

–Você voltou?

–Sim. Eu inclusive encontrei com o Stan no mercado, tinha quase certeza de que ele ia te contar. — Assim que as palavras saíram de sua boca, Kenny se deu conta de que entregou a cabeça de Stan numa bandeja de prata para a fúria toda que Kyle sentiria por ser o último a saber de alguma coisa. Stan saber disso e não revelar ao melhor amigo dele, isso não cheirava a coisa boa. E Kenny o entregou sem qualquer necessidade. Por que ele mencionou isso? Kenny apertou os olhos e xingou baixinho, pensando em qualquer coisa que contornasse a situação. A voz saiu falha, mas verdadeira. – Eu pedi que ele não dissesse nada, sabe. Fiquei querendo te ligar. Mas não sabia direito o que dizer.

–E agora sabe?

–Acho que é simples assim: eu gostaria de ver você.

–Me ver?

–É. Você acha esquisito?

Kenny podia jurar que escutou um sorriso do outro lado da linha. Mesmo que muito sutil, houve um sorriso.

–Acho um pouco. Mas... Não sei, pode ser. Eu preciso... – E ele hesitou, como se mudasse a palavra de última hora. – Eu preciso ir, Kenny. Eu posso te retornar nesse número outra hora?

Finalmente a voz de Kyle começava a fraquejar, e Kenny não sabia se deveria ficar feliz ou deprimido por isso. Engoliu seco e concordou, logo em seguida ouvindo o gancho bater do outro lado. Simples assim, a voz dele desapareceu. Kenny acreditava que, uma vez que acabasse logo com isso e fizesse essa ligação, sentiria um peso sair das suas costas. Mas foi precisamente o contrário. Era como se o loiro tivesse adotado doze tipos de pesos novos depois de desligar o telefone.

Recolheu as roupas de cima da mesa e foi para o quarto arrastando os pés, deixando a meia caída no chão para trás. Era curioso. Com todas as situações dramáticas que já passou na vida que envolveram miséria, acidentes, doenças e perdas, Kenny McCormick nunca desejou tanto tomar um porre.

–Hallelujah é o caralho. – resmungou fechando a porta atrás de si.