Trying To Be Happy
1 The Company
Notas iniciais
Meus passos eram lentos e incertos. Direita? Esquerda? Eu não sabia para onde ir. Suspirei pesadamente e massageei as têmporas com as pontas dos dedos, em uma tentativa falha de dissipar a dor de cabeça que ameaçava se formar.
Eu estava parada havia uns cinco minutos e ainda não conseguia pensar em uma solução. Havia muito barulho. Meus ouvidos estavam zunindo. Uma gota de suor escorreu pelo meu rosto. Num ato involuntário, minhas mãos voaram para o meu pescoço e meus dedos pressionaram a pequena pedra do colar. Respirei fundo. Olhei para as milhares de pessoas que caminhavam rapidamente através das ruas lotadas. Tentei imaginar se elas responderiam caso eu fizesse todas as perguntas que pulsavam dentro da minha cabeça: "Onde eu estou? Onde fica Moonlight? Eu estou longe?".
Antes mesmo que eu pudesse pensar nessa tentativa desesperada, algum idiota me empurrou e eu fui jogada para frente, quase caindo no chão. Ainda desnorteada pela quase queda, fui levada pela multidão, sem saber para onde eu ia. Não que eu soubesse antes.
Após muitos empurrões, pisadas dolorosas nos pés e alguns puxões de cabelos, consegui sair do mar humano no qual eu estava me afogando. Murmurei alguns xingamentos, e alisei minha roupa, deixando-a um pouco mais apresentável. Verifiquei se o colar ainda estava no meu pescoço, pressionando a pedra com a ponta dos dedos. Eu não suportaria perdê-lo. Passei a mão pelos meus cabelos negros, verificando se os cachos que Ariel, minha melhor amiga, havia se esforçado tanto para fazer na noite passada ainda estavam inteiros. Por sorte, sim. Pressionei os dedos levemente no meu rosto, vendo se a maquiagem estava borrada. Por fim, arrumei a alça da bolsa que caía dos meus ombros.
Quando olhei para frente, eu não acreditei no que vi. O logotipo da empresa estava desenhado em enormes letras prateadas na fachada do arranha-céu. Moonlight. Eu consegui! Quase saltitei de tanta felicidade. Abri o meu melhor sorriso e caminhei até lá. As portas de vidro se abriram e eu adentrei o local.
O salão de recepção era definitivamente um local luxuoso. As paredes eram decoradas com quadros de arte moderna. Não que eu achasse que isso é arte. Muitas pessoas se auto intitulam artistas porque simplesmente jogam tinta em uma tela em branco e acham que aqueles riscos coloridos têm algum significado.
Havia alguns elevadores. Eles aparentavam ser ultra modernos. Próximo a eles tinha sofás e poltronas, todos de couro preto. Eles não pareciam ser confortáveis. O piso era tão brilhante, que olhar para baixo fez meus olhos lacrimejarem. A mesa da recepcionista era feita de algum tipo de madeira escura, talvez fosse mogno. Havia um computador e alguns documentos em cima da mesa. O lugar era tão silencioso que eu quase podia ouvir a minha própria respiração.
Eu estava tão concentrada em olhar todos os detalhes do salão que não reparei na recepcionista escondida atrás da mesa.
— Seja bem-vinda! – uma mulher que aparentava beirar os sessenta anos disse. A sua voz era tão suave que era quase um sussurro. Seus olhos castanhos eram gentis e me lembraram chocolate. Seus cabelos grisalhos estavam presos em um coque e alguns fios se soltavam do penteado. Ela vestia um suéter azul que parecia tão confortável que eu fiquei tentada a pedir para trocar o meu blazer por ele. Talvez fosse algum clichê de filme americano, mas eu imaginava encontrar alguma mulher absurdamente linda com ar arrogante como recepcionista e não uma senhora com cara de avó. Ela parecia não fazer parte daquele ambiente frio com a sua presença acolhedora. – Você é Lauren Hill? – ela perguntou.
Arrumei nervosamente uma cacho rebelde da franja que insistia em cair nos meus olhos e assenti com um leve aceno de cabeça. Ela olhou para o pulso, onde provavelmente havia um relógio, e franziu o cenho.
— A sua entrevista está marcada para que horas, Lauren? – a senhora perguntou, checando algo no computador.
— Oito horas – respondi, tentando soar neutra. Será que eu estava atrasada? As palmas das minhas mãos estavam suando e eu as sequei discretamente na saia. Minha boca estava mais seca que o deserto do Saara. Meus dedos pressionaram a pedra do colar. Eu estava nervosa. Um tipo de nervosismo que eu nunca havia experimentado antes: desespero. A verdade era essa. Eu estava completamente desesperada por esse emprego.
— Você está adiantada – ela disse, sorrindo de forma gentil. Ela provavelmente percebeu o meu nervosismo. Eu nunca fui boa em esconder emoções.
— Ah, sim – respondi rapidamente, quase suspirando de alívio.
— Logo, a Srta. Bouvier irá te chamar. Não se preocupe caso ela se atrase, isso é do fetiche dela – ela avisou, suspirando no final da frase. O tom dela ao citar a Srta. Bouvier foi irritado. Qualquer pessoa que irritasse uma senhora gentil como aquela recepcionista merecia um sinal de alerta.
— Obrigado, senhora... – eu disse, tentando ler o nome escrito na pequena placa prateada, em cima da mesa.
— Winter. Winter Collins. – ela completou, sorrindo. Uma grande ironia do destino, eu pensei, com um meio sorriso nos lábios. Assenti brevemente. Dei o meu melhor sorriso confiante e iniciei a minha pequena-longa caminhada até os sofás. Cada passo era uma pequena vitória. Andar sobre aqueles seres malignos, vulgarmente conhecidos como saltos altos, era difícil. Muito difícil. Suspirei, quando finalmente cheguei ao meu destino. Dentro da minha mente, eu dançava e bebia cidra de maçã ao som de "We Are the Champions". Reprimi um sorriso. Até no meu subconsciente eu sou pobre.
O meu único objetivo ao sentar no sofá era não parecer um polvo. Mas foi uma missão humilhadamente fracassada. Minha tentativa foi tão ridícula, que eu ouvi uma leve risadinha de Winter. Deve ter sido uma cena engraçada. Virei-me de costas, olhando na sua direção e sorri, dando de ombros. Ela apenas piscou e voltou ao trabalho.
Finalmente, olhei para frente. E ela estava na minha frente.
Misture roupas de grife e jóias caras em uma vasilha grande. Adicione uma pitada de personalidade arrogante. Aqueça no forno por quinze minutos e pronto! Sua imitação de Miranda Priestly está pronta para ser servida.
— Parece que alguém faltou às aulas de etiqueta, não é mesmo, chérie? – ela disse com sotaque francês, arqueando uma das sobrancelhas delineadas com um sorriso esnobe nos lábios vermelhos. Uma de suas mãos estava pousada em sua cintura, em uma pose claramente autoritária. Minhas bochechas ruborizaram. Mas de pura raiva, não de vergonha.
Parece que você não aprendeu a ter respeito nas suas aulas de dondoca, não é mesmo?
Eu estava prestes a respondê-la com uma resposta afiada quando minha sanidade deu sinal de vida. Mas eu preciso de desse maldito emprego. Suspirei internamente. Eu precisaria conter meu jeito impulso. Meus dedos pressionaram levemente a pedra do colar. Tê-lo comigo sempre me acalmava. Fiz um esforço mental para meu rosto não se contorcer em uma careta de raiva.
— É que eu não tive uma educação tão refinada quanto a sua, Srta. Bouvier – eu respondi, tentando soar simpática, com um sorriso tão falso que minhas bochechas doeram.
— Imagino que tenha razão, Srta. Hill – ela disse, analisando-me por alguns instantes com seus olhos azuis gélidos. – Levante-se, chérie! – ordenou com sua melhor voz autoritária. – Sua entrevista de emprego logo irá começar. Siga-me – ela avisou e virou-se de costas, andando rapidamente em direção aos elevadores. O som dos seus saltos altos pontilhando o piso estava me dando dor de cabeça. Suspirei, massageando as têmporas com as pontas dos dedos. Lidar com a personalidade dela será um teste de resistência.
– Srta. Hill? – ela chamou, com uma expressão irritada. Assenti rapidamente e caminhei até a Srta. Bouvier que me esperava com um sorriso impaciente. Vi pelo canto do olho, Winter piscar e mover os lábios, formando duas palavras silenciosas: "Boa Sorte".
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