Trust Me
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Pov Íris
Era emocionante está entrando na minha casa depois de praticamente dez anos morando fora, entre ensino médio, faculdade e pós-graduação, mas isso seria muito mais significante se tivesse alguém em casa. Isso mesmo, toda a minha família decidiu sair de casa na noite em que estou de volta, nada de "Oi queria, quanto tempo!" ou sequer uma ajuda com as malas, isso é deprimente.
Jogo minha mala de mão na poltrona perto da porta e olho o ambiente ao meu redor, parecia que nada havia mudado desde que fui embora. Subo as escadas intercalando degraus e entro no meu quarto, ele estava exatamente como da última fez que o remodelei.
A cama era grande e espaçosa encostada em uma das extremidades, próximo a janela estava minha inseparável mesa de estudos, uma estante ocupando do chão ao teto com todos os meus livros amados e ocasionais porta-retratos ocupava o resto da parede e a porta para o banheiro estava aberta, revelando o azulejo azul-claro e minha imagem no espelho. Meu reflexo mostra meu mais novo corte de cabelo, que deixou meus fios ruivos pouco abaixo das orelhas, dando um novo movimento e uma nova moldura ao meu rosto fino.
Deito na minha cama e absorvo todo o clima de lar que me envolve. Quando saí daqui pela primeira vez eu ainda iria completar meus quinze anos, eu e minha melhor amiga, Rachel, viajamos para o outro lado do oceano para estudarmos em um dos melhores colégios europeus, na França. Foram três anos incríveis estudando com os melhores professores, conhecendo colegas de todo o mundo, além das aventuras a parte que Rachel e eu protagonizávamos.
Quando nos formamos acabamos por escolher cursar nossas faculdades em Paris, onde eu fui aprovada para administração e Rachel para publicidade e propaganda. O que não era de se admirar, já que minha melhor amiga seria capaz de vender areia no deserto como se fosse água.
A administração foi uma escolha fácil no final das contas, quando desisti de encontrar alguma relação profissional com a minha mãe e me voltei para o que eu realmente gosto e sei fazer bem.
Nesses anos eu não voltava sempre para casa, na verdade com o passar do tempo minhas visitas se tornavam cada vez mais raras, nada que pudesse realmente me afastar da minha família. Não diferente de quando eu era criança, meu pai continuava a viajar muito, acompanhando de perto as sedes da Nic Doiridh pelo mundo. Meu irmão, estilista já reconhecido com poucos anos de carreira, não perdia uma oportunidade de dar um pulinho em Paris e aproveitava para me visitar.
Antes de me formar eu comecei a estagiar na sede de Paris da empresa da família, conhecia desde pequena os diretores e era fácil se relacionar. Eu fazia questão de mostrar os meus conhecimentos e a minha capacidade, nunca quereria ser vista como "a filha do dono", isso é ridículo. Aos poucos e com o meu próprio esforço consegui espaço e importância dentro da empresa, contudo, quando chegou o fim da minha graduação eu senti que precisava de mais, não queria parar os estudos ainda.
Pouco depois de jogar o chapéu para o ar e tirar a beca da formatura comuniquei ao meu pai que continuaria na França para fazer minha pós-graduação na área de finanças e economia, que tanto me fascina. Meu pai não pareceu muito feliz em me ter mais dois anos longe dele e só parou de insistir quando prometi voltar para casa assim que terminar a pós, ele estava com planos de se aposentar, mas não queria deixar a empresa antes que eu estivesse nela.
Rachel também havia conseguido seu espaço na Nic Doiridh, depois de ter um estágio bastante elogiado, após se formar foi contratada para fazer parte do corpo de criação de marketing em Paris. Depois de minha amiga aceitar sua chance de ouro e de eu me matricular na minha pós-graduação, saímos para procurar um apartamento, já estava velha demais para ficar no alojamento da faculdade, quase 23 anos afinal!
Meu celular toca me tirando da minha profunda reflexão sobre os meus anos fora de casa, como eu esperava era Rachel. Depois que terminei a minha pós meu pai cobrou a minha promessa e eu fiz minhas malas de volta pra Toronto, mas amiga não voltou comigo. Era a primeira vez que Rachel e eu nos separávamos desde que nos conhecemos, isso não estava sendo realmente fácil.
— Oi, sua cretina! Disse que ia me ligar quando chegasse e nada, achei que seu avião tinha caído no atlântico! Devem ter nascido em mim uns três cabelos brancos de preocupação.— reclamava minha melhor amiga do outro lado.
— Calma, sua louca! Graças a Deus nada de aviões no mar, mas eu não tive tempo de te ligar, pois mal cheguei em casa e tive que colocar todas as malas para dentro sozinha, já que minha amada família esqueceu de mim.
— Eles não esqueceram realmente, tio Phill me ligou pedindo pra eu te avisar que hoje eles teriam um coquetel da empresa para comemorar um novo contrato importante, mas que voltariam antes da meia noite, Cinderela.
— E porquê ele não ligou para mim?— questiono impaciente. – Agora estou sozinha em casa e ainda são... – afasto o celular para ver as horas – Nove horas!
— Você que tem a mania boba de desligar totalmente o celular quando entra em avião. – rebate Rachel.
— Não é mania boba, vai que ele cai mesmo no mar por causa de alguma interferência e..
— Para com isso, garota! – me corta minha amiga – O foco agora é outro. Você está sozinha em casa, na sua ultima noite de desocupada, isso pede uma despedida!
— Eu não sou desocupada! – tento protestar, mas ela me ignora totalmente.
— Vou mandar a cavalaria para aí, tome um banho relaxante e abra a porta quando tocarem!
— Cavalaria? Do que..? – mais uma tentativa frustrada, pois minha amiga desliga o telefone na minha cara.
Mas pensando bem no que ela disse um banho relaxante cairia super bem agora, passei horas dentro daquele avião e não é exatamente que eu não goste de voar, apenas acho que Deus não me fez com os artifícios necessários para isso, não entendo porquê insistir em tentar em uma gigante máquina de metal.
Desço as escadas e torno a subir com a maior das minhas malas, tenho certeza que vou encontrar o que preciso nela. Separo algumas coisas em cima da cama, incluindo um roupão felpudo e uma lingerie da Nic Doiridh, havia suas vantagens em ser a filha do dono, como peças exclusivas!
Meia hora depois eu estava confortavelmente sentada na penteadeira do meu quarto, secando o meu cabelo sem a menor pressa quando escuto a campainha da minha casa começar a tocar como um despertador quebrado: alta e irritantemente. Parece que a tal cavalaria chegou. Sem tanta pressa de ver o que Rachel teria preparado para mim desço as escadas ainda de roupão e com minhas amadas pantufas nos pés.
Do outro lado da larga porta de madeira da minha casa estava Deborah, a prima meio louquinha da Rachel. Deus tenha misericórdia de mim!
— Íris! Quanto tempo! Já estava com saudades!!! – diz ela em um tom pouco abaixo do grito me envolvendo em um abraço de urso.
— Oi Deh, faz tempo mesmo, mas não sabia que iríamos nos ver hoje...
— Eu também não. – diz já entrando na minha casa e puxando uma mala de rodinhas atrás dela. – Minha prima me ligou faz pouco tempo e disse que eu tinha a missão de te arrastar para uma festa incrível! Sorte a sua que eu tenho os melhores contatos!
Deborah é um pouco mais baixa que eu e tem cabelos de um castanho bem bonito, parecido com o da prima. Ela completou os seus vinte anos agora e certamente festas são uma das suas principais ocupações, então apenas espero que Rachel saiba no que está me metendo.
— Vamos subir, temos apenas uma hora para nos arrumar! – continua ela, pegando a mala e subindo as escadas na direção do meu quarto. – Adorei o seu corte de cabelo, tão moderno, tão ousado!
Ela continuou a tagarelar sobre como estava indecisa sobre o que faria no cabelo da próxima vez que fosse no salão, mal sabe ela que meu novo estilo veio de um momento totalmente impulsivo, onde tudo o que eu estava procurando era uma mudança, uma renovação.
— Para que festa nós vamos? – questiono quando chegamos no meu quarto e ela desfazia sua malinha em cima da minha cama.
— Uma festa a fantasia de máscaras! – revela levantando um curtíssimo vestido preto e uma máscara de mulher gato.
— E o que eu vou vestir? – digo presumindo que a fantasia de mulher gato seja para ela.
— Isso! Eu vou de Afrodite, um arraso, não?! – diz me mostrando um vestido branco de um ombro só, que se assemelhava as roupas gregas de antigamente.
Em menos de um minuto Deborah havia espalhado pela minha penteadeira um kit de maquiagem que não deixa a desejar de nenhum salão. Analisei novamente o vestido depois de o vestir, ele era tão apertado e curto como eu esperava, mas surpreendentemente sem deixar de ser elegante, com o seu decote nas costas, dava um novo caimento a roupa. Tenho certeza que o vestido ficaria muito melhor em Rachel, que é mais voluptuosa do que eu, com a sua fina cintura e quadris que me causam inveja. Não que eu seja uma tábua, longe disso, tenho minhas curvas e gosto delas, mas tenho certeza que em Rachel ficaria melhor.
O celular de Deborah toca e ela sai de dentro do meu banheiro já vestida e com um olho maquiado. Ela faz sons de concordância algumas fezes, depois ri e começa a me observar criticamente e logo depois a me descrever, observo tudo isso através do meu espelho de corpo inteiro do meu closet.
— Faz uma pose. – ela diz antes de mirar a câmera do celular em mim. Limito-me a olhar por cima do ombro em direção a câmera, deixando o decote a mostra.
Ela manda a foto e volta a colocar o telefone no ouvido, apenas para o afastar novamente e colocar no viva-voz.
— Está linda amiga! – reconheço a voz de Rachel do outro lado da linha. – Mas pelo amor de Deus, coloca uma meia arrastão e deixa a Deh fazer uma make bem caprichada nesses olhos ein! A ideia é caprichar no delineador e na sombra, Deborah, dando destaque aos olhos claros e deixando-os ainda mais enfoque sob a mascara de gatinha!
—Sim, sim! Vai ficar um arraso! – exclama Deh animada.
— Eu quero que você se divirta hoje, está me ouvindo Íris?!
— Alto e claro, comandante. – respondo e bato continência ainda que ela não veja.
— Você vai dançar, beber alguma coisa gostosa e pegar algum cara gostoso também!
— Mais alguma recomendação? – pergunto quando Deborah me entrega o celular e volta para o banheiro para terminar de maquiar o outro olho.
— Não volte cedo para casa e não faça nada que eu não faria! – minha amiga ri do outro lado – Agora me deixe dormi, porque você está esquecendo do fuso-horário.
— Você está virando uma velha! – implico antes de desligar.
***
Quase uma hora depois da ligação, ali estávamos nós descendo do táxi em uma das mais badaladas e disputadas boates de Toronto. Assim que descemos do táxi não tive tempo de sequer cogitar a ideia de entrar na fila enorme que ocupava toda a fachada do prédio e alguns metros a mais, pois Deborah já foi me puxando para a porta da frente, onde um homem enorme aguardava.
— Oi, Pp! Tudo bem? – saúda Deh para o homem que não tinha nada de pp, com seus mais de dois metros de altura, mais de cem quilos e muita cara de mau.
— Tudo sim, Dedeh! Muito bonita a sua amiga, mas nada se compara a deusa que você é! – disse ele galante fazendo-a dar uma giradinha.
— Assim você me deixa envergonhada! – disse Deh com falsa modéstia.—A Ali já chegou?
— Não, ouvi dizer que ela está esperando lotar mais! – respondeu o segurança lhe dando uma piscadinha, como se aquilo fosse uma piada interna.
— Como sempre. Nós vamos entrando para curtir a noite, não trabalhe muito grandão! – diz Deborah dando um estralado beijo na bochecha de Pp antes de passar pelas portas me arrastando logo atrás dela.
O lugar era enorme! Com altas colunas como pé direito e escadas laterais levando as áreas vips, a boate se abria como um "U" gigante. No fundo o patamar onde o Dj tinha a sua mesa bem equipada na frente da grande pista de dança, que era banhada por luzes de diferentes cores, que piscavam em diferentes frequências. Ocupando uma lateral inteira da boate estava o bar, com inúmeros barmans servindo drinques e bebidas em um ritmo insano. Do outro lado eu podia ver mesas com cadeiras altas, mas era um espaço meio vazio no momento, pois a grande maioria das pessoas estava dançando ou pegando mais uma bebida.
— Aqui é o máximo não é?! – Deh falava animada ao meu lado.
— Sim, aqui é incrível! Rachel vai adorar vir aqui quando nos visitar! – falo por cima da batida da música.
— Ela já conhece, o Rick, o dono daqui é nosso primo! – isso explica o toque familiar no ambiente e na entrada que notei, tinha que ter dedo da Rachel ali.
Ao nosso redor todos estavam no espírito da festa, fantasiados e com máscaras, vi diversos super-heróis, personagens de filmes e livros se misturando em uma animada dança no meio da boate.
— Vamos beber alguma coisa!— grita Deborah e corre na direção do bar. – O que você vai querer?
— Só uma água com gás. – digo optando por não beber nada alcoólico.
***
Mais de hora havia se passado e a boate encheu ainda mais a cada minuto. Deborah havia encontrado um grupo de amigas e partido para pista de dança, não antes de insistir muito para que eu fosse com ela, mas consegui escapar por enquanto.
Estava em uma das mesas opostas ao bar, com o meu copo quase vazio de água e me limitando a contar quantas fantasias repetidas eu já tinha visto. Não é que eu não goste de festas, mas é imensamente mais divertido está em uma com seus amigos e esse não era o meu caso. Eu estava orgulhosa da minha fantasia, comparada com algumas que eu via passar a minha era discreta e me dava a privacidade das pessoas não ficarem encarando o quão curta ou quão decorada ela era. A máscara me incomodava um pouco, mas fiquei sabendo que a ideia era que todos tirassem elas a meia noite, eu poderia esperar até lá.
— Minha nossa! Você é a gata mais gata dessa festa! – escuto a exclamação ao meu lado e me viro para ver quem estava falando comigo assim.
Um cara alto e moreno em uma fantasia exagerada de Chapeleiro Maluco segurava firmemente uma garrafa de vodca como se sua vida dependesse disso. Ótimo, era tudo o que eu precisava, um bêbado se achando o pegador.
— Não faça isso cara, eu não estou afim. – digo buscando ser o mais paciente que eu poderia.
— Porquê está tão arisca gatinha? – pergunta ele parando na minha frente com a máscara torta no rosto e com certa dificuldade de se manter em pé. – Eu posso te ajudar a se divertir!
— Olha cara, eu já disse que não, agora sai daqui antes que eu chame um segurança.
— Não faz assim..—disse ele com uma voz manhosa se aproximando e pegando o meu braço com mais força do que eu esperava.
— Ela disse que não, ô Chapeleiro. – disse uma voz firme atrás de mim.
O Chapeleiro olhou para o cara as minhas costas ao mesmo tempo que eu, mas com uma mistura de confusão e curiosidade no olhar. Ele estava com um smoking sob medida que deixava claro a sua estrutura muscular privilegiada, alto, loiro e usando apenas uma máscara de couro preta não se podia dizer que ele estava vestindo realmente alguma fantasia.
— Ele está com você, gatinha? – pergunta o Chapeleiro voltando a atenção para mim.
— Bem.. – antes que eu pudesse falar algo mais o misterioso loiro da máscara de couro se aproximou mais de mim e me tomou pela cintura, me tirando completamente de cima da cadeira alta em que ainda estava parcialmente sentada.
— Não vou falar de novo, então escute bem: Cai fora! – seu olhar era firme como sua voz e prefiro não comentar da forma como seu perfume inundou todo o ar ao meu redor e de como ele era cheiroso.
O Chapeleiro demorou alguns segundos para absorver as palavras do loiro, lentamente olhou para mim, depois para o cara ao meu lado que ainda segurava estreitamente minha cintura, então olhou para sua mão ainda em meu braço. Como quem finalmente toma conhecimento do que estava acontecendo, ele soltou meu braço e murmurou alguma coisa antes de sair resmungando e andando tropegamente pela boate com sua inseparável garrafa.
— Já pode me soltar. – disparo assim que o Chapeleiro Maluco sai da minha vista, imediatamente me desvencilhando do braço do outro cara.
— De nada, foi um prazer poder ajudar. – diz com uma pitada de sarcasmo.
— Primeiramente, eu nem pedi sua ajuda, eu poderia muito bem me livrar daquele idiota. – rebato e viro pra poder encará-lo.
— Custa tanto assim para você dizer "obrigada"? Nem te disse ainda que agora você me deve uma! – diz ele me dando uma piscadela por debaixo da máscara preta e assim chamando minha atenção para o quão penetrante era o azul de seus olhos.
— Eu não lhe devo nada. – insisto levantando mais meu queixo para que o pudesse encarar, mas me arrependi no mesmo segundo.
Em um movimento rápido o loiro a minha frente pegou meu queixo e aproximou o rosto do meu, como também seu corpo do meu, fazendo-me prender a respiração. O ar ao nosso redor ficou mais denso e seu olhar ligado no meu tornava impossível me mexer, meu corpo simplesmente não obedecia os comandos do meu cérebro. Ele vagarosamente desviou o olhar do meu e o correu pela minha máscara, pela curva do meu maxilar que ele sutilmente acariciou com o dedo e finalmente parou na minha boca.
— Eu te aviso quando for cobrá-la. – disse em um tom não mais alto que um sussurro e eu só pude ouvir pela proximidade que nos encontrávamos.
Ele se afastou de mim logo me dando as costas e desaparecendo no meio da multidão de pessoas fantasiadas ali na boate. O ar correu de uma vez para fora dos meus pulmões e eu sequer lembrava que estava prendendo a respiração. O que havia acabado de acontecer?
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