Trust Me
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Pov Íris
Antes que eu pudesse terminar de digerir isso do Chapeleiro, depois aquele loiro com a máscara preta e o que ele falou de eu estar devendo uma para ele, e ainda mais a inegável atração que houve entre nós, Deborah voltou com suas amigas animada da pista de dança. Sem pensar muito peguei o drinque azul que ela segurava e virei, sentir a bebida descer inflamando a minha garganta foi uma boa escolha.
— Ui! Parece que alguém se animou! – comemora Deh passando por mim e sentando na cadeira que eu ocupava anteriormente.
— Sua prima disse que era para eu aproveitar a festa, não? – digo sorrindo para a animação dela. O melhor que eu poderia fazer era esquecer a loucura que acabou de acontecer.
— Agora coloquei fé! Achei que você iria passar a festa toda sentada tomando água, eu ia contar tudo para Rachel só pra ver ela te dar uma bronca! – ri ela tomando o resto da minha água para aplacar a falta de fôlego de quem dançou muito. – Isso é uma festa, você tem que se divertir! Vamos pegar mais uma bebida para você!
Sem poder negar a sugestão de Deborah, atravessamos a boate, passando com dificuldade próximo da pista de dança lotada para enfim chegar a bancada do bar, que também estava cheia. Com um aceno indicando o número dois Deh chamou a atenção de um barman, poucos minutos depois o cara entregou dois copos com o mesmo drinque azul que ela tomava anteriormente.
— O que é isso? – pergunto quando ela me entregou um copo.
— Você não vai querer saber! – responde soltando uma gargalhada, mas subitamente ficou séria olhando por cima da minha cabeça. – Não olha agora, mas tem um deus grego olhando pra você.
Sem seguir seu conselho me viro, mas não vi ninguém vestido de deus grego e se fosse partir do principio da fantasia, ele deveria estar olhando para ela que está de Afrodite.
— O que você pensa que está fazendo? – diz ela me pegando pelos ombros e me virando de volta.
— Não vi ninguém de deus grego, ô Afrodite. – digo e ela revira os olhos impaciente.
— Eu quis dizer que um cara muito gostoso tá te olhando lá da área vip, mas pelo amor de Deus, não vira com tudo pra olhar como você acabou de fazer.
Dessa vez sendo um pouco mais discreta, bebo um gole do drink no canudo colorido que vinha nele e sem pressa olho por cima do ombro para a área vip. Imediatamente encontro o par de olhos azuis debaixo daquela máscara de couro preta.
Ele estava apoiado no corrimão de madeira da área vip, deixando assim os músculos dos braços marcados sob o tecido do smoking e deu um sorrisinho quando nossos olhares se encontraram. Sei que de onde ele estava ele tinha uma bela visão da pista de dança e de mim. Da forma que eu estava ele poderia ver o decote nas costas do vestido, o curto comprimento do mesmo e a extensão da minhas pernas cobertas pela meia arrastão preta. Sinto um arrepio correr minha pele pela intensidade do olhar dele em mim e isso fez com que eu desviasse meus olhos dos dele, lhe dando as costas.
— Ele ainda está olhando...— diz Deborah em tom de segredo. – Meu Deus, ele parece que vai te devorar apenas com o olhar!
— Ele é um idiota. – declaro.
— Você conhece ele?! – pergunta ela com uma curiosidade explicita tomando gole após gole do seu drinque.
— Esbarrei com ele algum tempo atrás.
— Pois eu acho que foi mais que um esbarrão! – diz ela e começa a rir. – Vamos, termine isso e vamos dançar!!!
Praticamente me obrigando a tomar a bebida em um gole só Deborah coloca os nossos copos em cima da bancada e me arrasta para a pista de dança onde suas amigas já estavam novamente dançando como se o mundo acabasse essa noite. Não posso as recriminar, Rachel e eu fomos para tantas festas nos últimos anos e em todas aproveitamos até o ultimo minuto. As vezes saíamos com amigos e íamos para festas em Milão, Berlin, Ibiza, Madrid e muitos outros lugares, passávamos o final de semana fora, apenas para voltar para as aulas segunda com o corpo cansado, a cabeça pesada e a mala cheia de histórias.
A batida da musica era forte e tomava conta do meu corpo, fazendo que eu começasse a me mexer no mesmo ritmo, relaxando a medida que me soltava mais. Meus quadris acompanhavam a mesma frequência da batida, eu sentia meus ombros menos tensos e me permiti fechar os olhos e aproveitar a festa ao meu redor. Meus braços se expressavam livremente no espaço que tinham na pista de dança lotada, e isso só tornava tudo ainda mais vibrante, as pessoas pulando e dançando animadamente ao meu redor apenas melhoravam o clima da festa.
Senti a sua presença um segundo antes de ter uma de suas mãos na lateral do meu corpo e sua respiração sobre a minha nuca, deixando meu corpo imediatamente tenso, fazendo-me parar de dançar. Abro meus olhos e não vejo Deborah ou qualquer uma de suas amigas por perto e antes que eu pudesse fugir o loiro atrás de mim aperta a mão que estava entre a minha cintura e o meu quadril e faz com que eu vire para ele.
— Eu vou cobrar a sua divida agora. – ele diz próximo ao meu ouvido por cima da música.
— Eu não te devo nada! – rebato no mesmo instante, mas me calo quando ele cola o rosto dele no meu.
— Não finja que você não quer, eu posso sentir no ar, a atração entre nós é forte demais para ser negligenciada. – diz ele percorrendo com o nariz o caminho do meu maxilar. – Dance comigo.
Antes que eu pudesse responder ou negar para ele a atração evidente que existe, ele me puxou para mais perto dele, deixando nossos corpos colados e começou a dançar. Entrelaçando nossas pernas, ele guiou minhas mãos para que ficassem atrás de seu pescoço e manteve as suas em volta de mim, sutilmente percorrendo minhas costas e ocasionalmente cursando o decote do vestido com o polegar. Não tocava uma música lenta, eu tenho certeza disso, mas isso não importava, o loiro ditava um ritmo totalmente nosso.
Pensar estava se mostrando uma tarefa difícil, quando me veio o pensamento decisivo: "Porquê não?". Ele era um cara excepcionalmente bonito, tinha me ajudado realmente com aquele bêbado vestido de Chapeleiro e eu por estar sendo orgulhosa sequer o agradeci. Tudo bem que eu não havia pedido a ajuda dele e que ele mostrou que tinha segundas intenções com a tal ajuda, mas quem disse que eu também não posso desfrutar dessas segundas intenções?
Mexo minhas mãos em seu pescoço, tocando nos curtos e finos fios loiros da sua nuca e percebo como sua postura muda, era como se eu pudesse ver o seu sorriso se abrindo, e isso era muito estranho, pois não fazia nem uma hora que nos conhecemos e eu já sabia o que esperar dele.
Como quem era acordada de um sono profundo, me assunto quando ele subitamente para de dançar e se afasta para me olhar, seus olhos de um azul intenso parecem cobrir-me com uma camada de eletricidade por onde ele olha. Segundo depois seu olhar volta ao meu e meu coração acelera com a perspectiva do que estar por acontecer, mas antes que eu entenda o que ele está fazendo, o loiro passa o braço ao redor da minha cintura e começa a me guiar para fora da multidão que dançava aleia ao que estava acontecendo entre nós.
— O que está fazendo? – questiono quando já estamos mais afastados e a música já não é tão alta.
— Te levando para um lugar em que eu possa te beijar em paz. – responde sem sequer virar para mim, entrando em um dos corredores de acesso da boate.
— E o que o faz pensar que eu deixaria você me beijar? – não consigo evitar dizer, faz parte de meu gênio não aceitar coisas assim.
O loiro dá uma risadinha antes de parar e ficar de frente para mim ali no corredor não muito movimentado. Ele ainda está com o sorriso no rosto quando se aproxima ainda mais de mim com o olhar preso no meu.
— Isso. – é tudo o que ele diz antes de colar os seus lábios nos meus.
Sua boca é exigente sobre a minha, sua mão que não está na minha cintura segura firmemente meu pescoço e seus dedos se entrelaçam com meus fios ruivos. Minha reação é instantânea, passo meus braços em volta do seu pescoço o trazendo ainda para mais perto. Em dois movimentos ele me tinha contra a parede do corredor, sua língua pedia passagem sem tanta pressa e eu lhe dei espaço, seu beijo era envolvente e arrebatador, deixando-me rapidamente sem ar.
Quando ele se afasta estou ofegante e ele não está muito diferente, mas também com o seu sorriso de lado como quem acaba de vencer uma batalhe e eu estava totalmente disposta a dar esse troféu para ele.
— Deixa eu tirar essa sua máscara, eu estou doido para te ver sem ela. – diz ele já com a mão na lateral da minha máscara.
— Me disseram que só poderíamos tirar as máscaras meia noite. – digo colocando minha mão sobre a sua e o impedindo de tirar a máscara.
— Com você tem que ser sempre do jeito mais difícil não é? – questiona ele ainda com o sorriso no rosto, ele olha para o relógio em seu pulso e seu sorriso se alarga. – Eu posso esperar dez minutos.
Ele vira a mão que está sob a minha e entrelaça nossos dedos, me puxando novamente para seus braços e cobrindo meus lábios em um beijo calmo e quente.
— Vamos subir, sei um lugar bom que podemos ficar lá.
Com o braço novamente em volta da minha cintura ele me guia pela escada lateral que leva a área vip onde percebo ser bem menos movimentada que o andar debaixo. O loiro me abraça por trás e enterra o rosto no meu pescoço quando paro para olhar a pista de dança em busca de Deborah, mas acabo por desistir de a procurar quando ele começa a distribuir beijos ao longo do meu pescoço, roubando toda a minha concentração e exigindo toda a minha atenção.
Ele me vira de frente para ele e torna a tomar meus lábios com os seus de um jeito fantástico que parece ser a constante em todos os seus beijos. Na área vip tinha um sofá em forma de 'L' em um dos cantos e é para lá que ele nos guia. Parecíamos eletrizados, mesmo que parássemos de nos beijar parecia ter um campo magnético ao nosso redor que nos forçava a ficar próximos, se não nos beijando, nos olhando, nos respirando, seja o que for.
O clima estava esquentando e nada parecia ser o suficiente, tudo parecia correr rápido demais, os batimentos do meu coração pareciam não está sendo velozes o suficiente, o ar não ficava nos meus pulmões tempo suficiente para me manter oxigenada, todos os beijos dele pareciam não ser o suficiente.
— Porque... Porque você não pega uma bebida pra gente? – digo tentando recuperar o fôlego.
— Mas só faltam alguns minutos para anunciarem que podemos tirar essas malditas máscaras, não quero perder isso por nada! – fala o loiro voltando a se aproximar, mas eu o para colocando minha mão sobre seu peito largo.
— Prometo esperar você chegar para tirar a minha.
— Tudo bem, gatinha manhosa. – diz beijando a ponta do meu nariz que não estava coberta pela máscara com orelhas de gatinha que eu usava. – Champanhe?
— Margarita, com duas azeitonas. – digo segura e ele abre mais um sorriso divertido.
— Boa garota. – ele se levanta, mas ao olhar para mim volta a sentar e me beija como se em instantes eles não pudesse fazer mais isso.
Pouco tempo depois que ele saiu, o Dj parou a música e a dona da festa, que eu descobrir ser Alisson Stewart uma antiga colega minha do colégio, anunciou que todos poderiam tirar as máscaras. Contudo, mantive a minha promessa ficando de máscara e esperando a volta do loiro.
Acabei por me levantar do sofá no intuito de procurar um banheiro, mas mal saí da área vip e acabei por esbarrar fortemente em alguém.
— Nossa, me desculpa, essa orelhas ficam caindo direto e.. – começa a dizer o cara em quem tropecei, mas quando olho para ele imediatamente o reconheço.
— Fred?!
— Íris? O que você está fazendo aqui? – diz meus irmão quando consegue se livrar das orelhas de...
— Isso são orelhas de lobo?
— Sim, Daffine veio de chapeuzinho vermelho e insistiu para eu vir de lobo.
— Achei que vocês fossem pra festa da empresa, o tal coquetel pelo novo contrato.
— E nos fomos, comemos, bebemos, socializamos e quando ficou chato demais escapulimos. Matt veio conosco, se procurar achamos ele.
— Não faço questão de ver o Matt, queria mesmo era estar em casa desfazendo as malas e me preparando para amanhã. – digo cansada tirando minha máscara de gatinha, sequer percebendo que havia quebrado minha promessa para o loiro misterioso.
— Você não me disse o que está fazendo aqui.
— Deborah, prima da Rachel foi lá em casa e disse que eu precisava de uma despedida de desempregada, antes de começar a trabalhar na empresa.
— A Daffine que me obrigou a vir, amanhã também acordo cedo, fora a reunião que papai marcou para te apresentar oficialmente ao pessoal da diretoria e depois para todos da empresa. – diz ele procurando a esposa pelo salão lotado. – Ela sumiu com algumas amigas modelos dela e me deixou aqui sozinho, agora eu tenho a desculpa perfeita para voltar para casa: você! Vai me ajudar nessa não é, maninha?
— Claro, acho que o meu acompanhante se perdeu mesmo...
— Acompanhante? Você não disse que veio com a Deborah? – reclama ele no seu típico tom de superproteção.
— Nem começa, manda uma mensagem pra sua mulher e vamos logo embora.
Dez minutos depois meu irmão já havia encontrado sua esposa, com a qual falei brevemente, afinal não é de hoje a nossa relação superficial, e logo estávamos dentro do carro do meu irmão indo para casa. Daffine disse deliberadamente não iria sair da festa tão cedo e que depois uma das suas amigas lhe levava para casa.
O caminho para casa foi tranquilo, meu irmão dirige devagar demais para o meu gosto, então me limitei a encostar a testa na janela e observar a cidade passando do lado de fora. A lembrança do loiro veio a minha mente, do beijo dele, tenho que admitir que foi melhor do que eu imaginei, se eu soubesse tinha feito antes em vez de ficar com todo aquele orgulho bobo.
— Como foi a viagem de volta? Conseguiu relaxar e dormi um pouco? – pergunta Fred me tirando dos meus devaneios.
— Você sabe que relaxar é impossível dentro daquela armadilha de metal voadora.
Fomos o resto do caminho conversando sobre a viagem, quando chegariam as caixas de mudança que fiz do meu antigo apartamento com a Rachel e tudo mais. Uma das coisas que mais senti falta nesses anos era dessas conversas sem pressa e relaxantes com o meu irmão mais velho. Quando chegamos em casa nosso pai já estava dormindo e eu não demorei a fazer o mesmo depois de me livrar do vestido, tirar toda aquela maquiagem e tomar um banho caí na cama e apaguei na hora.
***
O DESPERTADOR NÃO TOCOU! Correndo de um lado para o outro do quarto depois de acordar as 8h e tendo minha primeira reunião na empresa às 8h30min eu estava desesperada. Coloco o vestido verde com saia tubinho que eu havia separado na noite passada e corro para escovar meus dentes e passar o mínimo de maquiagem para eu parecer uma pessoa descente e não uma maluca atrasada. Aquele imprestável do Fred nem pra me acordar e me levar com ele para empresa!
Corro escada abaixo e pesco da cozinha uma xícara de café portátil que meu pai sempre teve em casa e duas torradas e parto para a garagem, quando lembro que aqui em Toronto eu não tinha nenhum carro ainda. Droga! Corro para a frente da casa e tenho a sorte de avistar um táxi vago, pelo menos um pouco de sorte nesse dia, as coisas poderiam começar a melhorar a partir de agora, não?
— Por favor, o mais rápido possível para a sede da Nic Doiridh, no centro. – digo ao motorista que prontamente atende correndo pelas ruas da cidade.
Tudo bem, penso quando desço do táxi, são 8h38min eu não estava tão atrasada no final das contas. Entro no prédio e me identifico, sendo saudada pela recepcionista que me dá um crachá. Tento não correr para os elevadores quando penso sobre meus dez minutos de atraso logo no primeiro dia, mas não tive muito sucesso.
Escuto o barulho apressado dos meus saltos sobre o corredor vazio que leva em direção a sala de reunião que a secretária do meu pai me indicou. Certo, já eram quinze minutos de atraso em meu primeiro dia, será que isso vai pegar mal?
Bato levemente na porta e entro silenciosamente, mas ninguém na sala de reuniões parecia estar falando antes da minha entrada para que eu estivesse interrompendo.
— Ah Íris, estávamos esperando por você! – diz meu pai se levantando na outra extremidade da longa mesa de reuniões.
Ando por trás de diversos executivos da empresa da minha família, alguns rostos eu reconheço por frequentarem as festas da empresa que papai fazia na nossa casa ou por serem amigos do meu pai. Contudo, meu corpo gela totalmente quando encontro com um par de olhos azuis por trás de um óculos quadrado com armação de tartaruga. Era ele, o loiro de ontem a noite, mas o pior de tudo era que sem a máscara preta ele não era apenas um cara loiro que fiquei ontem, ele era também Matthew Ross.
Meu pai continuava a falar de como eu havia me atrasado, que se ele soubesse haveria me acordado, dentre outras coisas, mas a única coisa que passava pela minha cabeça era a noite de ontem. De tudo o que aconteceu, mas substituindo o loiro misterioso pelo Matthew, meu eterno desafeto infantil, o garoto que tornou minha adolescência muito mais difícil com suas constantes implicâncias, o arrogante e idiota filho do melhor amigo do meu pai e o cara com quem me agarrei deliberadamente ontem a noite. Tem como esse dia ficar pior?
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