Truques do destino
2 Capítulo 2 - A Cartomante
Notas iniciais
Todas as pessoas, por mais que não percebam, têm uma lista mental de coisas e sons gratificantes dais quais gostam mais. Seja o cheiro de terra molhada, o gosto de uma comida de infância, chá nos dias chuvosos ou até mesmo uma roupa confortável favorita, as experiências, lembranças e sensações variam de pessoa para pessoa. Um dos sons mais gratificantes na minha rotina diária é o trancar da caixa registradora depois de um dia de trabalho.
Pode parecer pura bobagem, mas virar a chave no ferrolho e escutar o encaixe das peças lá dentro para mim é sinônimo de uma coisa: Liberdade.
Depois de checarmos todas as portas e janelas, Vivian e eu trancamos o local e saímos para um fim de tarde nublado e de ventos frios, que agitam as árvores em uma dança silenciosa.
-Te vejo segunda Meg? — Vivian se despede, vasculhando a sacola com seus pertences em busca das chaves do carro.
-Claro, bom fim de semana! E não se preocupe, essa sensação de perseguição vai passar, você só precisa dormir um pouco. — Aconselhei.
-Você deve estar certa. Até mais! — Se despede, antes de soltar um suspiro e atravessar a rua, em direção ao seu chevette cinza parado no estacionamento.
Seguindo para o lado oposto, tenho finalmente a permissão de deixar meus pensamentos vagarem para todos os assuntos sem relação direta com o trabalho enquanto caminho para casa.
Estava prestes a parar em uma vitrine de papelaria quando uma rua em especial me chamou a atenção, a mesma que tive de tomar mais cedo para poder entregar as encomendas, e a mesma que me levou ao encontro do rapaz do 1829 e da sua essência curiosa.
Um esbarrão em algum desconhecido que passava me fez retornar a realidade, e percebendo que nuvens escuras começavam a se aproximar depressa, acelerei o passo em direção ao apartamento ainda distante.
Assim que subo as escadas e destranco a porta, tiro os sapatos e sigo rumo ao quarto, flagrando de relance pelo caminho uma figura envolta por roupas pretas parada em frente ao espelho do banheiro.
Alana dá giros de um lado para o outro, procurando por todos os lugares detalhes visíveis na aparência, até me perceber parada sobre sua porta, com um semblante interrogativo no rosto.
-Hey, eai? — Diz, me olhando pelo reflexo do espelho. — Pensou na minha proposta?
-Que proposta? — Pergunto, repassando pela minha cabeça todas as nossas conversas mais relevantes da semana, até me lembrar do convite para o bar hoje mais cedo. — Ah, aquela proposta.
Alana me encara, esperando uma resposta que ela sabe, quando faço uma careta, não é a de seu agrado.
-Qual é Megan! Eu quase nunca te peço nenhum favor, a gente só vai beber alguma coisa e ver a exposição. Nada de mais.
Encaro o ambiente a procura de alguma desculpa razoável para deixar essa passar, porém, sendo muito ruim em mentiras como sou desde criança, só me resta concordar com a sentença e caminhar para a forca.
Dou de ombros, admitindo minha rendição, e um largo sorriso acompanhado de covinhas surge no rosto de Alana.
-ARÁ! Eu sabia que você iria se render uma hora ou outra! — Zomba. — Agora, vai se arrumar que a gente sai daqui dez minutos, quero chegar lá antes do lugar lotar.
Revirando os olhos, me viro para o corredor, pensando que a liberdade que senti possuir mais cedo, virou areia e escorreu por meu dedos no momento em que marchei em direção a porta do quarto e a fecho com um suspiro.
A noite sem estrelas está encoberta por um manto frio, e sons diversificados chegam até nós vindos de vários cantos da grande cidade. Enquanto vagamos pelas calçadas em busca da rua correta, Alana esfrega as mãos pela décima vez, ação que aumenta ainda mais a sensação estranha que se apoderou de mim no momento em que saímos pela porta do prédio, e assim que viramos uma esquina, o letreiro em neón do bar chama nossa atenção.
Quando nos aproximamos, noto uma mulher sentada em silêncio em uma mesa ao lado da portaria, manuseando grandes cartas de tarô, com uma taça de bebida quase vazia por perto. O cenário difere completamente do ambiente ao redor, parecendo ter saído de um conto de histórias antigas do Egito, e quando passamos, levo um susto ao sentir suas mãos agarrarem meu antebraço.
-As lindas moças não gostariam de saber o que o futuro lhes reserva? — Pergunta, me encarando com olhos castanhos escuros e uma boca vermelha que esconde pequenos dentes de ouro.
-Nós não temos dinheiro minha senhora, desculpa. — Alana mente, passando a minha frente e entrando apressadamente pela portaria, sem olhar para trás.
Fico dividida entre segui-la ou escutar a cartomante, que ainda segura meu braço com uma das mãos geladas, enviando pequenos calafrios por todo o meu corpo.
-Vamos, tenho certeza que há algo incrível para você nas cartas. — Ela diz, com uma alegria medida no rosto, apontando a cadeira do outro lado da mesa.
Em um impulso, me vejo sentando à sua frente, observando enquanto ela fecha os olhos e embaralha as cartas. Depois de alguns segundos, ela abre habilidosamente o monte como um leque e as deposita viradas para baixo sobre a mesa.
-Passe sua mão sobre as cartas, e pegue a que mais lhe atrair. — Ordena.
Algumas pessoas passam ao nosso lado, lançando olhares curiosos e bocas retorcidas em nossa direção. Meu coração está acelerado, e pondero sobre a escolha de levar a leitura adiante ou apenas segui-los e entrar logo no bar, evitando possíveis decepções ou farsas.
Dou de ombros e faço o que ela pede: estendo o braço direito sobre os brilhantes papéis surrados, levando-a de um lado a outro no ar, até sentir um pequeno formigamento sobre a palma. Afasto a mão rapidamente, sufocando um suspiro de espanto, desviando minha atenção rapidamente da mulher para a carta que tenho certeza ser a causadora da sensação.
-Pegue-a. — Ela diz, ainda de olhos fechados.
Relutante, estendo os dedos e pego a carta.
A torre.
Nela, há dois homens caindo do alto de uma torre, e em direção a sua coroa quebrada e em chamas, caem trovões e fachos de luz coloridos. Toda a construção está cercada por água, a qual está cheia de objetos flutuantes.
-Dê-a para mim! — A cartomante diz, estendendo uma das mãos a mesa.
Quando lhe dou a carta, ela passa os dedos sobre as beiradas já gastas e franze o cenho, sua cabeça se vira para um lado e depois para frente, bem lentamente. De repente suas sobrancelhas se erguem e ela abre os olhos, me encarando com um semblante de espanto, como se me visse realmente pela primeira vez.
-Oh Deus! Pobre menina! — Sussurra, olhando para a carta em suas mãos.
-O que foi?- Pergunto, percebendo seu olhar de pena se dirigir a mim. — O que a senhora viu?
Ela levanta de sua cadeira e vem em minha direção, meu coração começa a acelerar, e sinto minha boca secar assim que ela pega minhas mãos nas suas e me encara no fundo dos olhos, como se pudesse enxergar minha alma. -A senhora está começando a me assustar. — Solto uma risada nervosa e procuro por outras pessoas ao redor para não me sentir sozinha, mas a rua está deserta. Os únicos sons são a voz rouca de algum cantor novato dentro do bar, as risadas, conversas e nossa respiração do lado de fora.
-Escute criança, você precisa tomar cuidado! — A cartomante diz, apertando minhas mãos com força. -Proteja seus amigos, todos vocês correm perigo! — Seus olhos estão arregalados e ela balança a cabeça várias vezes.
-Como assim? O que vai acontecer? — Mil cenas impossível passam a minha cabeça enquanto a mulher me solta, recolhe suas cartas e começa a se afastar. -Senhora? O que…?
Assim que ela some no final da rua escura, sem ao menos olhar para trás, percebo o quão acelerada está minha pulsação. É um truque, uma encenação, digo a mim mesma, ela só queria fazer drama, uma cartomante barata que leva a vida fazendo atuações.
Mas se fosse apenas isso, então por que ela não me cobrou o dinheiro da consulta? E por que ainda tenho a sensação de formigamento percorrendo todo o meu corpo?
Subo a calçada e entro no bar, desejando poder encontrar Alana e ir para casa, o único lugar no mundo onde consigo me sentir em paz.
-Aí está você! Por onde andou? Queria sua opinião sobre algumas peças que estavam no leilão. — Alana grita acima da música vinda do palco quando me aproximo. Sua bolsa está sobre o colo, e pelo novo volume evidente dentro dela, tenho a certeza de que alguém andou comprando mais do que "algumas" quinquilharias.
Quando não digo nada, sua expressão de alegria bêbada se transforma em um misto de diversão e preocupação, me lembrando novamente dos olhos castanhos da cartomante lá fora.
-Hey, tudo bem? — Pergunta.
-Ãham, a gente já pode ir? — Questiono, reparando em todo o local pouco iluminado com cheiro forte de drinques doces de frutas.
-Já? Mas vão anunciar uma pintura daqui a pouco que estou mega interessada. — Diz, fazendo um biquinho.
O gesto familiar e simples me faz sorrir e ela retribui meu ato com uma risada vitoriosa. Essa teimosia só pode ser de sangue.
-Você parece uma tiazona de 57 anos, não uma jovem de 24, só para te avisar. — Brinco, enquanto ela dá de ombros e volta sua atenção novamente para o cantor no palco. — Vou dar uma volta por aqui, você vai ficar ai, não vai?
-Vou, pode ir, quando terminar eu te mando uma mensagem.
Respiro fundo para aliviar a tensão, e ando pela multidão reunida em busca de alguma coisa interessante no meio da exposição para me distrair.
Depois de um tempo, a cena com a cartomante começa a ficar distante, e me pergunto se imaginei a maioria das coisas que vi, deixando os pensamentos vagarem enquanto examino peças de vidro e porcelana expostos sobre as mesas.
Subo para o segundo andar, onde há uma grande varanda aberta, enfeitada por diversos potes de vidro com velas acesas por todos os lados.
Caminho até a beirada e admiro a paisagem ao redor, as luzes nessa parte da cidade se assemelham a grandes estrelas brilhantes no céu, e por alguns minutos, me deixo lamentar a saudade de casa, das paisagens naturais, os antigos amigos, e o silêncio.
Sentindo pequenas gotículas de lágrimas se formarem nos cantos dos olhos, balanço a cabeça para me livrar do passado. Minha vida é aqui agora. E eu estou feliz de ter feito a escolha certa de ir embora sem pestanejar.
Decido descer e dizer para Alana que vou para casa sozinha, já que nosso apartamento fica por perto, mas quando me viro para voltar, bato de frente com algo, ou melhor, alguém.
Cambaleante, dou alguns passos para trás, e ao olhar para cima, reconheço de imediato o par de olhos verdes que me encara.
-Desculpa, eu não vi você aí. — Explico, dando um passo ao lado para tentar sair de soslaio, ainda me lembrando do mico de hoje cedo.
-Foi mal. — Ele diz encostando a mão em meu antebraço para me parar. — Eu sabia que você ia esbarrar em mim, então não quis desviar.
Olho para seu rosto, tentando controlar minha surpresa e um sorriso se espalha por ele assim que levanto uma das sobrancelhas. Há algo nele, alguma coisa diferente que me chama a atenção, mas não consigo descobrir o que é.
-Então, você veio pelas exposições? — Pergunta, quebrando o silêncio.
-Não, eu... hm, sim. Minha prima é louca por arte abstrata, então ela meio que me obrigou a vir junto.
Cruzo os braços sobre o peito, e caminho novamente até a beira da varanda, olhando para baixo, para as pessoas que saem pela porta da boate e seguem seus diversos caminhos rua afora. O rapaz me segue, e repete as mesmas ações.
-A vista daqui é linda. — Diz.
Arrisco olhar para o relógio em meu pulso, e me surpreendo ao ver que já passa da meia noite.
-É melhor eu ir. — Anuncio, sem olhar para seu rosto.
O clima baixou desde que cheguei, e começo a sentir pequenos calafrios devido ao vento cortante.
-Você quer que eu te acompanhe? Ou se precisar de uma carona...
Olho para seu rosto de perto, percebendo pela primeira vez as diversas pintinhas espalhadas pelas bochechas e nariz, como se fossem pequenas sardas.
-Só idiotas aceitam carona de desconhecidos. — Deixo escapar, sem tirar os olhos dos seus.
Seu sorriso se abre novamente e uma pequena risada escapa de sua boca.
-Tem alguma coisa em você que eu não consigo desvendar. — Fala. — Você não é daqui é?
Ele é bom em fazer especulações parecerem algo natural.
-Não, vim de uma cidade pequena, meio longe daqui. Como você descobriu? — Pergunto, com uma sombra de desconfiança na voz.
Ele dá de ombros e fica em silêncio. Quando acho que não vai mais responder, ele passa um polegar sobre o queixo e diz:
-A maneira como você olha as coisas ao redor, eu acho. Como se você estivesse percebendo a interação humana pela primeira vez. Se eu fosse arriscar alguma coisa diria que você também gosta de desenhar. — Ele me encara, seu rosto não tem mais resquícios de um sorriso, apenas um olhar curioso esperando pela minha resposta.
-Hm... não — Digo, soltando uma curta risada. — Sou péssima para desenhar, tocar instrumentos ou quaisquer artes que precisem do controle das mãos.
A música na parte de baixo do bar já acabou e escuto alguém dando início a pequenos lances animados no microfone.
-Do que você gosta então? Tem alguma coisa específica em que é boa ou só faz bicos de entregadora em becos para ajudar os amigos? — Questiona, com um tom brincalhão na voz.
Minha apreensão começa a ficar maior, sua grande curiosidade em saber de todos os fatos da minha vida não passam despercebidos.
-Você faz muitas perguntas. — Me esquivo. — Isso é injusto, já que nem sei o seu nome.
Dessa vez ele é quem levanta uma sobrancelha, espantado.
-É claro que sabe. Aquela encomenda era para mim. — Diz com uma risada.
Então ele é Aron Sales. Bom.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, prestando atenção aos sons e nas pessoas presentes no ambiente.
-Eu gosto de correr. — Confesso de repente, sem tirar os olhos da cidade noturna a nossa frente.
Pelo canto do olho vejo que ele está me observando. Viro meu rosto para ele e faço o mesmo, como em uma daquelas brincadeira de não piscar.
Seus olhos caminham por todos os detalhes do meu rosto, como hoje mais cedo, e sinto minha pulsação começar a crescer novamente.
De perto seus olhos têm uma cor verde clara fundida com linhas escuras, e seus cílios são longos e negros.
O lugar parece congelar no tempo até o celular em meu bolso vibrar, anunciando a chegada de uma nova mensagem.
— Deve ser a Alana. — Explico, pescando o aparelho na parte de trás da calça jeans e quebrando o contato visual.
Mas não é.
Há um número desconhecido como remetente da mensagem, a qual contém apenas duas frases:
"Preciso falar com você. Me ligue assim que puder."
Aperto os olhos diante do estranho SMS. O que um número estranho poderia querer comigo?
Um pensamento ruim atravessa como raio meus pensamentos e me faz gelar da cabeça aos pés: E se for um dos meus pais?
-Algo errado?- Aron pergunta, se aproximando de cenho franzido.
Antes de conseguir pensar em algo para dizer, o aparelho em minha mão começa a tocar, mostrando o mesmo número de antes no visor da chamada.
Olho para minhas mãos, então para o rapaz parado em minha frente, e ao redor, tentando pensar o mais rápido possível no que fazer.
Respirando fundo e orando em silêncio, aperto o botão de aceitar ligação e levo o objeto a orelha.
-Alô? — Digo, e uma voz fraca e nervosa do outro lado da linha responde:
-Megan? É você?
-Sim, quem é? — Pergunto, trocando olhares com Aron, que está encostado contra as barras de ferro da varanda e me encarando com curiosidade.
-Você trabalha com a minha filha Vivian, não é? — A voz feminina trêmula do outro lado da linha questiona, soltando pequenos suspiros.
-Hm... Trabalho sim, aconteceu alguma coisa?
-Ela não está ai com você está? Ou por acaso mencionou ir em algum lugar hoje?
Minhas mãos começam a suar frio, temendo a notícia ruim que eu sei estar prestes a ser anunciada.
-Não, lamento, ela não me disse nada. — A mulher na outra linha começa a chorar baixo, soltando soluços e sussurros ao mesmo tempo. — O que aconteceu?
O choro aumenta, e posso sentir, assim que as palavras são pronunciadas, que algo dentro dessa mãe acabou de se despedaçar.
— Minha filha... — chora, o volume de sua voz crescendo cada vez mais. — Minha querida Vivian, ela... Ela desapareceu.
E então do nada, a linha fica muda.
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