Truques do destino

1 Capítulo 1 - Mundo novo


Notas iniciais
Olá leitor! Decidi não colocar todos os detalhes já de cara no início do capítulo, então tudo vai se desenrolando conforme os capítulos vão sendo postados, para deixar aquele arzinho de mistério que todo mundo gosta. Espero que apreciem e gostem tanto da história e dos personagens como eu estou gostando de criá-los. Boa leitura!

Muito provavelmente, em algum momento da sua vida, você vai sentir a famosa sensação de vazio. Pode ser antes de dormir, na hora de acordar, ou sei lá, na hora do banho, ninguém nunca escapa.
Pra mim, é como um quarto em branco, você não consegue sentir nada que te dê uma dica de como vai ser seu futuro, então suas paredes não têm cores, quadros ou enfeites. Você não sente a necessidade de gritar pedindo explicações, não procura por uma saída nem sente vontade de encher o lugar de vida. É algo que só o tempo conserta, pelo menos é o que dizem, ainda estou presa na fase de apenas querer deitar no chão em branco e apreciar o silêncio ao redor.
Antes do meu pai ficar perdido na própria vida e começar a se envolver com todo tipo de bebida alcoólica que se pode encontrar por aí, ele costumava me dizer que a melhor maneira de começar um dia é pelo banho.
Então assim que entro no box, coloco minha playlist de favoritos no modo aleatório e deixo a água quente cair sobre a cabeça, me permito esquecer de tudo, respiro fundo e imagino que todos os sentimentos ruins estão sendo sugados pelo ralo. Terapia matinal.
Depois de enrolar a toalha pelo corpo, abro a porta do banheiro que eu e Alana compartilhamos, sigo para a lavanderia e pesco o uniforme do supermercado no varal improvisado, seguindo o cheiro de café fresco pelo corredor, em direção a cozinha.
Alana está debruçada sobre a pia, usando calça jeans e casaco, cantarolando uma música qualquer do John Mayer enquanto digita apressadamente no celular.
-Bom dia. — Digo, me sentando na mesa e encarando o relógio, fazendo as contas de quanto tempo ainda tenho até ter que sair para trabalhar.
-Como foi a aula ontem? Seu professor de Biologia resolveu dar o ar de sua graça? — Alana pergunta enquanto dá pequenos goles no café, sem tirar os olhos do aparelho portátil. (Alguém ainda usa esse nome?)
-Não, acho que ele ainda deve estar de cama por conta daquela infecção. Mas fora isso, foi tudo normal.
-Que bom. — ela coloca a xícara sobre a mesa e me dá uma das suas analisadas rápidas, tentando detectar se estou mesmo falando a verdade. Quando fica convencida de que não estou escondendo nada, ela suspira e segue em direção ao corredor, aumentando a voz conforme se afasta. — Então, já que hoje é sábado, e amanhã a gente não trabalha, que tal irmos naquele barzinho da rua 7 tomar alguma coisa? Ouvi falar que eles vão ceder espaço para algumas exposições temporárias pelas próximas duas semanas.
Apesar da Alana trabalhar atualmente como assistente administrativa em uma empresa de logística, ela sempre foi apaixonada por arte abstrata. Prova disso são os quadros e esculturas baratas que enfeitam todo o nosso apartamento, (incluindo o meu quarto).
-Não sei An, estava pensando em passar uma noite regada a pipoca de panela e filmes de suspense jogada no seu sofá. — Murmurei enquanto abria a geladeira em busca de algo pra comer.
-Fala sério! — Escuto sua voz frustrada vinda do quarto. — De novo?
Caminho pelo corredor e paro no batente da porta do seu quarto, mordiscando uma maçã e pensando se considerava ou não sua proposta.

Prós de sair com Alana:

>Esquecer da nota baixa que tirei no simulado de matemática no cursinho.
>Evitar que ela gaste dinheiro em outra peça sem sentido e traga para casa.
>Faze-la calar a boca antes de chegar na parte "Você é jovem, tem que aproveitar a vida!"

Contras de sair com Alana:
>Ter que pensar em algo para usar.
>Socializar.
>Ficar sem pipoca de panela e dormir em paz no sofá.

-Hmmm, acho que vou deixar passar.
Ela para no meio de uma escovada de cabelo, com a franja loira caindo sobre os olhos, carregados de um brilho que eu conheço bem: aquele tipo não-vou-te-deixar-em-paz-enquanto-você-não-aceitar-a-minha-proposta.
-Olha só, você tem que dar um tempo nessa sua vibe de depressiva solitária. Você ainda é jov....
-Ai meu Deus, olha a hora! Tenho que me trocar! — Digo antes de sair correndo para o quarto com meia maçã em uma mão e o uniforme na outra, fechando a porta para evitar ter de ouvir outro conselho típico de primas mais velhas sobre minha vida social.

Depois de prender o cabelo em um rabo de cavalo e ajeitar o uniforme, coloco uma blusa, calço os sapatos de cordão e saio para a rua, com um copo de café aquecendo a mão esquerda no clima gelado de São Paulo às 7:45 da manhã.
Empurro a porta de vidro do supermercado e sou recebida com uma lufada de ar quente, luzes cegantes e uma explosão de cores nas prateleiras do ambiente. Apesar de todo o estresse e da dificuldade, eu gosto daqui, do cheiro das frutas frescas nos caixotes, do barulho das conversas matinais, e dos amigos que fiz. Meu trabalho é, incomumente, um segundo lar.
-Meg! Chegou na hora certa! — Reconheço a voz a minha direita imediatamente, e vejo a figura de Carlos se aproximar assim que viro a cabeça para cumprimentá-lo.
Diferente da maioria dos que trabalham aqui, nosso gerente não tem a famosa "empatia" para com seus funcionários como era de se esperar em um lugar como esse. O homem de bigode anos 90 e roupa marrom impecável para a minha frente, e após examinar meu uniforme a procura de possíveis falhas, acrescenta: — Um dos entregadores acabou torcendo o pé e não vai poder levar as compras até o próximo chegar. — Ele consulta o relógio e me olha como se eu fosse uma criança de 12 anos prestes a fazer algo que não alcança sua capacidade mental. — Então, eu preciso que você leve alguns pacotes de compras até alguns endereços aqui por perto. Você pode fazer isso por mim?
Só. Duas. Palavras: Trabalho Escravo
Quando me perguntam qual é meu trabalho, dizer que sou caixa de supermercado é praticamente um resumo, aqui no Della's todos temos que cumprir "ajuda voluntária" (como Carlos costuma chamar a exploração dos funcionários), e ninguém é pago a mais por isso.
-Claro. — Respondo, soltando um suspiro e segurando a costumeira vontade de revirar os olhos em sua frente.
-Ótimo! Vou pegar as informações para você. Pode ficar aí, eu já volto.
Assim que ele vira as costas e segue em direção ao mini escritório, me permito soltar um palavrão em voz baixa, com a impressão que o dia de hoje vai ser incrivelmente exaustivo.

Com os endereços em mãos e as caixas de encomenda sobre o braço, saio para a rua movimentada observando as pessoas apressadas passarem por mim. Como vim de uma cidade pequena de 11 mil habitantes, levou um tempo até conseguir me acostumar a andar em calçadas tão lotadas sem esbarrar em ninguém. O fato de morar em um lugar tão cheio de coisas para ver e admirar, me fazia pensar que passar por tudo e por todos sem dar a mínima atenção ao redor era idiotice, com tanta riqueza em detalhes para ver. Agora já começo a entender como a rotina aqui funciona.
Termino a entrega nos dois primeiros endereços e checo no papel o número da última entrega: 1829.
Ando por mais três quadras e voilà! Cheguei ao meu destino! Aperto a campainha fixada ao lado da porta, mas ninguém atende. Tento por pelo menos mais cinco vezes, e nada.
Considero minhas escolhas: Deixar o pacote na beira da porta e vazar sem olhar para trás, ou levá-lo de volta comigo e ter que escutar mais uma das broncas desnecessárias do Carlos sobre atendimento ao cliente.
Enquanto penso sobre a quantidade que tempo que estou perdendo em uma rua de beco vazia, alguém assobia. Procuro pelo som ao redor e quando ele sibila de novo, olho para cima e lá está.
-O que você quer? — O rapaz pergunta enquanto me analisa do terceiro andar.
-Entrega para o senhor... Hmm.. — Busco na pequena lista de palavras pelo nome do sujeito. — Aron Sales?
Ele me analisa por alguns segundos intermináveis, algo completamente injusto, visto que de onde ele se localiza, consigo apenas enxergar cachos castanhos lhe cobrindo a testa e um peitoral esguio por baixo da camisa preta apertada.
-Achei que era o Daniel que trazia encomendas para esses lados. — Ele disse, finalmente quebrando o silêncio na rua deserta.
-Sim, é que ele, hm... Sofreu um pequeno imprevisto.
O estranho fica em silêncio por mais alguns segundos e de repente desaparece da pequena varanda onde estava.
Caramba.
Quando recomeço a pensar na minha decisão de ficar ali para evitar problemas no trabalho, ouço o barulho de correntes sendo puxadas e a porta a minha frente se abre, relevando o dono de impactantes olhos verdes.
Ele absorve os detalhes do meu rosto descaradamente, e tento pensar em algo para dizer antes que me sinta começando a corar.
-Então, aqui está. Obrigado pela preferência. — WTF?, não era bem isso que eu imaginei.
Ele levanta uma das sobrancelhas no momento em que pega a caixa das minhas mãos. Um canto de sua boca se curva para cima, seus olhos verdes refletindo a expressão confusa estampada em meu rosto. Sem mais ideias sobre o que fazer, me viro para a rua e começo a me afastar do beco vazio, sentindo seus olhos queimando sobre mim até poder virar a esquina e soltar o ar que nem percebi estar prendendo.
Belo começo para uma manhã de trabalho em pleno sábado.

Notas finais
Ticharamm! Fim do primeiro capítulo! Comentem aqui em baixo o que vocês acharam, vou adorar poder ler suas opiniões. De qualquer modo, até o próximo capítulo! Beatriz.