Truques Mortais

18 Quando a Morte Conta Uma História - Parte 2


Notas iniciais
Juro que tentei trazer este capítulo antes, mas foi impossível. Mas vamos lá... Queria agradecer a belíssima recomendação que The girl who reads books deixou para Truques Mortais, fico muito grata e feliz por saber que gosta tanto desta história. Queria agradecer também a todos os outros que acompanham esta fanfic, vocês são um grande incentivo, de verdade. Agora, sem mais delongas, vamos ao capítulo.

— Andei olhando sua ficha, Sr Vitorino. — O professor Edgar falou — Devo admitir que estou muito impressionado. Seu histórico é impecável. Teve passagens pelos teatros de Londres, Nova York, Atenas, Rio de Janeiro e Itália.

Scott cruzou os braços erguendo as sobrancelhas de leve.

A alguns dias atrás Scott fizera uma pequena visita ao professor Edgar Muller, um de seus professores da faculdade. Edgar era professor de Interpretação Dramática. Aparentemente tinha uns quarenta anos. Era um professor muito importante naquele curso e até mesmo grande amigo do atual reitor.

— Suponho então que está aceitando a minha proposta. — Scott sorriu.

O professor levantou os óculos que escorregavam pelo nariz comprido.

— Isso não fazia parte dos planos, mas... — Ele suspirou maneando a cabeça — Durante a pesquisa só vi críticas excelentes das apresentações de William Vitorino. Ele era algo até... Inspirador. Espero que tenha herdado o dom de seu pai Sr Vitorino. Agendei sua apresentação de Ilusionismo para o mês de Agosto, assim que formos começar os ensaios da peça no teatro.

Ajeitando a blusa social o professor segurou com mais firmeza sua pasta e se virou para ir embora, mas antes que sumisse de seu campo de visão Scott o chamou.

— Sim? — Edgar se virou.

— Posso escolher alguns alunos para a apresentação?

— Não vejo nenhum problema. Se eles aceitarem, é claro!

A figura magra de Edgar desapareceu no corredor entre os alunos.

— Eles vão aceitar. — Scott falou sozinho antes de entrar na sala.

A sala estava movimentada. Brian Roberts, o coordenador do curso, estava falando algo. Scott seguiu pelas fileiras analisando os alunos. Ela não estava lá, mas a ausência de Jennifer não poderia ser tão importante. Afinal, John Oxford, Louise Martins, Christopher Sullivan, Thereza Morgan e Lúcia Smith... Estavam todos presentes. Pequenos alvos, grandes objetivos... Todos os cinco estavam presentes em sua lista negra. Poderia escolher a dedo quem seria o próximo.

Sentando-se na quarta fileira Scott olhou para aquele rapaz de cabelos castanhos, ele o encarava desde que entrara na sala, sério. Scott podia ver a raiva em seus olhos. Era o mesmo rapaz que entrara em seu quarto pela noite enquanto estava com Jennifer. Scott ainda não havia prestado muita atenção nele, nem sequer sabia seu nome ainda... Mas... Era óbvio que ele seria um problema.

Tinha algo naquele rapaz que lhe era muito familiar, mas não conseguia descobrir oque.

— Para os alunos que chegaram agora — O coordenador elevou a voz — O motivo dessa minha visita se deve ao fato dos estranhos desaparecimentos no Campus. Já temos um total de onze alunos que sumiram. O Reitor exigiu que vocês a partir de hoje seguissem para o Teatro! Todas as suas aulas até o final do ano ocorrerão lá. Alguns seguranças chegarão em breve para tornar o local mais seguro e, que fique claro que agora teremos nosso toque de recolher! Se às dez da noite vocês não estiverem em seus dormitórios serão escoltados até ele, mas não antes de responderem algumas perguntas para o detetive da polícia local de Refúgio Místico.

— Então está insinuando que a pessoa por trás de todos esses desaparecimentos seja um aluno? — Sandra Guiller perguntou em um tom ressentido.

— Queira me desculpar senhorita — O coordenador falou para ela — Mas enquanto não tivermos nenhum indício, nenhuma prova de quem esteja fazendo isso... Todos somos suspeitos.

Scott queria poder se levantar e dizer em alto e bom tom que nunca descobririam. Queria poder dizer que nada o impediria. As pessoas iriam continuar sumindo, uma a uma, não importa a maneira, não importa o método que o reitor ou a polícia resolvam utilizar. Mesmo que a universidade fechasse, ele caçaria como um ceifador cada um que em seu desprezível sangue carregava a ressurreição de seu pai.

— Mas e essa aula? Onde está a professora Rhodes? — Um outro aluno perguntou cortando o silêncio da sala.

O coordenador o procurou na multidão e seus olhos se apertaram.

— Estão liberados — Falou — A senhora Diana Rhodes pediu desculpas por não estar em condições de dar aula... Sua irmã mais nova é uma das alunas desaparecidas.

Scott estreitou os olhos. Irmã? Se isso fosse verdade ele...

— Desculpe coordenador, mas... Qual o nome desta aluna, digo, a irmã da senhora Rhodes... Como se chama? — Scott perguntou.

— Dolores Greymark... Este é o nome de sua irmã.

Scott se enconstou na cadeira, as mandíbulas contraidas. Lola Greymark.

A família Greymark havia sido uma das principais razões da morte de seu pai. A professora conseguiu lhe passar a perna com seu sobrenome Rhodes que possivelmente vem de um suposto marido, mas agora que ele sabia... Agora que sabia que Diana Rhodes era uma Greymark a lista aumentou. Os alunos já poderiam ir se acostumando a ficarem sem suas aulas a partir de hoje.

O coordenador se retirou da sala como um robô de terno e gravata. Parecia estar fazendo o mesmo já a algum tempo. Parecia cansado e impaciente, talvez até triste...

Com a sua saída os alunos se levantaram rapidamente de seus lugares. Saindo da sala já que pelos próximos trinta minutos não teriam aula nenhuma.

Scott permaneceu sentado, os olhos fixos em Christopher Sullivan, seu mais novo alvo. O rapaz anotava alguma coisa no caderno, provavelmente o número do celular de Elena Grey que acabara de se levantar. Christopher era neto de James Sullivan, um nomeado executivo do Sul da França. James Sullivan era grande amigo de seu pai. Na verdade, fora William Vitorino quem fizera de James quem ele é hoje. Scott não conseguia entender como essas pessoas, depois de tudo que seu pai fizera a elas, tiveram coragem de o destruir tão perversamente.

Christopher se levantou da cadeira. Tinha em torno de um metro e noventa de altura. Nos seus tempos vagos gostava de ficar pela quadra jogando basquete. Tinha grandes transtornos de raiva devido ao excesso de drogas que consumia pela noite. Pela manhã se encontrava com Darlene Turner, pela tarde com Madelaine Stone e pela noite, fora da universidade, ficava com Sofia White. Scott sabia muito sobre ele, na verdade, Scott sabia muito sobre todos cujo o sangue deveria ser derramado em nome de seus parentes.

Scott se levantou silenciosamente. Os olhos fixos em Sullivan enquanto descia pelas fileiras de mesas da sala de aula. Pelo fato da sala estar parcialmente vazia Scott o alcançou sem nenhum problema. Estava bem atrás dele, abaixo do arco da porta aberta para o corredor tumultuado. Scott esticou a mão para tocar o ombro de Sullivan, mas alguém fizera isso consigo primeiro.

Christopher Sullivan saiu pela porta com o caderno na mão e nenhuma preocupação em mente. Scott por outro lado suspirou pesadamente enquanto abaixava a mão e se virava para ver quem o havia atrapalhado.

— Onde ela está?

Scott o encarou. Era o mesmo rapaz da noite passada. Apesar da raiva que era notoriamente visível em seu rosto Scott riu da situação.

— Do que está rindo? Perguntei onde está Jennifer!

Pondo as mãos nos bolsos da calça Scott suspirou.

— Jennifer está dormindo. A noite foi longa, deve estar cansada. — Scott sorria de canto. Sabia que não estava mentindo, mas também sabia o que o rapaz a sua frente pensava de tudo isso... Provavelmente estava o xingando mentalmente. Seus dentes estavam trincados e as mãos fechadas em punho.

— Olha aqui... — Ele falou — Eu não gosto de você! Jennifer achava que você sabia de algo sobre sua amiga... Não faz sentido vocês dois estarem...

— Dormindo juntos? — Scott perguntou erguendo as sobrancelhas.

— Não estamos dormindo juntos! — Falou alguém atrás de si.

Scott balançou a cabeça sem olhar quem era.

— Acabou com toda a diversão Jennifer.

O rapaz olhou furioso para Scott, mas passou por ele e foi direto ao encontro de Jennifer.

Scott então se virou para ela. Estava normal, como todos os dias. Foi então que Scott começou a se perguntar se ela escondia algo tão bem quanto ele. Era óbvio que ela não tinha visto coisas boas no mundo dos mortos... Deveria estar no mínimo apavorada... Mas não... Ela estava normal. Pelo menos fingia estar e... Como ela fingia bem.

— Jennifer — O rapaz pegou seus braços com um suspiro de alívio — Estava preocupado. Você perdeu a primeira aula e...

— Mentindo para ela? — Scott balançou a cabeça enquanto o iterrompia — Não tivemos aula nenhuma... Ela não perdeu nada.

Jennifer o ignorou.

— Está tudo bem Josh, perdi a hora, só isso...

— Se me dão licença — Scott seguiu até os dois — Não tenho tempo para ser desperdiçado.

— Espera — Jennifer se desvencilhou de Josh para puxar Scott — Preciso falar com você.

Scott a examinou. Agora ele podia ver o desespero que tanto procurava em seus olhos. Podia ver o que via todos os dias pela manhã quando se olhava no espelho. Podia ver o anjo e o demônio, ambos aprisionados naqueles olhos repletos de medos e amarguras. Repleto de histórias que se destacavam alucinadas para que alguém as ouvisse.

Scott olhou nos olhos dela e por um momento viu a si mesmo e... Isso doeu. Doeu tanto quanto um corte profundo, tanto quanto uma palavra mal dita, doeu tanto quanto um segredo exposto, tanto quanto uma palavra não dita.

Ele havia feito aquilo com ela. Ele havia levado aquilo até seus olhos. Ele a destruiu como fez com Lola ou com a garota da festa. Porém, a única diferença é que ela era a primeira pessoa cujo ele destruía sem ser de forma física, sem derramar sangue. Ela era a primeira pessoa cujo ele destruiu e que lhe causou dor. Scott não desejava aquele olhar a ninguém, muito menos a ela.

Não desejava... Mas... Ele dera atenção demais para Jennifer desde quando chegara a Refúgio Místico. Ele se permitiu ao menos por alguns instantes esquecer de seu dever simplesmente por estar com ela. Ele não a afastou quando na verdade sabia como o fazer. Daí então ele matou sua melhor amiga e a permitiu entrar em seu mundo... Um mundo de trevas onde a mentira é boa e a verdade é ruim. Um mundo onde quando se entra... Não se esquece jamais, pois é um mundo que te segue de sonho em sonho, até restar só pesadelos e os pesadelos te deixarem sequer o medo... Só o vazio.

— Não é a primeira vez que me diz isso — Scott falou olhando para ela num tom levemente entretido.

Ela balançou a cabeça olhando para o chão como se fosse chorar ali mesmo.

— Porque faz isso? — Ela perguntou com a voz elevada pelo desespero — Porque finge que nada aconteceu? Porque ri das coisas se sabe que elas estão em seu pior estado? Será que você só pensa em você?

Scott uniu as sobrancelhas, os olhos escuros e estreitos focados nos olhos brilhantes de Jennifer. Podia ver Josh confuso bema trás dela, mas não se importava com a sua presença insignificante.

— Eu prometo que irei te responder — Scott falou quase num sussurro — Assim que você fizer a si mesma todas essas perguntas. Daí então... Quando tiver as respostas... Venha me encontrar.

Ela suspirou olhando para ele com um leve brilho de raiva nos olhos. Daí então ele se virou para seguir pelo corredor.

— Está me dizendo isso — Ela falou o fazendo parar de andar — Só porque sabe que nunca te darei estas respostas.

— Então acredito que já deve saber que também nunca te darei as minhas.

E assim ele sumiu pelos corredores como sempre fazia.

— Ei — Jennifer ouviu Josh atrás de si — O que houve? Quer conversar?

Jennifer se virou para ele com um sorriso fraco e os olhos marejados.

— Eu não sei mais o que fazer — Sua voz saiu trêmula e ela pode sentir as lágrimas descendo pelo seu rosto.

Josh a abraçou firme sem dizer nada durante um bom tempo. Daí então ele pegou seu rosto com as mãos fazendo com que ela o olhasse.

— Vamos sair daqui... Você não está nada bem.

— Foi isso que ela me disse... — Jennifer falou para o vento enquanto olhava para as próprias mãos já trêmulas.

Josh a olhou confuso.

— Do que está falando? Quem te disse isso?

— E-eu não devia ter saído de lá... Não deveria estar aqui — Continuou ela enquanto mais lágrimas desciam.

Josh a segurou pelos ombros.

— Ei, me escuta! — Ele chamou sua atenção — Eu quero te ajudar, está bem? Mas primeiro eu preciso saber o que está acontecendo. Venha — Ele limpou seu rosto com o polegar — Pare de chorar, se acalme e vamos sair daqui... Seja lá o que tiver acontecido... Você é Jennifer Green, o pilar principal dos alunos. Não vai querer que ninguém te veja assim, não é? Venha... Vamos sair daqui.

Jennifer seguiu com Josh Myers pelos corredores do prédio. Ele falava com ela, mas ela estava distante, seus pensamentos aturdidos se encontravam todos voltado para aquele dia que tanto a atormentava.

20 de Novembro de 2010 – Los Angeles, Califórnia.

— Ai que ódio do Rafael! — Eliza resmungou sentada à mesa da lanchonete. Jogara o celular de qualquer forma no banco ao seu lado.

Jennifer a encarou por alguns segundos antes de perguntar.

— Ele não vem?

— Parece que não — Respondeu Eliza — Não consigo falar com ele. Está caindo na secretária... Deve estar jogando algum daqueles jogos idiotas.

— Ah.

Desde o começo que Jennifer sabia que seu amigo Rafael Salles não estaria presente. Afinal, ela não o havia convidado como dissera que tinha feito para Eliza. E, se ela não conseguia contata-lo pelo celular isso se devia ao simples fato de Jennifer ter retirado o chip do celular de Rafael na noite passada em sua casa enquanto ele buscava suco para beberem.

Eliza Salles, apesar de ser irmã gêmea de Rafael tinha pouca coisa em comum com ele. Ambos eram ruivos de olhos azuis, mas Eliza tinha traços mais delicados enquanto Rafael traços mais fortes. Enquanto Rafael supria um medo terrível por motos, Eliza adorava sair na garupa da moto de um cara. Eliza era uma rebelde sem causa, Rafael era centrado demais para tal personalidade.

— Mas e a Juliet? — Eliza perguntou fitando Jennifer com seus grandes olhos azuis — Você disse que ela viria.

— Ela me mandou uma mensagem enquanto você tentava ligar para o Rafael — Mentiu Jennifer — Ela não vai poder vir, parece que ficou de castigo por ter dormido fora ontem a noite.

— Esses dois são incríveis, marcam as coisas e no final não vem!

— Pois é — Jennifer deu de ombros — Já que somos só nós duas que tal irmos até aquela loja nova olharmos umas roupas?

Eliza se remexeu no banco.

— Tudo bem, deixe só aquela atendente lerda trazer o meu hambúrguer.

Jennifer assim fez. Sentada de frente para sua amiga de classe ela esperou que seu lanche chegasse, talvez com mais desejo do que a própria Eliza. Estava nervosa, ansiosa. Lutava para controlar o tremor nas mãos e conter atos imperdoáveis em meio a tantos olhares.

Jennifer nunca havia feito nada disso antes, mas tinha algo destroçando seu interior, alguma voz gritando em sua cabeça a deixando desnorteada. E ela tinha certeza absoluta de que Eliza era culpada por isso... E, tinha mais certeza ainda de que se a matasse iria se livrar de todas aquelas vozes e atos que ela não conseguia controlar. Daí então ela tinha certeza de que seu irmão Rafael Salles finalmente saberia o que era perder alguém importante... Só então ele saberia como ela se sentia.

Quando saíram da lanchonete Jennifer tratou de seguir o caminho correto. A loja nova, próxima o estacionamento do shopping, se encontrava num lugar não muito amigável, não muito atraente. Naquela noite ninguém passava por aquela rua estreita e escura e isso parecia perfeito. Jennifer não aguentava mais nenhum segundo, sua cabeça doía e suas mãos iam involuntariamente em direção à sua bolsa, pegando o antigo revólver que seu pai escondia a tanto tempo na gaveta da mesa de seu escritório por questões de segurança. Havia colocado um silenciador na arma... Não iria querer que ninguém ouvisse os disparos.

— Daí ele me disse que preferia pensar antes de... — Eliza olhou para Jennifer que já não andava mais ao seu lado — Jenny, está tudo bem?

Jennifer não a olhava. Estava começando a chover agora e ela não conseguia concentrar seus pensamentos. Montes de vozes a cercavam, vultos, meras lembranças que a assombravam. A mão segurava o revólver ainda na bolsa, mas já não tinha mais certeza do que fazia... Estava com medo.

— Jenny! — Eliza deu alguns passos em sua direção — Está tudo bem com você?

Quando Jennifer ergueu a cabeça Eliza deixou evidente seu olhar preocupado. A boca entreaberta sem saber o que dizer quando finalmente...

— Seu rosto... — Falou ela se aproximando mais — Jennifer, você está com o rosto todo cortado... O que aconteceu?

A chuva, pensou Jennifer, a chuva devia ter retirado sua maquiagem... Os cortes eram visíveis agora.

Mate logo dizia uma voz em sua cabeça Não deve confiar em mais ninguém agora. Nunca! Se não a matar agora ela irá fugir... Te incriminar e finalmente te destruir. Estão todos contra você Jennifer, ninguém se importa, tudo isso... Tudo isso é uma mentira! Mate ela ou então você será morta... Mate!

— Não — Jennifer falou baixo passando a mão pela cabeça. A voz ficava mais alta e a deixava aflita.

— Jenny! Pelo amor de Deus o que...

— O coveiro... — Falou Jennifer voltando a encarar Eliza. — O coveiro quem fez isso no meu rosto.

Eliza Salles parecia aturdida.

— O que? Mas porque um coveiro faria isso com você?

— Eu precisava tirar ela dali, eu precisava. — Jennifer falou baixo

— Precisava tirar quem da onde? Jennifer, está me assustando.

— Minha madrinha — Falou Jennifer deixando algumas lágrimas caírem — Ela não queria ser enterrada ali... Ela... Ela me falou... Eu precisava tira-la dali... Mas ele, o coveiro, ele não me deixou fazer isso... Daí eu tive que... Eu tive que mata-lo!

Eliza arregalou os olhos dando lentos passos para trás.

— Seus pais... — Eliza falou — Eles me disseram que você tinha melhorado... Já faz um ano Jennifer! Já faz um ano que Leonora morreu! V-você... Você deveria voltar para a clínica e...

— Cala a boca! — Jennifer gritou puxando a arma de dentro da bolsa. — Você não entende? Será que não entende que eu perdi a única pessoa que se importava comigo realmente? Será que não percebe?

Eliza levantou as mãos trêmulas enquanto se afastava ainda mais.

— Jennifer, se acalma... Sua madrinha se foi... Tem que superar e...

— Como se supera uma perda? Hein? Seu irmão me disse a mesma coisa! Mas sabe o que acontece? Vocês não sabem o que é perder a pessoa de mais valor em suas vidas! Mas eu sei... Eu sei que a partir de hoje seu irmão saberá...

— Não! — Eliza gritou caindo de joelhos — Não Jennifer, por favor... Não faça isso... Se... Se fizer isso vai estragar não só a vida da minha família como a sua também! Por Deus... Não faça isso.

— Deus não olha por mim Eliza, ele não teve a menor piedade... Ele não... Ele me abandonou como todo mundo. E, se eu te matar... Não irei estragar minha vida... A minha vida não vale mais nada mesmo!

Eliza chorava incontrolável com as mãos erguidas clamando por piedade, mas as vozes na cabeça de Jennifer falavam mais rápido. Daí tudo aconteceu. Sua mão segurou com força o revólver. E sem hesitar seu indicador pressionou o gatilho uma, duas, três... Sete vezes.

A chuva engrossou caindo sobre o corpo agora quase irreconhecível de Eliza. Jennifer respirava ofegante enquanto guardava o revólver novamente e sumia ás pressas pela escuridão da rua.

2013 – Refúgio Místico

Scott estava ali a bastante tempo. Encarava o seu reflexo no espelho do banheiro, sem expressão. Procurando encontrar a salvação em seus olhos, mas olhando para si mesmo tudo que ele via era nada... E, nada era basicamente muita coisa.

Ele transformara muitas pessoas em nada. Matando-as sem se importar com consequências. Toda aquela guerra na qual se encontrava era irônica, afinal, ele matava para dar a vida a alguém novamente, ele matava pela vida. Era certo que ele era um assassino frio e calculista, mas nem alguém como ele suportava a ideia de ficar sozinho no mundo. E, ele só conseguia pensar em sua mãe... Ela o odiava. Ela o odiava por fazer o que fazia, mas será que ela não via que ele fazia isso por ela? Será que ela não sabia a falta que ela fazia? Será que ela não sabia o quanto estava sendo difícil para ele também? O quanto era difícil para ele ver pessoas felizes, ver uma família completa, será que ela não sabia o quanto era difícil para ele poder ver o mundo?

Uma lágrima desceu pelo seu rosto, tão solitária quanto ele. Daí então veio mais uma e ele se recusou a observar sua fraqueza. Com a mão fechada em punho ele acertou o espelho com tanta força que um dos pedaços de vidro chegou a atingir o seu rosto, fazendo um corte pequeno e artificial próximo ao nariz.

A raiva queimava em seus olhos e em seu corpo. Raiva de sua mãe, raiva de seu pai, raiva de Jennifer e por fim raiva de si mesmo. Seu braço passou pela bancada da pia com força derrubando tudo que nela estava. Seus joelhos fraquejaram e ele sentou-se encostado à parede.

2012 – Londres

— Ei — Jonathan, seu meio irmão surgiu no corredor do hospital — Pare de desonrar sua memória! Não chore pela morte de nosso pai, ele não iria gostar disso.

Scott levantou os olhos para encarar Jonathan. Ele não parecia triste, apenas com raiva. Scott havia acabado de sair da sala de emergência. Não conseguira chegar a tempo de ver seu pai com vida. Aquilo o abalara... Nunca imaginou que seu pai morreria de tal forma... Nunca imaginou em como seria se seu pai estivesse morto.

— Ele sabia que isso aconteceria — Jonathan continuou — Por isso me pediu para que quando morresse eu entregasse três coisas a você.

Jonathan puxou um envelope de dentro de seu sobretudo. Um envelope pardo grande e parcialmente cheio.

Scott tomou o envelope de suas mãos abrindo-o imediatamente.

Eram folhas e mais folhas, lista de nomes e endereços. Históricos e cópia de documentos. Fotos de pessoas que Scott desconhecia.

— O que é isso tudo? — Scott perguntou olhando para uma das fotos. Um homem esguio de cabelo ralo e barba por fazer. Sua ficha dizia que seu nome era Sebastian Miller... Casado com Helena, os dois tinham apenas uma filha. Holly Miller. — Quem são estas pessoas?

— Aí dentro você vai encontrar uma gravação que lhe explicará tudo. — Johnathan deu de ombros.

— E as outras duas coisas?

Jonathan riu

— Nosso pai pediu que eu o entregasse apenas quando estivesse pronto. Quando ver a gravação saberá... — Jonathan mais uma vez puxou algo de dentro do sobretudo. Dessa vez um pequeno papel.

Scott pegou encarando confuso.

— Uma passagem para Refúgio Místico?

— Isso... — Jonathan falou — Uma passagem só de ida para Refúgio Místico... Para Dezembro.

2013 – Refúgio Místico

Scott se perguntava qual seria a última coisa que faltava ser entregue a ele. Sabia que a primeira eram as listas das famílias que deveria destruir, a segunda era a pluma que só fora receber quando chegara na ilha, mas a terceira... Não fazia ideia do que seria... Na gravação seu pai não havia mencionado nada sobre isso. Provavelmente estava envolvido em algo maior do que imaginava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.