Truque de Ladrões
1 00. A face da inocência carrega uma pedra negra
Notas iniciais
O familiar batuque do couro entre os pedregulhos da calçada ressoava uma solitária marcha em meio aos becos desolados.
A chuva que piorara durante os últimos meses apenas agregava valor à ardilosa cena que discorria sobre a via, enquadrando a cada canto um aglomerado considerável de barro e dejetos que serviam como obstáculos e muitas poças densas que abrigavam profundos bueiros. Em cada quarteirão um poste de tamanho médio tremeluzia com uma luz azul fluorescente antinatural, obrigando o homem em marcha apertar o passo e tornar os olhos a mãozinha fria que agarrava seu casaco aveludado. Felizmente, ela ainda estava lá.
Soube que chegara a seu destino quando notara que os paralelepípedos das calçadas cederam lugar à lama úmida, praguejando por seus saltos atolarem no lodo e quase derruba-lo; ao se recompor analisou a figura magricela que o segurava, indiferente ao terreno perigoso abaixo de seus pés. Com a ausência dos postes, o pouco que conseguia observar era um chumaço de cabelos sujos encaracolados e um par de olhos castanhos, caracterizando uma aparência quase cômica a seu corpo magro. Conjecturou a possibilidade de ter capturado a criança errada, expressando sua frustração conforme apertava os ombros do garoto indelicadamente. O ato não fora capaz de fazê-lo se encolher ou reclamar, entretanto.
Sombras dançaram entre as poças, revelando a presença de três silhuetas envoltas em grossos casacos negros, uma delas se distinguindo por usar cartola. O soldado não esperou que as figuras se revelassem, empurrando a criança sobre a lama apressadamente em direção à poça maior. Sentiu que suas mãos exibiram um leve tremor perante a cena, mas disfarçou o desconforto pelo frio que penetrava o seu manto carmesim.
— Aqui está o garoto. –Quebrou o silêncio de forma chula, segurando-se para não fugir imediatamente. Pensava que a atitude direta não fosse capaz de afetar os Navalhas adeptos as grosserias piores nos Curtumes.
A quietude que seguiu a chuva incessante fora ainda mais desconfortável do que a sensação de suas botas escorregando no barro. Nenhuma das sombras se movera e a criança permanecia estática, quase hipnotizada. A única coisa que fizera fora estender as palminhas para que a água escorresse entre seus dedos esqueléticos.
O soldado considerou aquele silêncio como uma sombria despedida, pondo-se a virar em retorno ao caminho que viera, quando o fez, outra figura que não tinha notado barrara sua fuga. Ao contrário dos companheiros, este exibia o rosto enquanto brincava com um isqueiro tampado.
— Qual a certeza que têm de que esse merdinha fora um dos responsáveis pelo Roubo Obsidiana? –Pronunciou a silhueta de cartola pela primeira vez. Sua voz revelava uma idade já avançada, embora o porte pouco demonstrasse.
— E-Ele não fora somente um dos responsáveis como fora o responsável... –Respondeu hesitante. Havia algo na maneira que o homem do isqueiro se comportava... Ao bem da verdade, todo aquele mistério exagerado era estranho. Compreendia que uma gangue deveria ter a devida cautela para com os membros da Guarita, mas nada tão sigiloso era necessário... Aliás, a maioria da corja de bandidos de Karp era mantida por meio dos mesmos salários destinados aos soldados...
Uma gargalhada estridente ecoou pela avenida desolada, fazendo com que o desconforto do guarda aumentasse consideravelmente. Era óbvio que eles gostariam de uma prova antes de liberarem-no.
— Admirável de sua parte considerar-me tão estúpido a ponto de acreditar que esse pedaço de ossos elaborou um plano para destruir uma das mais protegidas fortalezas de Óleo Negro da Nação! –Exclamou o velho, não compartilhando da graça de seus comparsas. – Quais são as desculpas que me dará para que não o incendeie agora mesmo?!
O homem com isqueiro de repente parou, abrindo o acessório pela primeira vez. Disfarçado pela chuva, o típico cheiro do Sangue Inflamável exalava de suas vestes.
— P-Por favor, S-Senhor! Você tem que acreditar em mim! Esse menino foi responsável por aquele incidente, posso garantir porque eu mesmo o capturei! Nenhuma das outras crianças estava suja como ele e...
— Novamente você insulta a minha inteligência com a percepção de que o garoto é o culpado apenas por estar sujo! Pelos Nove Sóis! Ele é um escroto de rua, o que esperava?! –A sombra lançou uma cusparada rigorosa entre o barro. Sua postura cada vez mais irada pinicava os instintos de sobrevivência do homem de carmesim em grandes proporções, com a covardia atiçando-o para fugir.
— Tome. –Fez-se ouvir subitamente uma voz aguda e ousada. – É tudo o que consegui.
Uma mãozinha esticou-se sobre a chuva, tão pálida que parecia brilhar em contraste a lasca de pedra negra que carregava. Os braços finos mal tinham força para levantar o objeto acima de seus olhos.
Por instantes tudo parou, trazendo um silêncio que pareceu acalentar até mesmo a tempestade. A lama não mais separava os pés das botas pesadas do soldado; as poças tampouco refletiam os contornos obscuros dos homens à frente, e até mesmo o isqueiro desabara tampado entre o barro.
— Soube que estavam procurando por isso, então eu resolvi pegar para vocês. –Continuou a criança com a mão aberta. –Agora... Poderiam me aceitar para a gangue?
A figura de cartola deixou que seu chapéu caísse, aproximando-se sem se importar em revelar as feições. Com a expressão de surpresa no rosto, seus traços o deixavam ainda mais velho do que parecia, com as rugas protuberantes dando-lhe a aparência de um carvalho. Curvou-se sem cerimonia para acariciar a pedra negra com cuidado, demonstrando a fragilidade de sua idade em despreocupação.
— C-Como... –Pronunciou hesitante, notando só então que todos haviam se aproximado para verificar a veracidade daquele acontecimento. –C-Como é o seu nome, garoto?
— Não tenho um nome, mas o pessoal do Curtume me chama de Klaos, porque segundo eles lembram Caos, que pelo que me dizem é uma coisa ruim, e outros me apelidaram de Kriger, pois significa Lucro aqui em Karp... –Respondeu de maneira afobada, vomitando as palavras desenfreadamente com medo de que alguém o interrompesse. Não tremia e sequer esboçava surpresa, ao contrário de todos, era o único que sorria.
— Pois bem, caro Klaos... –Recapitulou o idoso após consideráveis minutos observando o tesouro nas mãos da criança, percebendo, pela primeira vez, que as devidas palavras faltaram-lhe.
— E então? Estou dentro?
Não havia motivo algum para que não estivesse considerando o modo como o velho abocanhara a pedra e o envolvera em um caloroso abraço.
— Mostraremos a todos que o Lucro em seu nome não é em vão, rapaz!
Mesmo naquela idade o garoto compreendia muito bem o motivo de seus apelidos, e embora desejasse relembrar o seu novo Mestre sobre o primeiro, achou melhor não o fazer.
Afinal, caos não era uma coisa boa, pelo que lhe disseram.
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