Trunfo

14 Ômega


Anna rapidamente se levantou e tentou ler as expressões confusas dos campistas. Olhando para cima, conseguiu distinguir dois símbolos girando sobre sua cabeça: Um Tridente e uma Lira dourados.

E olhando para o lado, mais precisamente para seu ombro direito, um Ωcintilava em seu ombro, em dourado também.

Engolindo em seco e mais confusa do que qualquer um ali, ela voltou seu olhar para Quíron, desesperada.

-O que está acontecendo?

Quíron galopou até ela e ordenou que subisse em seu dorso, coisa que Anna fez sem titubear. Algo dentro dela continuava a chiar de raiva.

“É claro que isso ia acontecer!” – Gritou consigo mesma, enquanto Quíron a recrutava para longe dos murmúrios suspeitos. – “Você nunca pode ser normal, não é mesmo?”.

Anna encostou o rosto contra as costas humanas de Quíron e forçou-se a não chorar enquanto ele trotava em direção à Casa Grande. Ela viu que Jason abriu caminho entre a multidão e corria atrás deles, mesmo que um pouco atrasado.

Quíron subiu os degraus da varanda de uma só vez e entrou na Casa com Anna ainda sobre si. Chamou por Sr. D., mas este não apareceu. Em resposta aos chamados do centauro, surgiu no ar uma nuvem com um arco íris às suas costas, em que se via um Sr. D. menos entediado do que seu normal.

-Esta é uma mensagem gravada – Informou uma voz feminina computadorizada.

-Olá, Quíron! – Começou Sr. D. – Caso você esteja me procurando agora mesmo, eu não estou! Meu pai convocou todos os Deuses para uma importante reunião de emergência. Então eu tirei o fim de semana de folga! Boa sorte com os pestes.

Os lábios humanos de Quíron se retorceram levemente devido ao gênio do colega de trabalho, mas ele logo voltou a ser o chefe preocupado.

-Temos de conversar. – Disse ele, sério.

Anna assentiu, acomodando-se sobre uma mesa de pinochle que havia no centro do local.

-Anos atrás – Discursou Quíron. — O titã Cronos tentou se reerguer e tomar o controle do mundo. Logo após isso quem tentou surgir de volta do Tártaro foi Gaia, com os mesmos objetivos elevados ao máximo. Nós conseguimos deter os dois, mas essas são longas histórias. Estou aqui pra te contar outra também recente.

Anna raciocinou que Percy devia ter sido um dos grandes heróis dessas batalhas, por isso era tão famoso.

-Uma coisa que você tem de saber é que a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais não foram exatamente como você aprendeu na escola; elas na verdade foram lutas entre os vários filhos de Zeus e Poseidon contra os filhos de Hades. – Explicou. – E, ao final da Segunda, eles fizeram um tratado sobre o Rio Estige que os três grandes não deveriam ter mais filhos com mortais.

“Essa regra foi quebrada por Zeus e Poseidon, quando Thalia Grace e Percy nasceram. Caso já tenha ouvido falar de Nico, esta é outra longa história, mas ele não foi uma quebra de regras. Enfim, apesar deles terem feito o que fizeram o tratado não foi prorrogado. Desse jeito, Poseidon não poderia ter tido mais uma filha: Você.”

“Você” – A voz de Quíron ecoou na mente de Anna, e ela não pôde impedir notar um tom acusativo nela, por mais inocente que este fosse.

-Porém ele não o fez, e Apolo fez questão de deixar isso bem claro agora há pouco.

-Poseidon se enganou então? Eu não sou filha dele, afinal?

-Você não é filha de nenhum dos dois. – Respondeu Quíron, piorando a situação. – O Oráculo de Delfos, ao final da guerra contra Gaia, previu uma guerra futura ainda mais perigosa. A profecia afirmava que nem mesmo os maiores semideuses poderiam detê-la, pois no final tudo dependeria de uma só criatura. Os Deuses decidiram, então, criar a tal criatura.

“Mas ela não poderia ser semideusa, filha de apenas um Deus. Esta precisava ser poderosa como nada já visto, e aí preparada para enfrentar o inimigo desconhecido. Os Deuses escolheram uma mortal para isso, ainda bebê, e todos eles – sem exceção – depositaram uma amostra de seus poderes na menina.”

E, tocando seu ombro direito com o dedão, onde o Ω já não brilhava mais, porém estampava sua pele como uma tatuagem toda preta, ele continuou:

-Essa menina seria representada pela letra ômega (a última do alfabeto grego, que simboliza o produto final, a perfeição) e teria os poderes de todos os Deuses existentes. Batizaram-na de “Menina Trunfo”, ou só “Trunfo”.

-Parece muito legal, boa história. – Comentou Anna. – Mas eu não sou essa menina. Deve haver algum engano. Todo mundo precisa ser filho de todo mundo? As pessoas não podem ter um talento natural?

-Anna, eu peço que não se irrite com os Deuses... Nós já perdemos muitos semideuses graças a isso.

-Não me irritar? – Ela elevou a voz. – É claro que eu vou me irritar, Quíron! Eu nasci uma menina normal, que é tudo o que eu sempre quis ser, e eles simplesmente tiram isso de mim contra a minha vontade? Eles pediram permissão para os meus pais, por acaso? E o que os fizeram me escolher? Tanta gente mais ambiciosa, poxa!

-Foi por isso que te escolheram. – Ele respondeu. – Se o poder fosse dado a essas pessoas, elas poderiam destruir tanto o inimigo quanto os Deuses.

-Quer dizer então que eles destruíram minha vida por serem covardes e não conseguirem proteger a si mesmos? – Reprimiu Anna.

-Não, Anna, escuta... – Pediu Quíron calmamente.

-Escuta você! – Gritou ela, se levantando e colocando o dedo no nariz do centauro. – Eu não queria isso, eu não queria nada disso! Tudo o que eu queria era ter uma vida tediosa como uma adolescente normal! Eu nunca pedi para ser a excluída da escola, e nunca pedi para me destacar em nada! E eles não tinham direito nenhum de tirar isso de mim!

-Eles são Deuses, perdoe-os se não pensaram nisso.

-Atena não deveria ter pensado?!

-Ela a julgou inteligente o suficiente para lidar com as consequências. E não se dirija a uma Deusa desse modo.

-Consequências dos atos deles! – Reclamou, fingindo não ter ouvido a última parte da fala dele. Então soltou um longo e receoso suspiro, se sentando novamente. – Eles não podem trocar de pessoa?

— Já é tarde demais, e tenho certeza de que eles sentem muito por não ter-lhe dado opção.

Brava, ela se botou de volta em pé e mordeu o lábio inferior, encarando Quíron com desprezo e decepção.

-Eles vão sentir muito quando eu tiver de salvar a pele divina deles, isso sim! – Chiou ela, esfregando com raiva o ombro. – Porque, se eu tiver de lutar, é pelos filhos amigáveis deles. Por Jason, Percy, Nico, e todo mundo que eu conheci que presta!

Quíron abriu a boca para rebater, mas desistiu quando Anna cerrou os dentes e, virando de costas, deu o primeiro passo em direção à porta de saída. Sua voz virara um murmúrio.

-Eu não luto por Deuses covardes. – Disse, quase que para si mesma. – Se é para morrer em batalha, que seja uma com propósito.

Notas finais
Curiosidade morta? Não? Sim?
Continuem acompanhando!