Trunfo

28 Pobre Bella


O brilho de orgulho e admiração nos olhos de Jason durou pouco. Esforçando-se para enxergar o caminho que seguia a barraqueira, acabou ouvindo a voz de Valerie antes que conseguisse concluir por si mesmo.

“Não.” – Ele rugiu em seus pensamentos.

Deixou a dor atingi-lo uma última vez, e então se obrigou a esquecê-la e se levantar. Respirava com dificuldade, mas era apenas isso que sentia. Quase nada além de raiva. Esta o moveu um passo à frente, mas sua caminhada logo foi interrompida por uma mão fraca, porém decidida, que envolveu sua canela.

-O que pensa que está fazendo? – Anna o reprimiu, erguendo os olhos até o azul dos seus.

-Vou consolar a novata. – Mentiu Jason, desviando o olhar.

-Não soa receptivo quando você diz isso com os dentes cerrados. – Retrucou Anna.

-Você não concorda que não é uma boa ideia ter Bella perdida na floresta novamente?

-Deixe-a em paz, Jason... – Pediu ela, alcançando sua mão e o puxando para baixo. Procurou em seus olhos sinais de compaixão por Bella, mas nada viu além de um Jason que nem sequer estava concentrado no que ela dizia.

Suspirando, Anna o aconselhou a ser bondoso e soltou sua mão. Jason assentiu seriamente e fez surgir um sorriso em seus lábios rosados. Antes que Anna pudesse tentar sorrir de volta, Quíron trotou para perto deles, ignorando os campistas fofoqueiros e perguntando diretamente a Anna o que acontecera.

Jason saiu correndo antes que tivesse de dar explicações a Quíron também.

“Hahaha!” – Riu malignamente a voz feminina em sua cabeça. — “Eu te avisei, Jason, da encrenca que ela causaria.”.

Parando no começo da floresta para respirar o mais fundo que podia, Jason seguiu diretamente até a Clareira. Felizmente para os dois, ele não encontrou Bella aos seus arredores. Decidido a exigir desculpas e desvendar o problema daquela menina, caminhou por mais vários metros floresta adentro, despreocupado com outra coisa além de achá-la.

Não o fez. Ao invés disso, se encontrou perdido e cansado no meio de uma floresta densa e ainda mais escurecida pela noite. Praguejou, encostando-se a uma árvore e descansando.

“Talvez, se eu dormir aqui, consiga achar o caminho mais facilmente amanhã”- Pensou.

Mas o mundo é pequeno demais, e dois minutos depois Bella passou na frente dele, sem notá-lo. Decidiu descansar algumas árvores à frente, choramingando e se deixando cair sobre a raiz do vegetal.

Seu choro era baixo e perturbante; penetrava os ouvidos de Jason como um ruído molhado em tristeza e irritação. Ajoelhou-se atrás da árvore e ficou observando com apenas a cabeça saindo detrás do tronco.

Por quase cinco minutos Bella derramou lágrimas naquele tom, escondendo a face nos joelhos dobrados.

-Bella Algar, sua idiota. – Falou mal de si própria, gaguejando. – Controle-se.

Visivelmente perturbada, Bella se levantou em um flash e socou a árvore com uma força descomunal. Ela gritava, fechando os olhos como se os gritos fossem apagar suas memórias.

-Ahh! – Rugiu ela, com todas as suas cordas vocais. – Não, não, não!

Uma ninfa amedrontada surgiu da árvore e saiu correndo o mais rápido que pôde de perto de Bella. Esta começou a olhar feio para todas as árvores a sua volta, seu rosto vermelho e suas lágrimas escorregando em seu queixo. Jason voltou sua cabeça para trás do tronco, aflito de que ela o enxergaria.

No entanto Bella estava triste demais para se preocupar com aquilo, então se deixou cair sobre os joelhos novamente e chorou mais.

Jason tentou resistir, mas algo em seu coração o obrigou a aceitar o choro da garota como um pedido de desculpas substituto, e algo em todo o seu ser o moveu até ela e tocou suavemente em seu ombro.

Bella estremeceu e quase assumiu posição de luta, mas percebeu a tempo que era Jason, e que o garoto não queria guerra. Parou de chorar e esfregou o nariz, desviando o rosto inchado da vista do filho de Apolo.

-Quer explicar alguma coisa? – Ele sugeriu, sentando-se ao lado de Bella. Ela apenas negou com a cabeça e se afastou dele. Ignorando a distância, Jason prosseguiu. – Não é uma boa ideia começar a vida num lugar novo cheio de segredos.

Lembranças de sua própria chegada ao Acampamento passaram por sua cabeça e ele concluiu que não seguira o conselho. Pensou em brincar e perguntar se Bella já matara alguém, mas por um momento ficou com medo da resposta e desistiu.

Ela sorriu cruelmente para si mesma e tomou coragem para encarar o colega.

-Você não quer saber... – Duvidou ela.

-Sim, eu quero. – Respondeu.

-Quantas vezes você já mudou de escola? – Bella perguntou.

Jason teve de fazer as contas, mas enfim respondeu que já estudara em cinco escolas, antes de chegar ao Acampamento e lá ficar o ano todo.

-Bem... – Continuou Bella. – Eu já estive em 35.

-O que?! – Ele não conseguiu engolir a exclamação.

-Trinta e cinco. – Repetiu. – Quer saber por-

-Sim. – Respondeu ele, prontamente.

-Sabe bipolaridade? Aquilo que todo mundo usa como expressão e acha engraçado? Então... Ela na verdade é uma doença, e não é nada bacana.

Seus neurônios lentamente captaram a mensagem, e assim Jason soltou outra exclamação. Bella riu de sua expressão e retomou:

-Os médicos dizem que meu caso é leve; acontece graças a pequenos motivos que seriam insignificantes para o meu lado calmo. Mesmo assim ainda não arranjaram uma cura. – Ela contou. – Eu mudava mais de escola do que de roupa...

-Sinto muito. – Jason lamentou verdadeiramente, aproximando-se de Bella, que se encolhia ainda mais e abraçava as próprias pernas em sinal de solidão.

-Nunca dava tempo de arranjar amigos, porque assim que alguém se aproximava eu criava confusão e fugia.

Triste pela menina doente, Jason enrolou um braço seu sobre os ombros de Bella, desconfortavelmente pensando em Anna. Bella era quente até demais, porém seus pelos se erriçavam só de chegar perto de sua pele.

-Estou cansada de fugir. – Reclamou Bella, com um último suspiro. Jason se juntou a ela, lembrando trágica e melancolicamente de sua própria história. – Você pensa que pode mudar... Recomeçar. Mas isso é só conversa da mídia.

-Tem tanta certeza de que não se pode tentar novamente? – Questionou Jason, lembrando-se dos bons tempos que passara até então no acampamento, e como aquelas memórias quase omitem as anteriores.

-Alô? 35 colégios!

-Bah! Escola nunca é muito fácil para semideuses... Porém isto aqui... – Ele ergueu os braços e indicou basicamente o acampamento inteiro. Sorriu. – Isto aqui é.

-Falando assim até parece que estamos dentro de um filme. – Ela sorriu desafiadoramente.

-Ah é? Pois saiba que eu posso provar que pessoas podem recomeçar. – Insistiu Jason, cutucando seu ombro. – Inclusive você.

Bella riu como se Jason fosse uma criança com sonhos e esperanças muito altos.

Notas finais
Pergunta interativa:
-Algum chute do que o menino Londrino aprontou antes de chegar ao acampamento?