Trunfo

6 Lindos olhos


Anna pôde perceber o quanto o menino estava certo sobre o fuso horário quando reparou no estado final de seu jantar. Quando foi que o dia havia escurecido?

Com a bandeja balançando pelo peso do copo de um lado, dos talheres do outro e do prato cheio no meio, ela não sabia se olhava para frente ou para a comida.

Jason foi à frente abrindo o caminho entre todos os outros campistas vindo pela direção contrária, ou mesmo pela mesma direção; e Anna o seguiu desajeitadamente. “Metade Deusa, hein?”...

Metade do percurso foi quase calmo, graças ao filho de Apolo em sua frente; mas a partir de certa mesa, as coisas ficaram complicadas.

–Oi Jason. – Cantarolou uma garota da mesa quando eles passaram. Seus cabelos eram incomumente brancos e lisos, caindo longos por suas costas até os quadris. Sua voz era bonita, também.

–Ah, oi Marylin. – Ele a dá um sorriso amarelo, e equilibra a bandeja em uma só mão para apontar para Anna. – Essa aqui é a Anna... Ela chegou ontem.

–Ah, sim. Ela é a brasileira machucada. – A menina fingiu sorrir ao se virar preguiçosamente até Anna. – Dormiu bem, Bela Adormecida?

Anna olha para baixo, envergonhada. Ninguém havia comentado nada com ela, portanto presumira que havia chegado à tarde daquele dia. Foi isso que contou à Marylin.

–Enfim, meu nome é Marylin. – E a garota muda seu tom de voz para um malicioso. — Eu sou filha de Nêmesis, amiga de Jason.

–Prazer conhecê-la, eu sou Anna. – Anna fingiu não entender a indireta.

Jason acena levemente e avisa que está ocupado e tem que ir.

–Bom apetite. – Anna se despediu educadamente.

Mal deu ela um segundo passo para longe da mesa, e Marylin logo pôs o pé em sua frente. Anna ouviu as risadas vindas de suas amigas quando sua bandeja saiu voando de suas mãos e estacionou nas costas de Jason. Por sorte ela conseguiu colocar as mãos na frente do rosto ao alcançar o chão. Anna ainda não estava totalmente curada da luta anterior.

–Opa. – Marylin confirmava que nada daquilo fora um acidente.

Jason não parece ligar para o espaguete em seus cabelos loiros, suas costas e pescoço, e se vira até Anna para ajudá-la a se levantar.

–Qual é o seu problema, Marylin? – Ele gritou com a causadora da confusão, mas não lhe deu tempo para fazer mais nada a respeito, pois Anna já levantava – sem sua ajuda – e afirmava estar bem.

–Tá tudo bem, foi um acidente. – Ela dizia apesar de seu olhar dirigido à Marylin dizer o contrário.

Depois de muita insistência e vário campistas circundando-os, Jason cedeu aos pedidos de paz de Anna. Porém eles foram até os chalés, ao invés da mesa.

–Então esses são os famosos Chalés... – Anna quebrou o silêncio que se prolongara desde o afastamento da mesa até ali.

–Pois é. Eu estava os guardando para o final do tour, como surpresa, mas enfim... – Jason coça a parte de trás da cabeça e iniciou a explicação sobre os chalés. Anna o interrompeu.

–Depois você explica, vai trocar de roupa agora! – Anna riu, empurrando-o com nojo fingido. Jason se virou e fingiu querer abraça-la.

Primeiramente ela riu, gritou e se afastou num pulo; e ele correu atrás dela como se fosse um monstro. Mas, depois de alguns segundos, Anna percebeu que ele não a faria mal com um abraço, pois o que estava sujo eram suas costas.

Subitamente se virou para Jason e abriu os braços. O garoto, confuso, não conseguiu parar a tempo e acabou colidindo contra Anna.

Ela riu, gritando, enquanto os dois cambaleavam para trás, abraçados. Mas não cambalearam para sempre.

Os dois pararam de rir ao mesmo tempo, quando perceberam que caíam. Jason tentou um movimento rápido para não cair sobre Anna, mas este deu errado, e tudo no que resultou foi em uma dor nos cotovelos de Jason, sobre os quais ele acabou se apoiando.

Por dentro, Anna reclamava de dor nas costas, mas talvez os filhos de Apolo tivessem o poder de curar até com os olhos. Ou talvez fosse só Jason, com seus olhos azuis claros profundos, bondosos e preocupados.

Ao mesmo tempo em que ela se sentia curada, o olhar de Jason quase a dava um infarto.

Quanto tempo se passou, nenhum dos dois sabe, mas chegou à uma hora em que eles perceberam o que estavam fazendo.

–Desculpa por isso. – Jason se levantou, em seguida ajudando Anna. Ela riu.

–Minha mão ficou nojenta. – Ela disse, mostrando as palmas da mão que tocaram as costas do garoto.

–Os banheiros são por ali. – Jason aponta uma construção longa um pouco atrás dos chalés.

–As placas daqui estão todas em Grego. – Ela comentou, só então reparando no fato, pois ela entendera tudo que leu.

–O Acampamento é focado nisso; nossa origem grega.

–Falando em origem... – Anna estava esperando uma deixa desde que ouviu sua voz pela primeira vez. – De onde você é? Sabe, você tem...

–Sotaque londrino? – Jason completou, sorrindo. – Você até que demorou pra comentar... Eu sou do Sul de Londres, mas mudei pro Acampamento há cinco anos, quando completei 12.

Eles chegaram aos banheiros, e ele a mostrou a direção até as pias e espelhos.

–Eu vou tomar banho, então corre de volta para o refeitório antes que acabe a comida e encontra um garoto chamado Blaine... Ele deve estar na mesa de Hermes. Eu encontro vocês depois.

–Sim, senhor. – Ela confirmou, decorando as instruções.

E talvez tivesse de decorar novamente, porque ao seguir na direção das pias, virou-se para trás e viu Jason ainda parado no mesmo lugar, com as mãos nos bolsos e um sorriso bobo estampado na face.