Trunfo
39 Insônia
O chalé de Hefesto estava tão quente que nem mesmo Leo conseguiu dormir.
Seu colchão esquentava e o fazia suar depois de cinco segundos passados sobre ele. Seu travesseiro parecia mole demais e quente demais. Seus cabelos já estavam suados e sujos, e um bicho havia mordido sua perna. Fazia duas horas que ele tentava dormir, consciente de que todos no acampamento já deviam estar adormecidos.
De seu beliche, Leo tinha alcance – além de outros privilégios tecnológicos – a uma janela opcional que ele próprio instalara. Virou-se pela quinquagésima vez naquela noite e apertou o botão para acionar a janela. Uma luz penetrou o chalé, mas não acordou ninguém.
Leo agarrou o controle remoto e determinou a vista da janela como a fogueira de Héstia, no meio do conjunto de chalés. Não que ele precisasse de mais calor, mas o fogo o fazia se sentir bem.
Passou algum tempo observando as chamas, os olhos piscando e ainda não acostumados à claridade. Por isso se surpreendeu quando um corpo opaco passou por perto dela, passando no canto da vista de Leo. Tateou em procura do controle de novo e focou a vista no tal corpo, apenas para perceber que não se tratava apenas de um.
Os cabelos castanhos de Anna estavam jogados sobre os ombros irregularmente, e o topo de sua cabeça se encontrava bagunçado. Leo não pôde deixar de pensar que no começo da noite os cabelos de Anna estavam presos. Sua camiseta do Acampamento estava amassada, e a garota andava sobre pés descalços, carregando alegremente seus tênis com a mão esquerda.
A mão direita se encontrava na cintura de Jason, que jogava seu braço sobre os ombros dela e a puxava contra seu corpo. Os dois andavam lado a lado e lentamente, forçando Leo a vencer sua hiperatividade e observá-los com as mãos comichando. Em certo ponto, Jason puxou Anna ainda mais para perto de si (como se fosse possível) e meteu-lhe um beijo no topo da cabeça, bagunçando ainda mais seu couro cabeludo. A garota riu e protestou, mas não se afastou nenhum centímetro.
Quando o aparente casal finalmente chegou até a porta do Chalé de Poseidon, Leo estava prestes a desativar sua janela especial e organizar seus pensamentos até dormir. Porém os planos de Jason eram outros e lá foi o loiro dar um colar para Anna.
Leo praguejou em pensamento, lembrando-se de que fora ele quem forjou o colar (com muito esforço, já que não está acostumado a fazer produtos tão pequenos e delicados) e que até aquele momento Jason não o tinha pagado a mixaria pedida pela venda. “Devia ter etiquetado” – Ele se reprimiu. – “Made by Leo... Até soa bem.”.
Só que quando Jason enfim foi embora, e o visor de Leo enfim mostrou Anna tentando dormir, ainda podia-se ver o brilho fraco do pingente musical do colar refletindo a luz da fogueira... E por um momento as chamas identificaram o objeto como sendo um presente de Leo – não Jason! – para a garota.
Apesar de Leo não ter ganhado um beijo.
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