Trunfo

19 Acordando amedrontada


Gritando ofegante e suando frio, Anna acordou se levantando.

-Ai! – Exclamou Leo, que estava com a cabeça no meio do trajeto da cabeça de Anna a se levantar. Ela não pareceu entender o que acontecera, ou sequer notar a dor. Leo se afastou levemente, descolando sua testa da dela.

Anna respirava com dificuldade e algumas lágrimas podiam ser avistadas no canto de seus olhos. Ela se virou assustada para a maca ao lado da sua – onde antes repousava Jason – e deu um pulo quando não encontrou o amigo ali.

-Jason. – Murmurou, saindo da maca com os pés descalços. – Onde está Jason?

Leo começou a contá-la sobre a saída de Jason da enfermaria; como o garoto levantara atordoado no meio da madrugada e decidira por si só ir cambaleando de volta ao chalé de Apolo. No entanto Anna não quis escutar... Leo se perguntava se ao menos sabia que ele estava ali.

Sua resposta foi dada assim que a garota tentou disparar porta afora, com as pupilas dilatadas de medo e preocupação e a pele pálida, e ignorou o simples fato de que Leo estava em seu caminho.

-Anna, calma! – Pediu ele, quando eles trombaram. – Ei, ei!

-Leo? – Ela pareceu voltar ao mundo real, piscando leves vezes e soando frágil.

-Bom dia. – Cumprimentou ele, sorrindo e examinando seu rosto. Ele segurava seus pulsos firmemente, porém sem intenção de machucá-la. Os braços de Anna pareciam moles e tombavam ao lado de seu corpo, sendo sustentados apenas pelo aperto de Leo.

-Bom dia. – Respondeu ela, olhando curiosa nos olhos de Leo. Eles eram castanhos claros e animados, com um brilho discreto cintilando no canto superior de seu globo ocular.

-Eu, hã... – Leo se afastou, sem graça de Anna e se encaminhou até a cômoda da maca de Anna. – Trouxe café da manhã para você... Se quiser comer, claro.

-Ah, sim. – Pode-se perceber seu olho se movendo para além da porta, provavelmente até o chalé de Apolo, porém Leo se obrigou a não reagir. Acomodou-se sobre a cama e convidou Anna a se sentar também. – Caramba, eu nunca comi tantos cafés da manhã seguidos!

-Pois é, hehe... Você dormiu por dois dias inteiros, então assumi que você estaria com fome quando acordasse.

-Ah! Sério?! Tudo o que eu já fiz por aqui foi dormir, que droga! – Reprimiu-se Anna.

-Que nada, relaxa. – Sorriu Leo. – Pelo menos você não baba enquanto dorme.

Anna riu, tentando não cuspir seu croissant.

-Eu estou falando sério! – Retrucou ele, feliz. – Antes de vir pra cá, eu fiquei num colégio interno com um menino que roncava direto! Toda noite!

-Coitado Leo! Ele devia ter problemas nasais, ué!

-Eu sei lá se ele tinha ou não, eu sei que estou muito grato por sair de perto dele. Afinal, aqui é um lugar legal, não acha?

Anna assentiu pensativa. Passaram-se alguns segundos de silêncio, e ela voltou a falar num tom mais sério.

-Leo, desculpa o jeito que eu acordei hoje. – Disse ela. – Aposto que seu colega de quarto nunca tinha feito isso...

-Ah... Tudo bem, não foi nada. – Respondeu ele. — Pesadelos?

Ela tentou sorrir, confirmando. Leo contorceu os lábios em um sorriso de compaixão.

-Todos nós temos desses. – Comentou ele. – Quíron diz que sonhos de semideuses são previsões, na verdade. Mas tem alguns que aterrorizam muito mesmo... Jason, você sabe, morria?

-Não. – Respondeu ela, de imediato. – Quer dizer... Não sei; espero que não.

-O que aconteceu?

-Eu... – Gaguejou ela, se envergonhando e desviando o olhar. – Eu estava...

-Não precisa falar se não quiser. – Ele interrompeu, tentando puxar seu olhar de volta. Anna assentiu: visivelmente abalada. Por um momento ela teve vontade de abraçar o filho de Hefesto ao seu lado, mas resolveu não seguir o instinto.

“Você o está fazendo cair”

Engoliu o nó na garganta e impediu que as lágrimas pulassem de seus olhos. Anna não era fraca ou medrosa, porém algo no pesadelo a aterrorizava mais do que gostaria de admitir.

-Obrigada. – Foi tudo que ela conseguiu murmurar.