Trunfo

17 A menina dos cabelos de sangue


-Alguém viu o Jason? – Anna passou na mesa do Chalé de Apolo, um pouco atrasada para o café da manhã.

Notou que todos a encaravam como se ela fosse uma aberração, o que ela logo percebeu que era mesmo. Outro a olhavam desconfiados, talvez se perguntando o que Anna e Jason fizeram na noite anterior.

Uma menina mais bondosa respondeu que não o havia visto naquele dia. Anna agradeceu e se dirigiu até a mesa do Chalé de Poseidon, que estava quase vazia, senão por um semideus que tentava esticar o pescoço para visualizar a mesa de Atena.

-Percy? – Anna chamou; desconfortável por interromper o que quer que ele estivesse fazendo. O semideus levou um susto, mas quando se recuperou, sorriu para ela.

-Anna, oi! – Ele respondeu. – Quer um pedaço de torta?

Mentalmente, ela o agradeceu por não tocar no assunto do momento. Acomodou-se na mesa e aceitou a torta. Percy pronunciou “Torta de Morango” em voz alta e uma torta simplesmente apareceu em sua frente na mesa.

-Legal! – Exclamou ela.

Mas antes que ela pudesse provar a deliciosa torta, reclamações vindas das mesas detrás deles a interromperam. Quando Anna se virou, viu um sátiro atrapalhado abrindo caminho entre os semideuses já satisfeitos do café da manhã.

-Anna! – Ele encontrou seu olhar e exclamou, agradecido. – Anna!

-O que houve? – Perguntou ela, estranhando.

-Você tem de vir, rápido! – Ele se exasperou, agarrando seu pulso e arrastando-a para fora da mesa. Os campistas já começavam a se agitar ao seu redor, observando com atenção a mais nova encrenca em que Anna se metia.

-O que está acontecendo? – Perguntou ela mais uma vez, e mais uma vez ficou sem resposta.

O sátiro nem precisava mais desviar de ninguém, pois todos já se espremiam atrás de Anna, seguindo a fofoca e soltando murmúrios curiosos.

Ele a puxou até o final do Pavilhão, e a partir daí começou uma corrida desesperada até a Colina Meio-Sangue, a entrada do Acampamento. Ele não disse nada, apesar da insistência de Anna, até chegarem lá.

E quando chegaram não precisou dizer nada também. Sem parar de correr, o sátiro soltou a mão de Anna e deixou que ela corresse sozinha; no começo da colina, uma menina de cabelos cor de sangue estava jogada sobre a grama, seus cabelos tapando o rosto. Machucados liberavam o líquido da cor de seus cabelos, e se misturavam por todo o corpo.

Chegando até a garota, virou-a de costas para o chão e notou que ela estava desacordada.

-O que eu faço? – Gritou ao sátiro.

-A-Achei que saberia! – Gritou ele de volta, soltando um balido nervoso.

Jason disparou até eles, saindo do meio da multidão e já chegou caindo sobre os joelhos e tocando de leve os ferimentos. Ela gemeu, e Anna se aliviou sabendo que a ruiva ainda estava viva.

Porém Jason sofreu distúrbios piores que o temor da desconhecida não estar viva.

Assim que sua mão alcançou um ferimento maior e de cara o mais grave dentre todos, sua cabeça deu uma volta. Ele tentou disfarçar, por achar normal a tontura depois do transe anterior, mas não conseguiu segurar por muito tempo.

“Não!” – Ordenou uma voz masculina na profundidade de sua mente. – “Não a ajude!”.

-Jason? – Chamou Anna confusa, de volta a vida real. Ele tombava para o lado, tonto.

“Essa menina vai atrapalhar tudo! Se ajudá-la, seu futuro será mudado!” – Avisou a voz, reforçando a dor de cabeça. – “E talvez o futuro de mais alguém seja mudado também”.

Ele tentou iniciar o tratamento sobre a menina, pensando em usar seus poderes medicinais. Mas aquele era o problema: sua cabeça doía tanto que ele não conseguia pensar em absolutamente nada.

Sabia que todos esperavam suas ordens para dar-lhe Néctar, Ambrosia e tenta salvá-la a La Semideuses; sabia que Anna ficaria desamparada se ele não conseguisse revitalizar a garota a tempo; sabia que ficaria com a reputação manchada. No entanto sabia de tudo e nada ao mesmo tempo.

-Jason?! – Tentou novamente Anna, visualmente perdendo as esperanças.

Depois da terceira chamada não respondida e, quando ele finalmente desabou ao lado da garota, Anna não teve tempo de se preocupar com o amigo. Não seria uma menina que depende dos outros para tudo, e se dependesse apenas dela, a garota estaria a salvo.

“Por favor” – Pediu ajuda a Apolo mentalmente, apesar de não alimentar pensamentos de que ele a ajudaria, graças aos elogios que ela o distribuíra durante aqueles dias.

Mas estava enganada.

Anna obteve um brilho dourado nas mãos ainda mais intenso do que o brilho que viu Jason emitir quando se encontraram pela primeira vez na exposição de artes, e deixou o instinto a contar como usá-lo.

Passou o brilho sobre os machucados mais perigosos, e decidiu deixar que os remédios meio-sangues a curassem dos menores. A cada ferimento curado, mais suor brotava na testa de Anna, que começava a se sentir mal.

“Não vou cair” – Gritou consigo mesma, quando a ânsia de vômito pareceu aumentar. – “Ela precisa de mim!”.

Com muito esforço conseguiu terminar o serviço, recebendo aplausos da multidão de heróis. No entanto ela já desenvolvera uma mania, e manias são difíceis de largar.

Anna não terminou de ouvir a torcida.