True love's kiss
3 O meu passado
Notas iniciais
Regina acordou numa cama de hospital. Sentia-se cansada e atordoada, mas o seu coração disparou assim que viu um lindo rosto ladeado por cabelos loiros.
—Graças a Deus finalmente acordou! Sente-se bem? Quer que chame um médico?
A morena esforçou-se ao máximo para se sentar numa posição que lhe permitisse ver todo o ambiente à sua volta, mas a única coisa à qual conseguia prestar atenção era à mulher à sua frente. Aqueles olhos verdes continuavam a ser a coisa mais reconfortante do mundo, e ainda dava a sensação de serem maiores com os óculos que Miss Swan utilizava.
—Acho… estou bem. Você está bem?
—Eu?! Eu estou preocupada, quase que a ia atropelando! Para além de que esteve em coma durante 2 dias!
—Não te importância…
—Hahahaha adorei o sentido de humor – fez uma pausa, trocando uma expressão risonha por uma curiosa – Peço desculpa por perguntar, mas eu conheço-a?
—Creio que não! – apressou-se Regina.
—Estranho… tenho a sensação de já a ter visto em algum lado. E já agora, como sabe o meu nome, ou melhor, o apelido?
—Ahhh, eu…
—Vejo que já está acordada! – disse um médico que surgiu da porta do quarto.
—Dr. Victor Frankenstein!
Emma e o médico entreolharam-se, e depois ele soltou uma pequena gargalhada. A loira fez uma expressão de pena para com a morena.
—Creio que a pancada foi mais forte do que o esperado. Eu sou o Dr. Victor Whale senhora perfeita. Talvez devamos fazer mais exames para…
—Não! – o seu tom foi brusco, algo que o médico não estranhou – Quer dizer, eu sinto-me bem, foi só um pequeno engano… — explicou-se ela com uma voz ligeiramente mais doce.
—Bom, teve muita sorte Miss Mills… mas se se sente bem creio que lhe posso dar alta ainda hoje. E sendo assim, a minha última responsabilidade por este incidente é chamar a polícia para a senhora depôr.
Regina encarou Emma durante breves segundos e não escondeu um pequeno sorriso.
—Não será necessário Dr. Whale. Eu trato das burocracias com a senhora pessoalmente!
Perante isto, Emma endireitou a cabeça, muito espantada. Interiormente agradeceu à morena, e dirigiu-lhe um sorriso bastante íntimo, como se a conhecesse há bastante tempo.
—Obrigada…
—Bom, creio então que o meu trabalho está feito por agora! Se precisar de alguma coisa é só chamar. – O médico deixou a sala, parecendo aliviado por deixar também a companhia da perfeita.
No quarto de hospital só ficaram elas as duas (e mais uma senhora que dormia pacificamente na cama ao lado). Um silêncio estranho, mas como que melodioso instalou-se entre as duas. Regina ia falar, mas de repente olhou para a mão direita da loira, apoiada sobre uma grande barriga, da qual parecia estar prestes a brotar uma nova vida!
—Tu… estás grávida…
Regina sentia-se prestes a vomitar. Mais uma vez, tudo se estava a desmoronar à sua frente.
—Sim, de 8 meses! Está quase – aquelas palavras pareciam ter sido arrancadas. Os olhos da loira começaram a aguar, a garganta tentando engolir o sofrimento – Vai ser um menino.
—T-tem calma! Eu não… desculpa a minha curiosidade! Desculpa!
Emma sentou-se na cama, limpando algumas das lágrimas que não conseguiu conter. Parecia pronta para confessar todas as suas mágoas. E talvez fosse mesmo disso que ela precisava, alguém para o fazer.
—O pai da criança foi-se embora antes de saber… e… e eu nunca mais o consegui contactar! Ele deixou uma nota, mas mesmo assim eu não consegui perceber o porquê. – Agora que Regina reparava, Emma tinha um olhar bastante triste. Já não era quele olhar flamejante de duquesa, de menina da corte, mas sim o de uma mulher sofrida – Passadas umas semanas, os meus pais tiveram um acidente de carro perto desta cidade e ficaram ambos em muito mal. O meu pai não resistiu, mas a minha mãe continua a lutar. Ela entrou em choque, e está em estado vegetativo. Tive de esperar meses até conseguir vender a casa e ter dinheiro para alugar uma aqui. As rendas são muito altas… peço desculpa não devia ter dito isto!
A loira não aguentou e desabou em lágrimas, mas a morena tratou de as secar, envolvendo-a num abraço caloroso.
—Não te preocupes Emma, vai correr tudo bem! – assim que disse aquilo arrependeu-se, sabia que teria se arranjar rapidamente uma desculpa devido ao nome. Então adiantou-se – Sabes, tive uma amiga muito parecida contigo no secundário… ela chamava-se Ruby Swan. No calor do acidente devo tê-la confundido consigo. Mas agora que vi no seu cartão de visita já a posso tratar pelo primeiro nome!
—Ah… assim está tudo explicado. Peço imensa desculpa por esta situação. Esta não costuma ser a minha primeira conversa com estranhos.
—Pois, suponho que não. O meu pai também está aqui… em coma, há cinco meses. – Aquelas palavras matavam-na por dentro.
—Oh, lamento imenso… eu aqui a divagar sobre os meus problemas com a mulher que quase ia matando… sinto-me ridícula.
—Não! Está tudo bem. É bom ter alguém com quem desabafar… e, não me leve a mal, mas você parece estar algo solitária neste momento.
Os olhos de Emma arregalaram-se, como se num segredo tivesse sido descoberta, no caso, por Regina Mills, a mulher que tinha atropelado dois dias antes.
***
Regina acordou sobressaltada. Tinha adormecido por algumas horas, e já não se via na companhia de Missa Swan. Suspirou profundamente ao pensar na gravidez da loira, o que iria tornar tudo muito mais difícil. Em menos de um mês, Emma iria ter alguém nos braços que amaria permanente e profundamente, e onde ficaria Regina no meio daquela relação. Como iria ela competir contra um bebé?!
—Pronta para ir para casa? – perguntou uma enfermeira, que era também uma das melhores curandeiras da floresta encantada.
—Sim…
Regina recebeu ajuda para se vestir; foram-lhe devolvidos os pertences; assinou o que tinha a assinar e deixou o hospital de cabeça baixa. Foi assim todo o caminho até casa, o que de certa maneira a “protegeu” de todos os olhares desagradáveis que lhe foram dirigidos. Sacou das chaves de casa, e abriu a porta. Tirou o casaco, e foi aí que um pequeno raio de luz surgiu no meio da escuridão! No seu pulso encontrava-se uma morada, escrita em letras feias e mal delineadas, mas que davam para perceber. Ergueu a cabeça, e mesmo à sua frente, estava um espelho de rosto, o mesmo espelho do seu quarto no castelo, que lhe fora oferecido pela irmã no seu 16º aniversário. Olhou para si própria, fez expressões impossíveis de decifrar, ficou ali, assente nos seus saltos altos por intermináveis minutos.
—Eu amo-a… — proferiu finalmente para si própria – não desistas Regina, há sempre esperança! Sempre!
A sua força parecia ter regressado do nada. Inspirou profundamente, e o ar que inalou limpou-a por dentro. Regina Mills, princesa da floresta encantada e perfeita de Storybrooke renasceu das cinzas. Estava decidida a ganhar aquela guerra. Mas para isso tinha de saber o seu passado, o que a trouxera até àquela sala naquele preciso momento, tinha de ter a certeza quem realmente era naquele mundo. E desconfiava que o Senhor das trevas não lhe tinha facilitado a vida nesse aspeto. Pensou numa maneira de o fazer. Procurou mais uma vez indícios pela casa, mas encontrou exatamente o mesmo nada da primeira vez que procurou. Até que se tocou de algo, que estivera mesmo à sua frente o tempo todo. O espelho que a sua irmã lhe dera era encantado, e Regina nascera com magia (embora esta nunca tivesse sido decentemente desenvolvida). Tinha de tentar, ao menos isso. Balançou os ombros uma dúzia de vezes, limpou a garganta e encarou prontamente o objeto mágico. Com uma voz soberana proclamou:
—Espelho meu espelho meu… haverá passado mais frágil do que o meu?
Uma nuvem de fumo roxa começou a abandona o corpo da perfeita e penetrou nas bordas do espelho. Por uns momentos sentiu-se tonta, mas continuou a encará-lo veemente. As imagens começaram por ser baças, mas foram ficando mais nítidas à medida que Regina concentrava toda a sua energia no feitiço. Começou por ver discussões entre os seus pais, ela e a sua irmã Zelena de mãos dadas; a sua versão adolescente enfurecida a destruir objetos oferecidos pela mãe; viu um acidente de carro, e sentiu um forte impacto no estômago; o corpo de um homem a ser levado e uma mulher a ser levada para uma ambulância com o olhar vazio e sem reação; depois estava numa cerimónia onde soubera que tinha sido eleita como perfeita da cidade; lia alto, mas algo que envergonhada, uma proclamação na qual aumentava os impostos na cidade e expulsava os moradores que não conseguissem pagar as contas; seguia o seu pai pelo hospital, o qual se encontrava numa maca; lágrimas caiam-lhe pelo rosto enquanto lia o resultado das análises que lhe diziam que nunca poderia engravidar devido ao acidente que sofrera meses antes…
Lentamente, todas as “memórias” lhe vieram à cabeça. Regina não fora uma criança feliz e muito menos tivera uma vida fácil. Era a causa da morte de uma pessoa (a qual ela já sabia quem era) e a causa da sua eterna solidão. Quando o feitiço se desfez caiu no chão frio propositadamente e deixou-se lá ficar, num choro compulsivo, decidida a lutar, mas deixando-se levar pelo momento de luto pessoal.
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