True Love
20 Capítulo 2O.
Notas iniciais

Katrina sentiu seus braços serem puxados com veemência, os dedos se afundarem em sua carne com força enquanto seu corpo rodopiou por alguma força que ela não teve tempo de ver. Suas costas bateram contra a parede e um objeto frio raspou sua garganta, impedindo-a de se mover enquanto observou os olhos cinzentos sobre si. Bartolomeu a encarava, mais confuso do que poderia estar.
— O que você fez comigo? — Apertou mais a espada no pescoço da sgrated, que se mantinha quieta e com um sorriso mínimo de escárnio dançando em seus lábios.- Responda ou cortarei sua garganta. Talvez assim pare de sorrir.
— O senhor deveria me agradecer. — Tentou não se mover, apesar de Bartolomeu não ser uma grande ameaça, podia ver em seus olhos a convicção que mantinha em afundar a espada em seu pescoço.
— Agradecer? Não seja tola menina, eu a vi sair de meus aposentos depois que me fez beber aquela coisa grotesca! O que era? Veneno?
— Aquilo foi o antídoto para te acordar, senhor. — Bartolomeu não afrouxou a espada, e nem o braço dela, mantendo-o em suas costas. — O senhor bebeu aquilo por um mês, foi o que permitiu que continuasse nutrido e vivo enquanto a erva consagrada limpava a magia de seu corpo.
— Por que deveria confiar em você?
— Meus conhecimentos da magia são grandes, vossa majestade não imagina o que eu sei. — Bartolomeu semicerrou os olhos, pensando se devia acreditar ou não na mulher, que parecia não mentir. — Posso contar o que aconteceu com Aurora no dia em que ela o enfeitiçou. Mas para isso, tenho que viver, não é?
— Aurora? Ela não fez aquilo, ela... — O rei juntou as sobrancelhas, arregalando os olhos e afrouxando os braços ao redor de Katrina enquanto recordava dos acontecimentos perdidos em sua memória, olhando nos olhos da mulher, que secretamente buscava em sua mente os acontecimentos e os trazia para o rei.
— O senhor se lembra? A poeira azul que emanou da ponta dos dedos dela?
— Não é possível. Aurora é completamente humana, ela não possui magia no sangue. — Guardou sua espada e colocou o indicador entre os lábios. Pareceu começar a suar excessivamente e as mãos a tremer. — A não ser que ela... Oh Deus! Ela não é minha filha!
— Sim, clar... O que? Não! Não é isso! — Katrina coçou a nuca enquanto o rei tremia desesperado. Se ele morresse de nervoso, seus planos iriam por água abaixo.
— ... Luna havia me enganado todo esse temp...
— Não é isso! — Katrina segurou os braços de Bartolomeu, que mantinha o olhar de uma criança perturbada. Parece que ele realmente estava confuso, ele nunca permitiria que um servo falasse alto ou o repreendesse. — Ela é sua filha!
— Então o que aconteceu com ela? Vamos, me diga!
— Não posso falar agora, estão me vigiando. — Bartolomeu iria retrucar e dizer algo, mas Katrina foi mais rápida. — Além do mais, vão desconfiar de algo se nos virem cochichando nos corredores.
Bartolomeu reparou alguns olhos discretos, servos a procura de alguma fofoca para alimentarem suas vidas monótonas. Afastou-se da morena, que ainda mantinha o pano sujo de poeira em mãos e o vaso de prata, enquanto a mesma sorria com satisfação.
"Sim, mais patético do que pensei"
Maléfico caminhou por grande parte da floresta, se queixando da grossa camada de neve que pintava o chão. Odiava ter que usar muitas roupas, odiava mais ainda ter que andar com elas por todo lugar, apesar de não precisar usar tanto os sapatos, se costumou, embora aquelas botas longas o deixassem desconfortável, principalmente aquela casaca longa e pesada.
Ouviu as músicas de longe, as harpas e charamelas preenchiam o ambiente com fervor, as luzes coloridas também. Os elfos festejavam a chegada do inverno, entretidos demais em seus afazeres para prestar atenção em sua presença. Escutou os ruídos de ferro e marteladas sendo emitido do alto de uma árvore, provavelmente a elfa estava trabalhando, fabricando espadas e flechas enquanto os outros festejavam.
— Maléfico? — Niana o viu de longe, estranhando o fato de que depois de tantos anos sem ir até a vila, ele esteja em sua frente. Ela sorriu minimamente, abrindo a cerca de sua casa. O silfo tomou impulso e entrou, ficando de pé no chão de madeira, observando a elfa dentro de uma túnica azul bordada com ouro. — O que faz aqui?
— Eu... Eu vim me despedir. — Começou a olhar por toda a casa, a procura de algum rastro de sgrated. — Estou indo embora.
— Embora? Você vai embora deixando a pobre da Saremy naquele estado? — Parou em sua frente. — A culpa está mexendo sua cabeça, ou o peso dos chifres que está te deixando louco?
— Você não entendeu. Eu vou procurar algo para manter Saremy viva, vou procurar Hecate. — Niana arregalou os olhos e as penas dos ouvidos tremeram de ansiedade.
— Hecate? Hecate?! A deusa das bruxas? Como vai achá-la? — Entrou e fechou a porta.
— De acordo com os mapas, coordenadas e as lendas, ela está no Norte. — O silfo jogou o cabelo para trás.
— Está se baseando em lendas? — Massageou as têmporas. — Ah, pelos deuses, isso é informação demais.
— Aurora também sumiu. — Niana revirou os olhos com esse nome. — Vou voltar, dar o antídoto a Saremy e depois vou partir novamente.
Niana revirou os olhos mais uma vez e sorriu de lado, Apertou os anéis em seus dedos e fincou as unhas na palma da mão. Torcia para que Maléfico não ouvisse o barulho que ela ouvia, a respiração, frequência cardíaca e os passos desajeitados que vinham na direção deles.
— Então, já que só veio despedir, espero que vá em segurança. — Abriu a porta novamente. — Até logo.
— Está me expulsando? — Maléfico riu, mas seu sorriso logo desmanchou quando um cheiro estranho de ferro atingiu suas narinas. Juntou as sobrancelhas e seguiu o estranho odor. — Sente isso?
Niana parecia dizer algo atrás dele, mas o silfo não ouviu, apenas continuou andando, até sentir um objeto metálico encostando em sua nuca. A elfa apontava uma flecha já armada em seu arco, ele riu e virou para a mulher, encostando o dedo na posta da flecha, percebendo que estava bem afiada e polida.
— Não abra esta porta. Estou avisando.
— Vai atirar em mim? Não teria coragem. — Ela puxou mais a corda do arco. — O que há lá dentro?
— Não é da sua conta, vá embora agora mesmo e então me livrará de cometer um crime.
— Tudo nesta floresta é da minha conta Niana. Mantém um Sgrated em sua casa, a criança dorme nesse quarto, sim?
— Não teste a pouca paciência que me resta. — Maléfico levantou as mãos e envolveu a flecha com força, quebrando o metal da ponta, deixando a elfa perturbada.
— Você está me deixando entediado. Vamos, abra logo esta porta.
Nenhum dos dois precisou se mexer, pois a madeira encrustada de pedras rangeu e foi escancarada. De lá, uma criança pequena e agarrada a um boneco saiu coçando os pequenos olhos cintilantes. Algumas poucas penas retorcidas e deformadas, tremiam em suas orelhas, e os pequenos cabelos claros e encaracolados estavam escondidos em uma touca verde.
— Eli, volte para o quarto agora. — Niana falava de forma desesperada. — Tranque a porta, ande!
— Mas lá dentro está muito quente, Ima*. — Grunhiu em uma voz fina e infantil. Maléfico se sentiu confuso, um turbilhão de sentimentos invadiu a sua cabeça. — Não me sinto bem em lugares quentes. — Levantou a cabeça para olhar Maléfico e se sentiu assustado com o tamanho do Silfo, correndo em uma velocidade alta demais para um elfo normal. Se escondeu atrás de Niana.
— Maléfico, não chegue perto de nós. — Retirou uma adaga que acabara de fazer de um cesto. — Eu matarei você se tentar ferir Eliodoro.
— Me ferir? Por que? — O menino arregalou os olhos amarelos. — O moço de chifres quer me matar?
— Ferir? Não vou ferir você. — Levantou os olhos para a elfa. — Não vim matá-lo, eu nunca faria mal a uma criança.
— E quanto a maldição que jogou em Aurora? — Niana estava com a adaga levantada, enquanto cobria a criança com seu corpo curvado.
— Ah, quanto tempo isso faz? — Respondeu incrédulo. — Quero apenas ter a certeza de que ele não fará novamente a mesma coisa que fez com o unicórnio outro dia. Dê-me sua palavra, de que ninguém mais morrerá por ele, jure por sua vida. — Niana abaixou a faca, passando os dedos pelos cabelos loiros do menino, relutante para falar algo.
— Isso foi um acidente. — Guardou a faca e abraçou os pequenos ombros de Eliodoro. — Ele chegou há pouco tempo. Antes daquele dia, ele havia ficado vários dias sem se alimentar, perdeu o controle e fugiu. Tive que procurá-lo, e então o vi bebendo daquele unicórnio.
— Suponho que agora ele está sendo alimentado corretamente.
— Sim, ele está. Caço aves e porcos para que ele beba o sangue, sinto que isso o satisfaz. — Maléfico juntou as sobrancelhas, encarando o pequeno garoto, que tinha muitas semelhanças com alguém conhecido, mas a pergunta que não deixava o silfo em paz, era o motivo de penas nas orelhas pontudas de um Sgrated, sendo que esta era uma característica única dos elfos. — Sei o que está incomodando você.
— Quem são os pais dele? — Perguntou em um fio de voz, já sabendo a resposta e lutando para que estivesse enganado.
— Não é óbvio? Ele é filho de Lórien. — Maléfico apenas assentiu. — Ele me mandou o menino, disse que estavam acontecendo muitas coisas confusas em Grasbataly. Eu devo escondê-lo por alguns tempos até que ele retorne para buscá-lo.
Maléfico não disse absolutamente nada enquanto observava o rosto inocente do pequeno Sgrated. Se despediu da elfa e acariciou os cabelos despenteados do menino, que naturalmente cheirava a sangue fresco. Partiu da vila sem olhar para trás.
— Sabe mesmo onde está minha filha? — Bartolomeu se encontrava debaixo de uma capa, que o cobria dos pés a cabeça enquanto se encontrava com Maléfico, que já estava dentro do navio, bem longe dos olhos dos plebeus. — Traga-a em segurança.
— Sinto muito querido, não tenho certeza de onde Aurora esteja. — Maléfico puxava as cordas de um dos dois mastros do navio, tendo de usar grande esforço, pois seus tripulantes ainda não haviam chegado, e Carlos se recusava a fazer qualquer serviço que devesse usar força bruta. — Mas posso ter uma breve imaginação. — Bartolomeu se virou para ir embora, mas o silfo impediu que o rei desse mais um passo quando pousou em sua frente. Os olhos amarelos se moveram pelo rosto do homem como engrenagens. — Se você se atrever a incomodar os Moors, terá uma surpresa pouco desagradável lhe esperando.
— Não me importo com seu povo. — Desviou de Maléfico. — Eu não sou Luna.
O silfo acompanhou com o olhar enquanto a figura desaparecia em meio a neblina densa. Suspirou ao ouvir o nome da defunta, e lembraças corrosivas o ameaçaram por meio de seus pensamentos paranoicos. Caminhou novamente para o navio, e encontrou Carlos saindo de sua cabine, absorto em um livro grosso, mas pequenino. Algumas chamas azuis dançavam em suas mãos pequenas enquanto sussurrava palavras inaudíveis e fazia a magia em suas palmas crescer. Maléfico se aproximou sorrateiramente do homem, que se assustou e fechou o livro com rapidez.
— Por mil diabos! Não faça isso! — Passou os dedos pelos cabelos densos e cacheados, incomodado com a barba rala por fazer. -Onde estão os tripulantes do meu navio?
— O navio não é seu? — O silfo respondeu sarcástico, aproximou o rosto do homem e sorriu enquanto o feiticeiro fazia uma careta. — Então deveria saber. — Carlos cruzou os braços. — Ora, são humanos. Podem estar em uma taverna qualquer.
Se sentou em um banco, apoiando os pés na beira do navio enquanto observava o horizonte, aquele mar gelado guardava tantas coisas secretas que poderia se comparado á uma enorme e obscura caixa de pandora. Carlos olhava para o mesmo lugar, com as sobrancelhas juntas e erguidas, suspirando enquanto retirava uma luva de couro para esfregar o nariz gelado.
— Onde está Saremy? Neste momento? — Olhou para Maléfico esperando uma resposta.
— Deixei as ninfas cuidando dela, e a coloquei em minha casa. — Carlos juntou as sobrancelhas. — E com a quantidade de porção que deu a ela, ficará bem até que eu consiga reverter toda essa situação.
— Do modo que fala, parece que não pretende voltar tão cedo. Isso é pela menina, a princesa de cabelos dourados?
— Desta vez, não. — Olhou para o mago de forma misteriosa. Carlos sentiu calafrios com os olhos de Maléfico sobre si, era um misto de medo e pavor, seus instintos o mandavam correr no mesmo momento. E o fato de que os olhos amarelos se colocavam sobre ele por tanto tempo, não o ajudava em nada enquanto tentava disfarçar o pânico e as pernas bambas.
O que diabos era aquilo?
Finalmente os passos pesados de alguns dos homens chegando o fizeram feliz, conseguiu sair de perto do Silfo e tentar ser simpático com os futuros tripulantes do navio, para ser completamente ignorado e insultá-los mentalmente pela falta de educação.
— Sabe o que eu percebi? Não coloquei um nome no meu navio. — A voz grave do silfo se alastrou atrás de si, enquanto os homens de pé e pouco confusos, observavam as asas e chifres do homenzarrão em sua frente. — Isso é inadmissível.
— Podemos pensar nisso depois. — Carlos se virou para os homens, contou mentalmente e enquanto mais dois chegaram, eram onze homens. — Não eram doze? — Passos fortes batiam ruidosamente na madeira que ligava terra firme ao navio.
O homem de vestes de couro de animal, que Maléfico julgou ser de lobo, sorria minimamente enquanto entrava no navio, carregando em mãos a sua inseparável garrafa de bebida praticamente vazia, bebendo logo o resto do conteúdo e estourando a garrafa na madeira do navio, quase causando um ataque de fúria em Carlos.
— Estou aqui, conseguiram captar minha curiosidade. — Sorriu, mostrando a fileira de dentes brancos. Olhou a sua volta, observando a madeira lustrosa do navio e fazendo uma expressão estranha. — Um navio terco... Interessante. Quem é o capitão?
— Eu. -Responderam Carlos e Maléfico e uníssono.
Ambos se olharam e reviraram os olhos logo depois de Maléfico lembrar de que aquele, era o homem que o havia insultado, suspirou cansado e puxou o feiticeiro pela gola do casaco extremamente pesado, levando-o para um lugar livre de qualquer pessoa e ignorando os resmungos de Carlos enquanto era arrastado para o convés.
— Não faça isso, ou eu juro que parto sua cabeça ao meio! — O feiticeiro ajustou seu casaco novamente. — O que foi isto?
— Não quero aquele bêbado em meu navio. — Cruzou os braços e levantou uma sobrancelha.
— Por que isso agora? — Colocou as mãos na cintura. — Temos que partir logo, aproveitar que o rei Bartolomeu isolou esta área para os súditos. Além do mais, o "bêbado" sabe o tipo do navio apenas de olhar, e ele também havia mencionado que já navegou antes.
— Ele me insultou! Você lembra, não é? — Carlos se virou para voltar, com medo de que os homens desistissem de continuar na tripulação.
— O que? — Carlos suspirou e massageou as têmporas. — Isso foi há três dias atrás.
— Se ele fizer algo que me desagrade enquanto estivermos em mar, jogarei ele para fora do navio. — Desviou de Carlos enquanto foi na direção dos homens entediados no meio do navio.
Maléfico havia pesquisado sobre algumas coisas relacionadas a navios, sabia o dever de cada homem que houvesse ali, ainda que fossem poucos, serviria. Nomeou Derik como seu imediato, mesmo que o garoto não fosse um dos seus preferidos, ainda assim era o único rosto conhecido dentre todos os outros. Carlos odiou o fato de que não havia sido consultado a respeito da seleção de Maléfico, já que ele mesmo se considerava o capitão.
Logo estavam se distanciando do reino, com Carlos gritando a todo o vapor para que eriçassem as velas ao mesmo tempo que conduzia o leme, e se irritando com Maléfico espiando atrás de si.
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