True Love
17 Capítulo 17
Notas iniciais
The sound of Silence
Uma enorme e infinita fila ocupava o pátio do castelo, eram prisioneiros de todos os tamanhos, tipos e formas com suas mãos e pés acorrentados. Eles andavam de cabeça baixa cada um esperando sua vez.
Guardas seguravam suas espadas á espera de qualquer fuga e um sinal do rei para matar qualquer um que ousasse escapar de sua sentença de morte na forca.
Nenhum dos prisioneiros entendia o motivo de estarem naquele lugar com grossas cordas esperando seus pescoços. O rei substituto estava sentado a um trono de estofado vermelho segurando o queixo e sorrindo maldosamente na frente dos seres desesperados, que incluíam elfos, bruxas, centauros, sátiros.
Algumas criaturas mágicas estavam separadas das outras, como as dríades que estavam sendo mantidas presas a grossas correntes feitas de ferro puro.
As três primeiras criaturas, elfas subiram os três degraus de madeira e se colocaram a frente das cordas e uma a uma e foram mortas enquanto os outros que caminhavam para o mesmo destino, gritavam a todos os pulmões.
Niana estava dentre os últimos que ela podia enxergar na fila. Observava sua filha Amélia sendo contida pelos guardas enquanto tentava ultrapassar a barreira e secretamente enviara um sinal para que ela ficasse quieta, se descobrissem de suas origens, seria mandada para a fila também.
Ela chegava cada vez mais perto das cordas enquanto os corpos eram retirados, viravam fumaça ou pó conforme a sua raça ou eram jogados em um monte que já exalavam um mau cheiro.
Ela olhou todo aquele caos onde se encontrava exatamente no meio, observou o céu em busca do Silfo que nunca mais fora visto na floresta há anos. Não tinha como escapar ou salvar seus amigos da morte certa, não havia meios... A não ser que...
Niana se lembrou de uma das músicas que aprendeu para invocar criaturas divinas. Desde que os deuses haviam desaparecido ninguém fazia cultos, mas a elfa recordou cada palavra da música que cantava.
Abriu a boca pensando em cantar, mas logo dissipou a ideia quando viu os guardas parados com as espadas apontadas. Mas o que importaria? Já estava caminhando para a morte mesmo, sua filha já era responsável e mesmo que pudesse morrer, estaria salvando o seu povo.
Respirou fundo e olhou para suas irmãs atrás de si. Elas estavam completamente assustadas e choravam muito.
Niana abriu a boca para cantarolar e um pequeno assobio saiu de sua garganta.
Ela estava sem voz.
Escutou uma alta risada familiar, quando levantou os olhos viu Maléfico ao lado do rei gargalhando com um sorriso assassino. Mas algo estava errado, os cabelos incrivelmente negros no homem foram clareando até se tornarem totalmente brancos.
Num sobressalto, Niana acordou de seu sono gritando. Jogou a coberta para longe e do mesmo jeito que estava, foi até a casa de Maléfico.
Enquanto saía da vila dos Elfos, o frio batia em seu rosto como chicote e seus pés doíam com o contato brusco nas pedras.
Ela dava socos na porta de madeira enquanto Maléfico acordava de seu rápido cochilo acima de sua escrivaninha com mapas espalhados por todos os lados.
— O que foi?!- Ele se levantou passando as mãos pelo rosto amassado pelos papéis. – Pare de quebrar minha porta! Ela demorou muito para ficar pronta!
— Maléfico é a Niana! Preciso falar com você!
— Tem que ser agora? – Voltou a deitar nos papéis.
— Ainda estava dormindo? Achei que fosse guardião dessa floresta!
— Niana, estão todos da floresta dormindo! Ainda é madrugada!
— Você vai abrir essa porta ou vou ter que quebrar?!- Niana olhou para Baltazar que andava até o lago. Devia estar vigiando as fronteiras. – Baltazar está bem aqui, posso pedir que ele derrube esse pedaço de madeira que você chama de porta!
Maléfico revirou os olhos, Niana não sairia da porta tão cedo. Movimentou suas mães e a poeira esverdeada que dançou sob seus dedos e foi até a porta destrancando-a.
— O que você quer? – Disse bocejando enquanto limpava seus olhos que estavam embaçados.
— Por que você tranca a porta? Ninguém faz isso aqui.
— Para impedir que elfos ou elfas como você incomodem minha tão preciosa paz. – Disse sarcástico como sempre. Niana revirou os olhos e cruzou o braço sobre sua longa camisola azul. – Então? Quem morreu dessa vez?
— Oh, pare de brincar com isso! – Ela reclamou arregalando os olhos. Maléfico se levantou e foi até a bacia de água que havia em um cômodo próximo.
— Vamos, diga logo Niana! Tenho muito que fazer! — Elfa olhou para os mapas com várias marcações que havia na mesa.
— Eu tive um sonho... – Ela pegou um papel com várias anotações.
— Eu tenho vários todos os dias. – Ele voltou para a mesa enquanto enxugava o rosto com uma toalha de algodão. – Esse é o assunto urgente?
— Não! Você não entende! – Ela se sentou em uma cadeira perto da pequena mesa. – Eu sonhei que estávamos todos a caminho da morte.
— E...? – Passou as mãos sob seus longos cabelos desgrenhadas, o que não adiantou muita coisa.
— Eu estou tendo esse sonho todos os dias! – Levantou com as mãos na cabeça. Maléfico percebeu que a moça não estava mentindo, seu desespero era notável. – E você sabe que o sonho de um elfo pode ser premonitivo!
— Me conte então. – Caminhou até a cozinha. – Já sei que você não vai embora e não vai me deixar dormir... Comida sempre resolve tudo.
— Vai cozinhar em plena madrugada?
— Não existe uma hora certa para se cozinhar... Além do mais, não vou cozinhar vou apenas fazer um chá de Flor do vento. – Disse enquanto bocejava. Niana o seguiu levando uma das cadeiras, chegando ao cômodo, colocou a cadeira de frente para um pequeno balcão que havia perto do fogão.
Já havia ido naquela casa diversas vezes quando era crianças, mas depois de adulta, nunca mais fora naquele lugar. As mobílias continuavam no mesmo lugar de sempre e organização de Maléfico continuava impecável.
— Niana? – Notou o olhar distante da elfa enquanto pegava lenha para acender o fogão. – O que foi? Estou me assustando com você.
— Estou apenas pensando. – Maléfico levantou uma sobrancelha.
— Em quê? Pegou água de um pequeno reservatório acima do balcão.
— Você quer ouvir meu sonho ou não? – A morena arregalou os olhos castanhos que mudavam de cor de acordo com a claridade.
— Sinceramente? Não. – Ele colocou uma pequena panela em uma das bocas do fogão a lenha. – Só estou fazendo isso porque sou uma alma caridosa.
Nana ignorou a ironia do mais velho e começou a contar o sonho em detalhes, ocultando a parte de sua filha.
O outro ouvia com atenção enquanto depositava a água em copos de bronze e colocava uma pequena flor azul dentro fazendo a água ficar colorida de lilás. Niana bebeu o conteúdo vagarosamente e quando chegou ao final, falou sobre os cabelos do homem passar de negros para brancos.
— Eu não posso envelhecer. – Disse sorrindo e cruzando os braços enquanto se sentava em um banco e passava as mãos pelos braços. Estava frio, e a sua blusa branca apesar de ter mangas longas era fina.
— Não disse que estava velho, apenas com os cabelos brancos! – Disse a elfa mal humorada.
— Mesmo assim. – Envolveu seu corpo com suas asas causando um significativo conforto. – Isso não faz o menor sentido. Além do mais, Aurora é a única humana de quem eu gosto não me aliaria a mais ninguém.
— Eu sei, mas todos estavam morrendo, e Philip estava no comando de tudo... Lembra-se dele? Aquele príncipe que deveria acordar Aurora, mas você roubou o posto dele. – Deu ênfase na última frase.
— Espera como sabe que ele está no comando?
— Ele está?!- Niana se levantou arregalando os olhos.
— Sim, antes de Aurora desaparecer, ela o deixou no comando. E como todos sabem o pai de Aurora ainda está dormindo. – Falou pensativo.
Niana se calou. Ela não sabia sobre Philip, não sabia de nada e mesmo assim sonhou com aquilo, poderia ser uma premonição?
Aquilo estava causando o início de uma dor de cabeça em Maléfico.
— Niana você deve ir para casa.
— Porque está fazendo marcações em mapas? E anotando os nomes de reinos?
— Por nada. – Se levantou e caminhou até a sala levando seu copo de chá.
— Maléfico o que está aprontando? – Perguntou com curiosidade.
— Argh! Niana você é insuportável! – Bebeu o resto de seu chá virando o copo, fazendo uma careta logo depois do líquido queimar sua garganta. – Já vai fazer seis meses que Aurora sumiu, Saremy está com problemas...
O Silfo passou as mãos pelo rosto cansado.
— Estou apenas procurando uma solução para ambos os problemas.
— E o que Saremy tem?
— A saúde dela está com problemas... Mas é responsabilidade minha nada que você precise se preocupar. – Enquanto falava colocou as duas mãos nos ombros da elfa e a conduziu para a porta a abrindo. – Agora você deve ir para casa antes que os elfos venham até mim segurando tochas e flechas.
— Por que está me expulsando? – Questionou a moça indignada batendo a porta atrás de si.
— Porque é suspeito você vir aqui apenas por causa de um sonho. – Ela semicerrou os olhos e Maléfico levantou uma sobrancelha. – Após algumas décadas sem dirigir ao menos uma palavra até mim.
Aquelas palavras atingiram com força a mulher em sua frente que abriu a boca várias vezes para responder algo, mas nada se atrevia de sair de seus lábios.
— Diga Nia. – Sua expressão se tornou fria. – Lembra-se de nossos apelidos? Você costumava me chamar de Mal.
— Isso foi há muito tempo. – A mulher abriu a porta fazendo menção de ir embora, se virou e começou a caminhar.
— O que eu fiz? Sabia que me faço essa pergunta todas as vezes que olho para você? – Ele saiu de dentro da casa e questionou, fazendo a mulher parar de andar.
— Adeus Maléfico. – O mesmo ficou um tempo olhando a mulher ir embora, até que pensou em voltar a dormir, pois seu cérebro já funcionou o máximo que aquela madrugada fria permitia.
O homem entrou em casa e bateu a porta escorando na mesma, permitiu seus olhos se fecharem por um momento.
— Ah, paz! Minha querida e amada paz!- Respirou fundo e logo caminhou para seu quarto se jogando na cama e dormindo do mesmo modo que caiu.
Algumas horas depois, a porta de Maléfico começou a ser socada novamente, mas não foi por Niana e sim por Carlos. Na mesma hora o Silfo abriu os olhos já vermelhos pela noite mal dormida.
Ele fechou os olhos e se cobriu da cabeça aos pés.
— Maléfico! – Escutou a voz de Carlos e começou a choramingar enquanto jogava a coberta no chão.
— Um silfo não pode mais dormir nessa floresta?! – Abriu a porta de sua casa com brusquidão. – Como deixaram você entrar? Afinal como você entrou?!
— Se minha memória não falha, você que me chamou ontem e deixou uma brecha para que eu passasse. – Carlos o lembrou do fato. Maléfico revirou os olhos enquanto se recordava. — E por favor, pare de gritar...
— Entre. – Abriu a porta por completo esperando o feiticeiro entrar. – Ora vamos, entre logo!
— Como posso confiar em você?
— Se eu quisesse te matar primeiro, eu não chamaria você até aqui. Segundo, no momento em que bateu em minha porta eu teria feito isso... – Pegou o moreno pelo braço e o puxou para dentro da casa fechando a porta logo depois. – E se realmente estivesse desconfiado, não teria vindo aqui.
— Realmente... Você me pegou. – Disse enquanto retirava um pergaminho de seu casaco. – Eu tenho mesmo um assunto para tratar com você.
Dito isso, Carlos olhou os mapas e as anotações de Maléfico e em uma folha havia escrito “Livro Negro” e ao lado o nome Hecate.
— Mas vejo que encontrou o mesmo que eu... – Olhou para o Silfo. – Tem mesmo coragem de ir até Hecate e roubar seu livro de feitiços?
— Você já percebeu com quem está falando desde que chegou nessa floresta? – Ele abriu bem seus olhos dourados. – Já? Então está bem.
— Então por que motivo me chamou aqui?
— Eu preciso de um navio. – Carlos levantou uma sobrancelha. – Não quero que ninguém saiba de nada. Vou sair por uns dias e depois eu volto.
— E por que acha que eu conseguiria tal coisa para você?
— Porque você é humano...? – Maléfico crispou os lábios carnudos.
O homem moreno suspirou e andou pela sala.
— Tudo bem, conseguirei o navio.
— Obrig...
— Mas farei isso por Saremy, e nem pense que deixarei a vida dela em suas mãos! Eu irei junto!
— Ela não poderá ir, está muito fraca.
— É claro que eu sei disso. – O feiticeiro fez a questão de ir embora quando Maléfico o questionou.
— Quem fará? – Carlos o olhou sem entender. – Quem fará o feitiço?
— Você sabe o que pode acontecer a quem proferir as palavras do livro, não sabe?
— Sim, eu sei. – Maléfico olhou para as suas mãos. – A morte é certa.
— Exatamente. – Carlos olhou para os seus sapatos de couro. – Mas isso não significa literalmente a morte.
— Não? – Perguntou o silfo espantado. Carlos de uma pequena gargalhada.
— Oh, roubar o livro de uma deusa não é tão fácil e a consequência não é tão... Piedosa.
— Mas Hecate é uma criança... – O homem cruzou os braços.
— Pois não a subestime. – O homem de olhos castanhos pensou um pouco, olhou para o rosto de maléfico e estranhou o sacrifício que ele estava prestes a fazer. – Isso tudo é mesmo por Saremy? Estaria disposto a morrer por dentro... Apenas para salvar a vida de Saremy ou há algo a mais envolvido nisso?
— Não sei por que acha isso.
— É melhor você ir dizendo... – Carlos se aproximou do Silfo.
— Está me ameaçando? – Sorriu divertido achando graça da raiva borbulhando do rapaz.
— Não, estou apenas dizendo que vou resolver isso sozinho se você não disser. – Carlos levantou as mãos que borbulhavam um pó amarelado. – Eu vejo através de você Silfo... Apesar de todos acharem que você mudou eu vejo o egoísmo e o amor pelo poder atrás de seus olhos. Eu sei quem e o que você é de verdade, vejo o seu coração se tornando uma pedra de carvão pouco a pouco...
Maléfico estreitou os olhos na direção do feiticeiro.
— Por que acha que pode falar assim comigo? Olhe para você! Você é apenas uma praga junto com toda a espécie humana!
— É, pode até ser, mas você precisa de mim! O que pode ser tão grave que pode acontecer para você passar noites sem dormir a procura desse livro?! – A esse ponto, Carlos estava falando alto. – Vamos, diga ou eu não irei ajudá-lo.
Maléfico respirou fundo e se sentou em uma das cadeiras de madeira que havia lá. Pensou se diria aquilo que Carlos queria, se ele soubesse disso e contasse para alguém, seus inimigos usariam Saremy como arma contra ele.
— Eu tive uma conversa... Com um dos oráculos anciãos da floresta os Moors.- O Silfo jogou seus cabelos para trás com uma das mãos. – No momento em que transformei Saremy de corvo para humana ela dependia de mim para voltar à forma natural.
— E o que isso significa?
— Ela faz parte da fonte de minha magia, corre nas veias dela na mesma sincronia que correm nas minhas. – Maléfico fechou o punho. – Somos ligados.
— Oh, entendi! Se ela morrer, você também morre.
— Não, não. – Ele se levantou bruscamente. – Saremy faz parte de minha magia e de minha alma.
— Então se ela morrer... – Carlos pensou em voz alta.
— Parte de minha magia morrerá me tornarei fraco. – Falou o silfo com desprezo. – Em uma coisa que você disse você tinha toda a razão.
Os olhos do Silfo brilharam do mesmo modo de quando amaldiçoou Aurora, o que causou medo ao mago que rapidamente se arrependeu de ter ido até aquela floresta, mas tratou logo de espantar isso.
— Eu tenho sim amor pelo poder. – Sorriu de lado
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