True Love
16 Capítulo 16
Notas iniciais
O corvo negro voava exausto. Voou por uma floresta de espinhos, até avistar uma casa desbotada e sozinha no meio de várias árvores, com tijolos cor cinza, e uma escadaria na porta de dez degraus. Saremy pousou na janela da casa enorme, e a porta da frente foi aberta.
Um homem negro de cabelos cacheados e olhos cor âmbar, saiu de dentro da casa. O seu sorriso mostrou os dentes brancos, saudando o corvo que logo pousou no seu braço estendido entrando junto com o estranho.
O Silfo -Escondido atrás das árvores- , estranhou e muito a atitude de sua serva. Quem era aquele homem? E por que ele mostrava tanta intimidade com a morena?
O silfo estalou os dedos, e no seu lugar estava uma mariposa azul. Sobrevoou os arbustos e entrou pela janela quebrada, onde viu Saremy...Humana?
"Como é possível? Só eu posso transformá-la!"
Eles conversavam algo. O homem colocou algo na mão da morena, e depois sorriu, passando o polegar pelas cicatrizes no rosto da moça, que sorria. Maléfico ficou incomodado, e chegou mais perto para escutar.
— Muito obrigada... Mas poderia colocar-me como corvo novamente?
— És tão linda assim! Por que prefere a forma de uma ave?
—Foi assim que o meu senhor acha que sou, devo voltar como corvo.
— Se é assim que prefere... Tudo bem. — Ele suspirou. — Acha que ele vai descobrir?
— Sobre isto? -Abriu a mão, mostrando um líquido branco. — Não... Talvez... Mas eu espero que não, ou estarei morta.
— Por que não foge? Vamos juntos! — Agarrou as mãos da mulher com empolgação. -Vamos viajar o mundo inteiro!
— Desculpe Carlos, não posso.
—Tudo bem... — Soltou as mãos da mulher, jogando um pó dourado sobre ela a transformando em pássaro. Pegou o vidro com o bico, e partiu sendo seguida por um Maléfico desconfiado.
Ao seguir Saremy, Maléfico formava uma teoria sobre o que havia terminado de acontecer. Aquilo que ela carregava poderia ser veneno.
Por alguns segundos depois daquele pensamento, ele logo se sentiu mal, chateado.
No meio da floresta de espinhos, o corvo caiu no chão, grasnando repetidamente, num som sôfrego de agonia. Suas asas batiam e ela grasnava cada vez mais alto.
Maléfico não entendeu nada, então assumiu sua forma original e logo a transformando em humana.
A moça se debatia no chão tentando respirar, mas seu pulmão estava fechado. No chão ao seu lado, mas ao mesmo tempo longe, ela tentava alcançar o vidro com a substância.
Maléfico não pensou duas vezes e correu, rasgando sua pele nos espinhos. Se sentou no chão, e pegou a moça colocando-a no colo como uma criança que não parava de gritar.
Tomou o frasco nas mãos e o destampou, Saremy puxou a sua mão, com a intenção de virar o frasco na boca e foi o que aconteceu. Os gritos dela pararam e sua respiração aos poucos foi melhorando.
Maléfico estava com uma expressão de desespero com os olhos amarelos arregalados e a boca aberta. O rosto de Saremy estava sangrando com cortes, talvez ela teria mais algumas cicatrizes nas bochechas e na testa.
O Silfo ficou realmente desesperado quando a moça perdeu a consciência. Tomou-a nos braços e levantou vôo, potegendo-a dos espinhos com suas asas. Foi o mais rápido que pode para o reino dos Moors.
***
Maléfico atravessava o quarto dez, mil, centenas de vezes só naquele dia esperando a moça acordar.
Após deixá-la em seu quarto, as ninfas foram logo tratar das feridas de Saremy e das de Maléfico, mas em locais separados pois a roupa da moça também precisou ser trocada.
Quando elas foram embora, Maléfico fechou a porta e subiu para o quarto, esperar a moça acordar. Só não esperava que ela fosse dormir por um dia inteiro.
Quando a lua cheia brilhava no céu, Saremy começou a despertar. Abriu os olhos vagarosamente, reconhecendo o lugar onde estava... O quarto de Maléfico.
Se sentou bruscamente, vendo o Silfo de pé ao seu lado. Suas roupas eram tão simples, com uma blusa de mangas longas branca, e uma típica calça preta. Seus braços estavam cruzados.
— Saremy? Oh Céus, finalmente acordou! — Ela colocou as mãos na cabeça, e baixou os olhos, vendo a longa camisola cor azul.
— Quem trocou minhas roupas?! — Gritou pausadamente cada palavra olhando para Maléfico de forma malvada.
— Não! Não fui eu! — Levantou as mãos em rendição. -Por maior que fosse a minha curiosidade, eu não faria esse tipo de coisa. — Ele sorriu maliciosamente, respirou fundo, e olhou nos olhos da moça.- O que aconteceu hoje? Por que estava bebendo vida?
— Bebendo vida? Não sei de que maluquices está falando.
— Aquele líquido que bebeu, era nada mais do que vida!
— Argh... Você me seguiu, não foi?
— Sim, e tem muita coisa para explicar, não mude de assunto! Isso é uma coisa séria! Começando... O que estava acontecendo hoje?
— Bem, é meio complicado. — Tentou se levantar, mas Maléfico a deteu, empurrando gentilmente seus ombros.
— Não fiquei aqui um dia inteiro pra nada! — Ela reparou os olhos dele vermelhos. — Comece!
— Lembra quando me salvou daquele homem? Quando me transformou pela primeira vez em humana?
— Completamente.
— Quando fez isto, eu tinha três meses de vida. O que equivale a trinta anos humanos.- Respirou fundo, recuperando oxigênio — Então quando comecei a passar muito tempo em forma humana, eu não via os meses passarem, como a minha espécie de corvo só tem dezoito anos de vida, me resta pouco. Maléfico... Eu estou morrendo.
—Mas... Mas por que não me contou? Eu poderia ter feito um feitiço!
— Não fique chateado, mas o senhor não é confiável.- O Silfo abriu a boca em protesto.
— Me diga um indício de que eu não seja confiável!
— Devo começar em ordem cronológica ou alfabética? — Ele levantou uma sobrancelha.
— De qualquer maneira, você não poderia simplesmente procurar um feiticeiro qualquer e...
— Ele... Não é um feiticeiro qualquer!
— Então se o conhece tanto... Diga o que ele é!
— Ele me ajudou! Eu fui como uma mendiga aos trapos pedindo ajuda... Contei toda a minha história para ele, ocultando apenas você.
— Como me ocultou se eu faço parte de metade de sua vida?
— Bom, eu disse que meu mestre é um boticário que estava de passagem... Mas não sabia que eu podia me transformar.
— Isto o convenceu?
— Acho que sim. — Ele chegou mais perto sentado na beirada da cama, clocou um pequeno travesseiro de algodão atrás de Saremy, logo passando os dedos sobre as cicatrizes do rosto dela.
— Não sei o que faria sem você... — Era a primeira vez que ele permitia alguém o ver tão vulnerável. — Me desculpe... Por tudo que fiz a você.
A mulher se sentou na cama com dificuldade, olhando para Maléfico de cabeça baixa.
—Não quero que me deixe — Disse sem querer- Você sempre foi minha companhia, não quero passar a eternidade só...
—Shh — Colocou os dedos sobre os lábios do Silfo, o fazendo olhar para ela. — Eu... Não quero vê-lo se culpar. Por que acha que está sozinho?
— Eu tenho uma eternidade pela frente...
— Bom, não se torture.- Ele sorriu — Mas por outro lado, você não está sozinho! Não esqueça que eu estou aqui, e mesmo que eu me vá, sempre estarei com você.
— Você me assusta falando assim...
— Mas é a verdade...
— Talvez a verde não seja realmente algo tão bom de se contar.
— Olhe, não precisa ficar assim! — Ela o abraçou fortemente. Saremy era uma mulher forte, decidida, mas a batida de seu coração estava fraca. — Eu o amo tanto... — Ela se permitiu chorar, ficou lá por um tempo, abraçada a Maléfico desfrutando de seu cheiro semelhante à Lírio-do-vale.
—Você é a melhor companhia que alguém poderia ter... A amiga mais fiel que eu poderia ter. — Saremy suspirou frustrada. Logo estava de frente para Maléfico, o olhando nos olhos. Queria poder dizer a verdade, que o amava como a um amante.
Ela não disse nada, não queria estragar o que já possuía, mas queria deixar alguma pista, ou alguma indireta que ele entendesse isso.
Não pensou duas vezes, e inclinou sua cabeça na direção da boca de Maléfico que estranhamente virou o rosto, rejeitando o beijo. Saremy ficou ofegante, envergonhada, brava e tudo ao mesmo tempo. Queria sair de lá e ir voar para bem longe, não queria olhar novamente para si mesma.
Ele levantou a mão com o objetivo de tocá-la, e ela desejava isso. Tocar ou ser tocado por Maléfico era como afundar a mão em pétalas de flores.
Não entendia o que estava acontecendo, o Silfo sempre roubava beijos e quando a beijava permanecia por muito tempo desfrutando dos lábios cheios da mulher.
— Boa noite... — Saiu às pressas do quarto, sem dar tempo de Saremy o responder.
Aos poucos a morena se sentia melhor, voltando a ser como antes.
***
Katrina estava reunida com os quatro Sgrated que haviam ficado na parte afastada da floresta.
— Caius, venha cá! — Chamou o homem de cabelos pretos e bagunçados foi chamado por Katrina. Por incrível que parecesse ele era o filho mais novo do rei dos Sgrateds, mas o senhor tinha uma preferência gritante pela sua filha mais velha, abandonando Caius.- Bom, preciso que se infiltre no castelo como eu... E vire o MELHOR amigo de príncipe Philip.
— O humano que está cuidando dos outros? Bom, claro farei o meu melhor.
Caius era o mais importante, tinha sangue frio o suficiente para apunhalar Phillip e tomar a forma do rapaz para assumir o reino.
Depois que sua irmã se casou com um elfo do reino dos Moors, ele se tornou soldado, pois era apontado como frívolo pelo seu pai.
Katrina colocou as outras moças como informantes mandando-as para a parte mais afastada da floresta.
— Vamos, você tem de trocar suas roupas. — Caius colocou a espada nos ombros largos e seguiu a mulher.
***
Uma semana após partir, o céu se mostrava azul. Aurora sentia enjoos enquanto andava naquela carruagem, fazendo com que o único alívio fosse a pequena parada para descansar, mas ninguém nunca falava ou olhava para a princesa, então preferia ficar aquecida e confortável.
Os cavalos de seis patas eram incrivelmente velozes, fazendo parecer que possuíam asas. Os seus novos companheiros calados também, mostrando mais uma vez que eram criaturas sobrenaturais.
Teria mesmo que aguentar mais tempo viajando com essas... Coisas?
Abriu os olhos, ouvindo uma pequena discussão de três mulheres. Não ouvia perfeitamente o que diziam, Mas podia ler os lábios e entender algumas palavras como "humana" e "código".
Uma delas se distanciou, deixando as outras a olhando perplexa. Esta caminhava até a carruagem onde estava Aurora.
A princesa fingiu que estava dormindo, quando a mulher a cutucou.
— Senhora? -Ela abriu os olhos. Era uma moça de dezessete anos no máximo . — Não quer tomar um banho?
Olhou para os lados procurando algum indício de que havia alguém ouvindo a conversa escondido.
— Eu... Posso?
— Claro que sim, se estou chamando é porque deve vir comigo.
— Tudo bem... — Desceu com dificuldade os degraus. Começou a acompanhar moça que estava com ela. — Eu posso saber seu nome?
— Sou Mia. — Respondeu caminhando na Mata.
— Para onde estamos indo? -Questionava a loira, tentando se equilibrar nas raízes das árvores. O lugar parecia uma floresta assombrada.
— Para um lago que tem aqui.
— Mas que roupas vou vestir?
— Você sempre foi dependente de outras pessoas? — Parou olhando a princesa. — Quando chegarmos no reino, deve aprender a se virar sozinha.
—Bom, eu sou uma princ...
— Você nem sempre foi uma. Parece que se acostumou a uma vida cheia de regalias rapidamente.
— Tudo bem. -Revirou os olhos. Mas o que Mia havia dito era verdade, esqueceu-se de como era viver por conta própria.
— Perfeito! Aqui está o lago. — Olhou para a loira — Ninguém a verá aqui, a não ser que queira ser banido do Reino ou morto. Mas pouco importa, é a mesma coisa...
— Obrigada. — Aurora se despiu, totalmente envergonhada por estar nua na frente de uma desconhecida, e o modo em que ela a olhava era com desejo e volúpia. Cada curva do corpo da moça ela observava.
Balançou a cabeça como se estivesse saindo de um transe. O seu senhor tinha razão, Aurora era muito perigosa, mas não sabia usar isso a favor de si mesma.
A moça entrou no lago enquanto Mia olhava para uma árvore tentando se distrair, quando viu um homem desconhecido andando em direção a elas.
— Aurora, vista-se rápido! — A princesa percebeu algo de errado, e tratou de sair do lago e se vestir. Mia retirou seu arco e flecha das costas e se preparou para batalhar.
Em um piscar de olhos, o homem estava em sua frente. De olhos totalmente brancos e cabelos enormes totalmente sujos e bagunçados, seus lábios eram negros. As vestes eram estranhas com formatos de caveiras, e carregava potes de vidro pendurados na cintura e dentro deles haviam... Fadas!
Um de seus pés era monstruoso, com garras e escamas, deformado. Enquanto o outro era normal, pelo menos parecia por causa de um sapato negro.
A respiração de Mia falhou, mas não saiu da posição pronta para disparar na cabeça da criatura, apenas se ela não soubesse que ela não morreria tão simplesmente.
— O que faz aqui seu asqueroso? — Mia baixou o arco, fazendo a coisa sorrir, mostrando dentes afiados e amontoados. — Será que só em alguns dias de viagem não poderia simplesmente nos deixar em paz?!
— Oh! Meu botão de rosa... — Passou a língua bivurcada pelos dentes. — Vocês passam pela minha floresta a todo tempo, e não querem que eu reclame?
— Só passamos por aqui duas vezes, e esta floresta não é sua Rumpelstilzchen!
*
Uma silhueta escura e alta demais para ser humana apareceu na porta de Carlos. O mago levantou as mãos com uma fraca poeira lilás dançando em sua palma, Maléfico levantou a mão, iluminando seu rosto com a fumaça verde que sua mão produzia.
— Precisamos conversar, jovem mago.

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