True Colours
5 Capítulo 5 - Noite passada

Capítulo 5 – Noite passada
Como de costume, o celular de Daisy despertou às sete da manhã. Embora morasse perto da sua faculdade, demorava muito para se arrumar e sempre chegava alguns minutos depois das oito.
Ela não parecia querer levantar. Sentia muita dor na cabeça e seu corpo parecia não querer se mover quando forçava. Além disso, não conseguia lembrar de nada da noite passada. Apenas lembrava que havia ido à mercearia para comprar algo para comer.
"Eu não cheguei lá, cheguei?".
Com muito esforço, desligou o despertador e sentou-se na cama. Estava vestindo uma segunda pele de alcinha que costuma usar embaixo de blusas mais largas e um short surrado.
— Cadê o meu pijama?! – Assustou-se. Em meio ao desespero, viu que havia uma folha de papel em cima do criado mudo ao lado de sua cama, e em cima, estava a chave da porta da frente – Que droga é essa?!
Pegou o papel desesperada e pôde ler a anotação: "Aqui está a chave da frente. A noite foi divertida ♥".
— Quem escreveu isso?! – A cada coisa diferente que percebia ficava cada vez mais assustada. – Ai... Eu quero morrer...
Antes de ir à faculdade ainda de ressaca, Daisy percebeu que havia um cinto de couro em cima do sofá. Certamente aquele cinto não pertencia ao seu falecido pai, afinal ele nunca usava.
Seria aquele cinto daquele cara?
• • •
Rajesh cuidava do caixa enquanto esperava qualquer nova atividade mandada por Agatha, como sempre. Às vezes imaginava que não passava de um "pau-mandado", mas Agatha sempre tratou a ele e todos muito bem. Com exceção do Abner, já que os dois gritavam com o outro o tempo todo. Parecia mais brigas entre irmãos que qualquer outra coisa.
Assim que Daisy chegou para trabalhar, Rajesh foi o primeiro a cumprimentar, como fazia com todos os clientes.
— Boa tarde, Daisy! – Rajesh sorria, mas era como se seus músculos faciais não se mexessem muito.
— Boa tarde... – Daisy disse cansada.
— Você está com uma cara diferente, o que aconteceu?
— Acho que o nome disso é ressaca – ela disse baixo apenas para ele ouvir. – Eu tô acabada. E pra piorar alguém foi até minha casa, olha esse bilhete!
Ele riu de leve.
— Acho que eu conheço essa letra – de novo Rajesh sorria sem parecer que estava sorrindo.
• • RAJESH, O INDECIFRÁVEL • •
RajeshMagar, 24 anos. Tem nacionalidade indiana, cabelos negros e olhos de cor avelã. Foge dos estereótipos típicos de seu povo tanto quanto a aparência, e quanto a personalidade. Terminou a faculdade de Psicologia aos 22 anos, mas agora não sabe o que fazer da vida, já que não tem paixão pelo curso ofertado. Não costuma demonstrar reações (ele é frio?), mas tende a rir muito. Vai entender...
Daisy tentou entender como ele fazia aquilo com suas expressões, afinal, embora ele fosse o mais lúcido e simpático entre todos, ela só sabia dizer que Rajesh estava rindo quando ele fazia algum barulho de risada.
— De quem é? – Ela deixou de lado as expressões de Rajesh e voltou ao assunto principal.
Ele apontou para a cozinha e Daisy correu naquela direção. Abriu a porta num chute e viu Abner cozinhando algo no fogão.
— Ah, boa tar...
— Que história é essa de que a noite foi boa? – Ela o cortou e lhe mostrou o bilhete.
Ele olhou para o bilhete, perplexo.
— Você não lembra nada de ontem mesmo, não é?
— Se eu lembrasse saberia porque você foi na minha casa.
Abner lançou um olhar sedutor para Daisy. Ela não o conhecia totalmente, mas sabia que aquele olhar não demonstrava interesse, mas sim brincadeira.
— A gente fez aquilo...
— O quê?! – Ela quase gritou. Acabou acreditando na brincadeira – Aquilo? Impossível!
Ele começou a rir. Os desesperos de Daisy sempre o entretinham.
— Você sempre me diverte – Abner disse ainda rindo. Fez uma pausa até parar de rir e continuou: – Você bebeu todas. Disse que não iria beber, mas acabou bebendo, e muito. Na verdade, eu nem sabia que cabia aquele tanto de líquido dentro de alguém sem usar o banheiro...
— Eu gostaria que você me contasse sem esses tipos de detalhes... – Ela disse incomodada.
— Tá, tá. – Ele desligou o fogão, sentou na bancada e gesticulou para que Daisy fizesse o mesmo – Você começou com uma Brejja, uma de cada sabor, e tinha vários! Depois passou para umas vodcas estranhas que nem eu me atreveria a beber. E por fim, tomou um pouco de tequila – Ele deu uma risada. – Você me deu um trabalhão... Conversou com um cara jurando que ele era seu primo, e antes de quase desmaiar, tirou o seu blusão e quase mostrou os peitos... Só porque tinha uns caras fazendo a mesma coisa. Sorte que você tinha uma blusa por baixo. Mas depois de tudo eu e o Félix te levamos pra sua casa, colocamos você na cama e fomos embora.
Daisy ficou vermelha ainda no começo da história. Quanto mais Abner contava, mais vergonha ela sentia. Não conseguia imaginar que havia feito tudo aquilo que ele lhe contou. Queria cavar um buraco e se esconder dentro dele pelo resto da vida. Como deixou uma coisa dessas acontecer?
— Eu não acredito que fiz isso... – Ela disse pra si mesma.
— Espero que nenhum vizinho tenha chamado a polícia – Abner ria para si –, eu tranquei a porta da frente e tive que sair pela janela do seu quarto. Mas olha o lado bom, agora eu sei onde você mora.
Daisy respirava pesado. Era possível ver que seu rosto inteiro estava coberto pela vergonha. Ela não sabia o que dizer, apenas ficou intacta, com o rosto virado para que Abner não pudesse ver seu rosto.
— Desculpa – Daisy disse sem olhar para ele – Isso não vai mais acontecer... – Desceu da bancada e ouviu Abner dizendo "relaxa". Parou na porta da cozinha e perguntou: – Por acaso algum de vocês deixaram um cinto no sofá?
— Olha, olha. Parece que alguém teve uma noite boa no fim das contas – ele brincou.
— Claro que não! – Ela disse virando para ele e logo tentou esconder o rosto por conta da vergonha – Eu só quero saber.
— Não deixamos – Abner parecia satisfeito com a situação.
Ela suspirou e saiu. Tinha algumas tarefas a serem realizadas fora da cozinha, e Daisy aproveitou para evitar ao máximo olhar na cara de Abner.
"Então é daquele caipira..."
Assim que Daisy saiu, Agatha entrou para pegar algo na cozinha. Depois de ter pego alguns panos, reparou que desde quando entrou até aquele momento, Abner esboçava um sorriso caloroso no rosto. Agatha já havia visto aquele mesmo sorriso diversas vezes.
— Não vai trabalhar, não? – Ela perguntou.
Abner voltou a real e respondeu com um sorriso diferente e vibrante:
— Vou sim, chefe!
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