True Colours
6 Capítulo 6 - Ilegalidades

Capítulo 6—Ilegalidades
Depois do expediente os funcionários do The Cupcake Shop decidiram fechar a semana com uma breve comemoração no bar mais próximo. O bar era conhecido por fazer sucesso com seus drinks e os shows ao vivo incríveis que ocorriam.
Passaram-se alguns dias desde o pequeno incidente na festa de Félix, e aquele assunto simplesmente se tornou um tabu dentro daquela confeitaria. Apenas Daisy e Abner sabiam do ocorrido, e já era o suficiente.
Os quatro sentaram-se na única mesa disponível, no meio da calçada, e cada um havia pedido um tipo de bebida diferente.
— Você não bebe álcool, Daisy? – Perguntou Agatha.
— Melhor não – Daisy e Abner responderam juntos.
Os dois se encararam em surpresa, e Daisy virou a cara. Já estava quase esquecendo do pequeno problema que havia dado a ele, mas Abner sempre fez questão de lhe lembrar.
— Algumas pessoas são mais fortes que as outras – Rajesh disse inocentemente.
— Eu que o diga – Abner deu outra olhada para Daisy, e ela mostrou-lhe a língua.
— Acho melhor eu pegar leve em bebidas. Nenhum motivo em especial – ela ria alto e sozinha, constrangida –, é mais por saúde mesmo.
Agatha olhou para o copo de Daisy e ela estava tomando um refrigerante de laranja.
"Saúde, é...?", pensou ironicamente.
Os amigos passaram cerca de algumas horas bebendo e conversando, até a hora que decidiram irem embora. Não estava muito tarde, mas os funcionários já haviam dado ameaça de estarem fechando, como algumas caras feias e varrerem os pés dos clientes.
Agatha foi para sua casa por um caminho, Rajesh foi por outro, e Daisy acompanhou Agatha até certa parte, até seus caminhos descruzarem.
Por algum motivo Abner estava acompanhando Daisy, mesmo depois de Agatha se despedir de ambos, sendo que geralmente os dois sempre iam embora juntos.
— Eu não sabia que você morava no caminho para a minha casa – disse Daisy para ele.
— Eu não moro naquele bairro de ricos, não – ele riu. – Estou te acompanhando até a sua casa.
Ela o olhou, sem parar de andar.
— Uma pena... – desviou o olhar – Eu não estou indo para a minha casa.
— E para onde vai? Se você não se importar em me responder...
— Se continuar a me seguir você irá descobrir.
— Eu não estou te seguindo! – Ele parecia levemente incomodado.
Os dois chegaram na loja de departamentos principal da cidade que ficava aberto vinte e quatro horas. Lá simplesmente vendia de tudo, de roupas até alguns materiais de construção.
Os amigos adentram naquela loja imensa, e antes de Daisy ir no departamento que queria, virou-se para Abner e lhe perguntou serena:
— Eu estou precisando de uma câmera, você conhece alguma boa?
— Ah, hoje em dia todo mundo usa o celular para tirar fotos, mas tem umas câmeras de uma marca aí que são boas.
— Não... Eu não quero tirar fotos. Eu quero filmar.
— Credo... Quem que filma coisas hoje em dia? – Fez uma pausa e pensou um pouco – Acho que Canon é boa.
Daisy revirou os olhos.
— Acho que você não tá entendendo o espírito da coisa. Eu não quero uma câmera comum. Eu quero tipo uma câmera espiã, ou uma de segurança.
"Câmera espiã? Segurança? O que essa menina tem na cabeça?", Abner pensava incrédulo.
— Ah! Você vai botar na frente da sua casa. Mas não faz sentido... Seu bairro é o mais calmo da cidade, nunca tem nada de ruim acontecendo por lá.
Daisy olhou-o outra vez. Apenas conseguia pensar em quão "inocente" ele era enquanto o olhava. Ela não queria uma câmera para se divertir. Não mesmo. Ela queria a câmera para mostrar para sua madrasta o que acontece quando alguém não a ouve.
"Eu avisei para ele não pisar mais o pé na minha casa...".
Ela suspirou fortemente.
— Eu vou fazer coisas ruins com essa câmera – ela desviou o olhar quando começou a falar. Não conseguia encara-lo enquanto dizia tais coisas. Estava mais que envergonhada –, coisas erradas...
Ficou encarando o chão por um momento e quando finalmente teve coragem de olha-lo nos olhos, Abner estava esboçando um sorriso, mas não aquele sorriso alegre que Daisy estava acostumada a ver, mas sim um sorriso maléfico, como se ele estivesse disposto a ajudá-la.
— Quer fazer coisas ilegais? Eu curto isso.
• • •
Daisy estava dentro de casa segurando a câmera que Abner lhe ajudou a comprar mais cedo em suas mãos. Era uma câmera sem fio preta e pequena, e a certa distância poderia ser quase imperceptível.
Estava em frente ao quarto do seu pai, onde sua madrasta costumava dormir, parada, sem conseguir entrar. Ficou dessa forma por alguns minutos.
Deu um suspiro forte e finalmente abriu a porta. Como imaginava, não havia ninguém dentro. Olhou rapidamente para as paredes, para ver qual canto daria uma visão melhor para a cama.
"Eu não deveria estar fazendo isso... Deveria?".
Ela relutou por um momento. Pensou em desistir, mas o fato de ter gasto mais de vinte reais naquela câmera a fez mudar de ideia.
Simplesmente colou aquela pequena câmera em uma parede qualquer, saiu correndo do quarto de seu pai e se trancou em seu próprio quarto que ficava logo em frente.
Deitou-se na cama, ainda ofegante. Ela não estava feliz e nem orgulhosa pelo que decidiu fazer, talvez fosse a adrenalina que não a permitiu sentir nada em especial. Jamais havia imaginado que teria coragem de fazer tal coisa.
Seu celular tocou, e ela viu que se tratava apenas de uma mensagem de Abner. Ela tremia enquanto segurava o celular em cima de seu rosto para ler a mensagem.
"Dps me conta oq aconteceu ;)", dizia a mensagem.
• • •
Abner andou um número considerável de quadras até chegar ao apartamento onde morava. Era um prédio pequeno de três andares que ficava em um dos bairros mais suburbanos da cidade. Geralmente quem morava por lá eram apenas universitários quebrados que precisam de um lugar para ficar.
Assim que adentrou em seu apartamento, ouviu um barulho estridente, que já havia ouvido em algum momento da sua vida. Não foi muito alto, mas o fato de lhe ser familiar o fez tremer.
Correu para o quarto que ficava em frente ao seu e abriu a porta com força.
— Que barulho foi esse?! – Perguntou quase em desespero.
Dentro do quarto havia três rapazes, todos tinham uma aparência daquelas pessoas comumente chamadas de "nerds", e estavam jogando um FPS* qualquer, um em cada notebook diferente.
Eles olhavam-no confusos.
— Aconteceu alguma coisa, Abner? – Perguntou o rapaz mais "normal", Pedro.
— Ah, não... Vocês estão jogando de novo... – Abner disse aliviado – Quem está com o revólver?
— Eu! – Disse Jonas levantando a mão – É uma punição por ter matado o Leo...
— Não deveria nem ficar com uma faca, na verdade... – complementou Leonardo.
— Olha, eu não quero saber dessas conversas sobre jogos de vocês – Abner cortou cansado. – Vou pro meu quarto...
Assim que entrou no quarto, Abner fechou a porta e a trancou. Apoiou suas costas na porta e foi aos poucos deslizando até sentar no chão. Ele estava com dificuldades para respirar e seu coração estava acelerado.
"Aquele som parecia... Tão... Real...".
• • ABNER, O RAPAZ COM O PASSADO A SER ESQUECIDO • •
Abner Castillo, 21 anos. Moderadamente bronzeado de cabelos castanhos e bagunçados, tem olhos vivos na cor âmbar que penetram nas almas das pessoas. É muito brincalhão, mas não sabe medir as palavras. Cursa o 3º ano de Gastronomia (só porque conseguiu uma bolsa de estudos) e simplesmente não sabe o que quer da vida, além de poder ficar empaz e encontrar o amor de sua vida.
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