True Colors
3 Promessas de papel e coração de gelo
Notas iniciais
Kagome soluçava sozinha sob a copa de uma grande árvore seca e congelada. Chorava não apenas por si mesma, mas por saber o que aconteceria no futuro do jovem casal com ar melancólico. O destino que lhe esperava era triste e cruel. Numa ironia do destino, Inu no Taisho morreria muito antes de Izayoi se quer começar a envelhecer. Era tão injusto! Sonho ou não, Kagome queria se levantar e contar tudo para eles. Alerta-los das armadilhas tanto do lado dos yokais quando do vilarejo da Izayoi. Assim pai e filho teriam a chance de se conhecer não por apenas alguns instantes. Como Kagome desejava ser capaz por um instante de voltar ainda mais no passado, e poder mudar o rumo daquela história. Inuyasha teria o pai e a mãe ao seu lado, pelo menos por mais alguns anos. Quem sabe se Inu no Taisho vivesse, terminaria de vez com a rixa entre os dois irmãos, fazendo com que Sesshoumaru e Inuyasha convivessem como uma família. Diminuindo o estigma de nascido como hanyou, não haveria mais tanto sofrimento no passado de Inuyasha. Não haveria tanta solidão.
—Está se preocupando demais.
A voz de Izayoi era tão clara que Kagome levantou o rosto em sua direção. Parecia que a jovem princesa falara com ela. Mas Izayoi só tinha olhos para Inu No Taisho.
—Quem disse que eu não posso viver bem mais que o senhor? Sou bem teimosa, sabia? Posso vencer a morte pelo cansaço. Ou quem sabe até lá não inventam uma poção ressuscitadora ou algo assim.
Izayoi sorriu brincalhona, mas Kagome se arrepiou ao perceber o quanto aquelas palavras eram na verdade, proféticas.
—Não entendo qual é a graça. — Mesmo observando de longe, Kagome reconhecera a expressão confusa do general. Talvez porque ela semelhava-se a dela mesma.
—E eu não entendo porque tão sério, senhor Taisho.- Izayoi respondeu enquanto enrolava um dos pergaminhos. Seu rosto estava sereno, apenas ligeiramente corado pela risada e pelo frio. — O amanhã é imprevisível, tanto para humanos quanto para yokais. A única coisa concreta que temos é o presente. Por isso é importante registar o que é importante para nós.
Ela sorriu apontando para o amontoado de papéis à sua frente. Só então Kagome reparara que eles não estavam sentados diretamente sobre a neve e sim sobre uma longa manta vermelha.
— E eu gostaria de deixar registrado que os humanos também vivem bastante. Especialmente se forem persistentes como eu. -Izayoi falou virando o rosto para o general, sem se importar que com o movimento, seu véu escorregava lentamente pelo seu longo cabelo negro.
Alguma coisa brilhou nos olhos do daiyokai. Seria aquilo… esperança?
Sem desviar o olhar da jovem a sua frente, ele segurou o tecido que escapava de sua cabeça, demorando muito mais do que deveria para colocá-lo novamente rente a sua testa.
—Me prometa. — Sua voz saíra baixa e rouca, porém nem por isso menos imperiosa.
— O que?
—Me prometa que vai viver muito. Que vai resistir a muitos anos, mais que a média dos homens. Me prometa isso, Izayoi.
Havia desespero em cada sílaba, um medo real impresso em cada palavra.
Sem cerimônia, o general segurou o rosto da jovem entre suas mãos, um gesto ao mesmo firme e delicado para manter seu olhos presos no dele.
Não era necessário, pois Izayoi nem mesmo ousara piscar naquele momento.
Um delicado movimento afirmativo com a cabeça era tudo que conseguira fazer.
Claramente mais aliviado, Inu No Taisho deixou suas mãos descerem do rosto da jovem com um discreto sorriso no rosto. Pegando uma das poucas folhas em branco do chão, ele entregou para Izayoi.
—Escreva isso. — E quando a jovem franziu as sobrancelhas, ele completou balançando os ombros.- Não devemos registar o que é importante?
Izayoi riu com vontade, sua risada ecoou como sinos de vento pelo ar por alguns instantes antes de obedientemente ela pegar o papel de suas mãos. E enquanto escrevia com traços rápidos e precisos ela recitava em voz alta uma promessa ligeiramente diferente registrada em nanquim
—” Hime Fujiwara Izayoi, descendente de Lorde Takahashi Fujiwara, se compromete a viver por muitos anos, muito mais até que o honorável Lorde das Terras Altas do Oeste, o general Inu Daiyokai…”
—Touga. -Izayou parou de escrever por um instante, e o yokai explicou. -Taisho é um título, meu nome é Touga.
Ela sorriu abertamente enquanto soletrava seu nome e Kagome se surpreendeu sorrindo também.
Era um contrato inválido, uma promessa impossível de ser cumprida. Mas alguma coisa na postura otimista e despreocupada de Izayoi lhe dava esperanças.
Uma esperança sem nome e sem forma, frágil como aquele papel nas mãos da jovem princesa.
Uma nevasca encheu o local, obscurecendo a visão de Kagome. Era como se todas as estrelas se apagassem de uma só vez, e o vento alto e forte chiava em seus ouvidos.
Ela precisou piscar várias vezes até que seus olhos se acostumassem com súbita mudança de cenário. Mal conseguia enxergar além de seus joelhos dobrados no chão, mas, por alguma estranha razão, era capaz de ver perfeitamente as duas pessoas em pé a sua frente.
Estavam de ambos de pé, um pouco mais perto de Kagome do que estiveram antes. O Jūnihitoe da jovem tinha pelo menos mais umas 3 ou quatro camadas e seu véu desaparecera. No entanto nada disso importava quando Izayoi tremia violentamente, abraçada a Touga como se sua vida dependesse disso. O yokai parecia sustentar todo seu peso com o braço esquerdo, enquanto carinhosamente alisava seus cabelos com a mão direita.
— Por favor, me leva contigo. — Izayoi implorava entre soluços, Mas o general nada respondia. -Eu não quero… Eu não posso me casar com ele! Por favor, Touga…
—Seu lugar é com os humanos e…
—Meu lugar é ao teu lado!- A jovem ergueu o rosto encarando o daiyokai diretamente nos olhos.- Eu te amo, Touga.
As palavras saiam da boca da princesa como a correnteza de um rio há muito reprisado. Incontroláveis e avassaladoras.
—Pouco importa quem eu sou ou o que o senhor é! Não me interessa se é errado, se é pecado ou não. Eu abandono tudo: minha família, minha terra, minha humanidade até minha sanidade! Eu te amo, Touga. E jamais vou ser capaz de estar com qualquer um que não seja contigo!
Kagome encarara aquela cena literalmente de boca aberta, espantada demais com a coragem da declaração de Izayoi para se questionar como tudo mudara tão rápido. Parecia que havia passado pelo menos semanas desde que escreveram aquela promessa no papel. O vento e a neve no chão indicavam que ainda era inverno, mas apenas isso não indicava nada. Poderiam ter passado meses, anos...
De um jeito ou de outro eles estavam, física e psiquicamente muito mais próximos que antes. Pois, em vez de se surpreender com as palavras da jovem princesa, Touga apenas fechou os olhos por um instante. Como se já tivessem falado sobre isso muitas vezes antes. Não precisava ser um profeta para adivinhar sua resposta negativa quando ele tornou a abri-los.
Mas por que, Kagome se perguntava. Por qual razão Touga se negava a aceitar Izayoi se seus sentimentos estava ali, claros como água, enquanto ele secava carinhosamente as lágrimas em seu rosto com a ponta dos dedos. Foi Quando Kagome se lembrou da história que Myoga contara horas antes. “As relações entre Yokais não tem o mesmo peso que as relações humanas”. O yokai pulga deu a entender que Touga e Satori, pais de Sesshormaru tinham se casado por conveniência. Dois yokais puros se unindo tanto politicamente fortalecendo o clã quando matrimonialmente e gerar herdeiros fortes. Nada mais natural para ele que Izayoi fizesse o mesmo dentro da própria espécie.
Então porque os olhos do daiyokai pareciam estar tão... tristes?” Refletia a sacerdotisa.
Uma voz masculina gritou ao longe o nome da princesa quebrando a melancolia do momento. Izayoi fechou os olhos com força, numa tentativa quase cômica de ignorar o som e adiar a inevitável despedida.
—Izayoi.
A jovem encarou o general que a chamava tão suavemente, afastando o rosto de seu ombro apenas o suficiente para que pudesse encará-lo diretamente nos olhos. Havia tanta ternura neles, que mesmo de longe Kagome conseguia ver. Por um instante teve que parar e secar as próprias lágrimas teimosas com as costas da mão, quase perdendo um momento precioso:
Sob a luz avermelhada do por do sol e ignorando a evidente aproximação dos outros humanos, Touga tomou os lábios de Izayoi nos seus.
Kagome teve que sufocar um gritinho. Era um beijo até que casto comparado aos padrões modernos, só que era cheio de significado. E assim, dramático como final de um dorama coreano, ele simplesmente desapareceu. Sem promessas nem despedidas. Em seguida, quando viu Izayoi ajoelhar no chão sem cerimonia e chorar copiosamente com as mãos no rosto, teve de sufocar outro gritinho. Dessa vez para impedir a si mesma de chamar o sogrão de “cahorrão cretino e com uma pedra de gelo no lugar do coração”.
Chegou a procurar em volta por alguma sobra que fosse do yokai. Estava tão irada que não percebeu que não poderia ser vista ou ouvida e mesmo se pudesse não poderia fazer nada para convencê-lo do contrário. Por um instante desejou poder ceder o rosário de Inuyasha para a jovem sogrinha. Nem que fosse apenas por um dia e apenas naquele estranho mundo do sonho. Talvez depois de uma boa centena de “osuwaris”, o patriarca do clã dos Inus aprenderia a respeitar os sentimentos das mulheres. E, talvez, quem sabe ensinaria a dolorida lição aos seus filhos igualmente insensíveis.
Distraída com suas próprias conjecturas Kagome não percebeu que amanheceu.
Sim, o sol que estava se pondo minutos atrás, brilhava alto no sol como se fosse pleno verão. Kagome chegou a esfregar os olhos com força. Ali estava a mesma clareira com todo o resplendor com som de cigarras e passarinhos cantando em deboche para a jovem confusa.
Dando de ombros, a garota moderna apenas se jogou na grama. O aparente calor lhe incomodava tanto quanto a neve lhe tivera. Nem mesmo uma gota se suor descia por sua testa apesar do sol brilhar alto no céu indicando que se aproximava do meio dia. O que lhe incomodava de fato, era por estar pela primeira vez sozinha ali. Ainda sentada na relva, Kagome procurou em sua volta pela presença da princesa, sem sucesso.
Imagina qual foi sua surpresa ao ver surgindo uma grande procissão entrando na clareira. Instrumentistas marchavam tocando suas flautas e não precisou de mais do que meio segundo para Kagome perceber que se tratava de uma cerimônia de casamento. Presenciara poucos eventos assim no templo da sua família, mas nenhum deles no mundo moderno levava a noiva em cima de uma suntuosa carruagem carregada por oito homens. Deveria ter pelo menos uns 30 homens, entre sacerdotes, guardas e músicos.
Rapidamente a jovem se levantou para sair do caminho, ficando quase colada a margem do lago. Na ponta dos pés, tentava espiar quem estava escondida por trás das cortinas. Não precisou se esforçar muito pois no mesmo instante um terremoto atingiu o local, fazendo os guardas quase derrubarem a estrutura pesada que carregavam.
Kagome permaneceu em pé sem dificuldades. Definitivamente nenhum fenômeno da natureza parecia afeta-la naquele longo sonho. A noiva inclinou-se para fora, com apenas uma linha de preocupação formada em sua testa. Ela estava ainda mais bonita, seu absurdamente longo cabelo preso em um penteado elaborado no alto da cabeça. Seus olhos passaram por Kagome por um instante antes de abrir um discreto sorriso. Seria direcionado a ela, pensou a jovem moderna, ou a jovem princesa apenas achava toda aquela situação tensa engraçada?
Antes que pudesse por sua tese a prova, o terremoto voltou ainda mais terrível. Todos foram ao chão, incluindo ainda alguns dos guardas que não conseguiram se esquivar e tiverem seus ombros esmagados pela alça de madeira. Pudera, o terremoto tão forte como se a própria Terra se partisse em dois. O medo assombrava o rosto até do mais experiente dos soldados. Kagome virou para olhar e o viu.
Grande e assustador em sua forma verdadeira de inu daiyokai, pousando no meio do lago como se fosse uma mísera poça de água. De onde ele tinha vindo, a garota não fazia a menor ideia mas podia apostar todo o dinheiro que deixara na caderneta de poupança na Tóquio moderna que sabia o motivo que ele estava ali. E o “motivo” pulara na grama sem pensar duas vezes e o encarava com o maior sorriso do mundo.
—Nem disfarça, né sogrinha! — Kagome riu para si mesma.
Totalmente alheio ao clima de “romance”, um dos “guardas” puxou Izayoi para trás de si. Com uma espada em punho, o que parecia ser um jovem general encarava o yokai com uma coragem inspiradora. Em seguida, os que não tinham se ferido estavam todos armados. Flechas, espadas e lanças todas ridiculamente pequenas, apontadas para Touga.
—Takemaru, não!- Izayou gritou.
O general olhou para trás confuso, estava prestes a gritar a ordem para que os guardas atacassem. Morreriam com honra depois de ter feito de tudo para salvar a princesa, sua postura não deixava nenhuma dúvida quanto à sua lealdade. Mas Izayoi apenas balançou a cabeça.
—Ele não vai atacar nenhum de vocês. É apenas a mim que ele quer.
—Hime-sama!- os soldados exclamaram em coro ao ver a princesa se desvencilhar do general e caminhar até o lago. Mas sua atenção estava totalmente voltada ao daiyokai que permanecia completamente imóvel.
Seria muito fácil apenas sequestrar a princesa dali. No entanto Touga parecia deixar que a escolha fosse de Izayoi. Aparecendo em sua forma original mais do que uma maneira de intimidar os humanos, era para mostrar para a jovem princesa o que ele era de verdade. Kagome conseguia ler claramente a conversa silenciosa que acontecia com o casal a sua frente. Izayoi avançava a passos lentos e decididos para dentro do lago. Seu sorriso cada vez mais largo ao ver a água subir por suas pernas, molhando todas as camadas de sua elaborada roupa. Alguns soldados gritavam ao fundo, incapazes de seguir a jovem senhorita. Outros cochichavam entre si que ela havia sido enfeitiçada, o coração roubado por um “bakemono” perverso. O sacerdote tremia ao balbuciar o que parecia ser um mantra de proteção.
O único que permanecia em silêncio era o general Takemaru. Olhava para Izayou que gargalhava abertamente ao ver que a água já chegara a sua cintura. Todo seu rosto brilhava exposto ao sol. Aquela alegria genuína era o total oposto de uma donzela enfeitiçada.
“Aquela era a expressão de uma mulher apaixonada”, Kagome suspirou.
Olhando por um instante para o general, a sacerdotisa percebera que ele tremia de raiva. Seria porque não havia nada que ele pudesse fazer ao ter sua senhorita sequestrada a sua frente? Ou algum outro sentimento oculto o fazia cerrar os dentes com tanta força.
Kagome se virou novamente para frente. Aquela era a história de Touga e Izayoi, um momento importante que não poderia deixar de apreciar em sua totalidade.
A jovem princesa alcançou a pata dianteira do grande yokai que só então abaixara a cabeça. Seus olhos nunca desviaram do grupo de humanos a sua frente. Kagome sabia que ele fizera isso para que Izayoi montasse em suas costas, porém olhando da margem do lago parecia que ele fazia uma mesura. Estaria ele agradecendo por terem cuidado de Izayoi? Ou se desculpando por levar embora sua preciosa princesa?
Ou ele nem sabia o que se curvar significa para os humanos, pensou a sacerdotisa com um suspiro. E se o jeito obtuso que seu namorado tinha pudesse servir de referência, essa era a mais provável opção.
Com certa dificuldade graças a altura do yokai e suas roupas ainda mais pesadas por estarem molhadas Izayoi conseguiu subir em suas costas. Pareceu se surpreender com alguma coisa, depois começou a rir. Pelo jeito que espalmou a mão provavelmente era Myoga que estava com eles, e sem dúvidas tinha falado algo inconveniente como sempre.
Então eles partiram. Sem pedidos de desculpas ou despedidas, Touga dobrou enormes patas e saltou. Enquanto os humanos se agachavam com medo de serem esmagados, ele apenas passou voando acima deles indo cada vez mais alto até desaparecerem no céu.
Kagome deu pulinhos de alegria. Eles finalmente estavam juntos, pensara. Enfrentariam tudo e todos e viveriam felizes para sempre como nos contos de fada. Mas logo o vento levou o seu sorriso. A garota sabia muito pouco sobre a histórias dos sogros, pequenos fragmentos de lembranças roubadas daqui e dali. Mas como uma viajante do tempo ela tinha certeza:
Aqueles dois nunca tiveram um final feliz.
Ou seja, aquela pequena amostra de felicidade era um presságio de que algo muito ruim está por vir.
Inevitável como as nuvens carregadas de chuva que escureciam o céu daquela antes bela manhã de verão.
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