Trowshers - Barreiras Da Mente
1 Prólogo - A morte beija minha testa
Notas iniciais
A morte beija minha testa
E esse foi o pior cinza de todos os tempos. Não igual aos outros cinzas. Nesse cinza eu realmente via desespero. E veja, eu, em todos os meus dezoito anos já vividos, já presenciara muitos cinzas. Jeff frente a um pitbull, Lunna tirando habilitação... Que droga. Eu não queria morrer. Não ali, depois de ter escapado do circo de horrores que aquele país se tornara. Preto, vermelho, vinho, cinza... A aquarela fúnebre que é a guerra.
– Merda merda merda merda merda merda... — Jeff tagarelava ao meu lado, mas eu ainda fitava os olhos de fogo de Kayra.
Aqueles olhos castanho-avermelhados... Nunca a vira com tanto medo. Ela chorava. Chorava como uma criança que acaba de ver um monstro muito feio, mas não quer demonstrar fraqueza.
Não havia reparado antes, mas eu também estava chorando.
Talvez seja um grave defeito meu, mas em situações perigosas, onde normalmente o que se faz é gritar, minha voz resolve dar um passeio, e de mim não se ouve nada.
O avião fez uma curva descontrolada, como uma montanha russa no seu melhor momento. Certo, aquilo não era legal como uma montanha russa, e me dei conta de que talvez nunca mais fosse andar em uma.
Meu cinto me manteve grudado ao meu assento azul, dando o maior puxão que eu já levei na cintura. Estava ficando sem ar, e xingaria a mim mesmo, por estar ignorando a máscara transparente que dançava na minha frente, louca para me dar oxigênio, e evitar que eu morresse mais rápido ainda.
A relativa escuridão era interrompida esporadicamente por tentativas frustradas de acender das luzes, que logo entravam em curto. As malas sacudiam em cima das nossas cabeças, como um chocalho gigante, quebrando o que quer de importante que houvesse dentro delas. Era como um filme de terror. As pessoas ali xingavam em todos os idiomas, e perdiam a compostura se entregando ao desespero. Estávamos na primeira classe, mas de primeira classe, aquele passeio não tinha nada.
Não, não somos ricos. Mas aquilo era o apocalipse, e pouco importava em que classe as pessoas entrariam na droga do avião. Jeff, Kayra e eu acabamos nos separando dos outros, e parando no pior lugar para se estar: o fundo.
O pior.
O desespero veio de lá.
Uma onda de ar e eletricidade, eu acho. Veio tomando o avião de uma ponta à outra. A sensação que aquilo trouxera foi horrível. Como se labaredas de fogo invisível tivessem tomado cada célula do meu corpo.
Com o impacto daquilo, minha testa foi de encontro ao banco da frente. Fiquei tonto, e todos os meus sentidos diminuíram. A cabeça girava, e os sons que meu cérebro processava não eram mais que murmúrios desagradáveis. Levei minha mão ao nariz, e pude identificar o vermelho de meu sangue. Pareceu-me muito mais vermelho naquela ocasião. Nunca tive tanto medo em ver meu próprio sangue. Minha situação não era muito diferente da situação dos outros passageiros, pelo que pude ver. Recuperávamos aos poucos a consciência para viver o desespero de um avião em pane, prestes a cair no meio de uma cidade.
Tudo bem, eu sabia que iria acontecer uma hora ou outra. Mas por que justo naquele dia, e naquela hora? No fundo queria descartar aquela hipótese, mas quando ouvi o estrondo bem fundo e abafado, não tive dúvidas.
Bomba atômica.
A primeira a atingir os Estados Unidos da América, e a caneta que assinou nossa morte.
Fale com o autor