Trowshers - Barreiras Da Mente
3 Fico sem TV
Notas iniciais
Desculpem a demora, pessoal, mas está aí. Espero que gostem
~Queria de verdade que mais pessoas lessem pelo menos o prólogo da história, para talvez dar uma chance a ela. Aqui é um mar de histórias, então fica difícil. Mas tenhamos fé... Comentem, pelo Supremo Sr kaiô, isso ajuda, e assim saberei que você leu. Hehe :P
Fico sem TV
Ter minha audição novamente não tornou meus dias menos monótonos no início. Foi extraordinário tê-la outra vez, mas logo as coisas voltaram a tornar-se desinteressantes.
Nos primeiros dias trabalhei ao máximo minha imaginação. Os sons me levavam a visualizar coisas as quais não via há tempos, mas que estavam armazenadas em algum lugar da minha mente. Imaginava as texturas, os formatos, e até mesmo os cheiros. Aos poucos se tornou algo automático, mas ainda sim assustador. Sim, pois tinha medo de aos poucos perder as referências do mundo real, o que poderia me trazer problemas se um dia eu acordasse.
Nas primeiras semanas, não havia movimento algum. Apenas o vento que entrava por entre a janela, trazendo o som distante da movimentação lá fora. Ao menos próximo de onde eu estava, nada acontecia. Talvez fosse um leito. Outra opção me veio à cabeça depois de uma mulher ter comentado com minha mãe sobre a vinda de cientistas. Talvez eu fosse realmente perigoso, e estivesse em um lugar isolado de tudo. Mil e dois motivos possíveis se passaram pela minha cabeça.
Minha mãe visitava-me duas vezes por semana. Aqueles eram os melhores dias. Ela nunca podia ficar muito tempo, mas todas as vezes que vinha, conversava comigo, mesmo não tendo resposta alguma da minha parte. Aquilo me dava forças para aguentar tudo aquilo.
Minha mãe deveria ler meus pensamentos, pois na segunda semana, eu ouvi algo que definitivamente me alegrou. Era a voz da garota do tempo do canal de notícias. Uma televisão. Era exatamente o que eu precisava para saber da situação do mundo.
– Meu filho, eu não tenho certeza se você pode ouvir, ou ver isso, mas tenho certeza de irá gostar. — ela disse.
Aquilo me fez imaginar se eu estava de olhos abertos. Se estava amarrado, ou preso. Era impossível ter alguma certeza. Eu era perigoso, assim como meus amigos. Pensei se conseguia me mover inconscientemente, ou havia me transformado em algum tipo de monstro.
Ao menos a televisão me pouparia de imaginar bobagens. Quando saísse dali, precisaria agradecer minha mãe.
Tudo bem, que parte da programação era inútil, mas como última emissora restante no país, prestavam-se a cobrir ao máximo a terceira guerra mundial.
As reportagens eram repletas de tragédias, mortes, ameaças de país contra país, e resultados de ataques. Nada que eu já não presenciara. Sério. O que mais me preocupava era o que eu não ouvia nos noticiários. E se não ouvia, era um sinal pior ainda. Os Estados Unidos nunca ficariam quietos depois de um ataque nuclear. E se não haviam dado nenhum sinal de contra-ataque, isso significava que quando o fizessem seria o pior de todos.
Também não ouvia nada a respeito de nós, sobreviventes do voo quinhentos e noventa. Tudo bem, nossa tragédia não era muita coisa perto do resto, mas todo o mistério em volta disso era angustiante.
No mais, era muito divertido assistir as idiotices do programa de auditório "Corra com o Gordo", último sucesso brasileiro. Um bando de atores conversando sobre coisas banais enquanto corriam em esteiras para um apresentador gorducho ver. Caíam quando se desconcentravam, ou quando o apresentador apertava o "botão de velocidade insana" na esteira. Sempre que eles não se desconcentravam, claro, ele apertava. Aquele programa dizia algo do tipo "o mundo lá fora tá acabando, mas, quer saber, dane-se". Era engraçado ouvir aquilo, ao menos.
Foi então que em um belo dia, eu finalmente ouvi vozes que me pareceram diferentes. Outros idiomas. Outras posturas.
Havia "acordado" — se é que se pode chamar aquilo de acordar — com o barulho da porta, e em seguida ouvi vários passos dentro do lugar. A televisão foi desligada. Tive medo.
– ¿Cuál es el estado de este? — perguntou uma voz rouca masculina.
– É um dos três encubados, senhor. — respondeu a voz suave, que reconheci como a da enfermeira que aparecia hora ou outra ali.
– Es uno de los tres que fueron colocados en incubadoras especiales, dijo, señor. — traduziu outra voz feminina.
– Si... — respondeu ele. — Puedo ver... Sin embargo, los métodos que hacen que la estación más aislamiento no es muy eficaz.
– Ele disse que os métodos que fazem o isolamento parecem não estar mais tão eficazes. — a mulher traduziu novamente.
– Sim, e isso é o mais estranho. E perigoso. Assim como os outros dois, este apresenta um nível muito alto de radiação vindo do cérebro.
Uma voz diferente murmurou algo em inglês.
– O nível de radiação pode estar aumentando, ele disse. — falou a tradutora.
Seguiram-se alguns segundos sem que ninguém falasse. Eu ouvi o som do pano das roupas, dos passos, de papeis. Ouvi cutucadas em algo que me pareceu vidro, bem próximo a mim. Mas esse foi um som diferente. Muito mais alto que os que ouvia até então. Ou os outros eram muito baixos e eu não havia notado.
– O que acha, doutor? — perguntou uma voz masculina.
A tradutora reproduziu em inglês. Uma voz grave, que até então eu não havia ouvido murmurou algo, e ela novamente disse:
– Ele disse que não tem ideia, mas que precisa observá-los.
– Pois, bem, temos todo tipo de ressonância magnética em nossos arquivos, e mais estudos. — disse o homem que falara antes. — O doutor pode dar início ao seu trabalho.
Logo depois a tradutora murmurou palavras em inglês, e eu ouvi vários passos. Não sabia exatamente quantas pessoas havia dentro do lugar. A televisão foi ligada novamente, e depois de mais passos, a porta foi fechada. Restou apenas o som da cobertura da guerra em Pequim.
...
Naquele mesmo dia, ouvi o que temia.
–... Vejam que é impressionante. — berrou uma voz conturbada, atrapalhada pelo barulho de hélices de um helicóptero, na TV. — É uma visão impressionante a que temos aqui. Estamos a centenas de quilômetros do local atingido, mas ainda podemos ver o cogumelo gigante que toma o céu da Rússia. — sua voz foi interrompida por algo que me pareceu um solavanco. — Esse foi o terceiro ataque à esse país em menos de meia hora. Nossa produção está totalmente em pânico, e talvez essa seja nossa última transmissão. — foi interrompido novamente. — Deus tenha piedade de nós. Eu sou Ítalo Ferreira, direto do Plantão G3 news.
A transmissão foi cortada com um chiado, e logo depois o homem que apresentava o plantão retomou a fala:
– Povo brasileiro... O que nós estamos vivendo é a pior demonstração do pior lado de nós humanos. Já são exatamente sete cidades completamente varridas da terra. As áreas atingidas pela radiação já tem uma absurda extensão, e crescem a cada segundo. São milhões de mortos, e esse número só cresce.
Ele pausou a fala, e eu ouvi o som de papeis. Logo depois ele continuou:
– O que vocês acabaram de ver foi a reação dos Estados Unidos contra a aliança RAGE. E podem esperar por um massacre, foi o pronunciamento do presidente norte-americano. A essa altura, as ofertas de paz tornam-se inegociáveis.
– Temos então uma nova onda de bombas atômicas. — disse uma voz feminina. — Não sabemos onde isso vai parar, mas já temos oitenta por cento dos países envolvidos ativamente na guerra.
– A situação do Brasil, assim como a dos outros países limpos não é tão boa. — disse o homem. — A crise em diversos setores tem levado à resultados desastrosos para a economia do país. Algumas rebeliões estouraram, e foram severamente condenadas pelo governo federal. Pedimos também à população que se contenha. A situação do mundo é crítica, e se quisermos manter a ordem no país, temos de agir com ordem.
– Vamos agora ao vivo do palácio do planalto, para um pronunciamento extraordinário do nosso presidente Charles. — disse a mulher. — Cristiane Lorenzo, o que se passa no palácio do planalto?
Ouvi o som do ambiente mudar. Vários murmúrios consecutivos, e conversas paralelas. Muitos cliques de câmera e alguns ruídos de microfonia.
– Boa tarde Sandra, o presidente convocou uma reunião extraordinária agora a pouco com membros do plenário, senadores, e todos os políticos que estavam por aqui. — disse uma voz feminina um tanto grave. — O que se sabe até o momento, é que será anunciada a criação de um plano de evacuação da espécie humana, para o Brasil e os demais países limpos. O plano inicialmente ganhou o nome de Toca. O presidente vai começar a falar agora. Vamos ouvir.
Depois de uma pequena microfonia e algumas batidinhas, ouvi uma voz da qual tinha muita saudade. A voz do meu pai:
– Boa tarde, brasileiros e brasileiras. Serei direto. O que venho anunciar aqui à vocês será um plano para salvação da espécie humana.
Ouvi vários murmúrios consecutivos, mas então meu pai pigarreou e eles cessaram. Ele continuou:
– Não estou dizendo que todos nós seremos destruídos. Não! Lutaremos até o fim para manter a paz, e distância dessa guerra. Temos inúmeros problemas e crises ocorrendo? Temos. Mas podemos vencê-los, e prosseguir vivendo. O que eu proponho é uma espécie de plano B...
O que eu ouvi no restante do dia não foi bom. O mundo estava sendo destruído, e isso resumia tudo. Mais tarde, comentaram também sobre nós em uma breve reportagem. O estranho caso de doze jovens sobreviventes da queda de um avião na zona de transição entre os EUA e o México. Não mencionaram que eu era filho do presidente. Talvez por pedido do meu pai.
Falaram brevemente que de alguma forma nós não morremos pela radiação da bomba, e mais, que nossos cérebros agora emitiam de forma inexplicável radiação. Mencionaram também o famoso cientista que estudava nosso caso. Willian Trownsh, que fugira da Nova Zelândia após uma investida da RAGE, em repressão ao apoio do país aos EUA e aliados. Os mais ousados chegava a afirmar que aquele era o maior cientista da década. Eu mesmo já ouvira falar dele uma ou duas vezes.
Eu não sei bem se aquilo deveria me deixar esperançoso, mas dessa vez não deixou. Sentia falta de me sentir vivo. Não sentia minha respiração, meus batimentos cardíacos... Nada. Estava me perdendo. Meu mundo era um grande poço de breu de onde só podia ouvir o que havia fora dele, sem poder fazer nada.
Sentia-me impotente.
Acostumei-me a não ter corpo. Era apenas minha mente, flutuando no vazio, e isso não iria mais mudar.
Os dias se passaram, e as visitas da minha mãe ficaram definitivamente escassas. Ao invés dela, eu ouvia passos alheios, e instrumentos de todos os tipos, todos os dias ao meu redor. Barulhos metálicos, rígidos, mecânicos. Sentia como se estivesse em um centro de triagem de máquinas. E claro, em um belo dia, não ouvi mais a TV.
Às vezes as pessoas que transitavam ao meu redor de hora em hora murmuravam coisas em outras línguas. Duas vozes masculinas eu reconheci, da vez em que estavam acompanhados pela enfermeira. Naquela altura não poderia nem mesmo afirmar que ela era uma enfermeira.
Eu sabia do que se tratava.
Estavam estudando o que acontecia comigo, e provavelmente com os outros também. Perguntava-me como estariam. Se eles também haviam caído do mesmo limbo em que eu estava. Jeff certamente perderia o pouco de sanidade que ainda lhe restava, caso estivesse no mesmo estado que eu.
Deduzi que talvez aquilo tudo não estivesse levando aqueles cientistas a lugar algum. Depois de algum tempo o movimento ao meu redor diminuiu. Um dos homens que, deduzi eu, manipulava uma máquina, comentou com outro, que entrara na sala com ele, sobre os resultados. Aquela foi a primeira informação que tive em dias. Os dois homens conversavam em inglês, mas eu os entendia. Batizaram o que aconteceu conosco de Síndrome de Trownsh, havia comentado um deles.
– O doutor Willian disse que os níveis agora estão realmente perigosos. — ouvi o homem falar, depois de um robótico som de movimento.
– Cara, eu sinto muito pela ciência, mas amanhã eu não voltarei aqui. — disse o outro, junto do som de papeis.
Ouvi o som suave de teclas sendo pressionadas.
– Não se preocupe, a equipe estará dissolvida ainda nessa semana. – comentou o colega. — O presidente insistiu, mas o doutor Willian acabou convencendo-o de que há apenas duas alternativas.
O outro suspirou — E quais seriam? — perguntou.
– Abandoná-los, ou dissecá-los para estudar mais a fundo o cérebro.
– Wow! — exclamou o outro, pigarreou, e continuou. — Suponho que se descartou a segunda alternativa.
– Sim. — ouvi o som que me pareceu com o de algo grande desligando. — Vou dizer algo aqui a você... — ele tomou um tom mais cauteloso. — Quatro famílias já desligaram as máquinas que mantinham os jovens vivos. Eles foram enterrados e descansam em paz. Nove cientistas e médicos já morreram também por causa da radiação, que penetra mesmo essas roupas que usamos. Acho que isso aqui já foi longe demais. O magnífico senhor presidente Charles Falk foi imprudente. Devíamos buscar um jeito de sobreviver e deixar isso de lado.
Ouvi passos, e mais papeis. Logo depois, o ranger da porta. Mas antes dela fechar completamente ainda pude ouvir a opinião do outro:
– Você está certo, cara, devíamos estudar a cura para esta guerra, ao invés disso...
Levar uma facada talvez tivesse sido menos desconcertante que ouvir aquela conversa.
Queria poder sentir minha garganta, para que nela se formasse um nó. Queria sentir meu coração pesar, e minha barriga a sentir uma onda de frio e medo. Processar sentimentos apenas com a mente definitivamente não era algo agradável. Soube do verdadeiro sentido das nossas reações externas. Nossa mente não é preparada para aguentar o tranco das emoções sozinha.
Achei que iria explodir. Ou dissolver logo de vez minha existência por conta daquela sensação.
Não suportava a ideia de perder quatro de meus amigos. Muito menos se aqueles a quem o homem se referira fossem Kayra ou Jeff. Definitivamente não poderiam ser os dois.
E o que veio depois daquele dia, atingiu-me como um balde de água fria. Simplesmente por que do outro dia em diante, nada mais aconteceu. Depois de uma grande movimentação de coisas ao meu redor, a porta foi fechada, e não mais aberta por longos dias.
Estávamos sendo abandonados. Não sei o que meus pais fizeram para tentar reverter isso, nem a real gravidade do nosso problema, e muito menos se tínhamos alguma chance de voltar a acordar.
Os sobreviventes do voo quinhentos e noventa haviam sido deixados à própria sorte. Era minha única conclusão.
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